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Quando os sambas começam a

Quando os sambas começam a ecoar em nossa mente é hora de se partir para uma boa e estimulante feijoada. Ainda que em terras distantes, se conseguem resultados surpreendentes com uma feijoada globalizada. Se aqui pelas terras de Dante a tradição é que comanda o espetáculo, com suas regras as vezes rígidas demais, o fazer do prato brasileiro nos confere a leveza e o colorido dos trópicos no que tem de inventivo e variado. Isso porque a feijoada não é uma receita, não é um prato, mas sim uma verdadeira operação de matemática cultural, da qual é uma resultante da soma vetorial das possibilidades e dos desejos. O Brasil é imenso e a feijoada também. Ela é que nos faz acreditar que tudo é possível. Até viver.
Stanislaw Ponte Preta dizia que para a feijoada ser completa, tem que ter até ambulância na porta. Pois olho se meu vizinho Ennio, voluntário da guarda médica já chegou e vejo que lá esta ela. Temos até ambulância de plantão e então vamos à festa.
“Sei que vou morrer, não sei o dia. Levarei saudades da Maria”
Os ingredientes pois então, assim como se dizia, variam. Deus depois de tudo pronto prova que é realmente brasileiro e nos faz deliciar com o mesmo intenso prazer, seja lá qual for a sua composição. Um sujeito que como eu se encontra no norte da Itália, ou melhor nos Alpes italianos, terá que ter uma certa criatividade. E não é que as coisas estão mesmo se encaixando bem?
Na feijoada globalizada daqui de casa o feijão é mexicano, comprado na loja de Roberto e sua mãe. Vai lavado e deixado de molho por algumas poucas horas. O arroz é o Basmati tailandês que é o que se assemelha ao nosso longo fino. Também lavado e escorrido. Até aqui estamos com aquela ligeira sensação de que algo de especial está para acontecer.

“Sei que vou morrer, não sei a hora. Levarei saudades da Aurora”

As carnes. O ponto alto dessa maravilha. Aqui se põe a fantasia a trabalhar. Sim porque não existem duas feijoadas iguais ainda que todas são sempre deliciosas. A feijoada é como uma impressão digital, comum e ao mesmo tempo única. Penso mesmo que ao lado da digital dos documentos deveríamos colar a foto da “nossa” feijoada. Ela é parte de nossa identidade. Pois bem, imbuídos deste espírito, vamos ao açougue e nos servimos das boas lingüiças da região, ou seja, “la lucanica” ou “luganega” em dialeto, “la mortandela” que é produto do vale de Non e ótima como sabor (não confundir com mortadela, sutil e fundamental diferença). Podemos também colocar umas rodelas da típica “calabrese” com sua massa vermelha de tanta pimenta. Outra boa pedida, ou melhor, ótima, é fazer o gesto autocomiserativo de acrescentar um “cotechino di Modena”. Depois uns pedaços de “panceta” não podem faltar, seja da cozida que da defumada. Uns pedaços assim como deus manda de “puntini” ou melhor, costela de porco e por hoje basta. Na próxima fazemos diferente. Coisa boa. Algo que nunca ousei pedir é orelha ou rabo de porco. Não penso que seria algo encontrável, mas isso é um ótimo motivo para uma pesquisa de mercado. Só espero que não pensem que sou louco ou tarado.
”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”

De volta a casa, fazemos ferver um pouco de água e deitamos lá as carnes e lingüiças mais gordas, em modo que soltem um pouco da gordura enquanto fazemos um minuto de silencio em respeito ao nosso caro suíno. O objetivo desta operação não é absolutamente o de “enfraquecer” o prato mas sim torna-lo mais digestivo e conseqüentemente nos propicie uma maior possibilidade de ingestão. Aqui estamos falando de vida e morte e não é à toa. Certos prazeres nos levam a tangenciar os limites da existência e uma feijoada que não vai comida até a impossibilidade física, não vale nem a pena ser feita. Pensando nisso olho pra fora e a ambulância do Ennio ainda está ali. Ótimo. Acendo os fogos e fazemos então a alquimia. Fogo baixo como sempre porque a pressa é inimiga da refeição. Metemos o feijão assim como as carnes escorridas em água limpa e fresca. Pouco sal que isso se corrige quando o feijão estiver cozido. Aqui devemos abrir um comentário sobre a panela. Penso que a de barro ou a de pedra nos presenteiam feijoadas inesquecíveis, sempre atentos é claro com a limpeza e a higiene que são um pouco mais difíceis que com panelas de aço inox que também são muito boas. Alumínio e teflon, nem pensar. Muito menos panela de pressão. Se posso pedir um favor, o faço no sentido de que tenhamos paciência com nosso feijão. Respeitemos os seus tempos. Ele trabalha muito mas muito melhor quando não submetido à pressão. Ninguém dá o melhor de si quando pressionado. Deus me livre ingerir uma feijoada nervosa e estressada, com crises de choro e depressão. Não, não, repito,vamos com calma.
”Mas o meu nome ninguém vai jogar na lama. Diz o dito popular: Morre o homem, fica a fama”
O que fazer então enquanto se espera? Caipirinha vem à mente de modo automático. Nem sonhamos em fazer com algo que não seja limão, açúcar, gelo e cachaça. Outras bebidas podem ser muito boas mas se falamos de caipirinha não temos alternativas, é cachaça e ponto. Aquele primeiro gole desce no estomago vazio e já em minutos o sintonizador do nosso radio cachola já começa a captar ondas de mais altas freqüências.
Inauguramos nesse momento o inicio das obras para a confecção dos complementos. E viva a criatividade. Aqui não existe couve mineira e como se trata de um produto muito especifico, a substituição é difícil ainda que se consigam resultados razoáveis com “coste”, ou mesmo folhas de “broccoli”. Seja qual for, o conselho é talhar bem finamente as folhas e isso se faz agora, antes do segundo copo de caipirinha, porque os dedos nos servirão ainda, todos inteiros. Aproveite e talhe também cebola e alho, para o refogado e para o feijão. Agora mande brasa na caipirinha.
Tenha a mão também laranjas descascadas em rodelas. Uma salada de alface e tomates temperada com gotas de aceto balsâmico e fios de azeite de oliva também não desrespeita a sacralidade do momento. Indispensável é também a farinha de mandioca. Aqui se encontra em lojas de produtos exóticos. Nós brasileiros somos exóticos, botamos até essa areia na comida.
”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”
Chegou o momento de finalizar e dar acabamento à obra. O arroz se faz com o refogado de alho e cebola e aqui não existem segredos a não ser o de deixa-lo também descansar antes do espetáculo final, pois ele também tem o mesmo temperamento do feijão. Faz-se então um frito de cebola e alho e joga-se ali de modo muito interessado, umas duas conchas do feijão. Com um garfo fazemos um ligeiro massacre e transformamos tudo em uma pastinha de feijão que volta à panela principal. Veja como é simples obter assim um belo caldo encorpado sem recuso às abjetas farinhas ou féculas. Sei que esse momento é de grande agitação, mas é bem por isso que vale dar uma parada nem que seja por alguns segundos, olhar para tudo e pensar: como sou sortudo! Agora é comer, comer e comer até quando se conseguir dizer: Ennio!!
”Quero morrer numa batucada de bamba. Na cadência bonita do samba”
No final de tudo, os sambas nos chamaram à memória nosso prato de união. Muita gente pode gostar de feijoada, mas só um brasileiro sabe que isso é alguma das coisas que o faz igual a outros cento e oitenta milhões de seres humanos. A despeito de tudo o que leu e ouviu, das viagens, dos cursos e trabalhos que fez, esse simples prato de feijão e arroz representa um referimento de sua verdadeira cultura.
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