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Pois sim...de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.

espirito

Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam.
É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira... mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.

Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era.
Voltaram para casa... mas então não podiam mais ser os mesmos e voltaram a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato...
Choravam todos...
Arrepiei. Chorei também.

Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.

Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.

alma

Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?
Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: "Onde estava? Por que demorou tanto?"
Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!

Ainda bem que pude - depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira - contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo.
O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora...

O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem... decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.

Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

"... Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.

Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais..."



Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai... tempo vem... ela mudou para o Multiply... eu mudei de blog... e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas... os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz...
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional... ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst...Acho que esta mudança vale um post...vou escrevê-lo depois.

cabelo branco

Pois sim... Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris... agradecer por todos esses anos de amor e paz... e fazer planos novos no caderno azul.

Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim... e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.

Angela e eu somos da mesma colheita de vinho... este mês cumprirei os 53, com muita honra...

Aí vai...


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Um elefante incomoda muita gente...
mas o meu cabelo incomoda muito mais


Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:

- Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?

Várias respostas passam pela minha cabeça:

- Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.

- Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo

- Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)

- Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.

Dependendo de como o "pedido-ordem" é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.

Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!

Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.

Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?


CABELOS BRANCOS

Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.

Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.

COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.

Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção "Forever Young" seja mais uma praga do que um bom desejo.*

Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.

Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?

Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!

E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.

Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!

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Muito bom, Angela! Isso mesmo!

Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!




Alegría,
hoja verde
caída en la ventana,
minúscula
claridad
recién nacida,
elefante sonoro,
deslumbrante
moneda,
a veces
ráfaga quebradiza,
pero
más bien
pan permanente,
esperanza cumplida,
deber desarrollado.
Te desdeñé, alegría.
Fui mal aconsejado.
La luna
me llevó por sus caminos.
Los antiguos poetas
me prestaron anteojos
y junto a cada cosa
un nimbo oscuro
puse,
sobre la flor una corona negra,
sobre la boca amada
un triste beso.
Aún es temprano.
Déjame arrepentirme.
Pensé que solamente
si quemaba
mi corazón
la zarza del tormento,
si mojaba la lluvia
mi vestido
en la comarca cárdena del luto,
si cerraba
los ojos a la rosa
y tocaba la herida,
si compartía todos los dolores,
yo ayudaba a los hombres.
No fui justo.
Equivoqué mis pasos
y hoy te llamo, alegría.

Como la tierra
eres
necesaria.

Como el fuego
sustentas
los hogares.

Como el pan
eres pura.

Como el agua de un río
eres sonora.

Como una abeja
repartes miel volando.

Alegría,
fui un joven taciturno,
hallé tu cabellera
escandalosa.

No era verdad, lo supe
cuando en mi pecho
desató su cascada.


Hoy, alegría,
encontrada en la calle,
lejos de todo libro,
acompáñame:

contigo
quiero ir de casa en casa,
quiero ir de pueblo en pueblo,
de bandera en bandera.
No eres para mí solo.
A las islas iremos,
a los mares.
A las minas iremos,
a los bosques.
No sólo leñadores solitarios,
pobres lavanderas
o erizados, augustos
picapedreros,
me van a recibir con tus racimos,
sino los congregados,
los reunidos,
los sindicatos de mar o madera,
los valientes muchachos
en su lucha.

pierrot test2.JPG
Contigo por el mundo!
Con mi canto!
Con el vuelo entreabierto
de la estrella,
y con el regocijo
de la espuma!


Voy a cumplir con todos
porque debo
a todos mi alegría.

No se sorprenda nadie porque quiero
entregar a los hombres
los dones de la tierra,
porque aprendí luchando
que es mi deber terrestre
propagar la alegría.
Y cumplo mi destino con mi canto.

Pabro Neruda

( Uma tentativa de tradução: Alegria, folha verde caída na janela, minúscula claridade recem nascida, elefante sonoro, deslumbrante moeda, ás vezes ráfaga quebradiça, mas bem pão permanente, esperança cumprida, dever desenvolvido.
Te desdenhei, alegria. Fui mal aconselhado.
A lua me levou por seus caminhos. Os antigos poetas me emprestaram tapa-olhos e junto a cada coisa uma nuvem escura pus, sobre a flor uma coroa negra, sobre a boca amada um triste beijo.
Ainda é cedo. Deixa-me arrepender-me. Pensei que somente se queimava meu coração a planta espinhosa do tormento, se molhava a chuva meu vestido na área manchada de luto. Se cerrava os olhos à rosa e tocava a ferida, se compartilhava todas as dores, eu ajudava os homens.
Não fui justo, equivoquei meus passos e hoje te chamo, alegria.
Como a terra és necessária.. Como o fogo sustentas os lares, como o pão és pura, como a água de um rio és sonora, como uma abelha repartes mel voando.
Alegria, fui um jovem taciturno, descobri tua cabeleira escandalosa. Não era verdade, o soube quando em meu peito desatou sua cascata.
Hoje, alegria, encontrada na rua, longe de todo livro, acompanha-me: contigo quero ir de casa em casa, quero ir de povoado em povoado, de bandeira em bandeira.
Não és para mim somente. Às ilhas iremos, aos mares, às minas iremos, aos bosques.
Não só lenhadores solitários, pobres lavadeiras ou eriçados, respeitosos picadores de pedras, me vão receber com seus racimos, senão os congregados, os reunidos, os sindicatos de mar ou madeira os valentes rapazes em sua luta.
Contigo pelo mundo com meu canto! Com o voo entreaberto da estrela, e com o regozijo da espuma! Vou cumprir com todos porque devo a todos minha alegria
Não se surpreenda ninguém porque quero entregar aos homens os dons da terra porque aprendi lutando que é meu dever terrestre propagar minha alegria.
E cumpro meu destino com meu canto.)





Uma das chaves da felicidade é saber agradecer à vida.

Feliz Ano Novo, amigos!






Para minha amiga, Matilde Rodriguez.

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Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes



Onde está Deus, ainda que ele não exista?

nino.jpg
Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa, de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo… E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído das chamas no lar…Um calor no inverno…Um extravío suave de minha consciência… E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho – com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio nas esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia. De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. As vezes, de noite, quando me sento sozinho, o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim, que talvez não seja nunca esse pai de minha alma… Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria, e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos? Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto… Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido… E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado… Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono! Vai buscar, oh vento, minha Mãe. Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…Volta a dar-me, oh Silêncio, minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”


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Bernardo Soares, em O LIVRO DO DESASSOSSEGO.

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Que soco no estômago! Que dor! Fiquei querendo ser mãe desta criatura, ser sua deusa,seu colo...
Então recordo que minha filha escreveu assim: "Mãe, tu és a melhor invenção do universo!"
E eu agradeci por ter podido ser, pelo menos em parte, o que ela precisava.
Obrigada, minha linda. Você também é minha deusa, meu regaço imenso, minha estrela mais brilhante, minha canção de ninar, minha alegria...

Update:
Amigos blogueiros avisaram-me que o texto não faz parte dos escritos de Fernando Pessoa, nem de seus heterônimos. Bem que procurei nos meus livros e não achei nada.
Ainda não entendi como pode uma pessoa escrever um texto tão bom e não assumir sua autoria! Se alguém souber a quem pertence, por favor avise-me.
Obrigada a Manoel Carlos e Meg.

Update feliz: Meus queridos amigos, o texto é MESMO de Fernando Pessoa. é com imenso prazer que ponho de volta sua assinatura embaixo do fragmento do texto publicado.
Obrigada a Luis Madureyra e Bill.



de Ferreira Gullar


Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.

Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
narciso.jpg
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.

Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.

O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.


Ps. Imagem = Narciso - Caravaggio



“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...”

“Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma”.

Mais uma vez fala Riobaldo, em Grande Sertão, Veredas.
João Guimarães Rosa,


*********************************************************
E como Il Postino, uso mais uma poesia para falar por mim. Para que não nos esqueçamos nunca que somos partes, e que elas podem, às vezes, confundir-se e desencontrar-se. Para traduzi-las e compreendê-las...é preciso arte.

Traduzir-se

de Ferreira Gullar

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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.


Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Este post, escrito pelo Inagaki, precisa ser lido por quem deseja estar informado sobre os acontecimentos que cercam a morte e a não-morte da Meg.



Olho pela vidraça e encontro seus olhos assustados...
Um enorme gato preto ronda meu jardim, o terraço, os bancos sob os frondosos prunos.
Gato preto e silvestre. Grande como um filhote de tigre.
Tenho pena do bichano. Sua liberdade de felino sem dono já se transformou em solidão. Ele vem rondando a casa, como quem pede família e carinho...

Bem que eu gostaria de um gatinho. Mas tenho um lobo em casa não gosta dos bichinhos...

Vou dar para ele ( o lobo ) um poema do Ferreira Gullar.

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O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença - é carinho.




v e r b e a t b l o g s

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