outubro 20, 2004

Eu Pelo Avesso...

Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:

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"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteí­sta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço."
........................................

Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.

E então "apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente" para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!

Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.

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Posted by norab at 1:23 PM | Comments (0)

outubro 19, 2004

Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa...

Frase de Clarice Lispector, no livroA Paixão Segundo GH

Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro...
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino... E um medo sem nome, entranhado no osso.
Que incompetência para escolher! Como fui capaz???

Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?

Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
"Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas."

Entrei em transe e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: "Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente." Caminhei saltitando pelo meio da rua.

Tóin! Ufff... Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma porcaria, escrito por uma dessas americanas idiotas, nem lembro o nome, mas que sabem (como nenhum outro povo do mundo!!), ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida...
Burra! Burra! Burra!

Mas, com o tempo, as dores adormecem...
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela - para onde eu havia voltado - encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? "

"É difí­cil perder-se..."

..."Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? "

"Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado."

"As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende...
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir..."

"Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?"

..."essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar."

"Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. "

marlenedietrichpernas.jpg

Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!

Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros....
E...tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.

Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.

Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice... sigo andando.


*Marlene Dietrich

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Posted by norab at 8:07 PM | Comments (0)

outubro 15, 2004

Exí­lio...

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Li num site, que encontrei por acaso, um texto que fala de exí­lio. Me encantei com ele.

Comparei-o um pouco com a minha saí­da do Brasil e minha opção de viver uma nova etapa da vida, buscando e encontrando os prazeres que ela me traz.
Sei que meus sentimentos seriam completamente diferentes se estar aqui não tivesse sido uma escolha minha e sim uma contingência da vida, uma obrigação ou pior... um castigo.

Enquanto sigo pelos caminhos dos meu novo lugar de viver, um monte perto de bonitos e minúsculos povoados, na solidão de uma tarde nebulosa e fria, sem outra companhia que a dos meus pensamentos, e surpreendo-me comparando-a com a outra solidão que eu sentia, às vezes, em plena avenida movimentada de minha cidade natal.
E penso que o exí­lio não é estar longe apenas de seu lugar...
É principalmente estar longe de si mesmo, de seus sonhos...de sua alma.
É viver só de memórias, de tristes saudades.

O texto diz assim:

" Quando os relógios marcam a hora invertida;quando as árvores de tua rua deixam de saudar-te e te sentes observado como uma pantera doente; quando esperas uma resposta que não chega desde o vento ausente, uma resposta daquele rosto desconhecido, de uma garrafa quebrada, uma resposta qualquer (e não chega) ; quando a distância te invade e pisas os restos de memória pelo asfalto que não reconhece teus passos; quando o vazio se empina sobre teu coração, sobre teus olhos, com a fúria calada de um sax seco; quando já não há nem ontem nem amanhã e o carteiro não vem; quando o neon te devolve uma palavra equivocada; quando o rosto dela deixa de pertencer-te... Então, moço, já não há mais escusas: algo assim é o exí­lio"

Não conheço o autor, mas precisava reproduzi-lo aqui. Achei suas palavras inquietantes... E pensei, mais uma vez, no por quê eu não sinto essa melancolia impotente enquanto caminho pelas ruas deste lugar.
Sinto como se este "aqui e agora" estivesse destinado para mim desde sempre e já fizesse, há muito mais tempo do que eu sabia, parte da minha história nesta vida.

Quem sabe se já não o foi em outras?

Se eu fosse a budista que queria ser, acreditaria que já vivi aqui. Infelizmente, por mais tente aprender com O Monge e o Filósofo, e admire a filosofia budista tibetana, ainda não possuo essa crença feliz de que somos uma sucessão de vidas em tempos e espaços distintos.
Quem sabe um dia...

Foto:Autumn Landscape at the Dusk-Van Gogh

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Posted by norab at 9:55 AM | Comments (0)

outubro 14, 2004

*Vem de Repente um Anjo Triste Perto de Mim...

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Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando,
clamando...
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros...
com os meus caminhos...
com as minhas nuvens...


Mário Quintana

Dediquei este post a Hilda Hilst no dia de sua morte.


*Frase do título de Renato Russo


* Foto de Taty

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Posted by norab at 1:29 PM | Comments (0)