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Acho que vou descrevendo o

Acho que vou descrevendo o que vejo nesse momento.
Sentei aqui neste banco de praça depois de estar mais de dezoito horas em frente a um computador, terminando os cálculos para o projeto de uma casa. Estou exatamente em frente ao edifício do escritório e penso que não volto mais lá hoje. São quatro horas da manhã e deveria estar indo para casa mas a quantidade de café consumida não me permite dormir e então resolvi dar um tempo aqui. Porém acho que vou passar o resto de minha vida aqui. O ar está agradável e ruído só mesmo esse do teclado. Um ou outro carro passa, mas é distante e não consigo determinar onde. Uma leve cor laranja começa a manchar o lado leste do céu. Trabalhei como um escravo, sem me preocupar comigo e agora não consigo deixar de pensar. Não consigo, como se vê, me livrar desse computador. Sentado no banco da praça com um computador sobre as pernas e digitando qualquer coisa para efeito de ver o tempo passar. Mas ele não passa. O que passa é o furgão do padeiro. Vai a cem por hora pelas ruazinhas talvez para poder entregar o pão ainda quente. Não entendo de serviços de panificação. Não sei porque corre. Percebo uma cortina que se abre no segundo andar da casa amarelada. Se abre em modo brusco. Agora é a porta que se abre e vejo um homem carregando uma mulher nos ombros. Ela parece que dorme. Ele joga a mulher lá pra baixo e o som que se produz com a queda é algo desagradável. Uma cabeça que bate no chão caindo dessa altura lembra um côco se quebrando. O sol começa a despontar entre os prédios e a brisa fresca é bem agradável. O dia será muito bonito. Vejo que a mulher não está totalmente morta. Seu corpo ainda treme em convulsões. Vejo agora que outras janelas se abrem e um homem vê o corpo na calçada e volta correndo para dentro. Penso em chamar o socorro com meu celular, mas quando me movo para fazê-lo, já começo a ouvir uma sirene. Espero que se aproxime e realmente é a ambulancia do pronto-socorro. O homem da janela não poderia ter ligado. Só pode ter sido o próprio homem que jogou a mulher. Agora mudou tudo. Tudo se transformou em uma grande agitação. Pessoas vão chegando não se sabe bem de onde e vão formando um cordão de gente ao redor do corpo. Entre pernas consigo entrever que estão tentando fazer ressussitá-la. Um senhor se senta a meu lado e me pergunta se sei o que aconteceu. Olho pra ele muito sério e digo com muita má vontade: “não me aborreça por favor”. Ele se levanta e vai pra perto da multidão. Vejo que alguns vestem pijamas e chinelos e comentam o fato da mulher em modo bem animado. O Homem que jogou a mulher está debruçado sobre o corpo e chora como uma criança, bate as mãos no peito. Com o solzinho começando a deitar seus raios, me veio o sono. Uahhhh, que preguiça. Vejo que estão botando a maca com a mulher na ambulância, mas o lençol cobre inclusive o rosto. Ela morreu. Noto que dois homens conversam e olham para mim, um deles chega a me apontar. O mais velho deles se aproxima e se identifica como policial e me pergunta se eu vi algo que possa servir de testemunho. Digo que não vi nada, cheguei há apenas dois minutos e já vou embora. Ele retruca dizendo que lhe disseram que estou sentado aqui já há uma hora ou mais. Digo então que posso jurar pela minha mãe que cheguei há dois minutos. Ele finge aceitar minha afirmação e se vai. Olho para o lado, um passarinho está rondando bem pertinho, que bonito, não pude conter um sorriso. Pouco a pouco as ruas voltam a ficar vazias, as pessoas voltam devagar para suas casas. Um pequeno sinal acústico me avisa que a bateria está se descarregando. Bem, o sono já veio, o computador logo se apaga e eu vou pra casa dormir, afinal ficar aqui nesta praça, neste tédio, vai me enlouquecer.
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