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Pois sim...de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.

espirito

Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam.
É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira... mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.

Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era.
Voltaram para casa... mas então não podiam mais ser os mesmos e voltaram a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato...
Choravam todos...
Arrepiei. Chorei também.

Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.

Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.

alma

Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?
Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: "Onde estava? Por que demorou tanto?"
Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!

Ainda bem que pude - depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira - contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo.
O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora...

O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem... decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.

Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

"... Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.

Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais..."




Em Madrid há gente que mora nas ruas, como em todas as cidades grandes.
Gente que, por algum motivo - ou por vários, abandonou a vida que tinha... ou foi abandonada por ela. Gente que dorme entre caixas de papelão, portadas de edifícios ou abrigos da Prefeitura. Eu vejo alguns, de vez em quando...

...mas esse era diferente.

Madrid-2009
Ele escolheu a calçada do Teatro Real de Madrid como cama, suas grades como armário... e um livro como companheiro na fria manhã de Inverno.
Um livro de páginas amareladas e sem capa...

...mas um livro!

Eu passo rente à sua manta azul, uma e outra vez, com uma vontade imensa de abordá-lo.
Queria perguntar quem é, de onde vem, o que houve para que esteja aí, entregue a intempérie ?
Queria dar-lhe algum dinheiro para o café, o pão, o leite.
Mas ele não parece um mendigo.

Vejo de soslaio uma barba grisalha, limpa e bem cortada... a mão que sustenta o livro aberto, também limpa.

Tive vergonha de incomodá-lo.

Faz mais de uma semana que penso nele...



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Outubro. O mês da chegada do friozinho que eu amo. O mês das folhas amarelas e vermelhas do outono europeu, tão lindo, tão melancólico, tão música clássica no ar.
Eu podia ver os esquilos que moravam numa de minhas árvores descendo do ninho para buscar as nozes que eu havia deixado para eles num prato grande de barro, provocando a saudade antecipada que me perseguia desde dois meses antes. Ultimo café quentinho na caneca azul, ao som de Vivaldi, olhando por aquela enorme porta de vidro que dava para o jardim, já com cara de triste e sozinho.
Eu sabia que o próximo "dono" não iria morar ali e uma casa sem gente perde em vida. Um jardim, então, sofre demais. Por isso eu havia presenteado aos vizinhos e amigos todas as minhas plantas. A "selva amazônica", como eles chamavam, já estava distribuída e ele já parecia meio nu, meio abandonado.
Bem que eu queria poder levar a casa interinha conosco!

De volta ao futuro me dei conta do caminhão na porta dos fundos, devidamente autorizado para transportar tudo o que eu havia previamente organizado por setores da casa: quarto azul, quarto laranja, quarto de hóspedes, "habitación de matrimonio", livros, livros e livros... cozinha, 3 banheiros, escritório, salão, mais livros e livros e livros...que casa tão imensa, meu Deus!

Pois sim... Consegui organizá-la muito bem - enquanto todas as bruxas dormiam - durante as semanas que antecederam a data. Porcarias devidamente jogadas no lixo, coisas desnecessárias para dentro dos baús de "guardados-desnecesariamente-guardados", coisas essenciais e importantes encaixotadas, com etiquetas e tudo.

Isso fui fazendo dia após dia com uma dor nas costas que não me abandonava e noite após noite de insônia em que, de olhos fechados mas totalmente desperta, eu arrumava e desarrumava tudo outra vez, tinha ideias fantásticas do que fazer no dia seguinte, que logo seriam esquecidas. E uma impaciência que já estava transbordando por todas as saídas do meu corpo.

Então chegou o bendito dia. Três criaturas absolutamente desconhecidas mexendo em toda parte, entrando em todos os cômodos, abrindo e esvaziando todas as minhas gavetas, metendo cada objeto em imensas caixas com letras e números. H1, H2, H3... ESCR, COZ, BAN, ENTR. Cada caixa dizendo de onde havia sido retirado seu conteúdo.

Fácil assim. Depois era só desembalar tudo e guardar...

Onde?

A cesta de gato para onde seguia aquele mundaréu de caixas imensas tinha dois quartos pequenos, um banheiro, uma prometida cozinha e um pequeno hall. Ah! e uma sala que não sei por que meu pirata chama de "salón". Acho que seu costume de viver quase toda a vida em camarotes de barcos e dormir por nove anos em camas de submarinos, essa pequena sala possa mesmo ser chamada assim. Tá. Eu deixo. Mas que é uma salinha de nada, é!
cesta de gatos
Tá bom. Tá bom. Isso eu já sabia. Estávamos levando o essencial: perto de dois mil livros, oitocentos CDs, poucas roupas (só o que passou pelo crivo), objetos para cozinhar ( não tinha quase nada ) e comida, alguns móveis comprados de ultima hora: 15 estantes, 1 sofá, 2 poltronas, 1 cama, 1 guarda roupa, 1 sofá-cama, 3 gaveteiros e 3 mesas de trabalho. Coisas do tipo "monte você mesmo e demonstre a todos o quanto você precisa de nós." Já reconhecendo nossa ignorância pagamos para que nos montassem os sofás, a cama e o armário do quarto, um dia antes da mudança. O resto ficava para nós. A conta nos convenceu que valia a pena tentar!

Ótimo! Para quem vivia numa casa completamente mobiliada mas não tinha nada, já podíamos contar com um bom começo. Isso mesmo. Como somos organizados e competentes, heim? Assim antes da mudança chegar já teríamos onde dormir e onde guardar o básico. E eu saberia onde estava tudinho, tudinho...

Pois sim.

Eles não são. Nem organizados nem competentes. O guarda-roupa chegou com meio metro a mais do que o tamanho da parede do quarto e teve que voltar. Tivemos que convencer a loja que o erro foi deles, porque a priori eles nunca erram e o culpado é você. Mas não foi. E eles tiverem que vir no dia seguinte. O dia da mudança.
Os sofás também viriam naquela tarde mas, que fatalidade! o pneu furou e eles viriam também no dia seguinte. O dia da mudança.

Foram elas? As bruxas de plantão acordaram, as danadas!?

Então ... No dia 17, o caminhão estava parado diante do prédio de uma rua bastante movimentada e não podia fazer nada porque a casa era um verdeiro balaio de gatos. Estava invadida por outros. Gente na sala, no quarto, na cozinha.... Peraí! que cozinha? Aquele buraco negro seria uma cozinha num dia muito distante! Eles não tinham prometido tudo pronto dia 15? Depois de mais de um mês de atraso, eles juraram à dona do apartamento que a cozinha estaria prontíssima no dia 15 de outubro. O que era aquilo? Como assim pronta?
pedreiros1
Quando estará terminada, perguntei com cara de choro? "Na segunda feira, senhora. Isso se faz neste final de semana." Eu juro que quis acreditar. Mas estava difícil, viu.

Dizem que as pessoas que trabalham na construção tem uma forma distinta de funcionar. Tempo é algo que não existe. E o cliente é aquele ser incômodo que está aí para fazer perguntas impossíveis de responder. É absolutamente necessário enganá-lo! Quem mandou perguntar besteira!

Entrei na sala e vi dois sujeitos que estava montando um sofá que não era o que eu havia comprado! Trouxeram um outro sofá!

Como assim?

Esses também são seres especiais. Eles agem como se estivessem ali por acaso. Não representam a empresa onde trabalham. Aliás eles nem conhecem ninguém naquela empresa, iam passando pela rua e lhe mandaram entregar esse sofá na casa daqueles desconhecidos, que por acaso estavam pagando pelo serviço. É assim mesmo?

É. Pelo menos é o que parece ser. Eles disseram que entrássemos em contato com a loja e se foram. E por cima deixaram um super sofá branco que ocupava mais da metade del salón, que não era meu e que ia se encher de poeira e cimento. Pânico na garganta. Onde estavam aquelas lágrimas que pareciam prestes a sair na porta do inferno negro que chamavam de cozinha? Dei a volta e fui para o quarto onde montavam o guarda roupa, finalmente com a medida certa. Um pó de madeira cortada cobria toda o colchão da cama onde pensávamos que íamos poder dormir. Em estado de choque eu não podia nem chorar de tao cansada. O pirata estava com uma cara de "vou-fugir-no-próximo-barco-que-passe-na-porta". Porque só faltava passar um barco pela rua, em plena meseta castelhana. Juro que eu iria também. Com gosto!

Telefonei para um amigo que vive em Madrid e pedi guarida. Por umas duas noites. Queria ser otimista, juro. Até que soube que a mudança dormiria no caminhão, diante da porta do prédio. Até amanha. Heim? Heim?

Eu sou brasileira. Tenho experiências traumáticas, será que ninguém entende? Minha mudança ia dormir na rua? Como assim? E eu? Como dormir sem sonhar que no dia seguinte não haveria nem o caminhão para contar a história do saque! Uffffff!
Calma. Calma. Não havia outra saída, nem outro lugar. Ia ficar ali mesmo, bem no meio da rua.
"Amanhã a gente volta", disseram os três desconhecidos
Tá.

Então foi o que decidimos.
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Voltamos no dia seguinte e respirei fundo. Estava tudo tranquilamente onde deixamos! E ao abrir as portas, não faltava absolutamente nada!
Yes!

Decidimos amontoar as caixas no hall e em um dos quartos. Não cabiam, claro. Então elas começaram a se espalhar pela sala e pelo meu quarto também. As montanhas de caixas criavam um ambiente perfeito para um pesadelo: morrer embaixo de uma delas.
A dor nas costas crescia, crescia.

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Todos os dias eu voltava e tentava abrir caixas, organizar os armários, mas organizar era uma palavra que simplesmente não entrava naquele lugar. As coisas saíam das caixas mas elas apenas mudavam de um lugar para outro, formando outras pilhas espalhadas por toda a casa, sem qualquer sentido comum. E meu calmante natureba só chegava do trabalho no final da tarde! Ele vinha cansado mas disposto a montar as estantes onde pôr os milhares de livros e discos. Era preciso esvaziar espaços senão eu ia morrer de claustrofobia!
O buraco negro chamado cozinha foi se vestindo de madeira e cerâmica, len-ta-men-te. M-u-i-t-o l-e-n-t-a-m-e-n-t-e !

Dormimos na casa do amigo até o dia 22. Seis dias depois da mudança. Que mudança? Eu não estava nem em uma casa nem em outra. Estava no limbo!
Neste dia havia uma promessa formal do pseudo-profissional responsável (? ) pela obra de montar a caldeira de água quente, fundamental para a saúde mental e física de quem tem que tomar banho nesta terra onde a água é gelaaaada em qualquer época do ano. Ele também teria que montar as cortinas, retiradas antes da pintura do apartamento. Tá.
A criatura chegou com três horas de atraso, impedindo a empresa contratada para a limpeza da obra de realizar seu trabalho, seu ajudante montou a caldeira e já iam saindo quando perguntei pelos móveis e eletrodomésticos. Não pergunte! Disseram-me seus olhos. Lá vou eu ter que enganá-la outra vez! Olhando para a janela como se eu não estivesse ali ele resmungou que estava pensando em telefonar-me no dia seguinte para avisar-me quando viria a empresa que montaria a cozinha. Fogão, geladeira, pia... TUDO! Talvez na segunda feira seguinte. Heim?!

Perguntei ( De novo! Que ousada!) pelas cortinas. Cortinas? Ele me olhou como se eu fosse um ET. Disse que não sabia delas, que guardou-as nuns sacos negros de lixo e que deixou-as - com muito cuidado - na entrada, bem ao lado do lixo da obra. Que inteligente, não? Em bolsas de lixo, ao lado do lixo. Desde quando isso se chamava "guardar"?
Isto é, o sujeito "desapareceu" as minhas caríssimas cortinas... todas.
E para piorar sugeriu que quem havia jogado fora os sacos de lixo tinha sido eu e meus ajudantes da mudança. Heim?

Ataquei. Cresci uns dez centímetros. Avancei para o sujeitinho de rabo-de-cavalo e cara de rato e ele recuou até a parede apavorado.
Não, não foi físico o meu ataque. Foi psíquico. Avancei dois passos em sua direção com uma cara de louca mais ou menos igual a de Mme Mim, descabelada e com os olhos injetados de raiva. Aposto que ele está em pânico até agora. Ho ho ho!

mme mim1
Soltando fogo pelo olhar e cuspindo cada palavra como uma serpente malvada eu disse que ele não me tratasse como uma das suas clientes idiotas, que eu exigia respeito, que ele era absolutamente responsável por tudo o que dissesse respeito à obra e seus resultados, que parasse de mentir descaradamente e responsabilizar-me por sua incompetência. Que ele não estava atrasado dois ou três dias e sim quarenta e cinco e que eu não iria admitir que me tratasse como uma imbecil. Queria minha casa JÁ. Habitável. Pronta. E cada cortina em seu lugar ou outras exatamente iguais. E que a partir de agora eu iria acampar bem diante da porta da cozinha para acompanhar cada passo seu dentro da MINHA casa, que lhe telefonaria a cada dez minutos para que me dissesse a verdade e respondesse pelo trabalho que lhe haviam contratado. Tudo isso sem respirar. Sibilando entre os dentes. Assustador, nãao???

Todos os outros cinco homens ( quatro da limpeza que não se fez completa por sua culpa ) que estavam ali naquele momento pararam o que faziam para escutar-me. Nunca falei um Espanhol bem falado e claro como naquela tarde.

Pronto. Depois disso fiquei doente. A dor nas costas, que me acompanhava há quase um mês, aumentou desesperadamente porque toda a raiva ficou presa naquela parte do meu corpo. Por quatro dias não pude mover-me, nem arrumar caixas, nem tomar banho sozinha, nem nadica de nada. Verdadeiramente acampei na porta da cozinha, deitada numa das maravilhosas poltronas brancas e cobertas de plástico cheio de pó de cimento. A loja só veio trocá-la mais de uma semana depois da entrega equivocada. F*-se!

Da quarta até o sábado eu só chorava todas as lágrimas que estavam presas no nó da garganta. E fabriquei muitas mais. Eu era uma enorme lágrima! Não dormia quase nada. Cansei muito.
Só Domingo pude sair pelas ruas de Madrid e aproveitar uma bela manhã de sol!

A cozinha foi vestindo-se e agora há um sujeito competente lá, montando tudo, enquanto escrevo esse texto procurando não sentir toda a raiva outra vez, por causa da dor... vai que ela resolve voltar.
Já posso respirar e tomar banho sozinha. Já posso andar sem ter vontade de chorar a cada movimento. Não vou arriscar.

Ele também não arrisca. Desde aquele ataque verbal o homenzinho cara de rato nunca mais voltou aqui. Manda tudo por controle remoto: um pedreiro da Romênia que mal fala Espanhol e que me olha com pena e cara de carinho. Melhor. Prefiro não ver o rato.

Só quero minhas cortinas nas janelas. Já.

não existe aqui. Preciso esquecer a palavra. Isso ele ainda não solucionou. Mas vai solucionar. Ah, vai.
Preciso esquecê-lo também para recomeçar minha vida.

Nada mal heim, para uma mulher que pensava que tinha a vida resolvida na entrada do século XXI e que nos primeiros dois anos do novo milênio abandona seu país atrás de uns olhos-de-mar-azul pelos quais está absolutamente em surto amoroso. E depois de viver no mato, rodeada de esquilos e raposas, os melhores anos de felicidade de toda a sua vida e de casar com o dono do sorriso tarja preta mais belo do planeta... agora vai viver alguns anos " en los Madriles".
Claro que a história não podia ser simples e comum, se tratando de mim. Faz uma semana que comemos sandwiches prontos com coca-cola em pratos e copos de plástico, dormimos numa deliciosa cama nova rodeados de montanhas de caixotes, temos uma imensa lista de "necessidades urgentes" , não sabemos onde está nossa roupa, não podemos comemorar a nova vida pois estou tomando umas bombas de anti inflamatórios e... ainda não parece que vivo em Madrid.

A mudança estava programada para o dia 05 de setembro. Adiada para o dia 10, depois para o dia 20 e finalmente para o mês seguinte, em 15 de outubro. Ainda dei dois dias de lambuja, por se acaso...
Estamos em 28 de outubro e nós ainda não consideramos a mudança feita.

Todo mundo já sabe que não pode viajar comigo porque as coisas nos aeroportos nunca funcionam como deveriam. Agora já sabem que não podem fazer mudanças também.

Ah!... e tenho passagens compradas para Lisboa no próximo dia 5. Ainda não sei nem o que vou pôr na maleta e ... por falar nisso, onde está meu passaporte?

Ai meu Deus...

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Pois é. O texto estava escrito, mas não pude publicá-lo. Não tinha Internet em casa, nem tinha casa, nem tinha espírito, nem tinha vontade.

Fui à Lisboa e Sintra pela primeira vez e fiquei encantada. Foi como encontrar um oásis dentro do deserto. Dormir num quarto de hotel limpo com cortinas e privacidade, sair para passear sem preocupar-me com nada mais do que ser feliz por quatro dias tranquilos e belos.
Foi fantástico fazer a viagem e nos ajudou a relaxar para encarar a tarefa de "fabricar" uma casinha gostosa na volta.
Demorou mais do que esperávamos, mas conseguimos. Já podemos cozinhar, ver televisão e escutar música. Já tenho minha mesa de trabalho montada num escritório inventado bem no "ex-hall" do apartamento, os abrigos em seu armário, as roupas no guarda roupa e uma caneca de chá verde, quentinho, bem na minha frente.

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Entre Outubro e Janeiro minha filha veio viver em nosso caos ajudando a reforçá-lo*, com mais caixas, roupas e livros... e livros, videos e CDs. Recebi hóspedes ( juro que não sei como, mas mesmo assim foi bárbaro! ) viajei, voltei, viajei outra vez, comemorei O Natal em Tarifa e o Ano Novo na Cesta, com uma ceia deliciosa.


Agora já posso dizer:


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O passaporte está desaparecido outra vez, mas esses detalhes precisam de mais tempo. As coisas também tem alma e escolhem seus lugares dentro da nova morada.


Fazem quatro dias que tenho um prazer novo: a rotina.
Que delícia!


* Ela, a filha, bem que tentou trazer os ramsters, a tartaruga e os peixes... mas eu só deixei vir a gata. Zefini. Sem negociações!




DEUS Ñ TEM RELIGIAO

Eu acredito em Deus, querida.... e gosto disso.
Agora... não conte por aí, porque ninguém acredita... Deus é agnóstico. Ele não tem religião, nem precisa de uma. E menos que se fomentem guerras em seu nome.




Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai... tempo vem... ela mudou para o Multiply... eu mudei de blog... e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas... os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz...
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional... ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst...Acho que esta mudança vale um post...vou escrevê-lo depois.

cabelo branco

Pois sim... Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris... agradecer por todos esses anos de amor e paz... e fazer planos novos no caderno azul.

Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim... e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.

Angela e eu somos da mesma colheita de vinho... este mês cumprirei os 53, com muita honra...

Aí vai...


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Um elefante incomoda muita gente...
mas o meu cabelo incomoda muito mais


Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:

- Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?

Várias respostas passam pela minha cabeça:

- Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.

- Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo

- Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)

- Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.

Dependendo de como o "pedido-ordem" é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.

Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!

Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.

Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?


CABELOS BRANCOS

Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.

Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.

COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.

Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção "Forever Young" seja mais uma praga do que um bom desejo.*

Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.

Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?

Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!

E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.

Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!

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Muito bom, Angela! Isso mesmo!

Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!



Victor Oliva_Absinthe

Marcia escreve assim:

"Cansado de mendigar amor, emudeceu. Aos poucos tornou-se transparente, diafano. Até que desapareceu. E ninguém, absolutamente ninguém, o percebeu."


Minha amiga me diz o mesmo. A linda, loira e alta criatura, desde seus maravilhosos 50 anos, depois de tudo o que já aprendeu na vida, dos belos quadros que pintou, dos três filhos que criou, do grande amor que compartilhou... repete baixinho para que só eu escute: "É que já ninguém me vê. Sou menos que um móvel da casa... estou ficando transparente..."

Às vezes me surpreendo demais com algumas coincidências.


Foto. Absinth Drinker-Viktor Oliva



fogo.jpg

Ele queimou um piano...
O sujeito - quem o chamaria de músico? - queimou um piano!
E só para... Para que mesmo?

Que importa o motivo?
Recuso-me a sabê-lo.


Sequer quero saber seu nome...


...........





"Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo". Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.

Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.

Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó - cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

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A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando "dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?" e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.

O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.

Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio...

A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…


Quem o salvará da solidão?



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Mais um verão.
Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente!
Em agosto de 2003 a temperatura parecia não ter limites, chegava a roubar-me o humor, o prazer de existir.
Naquele agosto a saudade do inverno já havia sentado na sala com um leque na mão a abanar-se, a desejar as praias nordestinas, perdida na absoluta falta de memória que o afeto provoca quando se está tão longe dos lugares que ajudaram a construir a própria pele. Quem se lembrava das chuvas e dos mosquitos dos antigos agostos do Janga ou de Toquinho? Nem eu nem ela.
Todos os agostos as agências de viagens espanholas tomam conta da metade dos principais jornais e enganam a todos fingindo que é verão em todas as partes do mundo, como se essa fosse a única estação do ano em que é possível ser feliz.
Voe para o paraíso… Quem disse que verão com calor abrasador é paraíso? Nunca foi. Para mim se não é o inferno, chega bem perto.

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Mas o verdadeiro inferno daquele agosto foi encontrar-me com o inesperado medo de haver-me equivocado, o terror de haver inventado um amor. Um agosto em que as noites insones eram maiores que os dias, os cigarros eram a falsa companhia no silêncio de uma sala vazia enquanto o coração tentava ancorar-se nas lembranças do agosto anterior, quando o único que eu desejava era que a saudade se deixasse morrer e me permitisse ficar aqui para o que desse e viesse, sem praia sem nada, mas dormindo todas as noites, absurdamente feliz, as pernas entrelaçadas e o rosto a meio centímetro de uma barba perfumada.

Novamente é agosto. E desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente. Em outro agosto, toda chuva do mundo caiu dentro do peito. Foi o mês mais frio que já passou minha alma.
Seis anos atrás a Princesa se foi, justo ao primeiro dia, e o mundo passou a ter outros significados. Frio deixou de ser oposto ao calor e passou a ser vazio, oco, falta, medo, dor, morte... de uma forma como nunca havia sabido ser. Nem mesmo aquela outra, de muitos anos antes, também uma dor de agosto, e que veio junto com a certeza de que a separação era inevitável…

Desta vez, como em todas as outras, o mesmo agosto é tão diferente. No ano passado eu estava em prantos na sala, com uma roupa escolhida com cuidado e na mão uma pasta azul cheia de papéis com os prazos de validade quase vencidos e acabando de chegar de uma terceira frustrada tentativa de entregá-los ao registro civil de uma cidade onde ninguém pode casar-se nestas datas. Neste país, o mundo sai de férias todos os agostos, por mais iguais ou diferentes que eles sejam…

Pois sim...
É agosto e o mundo saiu de férias. Estamos de novo sós com nossa história.

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Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é muito diferente. Agora o calor não parece insuportável e deixa entrar umas brisas refrescantes que transformam as noites claras em verdeiras delícias. Além do mais, um veleiro de madeira, antigo e cheio de histórias, nos aguarda em Galícia, onde por dez dias vou realizar outro dos meus quase impossíveis sonhos: navegar à vela com olhos-de-mar-azul.

Figa!
Por se acaso…



Andei, por andar andei… e nem todo caminho deu no mar, saio cantando pelas trilhas no alto do monte, rodeada por pinheiros, amapolas, margaridas, florzinhas azuis e brancas que nem sei o nome e me deparo com a vista do campo de trigo do terreno vizinho que volteia com o vento como um mar verdinho ondulado por pequenas ondas marítimas. É tão parecido com um mar de verdade que eu agradeço pelo presente e canto ainda mais alto, como se fosse filha de Caymmi, mesmo sabendo que a verdadeira música não é assim e que sou apenas a filha do Lorde , pernambucano com ares de inglês perdido pelas Américas, que cantava como baiano nas tardes de manso sol e pesca paciente das arraias do Janga de antigamente, tão esquecido de sua tendência anglo saxônica e por isso mesmo ainda mais bonito...
Essa é umas das lembranças que afloram em mim cada vez que vejo o verde claro de um mar, mesmo que seja um que é só miragem.
A onda do mar leva… a onda do mar traz, quem vem para beira da praia , morena, não volta nunca mais… sigo cantando.
Mas eu voltei. E tive um banzo maior do que poderia permitir-me. Saudade de minha gente, dos vivos e mortos da minha história mais que tudo. Talvez também aí um pouco de saudade de mim. Dos tempos em que estudava e trabalhava, correndo atrás de um futuro que eu nunca imaginei iria mudar tão radicalmente.

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Dizem que a Primavera traz em si a nostalgia. Pode ser. Mas traz também as amapolas e elas salvaram minha alegria.
Uma multidão de amapolas invadiu meu território!
Verdadeiros mares rubros de flores, pequenitas, de tão poucas pétalas, frágeis como o papel de seda , balançando na ponta de talos peludos e débeis, tão fáceis de romper-se que a gente se surpreende que não voem pelos ares com a força de qualquer pé de vento.

As amapolas são como embaixadoras da alegria.
Não há como não rir de boca inteira quando as vemos e eu tenho a sorte de viver muito perto delas.
Por toda parte dos campos elas estão, brincando de serem beijos encarnados da natureza, fazendo cócegas no corpo da gente…

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E as rosas.
As mais belas senhoras da primavera madrileña.
Embaixadoras da classe e da elegância, dignas de paixão ou ternura, elas enamoram as pessoas.
Essas me salvaram de uma crise de ego fenomenal!
Uma crise daquelas que a gente fica sem dormir, pensando numa estratégia imediata e eficaz para mudar de personalidade, de nome, de cor da pele e cabelos, de idade, de corpo, de mente e até de alma!
A gente quer se internar num hotel desconhecido e distante de todos e voltar, no dia seguinte, claro! completamente renovada: mais bela, mais magra, mais jovem, mais leve, mais alegre, mais inteligente, mais sagaz, mais culta, mais sexy, mais bronzeada, mais esportiva, mais generosa e segura, mais tudibom.
A estratégia inclui também uma remodelação completa do guarda-roupa: sapatos ma-ra-vi-lho-sos, saias suavemente esvoaçantes, jeans que modelam sem estufar nenhuma dobra ( que dobra?), blusas que não apertem os bracinhos de ex-boxeador (grossos e moles) que de passagem, melhor, deixamos lá naquele hotel desconhecido e ninguém nunca vai saber que a gente os tinha. Trazemos outros mais magros e duros e muito mais estéticos para enfiar numas jaquetas esportivas encantadoras ou levar penduradas as bolsas mais di-vi-nas.

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Seria bom uns vestidinhos graciosos, top sexies e pantalonas de gaze para as noites onde a gente pretende abalar a partir de agora! Me aguardem!
E perfumes. Os melhores, mais afrodisíacos e delicados de todo o planeta.
E para completar a transformação, uma coleção de roupa interior, nova, radical-chic, daquelas de revista semanal, bem fofas! Caríssimas, é verdade, mas tanto faz pois são simplesmente impossíveis de encontrar no tamanho extra!
Tóin!
A realidade se impõe! Oh! não… e lá se foi a noite inteira. O relógio marcando quase quatro da manhã, a gente ainda não dormiu e pior, não emagreceu nadica de nada, nem está mais sexy e menos ainda mais inteligente. O idioma novo que a gente ia dominar num pis-pás também não avançou nem uma polegada. Vaya!
Ainda por cima a gente sente pontadas homéricas de fome! ( como assim?), e tem fantasias erótico-festivas de comer qualquer coisa doce e fria, chamada vulgarmente de sorvete, mas que felizmente não tem no congelador porque já faz tempo que não compra essas caixinhas de culpa gelada. Felizmente??!

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A gente se vira para um lado e para o outro e nada de sono nem de resolver coisa alguma na vida!
Ainda olha para o peixe-gato que dorme tranquilamente no lado de lá da cama e pensa como é que vai fazer para mante-lo bem ali, juntinho… e parece que o danado escuta a inquietante pergunta e abraça, meio dormindo, a barriga que a gente faz o maior esforço para perder ou devolver a quem a tenha perdido, por favor que aquilo não faz parte da gente, seguramente! - mas que insiste em manter-se colada, grudada, incrustada… e bem palpável, exatamente ali onde ele põe a mão.
Meujesuscristinho, me ajude!

No dia seguinte, que é o mesmo que o dia anterior porque não vale ser "dia seguinte" quando a gente nem dormiu nem acordou, as olheiras confirmam que é urgente encontrar esse hotel desconhecido e distante para se internar agorinha mesmo!
E se ele disser que a gente parece meio cansada, melhor não responder nada que é para o choro não jorrar pelos sete buracos da nossa miserável e infantil cabeça!

Pois sim… crise de ego. Passei uns dias ( e noites ) perdida nela. Querendo ser outra para ser mais exata!
Até que vi as rosas, logo depois da tromba d´água que atingiu Madrid. Maravilhosas!
Elas provocam tamanho sentimento de admiração que as pessoas se enamoram, não apenas por elas, mas também por si mesmas. Assistir sua exuberância perfumada florescer de troncos tão grossos, tortos e escuros… ver seu amanhecer molhado de orvalho, suas pétalas de texturas e cores extraordinárias saírem de tão antigos armários, me renovou o espírito.

Mesmo sem hotel desconhecido e sem perder nem uma grama de peso, organizei a roupa do armário, recuperei blusinhas simpáticas, comprei umas poucas peças básicas, soltas, leves e claras, cortei os cabelos, claro! sem isso nada seria suficiente, não é? e devolvi a eles sua cor original. Agora tenho os cabelos da mesma cor de toda a vida, castanhos escuros, e isso quer dizer que me olho no espelho e me reconheço... pelo menos tento!

Comprei sandálias de esparto, bem típicas da Espanha, saias bonitas, coloridas e alegres como a Primavera e saí por aí com meu Lobo do Mar: Cartagena, Segóvia, Zamora, Toro, Londres, Tarifa, em menos de sessenta dias.
Revi amigos queridos, fiz novas amizades, vi a arte de Tintoretto no Museo del Prado…

Tá bom. Confeso. Também fiz cartase na cozinha. Aproveitei uma noite diante de um bom tinto Rioja, um queijo curado de ovelha e azeitonas cartaginesas e derramei sobre olhos-de-mar-azul minhas mais profundas fantasias de auto-rejeição e recebi amorosos elogios, dengos e tudo o que precisava.
Benzadeus!

Agora é curtir as rosas, o finalzinho da Primavera e tentar desviar minha atenção das neuras femininas do biquine, das piscinas e praias do verão ibérico…
Vou ter que comprar um maiô bem chic! A arte será achar um tamanho extra!
Toc-toc… não quero nem pensar!




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