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Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.

Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de "especiarias" os poemas preferidos.

O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar... e por aí.

Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.

Meu caderno sumiu em uma das mudanças... O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.

Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.

Então...

Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero

Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.

Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.

Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.

Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.

Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.

Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti



Esta história, escrita por Clarice Lispector, foi publicada por Sonja. Pedi emprestada imediatamente. Porque ela parece minha... Não, porque ela é minha.

Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que ganhei. Um livro meu!? Haja felicidade!
E o Lorde, às vezes, chamava-me de Narizinho Arrebitado, que para mim era um elogio e tanto! Mais do que quando me disseram, muitos anos depois, que eu parecia com Florinda Bolkan!!!

Digo que a história é minha porque descreve o que é felicidade clandestina...
Descreve, como eu já descrevi, o que era deixar um envelope cerrado sobre a mesa e fazer de conta que ele não estava ali ainda...
Descreve o que era sentar na rede e adiar a felicidade guardada em poucas frases...
Quem leu a História de Amor, escrita neste blog, sabe do que estou falando! E juro que eu nem conhecia este texto antes de hoje.

Ah! Essa Clarice!
Que mulher para escrever o que eu sinto!

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Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.

Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.

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Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector



Pois...
Sento-me aqui, em frente à folha em branco do word e escrevo reticências...
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.

O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente...
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
........................................
Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...

Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...


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Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...

Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.

Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos



Uma amiga brasileira escreveu-me perguntando o que significava Ítaca. É que em um dos meus textos sobre a história de amor que eu vivi, e que está nos arquivos aí ao lado, ela leu uma citação à famosa poesia do poeta grego Konstantinos Kaváfis.

Resolvi republicá-la aqui. Não só para ela, mas também para todos os amigos que frequentam esta página. Mesmo já conhecendo-o, é sempre bom reler belos poemas, é sempre bom rever nossas posições nesta viagem fantástica e complexa que é a vida.

Chegar a esse momento da minha não foi nem fácil nem simples, mas valeu viver cada fase do caminho...
Escute a sua alma. Não tenha pressa de chegar a Ítaca.
O caminho vale pelo que ensina...


*Em especial dedico este post a Meg, minha tristonha amiga paulista e a Sherazade, que está construindo a sua casa.

Dedico também a mim mesma, que estou reconstruindo minha casa virtual aqui.

Prefiro a tradução em Espanhol, talvez por ter sido a primeira que li e que me apaixonou. Mas para quem não compreende o idioma, há uma tradução brasileira ao final do poema.
Desfrutem ...

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calm befor tempest1.jpg

Si vas a emprender el viaje hacia Itaca,
pide que tu camino sea largo,
rico en experiencias, en conocimiento.

A Lestrigones y a Cíclopes,
al airado Poseidón nunca temas,
no hallarás tales seres en tu ruta
si alto es tu pensamiento y limpia
la emoción de tu espíritu y tu cuerpo.

A Lestrigones ni a Cíclopes,
ni a fiero Poseidón hallarás nunca,
si no los llevas dentro de tu alma,
si no es tu alma quien ante tí los pone.

Pide que tu camino sea largo.
Que numerosas sean las mañanas de verano
en que con placer, felizmente
arribes a bahías nunca vistas;

detente en los emporios de Fenicia
y adquiere hermosas mercancías,
madreperla y coral, y ámbar y ébano,
perfumes deliciosos y diversos,
cuanto puedas invierte en voluptuosos
y delicados perfumes;
visita muchas ciudades de Egipto
y con avidez aprende de sus sabios.

Ten siempre a Itaca en la memoria.
Llegar allí es tu meta.
Mas no apresures el viaje.
Mejor que se extienda largos años;
y en tu vejez arribes a la isla
con cuanto hayas ganado en el camino,
sin esperar que Itaca te enriquezca.

Itaca te regaló un hermoso viaje.
Sin ella el camino no hubieras emprendido.
Mas ninguna otra cosa puede darte.

Aunque pobre la encuentres,
no te engañará Itaca.
Rico en saber y en vida, como has vuelto,
comprendes ya qué significan las Itacas.

Konstantinos Kaváfis


Se partires um dia rumo a Ítaca faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem os Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrarás se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver, se tu mesmo não o levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda espécie,quando houver, de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.


Tradução de José Paulo Paes



"Uma vez que um parente dos mais distantes chegou a ministro, nos arrumamos para que nomeasse boa parte da família à sucursal de correios da Rua Serrano.
Durou pouco, isso sim.
Dos três dias que estivemos, dois passamos atendendo ao público com uma competência extraordinária que nos valeu a surpreendida visita do inspetor do Correio Central e uma nota elogiosa no jornal La Razón.
Ao terceiro dia estávamos seguros de nossa popularidade, pois a gente já vinha de outros bairros a despachar sua correspondência e a fazer telegramas a Purmamarca e a outros lugares igualmente absurdos.

Então meu tio o mais velho deu por livre a escolha, e a família começou a atender de acordo com seus princípios e predileções. No guiché de emissão de cartas, minha irmã a segunda obsequiava um balão colorido a cada comprador de selos.
A primeira a receber seu balão foi uma senhora gorda que ficou como paralisada, com o balão na mão e o selo de um peso já umedecido que se ia enroscando pouco a pouco no dedo. Um jovem cabeludo se negou de pronto a receber seu balão, e minha irmã admoestou-o severamente enquanto na fila do guiché começavam a suscitar-se opiniões desencontradas.
Ao lado, vários provincianos empenhados em enviar insensatamente parte de seus salários aos familiares distantes, recebiam com algum assombro copinhos de licor e de vez em quando uma empanada de carne, tudo isto a cargo de meu pai que ademais recitava-lhes a gritos os melhores conselhos do velho Vizcacha.

Enquanto isso meus irmãos, a cargo do guiché de encomendas, untavam-nas com alcatrão e as metiam em um balde cheio de plumas. Depois apresentavam-nas aos estupefatos clientes. E faziam-lhes notar com quanta alegria seriam recebidos os pacotes assim melhorados. "Sem pontinhas a vista" diziam. "Sem o lacre tão vulgar, e com o nome do destinatário que parece que vai metido debaixo da asa de um cisne, vejam."
Não todos se mostravam encantados, há que ser sincero.

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Quando curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe cerrou o ato da maneira mais bonita, fazendo voar sobre o público uma multitude de flechinhas coloridas fabricadas com os formulários dos telegramas e cartas certificadas.

Cantamos o hino nacional e nos retiramos obedientes; vi chorar a uma menina que havia ficado terceira na fila do guiché e sabia que já era tarde para que lhe dessem o balão."

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*Em Historias de Cronopios y de Famas - Julio Cortázar

Ando perfeita e absolutamente enamorada de Julio Cortázar!

Como pode uma criatura fazer poesia numa história assim?
Como consegue prender a gente em suas histórias como se fossem teias de aranha cobertas de pequenas gotas de puro cristal?

Não resisti. Traduzi uma delas e trouxe aqui.

Que ousadia a minha!



Estou me sentindo tão bem nesta casa nova que fico passeando daqui pra lá, de lá pra cá... pensando que sou mesmo uma mulher de sorte.
O pessoal da Verbeat é nota dez. Obrigada pela acolhida!
Também estou tendo mais tempo para voltar a visitar com mais constância os blogs amigos. Em breve vou escrever sobre alguns deles.

Hoje quero apenas fazer referência ao Et Alors, da amiga Alma. Um blog que visito há mais de ano e sempre encontro textos interessantes, sensíveis e fortes.

Este que vou reproduzir aqui - é a primeira vez que trago um texto de outro blog para o meu - particularmente me encantou. Trouxe-me lembranças da Princesa, minha mãe.
Trouxe-me sentimentos doces em relação às pequenas liberdades adquiridas com a velhice...

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AVISO

Jenny Joseph


Quando envelhecer vou usar púrpura
com chapéu vermelho,
que não combina
nem fica bem em mim.
Vou gastar a pensão em uísque
e luvas de verão
e sandálias de cetim -
e dizer que não temos
dinheiro para a manteiga.

Vou sentar na calçada
quando me cansar e
devorar as ofertas
do supermercado,
tocar as campainhas

e passar a bengala nas grades das praças
e compensar toda a sobriedade da minha juventude.
Vou andar na chuva de chinelos,
apanhar flores no jardim dos outros
e aprender a cuspir.

A gente pode usar camisas horríveis e engordar,
comer um quilo de salsichas de uma vez
ou só pão com picles a semana inteira
e juntar canetas e lápis e bolachas de cerveja
e coisas em caixinhas.

Mas agora temos que usar roupas que nos deixem secos,
pagar aluguel, não dizer palavrão na rua
e ser bom exemplo para as crianças.
Temos de ler o jornal e convidar amigos para jantar.

Mas quem sabe eu devia treinar um pouco agora?
Assim os outros não vão ficar chocados demais
quando de repente eu for velha e usar vestido púrpura.


In Quando envelhecer vou usar púrpura, organizado por Sandra Haldeman Martz, tradução de Lya Luft, Ed. Marco Zero, São Paulo, 1997, p.13.



Claudio Ferreira de Sousa-ilusao de otica2.jpg


Sí­ cada dí­a cae,
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad esta prisionera.

Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caí­da
con paciencia.

Pablo Neruda ( Últimos Sonetos)


Um dos livros mais líricos que li na vida!

*tradução:

Se cada dia cai, dentro de cada noite há um poço onde a claridade está prisioneira. Há que sentar-se na borda do poço da sombra e pescar luz caí­da com paciência.

**Foto: Claudio F. Costa-Ilusão de Ótica
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Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:

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"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteí­sta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço."
........................................

Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.

E então "apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente" para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!

Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.

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Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH

Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro...
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menos-valia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino... E um medo sem nome, entranhado no osso.
Que incompetência para escolher! Como fui capaz???

Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?

Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
"Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas."

Entrei em transe e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: "Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente." Caminhei saltitando pelo meio da rua.

Tóin! Ufff... Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma porcaria, escrito por uma dessas americanas idiotas, nem lembro o nome, mas que sabem (como nenhum outro povo do mundo!!), ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida...
Burra! Burra! Burra!

Mas, com o tempo, as dores adormecem...
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela - para onde eu havia voltado - encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? "

"É difí­cil perder-se..."

..."Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? "

"Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado."

"As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende...
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir..."

"Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?"

..."essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar."

"Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. "

marlenedietrichpernas.jpg

Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!

Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros....
E...tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.

Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.

Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice... sigo andando.

*Marlene Dietrich


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Li num site, que encontrei por acaso, um texto que fala de exí­lio. Me encantei com ele.

Comparei-o um pouco com a minha saí­da do Brasil e minha opção de viver uma nova etapa da vida, buscando e encontrando os prazeres que ela me traz.
Sei que meus sentimentos seriam completamente diferentes, se estar aqui não tivesse sido uma escolha minha e sim uma contingência da vida, uma obrigação ou pior... um castigo.

Enquanto sigo pelos caminhos dos meu novo lugar de viver, um monte perto de bonitos e minúsculos povoados, na solidão de uma tarde nebulosa e fria, sem outra companhia que a dos meus pensamentos, e surpreendendo-me comparando-a com a outra solidão que eu sentia, às vezes, em plena avenida movimentada de minha cidade natal, penso em como são diferentes!
E penso que o exí­lio não é estar longe apenas de seu lugar...
É principalmente estar longe de si mesmo, de seus sonhos...de sua alma.
É viver só de memórias, de tristes saudades.

O texto diz assim:

" Quando os relógios marcam a hora invertida;quando as árvores de tua rua deixam de saudar-te e te sentes observado como uma pantera doente; quando esperas uma resposta que não chega desde o vento ausente, uma resposta daquele rosto desconhecido, de uma garrafa quebrada, uma resposta qualquer (e não chega) ; quando a distância te invade e pisas os restos de memória pelo asfalto que não reconhece teus passos; quando o vazio se empina sobre teu coração, sobre teus olhos, com a fúria calada de um sax seco; quando já não há nem ontem nem amanhã e o carteiro não vem; quando o neon te devolve uma palavra equivocada; quando o rosto dela deixa de pertencer-te... Então, moço, já não há mais escusas: algo assim é o exí­lio"

Não conheço o autor, mas precisava reproduzi-lo. Achei suas palavras inquietantes...
E pensei, mais uma vez, no por quê eu não sinto essa melancolia impotente enquanto caminho pelas ruas deste lugar.
Sinto como se este "aqui e agora" estivesse destinado para mim desde sempre e já fizesse, há muito mais tempo do que eu sabia, parte da minha história nesta vida.

Quem sabe se já não foi em outras?

Se eu fosse a budista que queria ser, acreditaria que já vivi aqui. Infelizmente, por mais tente aprender com O Monge e o Filósofo, e admire a filosofia budista tibetana, ainda não possuo essa crença feliz de que somos uma sucessão de vidas em tempos e espaços distintos.
Quem sabe um dia...

Foto:Autumn Landscape at the Dusk-Van Gogh

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