Eu sei, tenho certeza de
Eu sei, tenho certeza de que quando sair pela porta o funeral já terá terminado. Quando cheguei aqui hoje me pareceu mesmo estranho não encontrar estacionamento e tive que dirigir para longe em busca de uma vaga. Passando vizinho à igreja pude ver uma multidão espremida e então entendi o porque das ruas vazias. Lembrei-me da noticia lida pela manha e me vieram a mente os dois rapazes que perderam a vida em uma curva onde o automóvel foi encontrar a única arvore em questão de centenas de metros. Os seus corpos começaram o mais longo processo da vida que é o da não existência. Todos os dias os jornais locais noticiam uma morte de jovens, invariavelmente em acidentes de moto ou carro, invariavelmente entre meia noite e cinco da manhã, invariavelmente pouco depois de se despedirem de amigos em um bar ou pub. Invariavelmente também os jornais nunca dizem que a causa pode ser o álcool. Dizem sempre que as causa serão acertadas, talvez tenha sido um mal estar, ou uma desgraça causada por um pouco de pressa já que a intenção era chegar logo em casa para não preocupar mamãe. Nunca dizem que os infelizes estavam enchendo a cara e resolveram fazer um racha ou coisa do tipo. Nunca. Um pouco por respeito aos mortos, mas também por questões de interesse. A região está pouco a pouco se transformando em um vinhedo e a produção de vinho e grappa cresce de ano a ano. Daqui a pouco não plantam mais comida e se der crise no vinho, vamos comer casca e folha de uva. Dizendo isso pode parecer que sou um moralista abstêmio. Gostaria de ser, mas não è o caso. Na verdade sou um sobrevivente dessas loucuras todas e no fundo tenho muita sorte de estar ainda aqui escrevendo. Porem aquela historia de ter sempre um amigo sóbrio para dirigir me parece, para dizer o mínimo, uma idéia pra lá de razoável. O problema è decidir quem faz o motorista naquela noite. Sorteio seria uma boa, ou então no palitinho. Para combinar com o ambiente de bar me parece perfeito o palitinho. Olho pra fora e me parece que o funeral já acabou. Um deles tinha 19 anos e o outro 17. Vejo as mães que saem também praticamente mortas pela dor e a multidao de jovens que choram de cabeça baixa. Sexta feira deixo o palitinho pra lá. Me ofereço pra levar os amigos pra casa.
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