setembro 1, 2008
Eu também... eu também...
Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai... tempo vem... ela mudou para o Multiply... eu mudei de blog... e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas... os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz...
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional... ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst...Acho que esta mudança vale um post...vou escrevê-lo depois.
Pois sim... Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris... agradecer por todos esses anos de amor e paz... e fazer planos novos no caderno azul.
Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim... e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.
Angela e eu somos da mesma colheita de vinho... este mês cumprirei os 53, com muita honra...
Aí vai...
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Um elefante incomoda muita gente...
mas o meu cabelo incomoda muito mais
Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:
- Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?
Várias respostas passam pela minha cabeça:
- Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.
- Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo
- Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)
- Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.
Dependendo de como o "pedido-ordem" é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.
Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!
Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.
Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?
Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.
Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.
COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.
Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção "Forever Young" seja mais uma praga do que um bom desejo.*
Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.
Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?
Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!
E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.
Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!
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Muito bom, Angela! Isso mesmo!
Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!
Posted by norab at 3:13 PM | Comments (6)
fevereiro 17, 2008
Oda a Alegria...
Alegría,
hoja verde
caída en la ventana,
minúscula
claridad
recién nacida,
elefante sonoro,
deslumbrante
moneda,
a veces
ráfaga quebradiza,
pero
más bien
pan permanente,
esperanza cumplida,
deber desarrollado.
Te desdeñé, alegría.
Fui mal aconsejado.
La luna
me llevó por sus caminos.
Los antiguos poetas
me prestaron anteojos
y junto a cada cosa
un nimbo oscuro
puse,
sobre la flor una corona negra,
sobre la boca amada
un triste beso.
Aún es temprano.
Déjame arrepentirme.
Pensé que solamente
si quemaba
mi corazón
la zarza del tormento,
si mojaba la lluvia
mi vestido
en la comarca cárdena del luto,
si cerraba
los ojos a la rosa
y tocaba la herida,
si compartía todos los dolores,
yo ayudaba a los hombres.
No fui justo.
Equivoqué mis pasos
y hoy te llamo, alegría.
Como la tierra
eres
necesaria.
Como el fuego
sustentas
los hogares.
Como el pan
eres pura.
Como el agua de un río
eres sonora.
Como una abeja
repartes miel volando.
Alegría,
fui un joven taciturno,
hallé tu cabellera
escandalosa.
No era verdad, lo supe
cuando en mi pecho
desató su cascada.
Hoy, alegría,
encontrada en la calle,
lejos de todo libro,
acompáñame:
contigo
quiero ir de casa en casa,
quiero ir de pueblo en pueblo,
de bandera en bandera.
No eres para mí solo.
A las islas iremos,
a los mares.
A las minas iremos,
a los bosques.
No sólo leñadores solitarios,
pobres lavanderas
o erizados, augustos
picapedreros,
me van a recibir con tus racimos,
sino los congregados,
los reunidos,
los sindicatos de mar o madera,
los valientes muchachos
en su lucha.
Contigo por el mundo!
Con mi canto!
Con el vuelo entreabierto
de la estrella,
y con el regocijo
de la espuma!
Voy a cumplir con todos
porque debo
a todos mi alegría.
No se sorprenda nadie porque quiero
entregar a los hombres
los dones de la tierra,
porque aprendí luchando
que es mi deber terrestre
propagar la alegría.
Y cumplo mi destino con mi canto.
Pabro Neruda
( Uma tentativa de tradução: Alegria, folha verde caída na janela, minúscula claridade recem nascida, elefante sonoro, deslumbrante moeda, ás vezes ráfaga quebradiça, mas bem pão permanente, esperança cumprida, dever desenvolvido.
Te desdenhei, alegria. Fui mal aconselhado.
A lua me levou por seus caminhos. Os antigos poetas me emprestaram tapa-olhos e junto a cada coisa uma nuvem escura pus, sobre a flor uma coroa negra, sobre a boca amada um triste beijo.
Ainda é cedo. Deixa-me arrepender-me. Pensei que somente se queimava meu coração a planta espinhosa do tormento, se molhava a chuva meu vestido na área manchada de luto. Se cerrava os olhos à rosa e tocava a ferida, se compartilhava todas as dores, eu ajudava os homens.
Não fui justo, equivoquei meus passos e hoje te chamo, alegria.
Como a terra és necessária.. Como o fogo sustentas os lares, como o pão és pura, como a água de um rio és sonora, como uma abelha repartes mel voando.
Alegria, fui um jovem taciturno, descobri tua cabeleira escandalosa. Não era verdade, o soube quando em meu peito desatou sua cascata.
Hoje, alegria, encontrada na rua, longe de todo livro, acompanha-me: contigo quero ir de casa em casa, quero ir de povoado em povoado, de bandeira em bandeira.
Não és para mim somente. Às ilhas iremos, aos mares, às minas iremos, aos bosques.
Não só lenhadores solitários, pobres lavadeiras ou eriçados, respeitosos picadores de pedras, me vão receber com seus racimos, senão os congregados, os reunidos, os sindicatos de mar ou madeira os valentes rapazes em sua luta.
Contigo pelo mundo com meu canto! Com o voo entreaberto da estrela, e com o regozijo da espuma! Vou cumprir com todos porque devo a todos minha alegria
Não se surpreenda ninguém porque quero entregar aos homens os dons da terra porque aprendi lutando que é meu dever terrestre propagar minha alegria.
E cumpro meu destino com meu canto.)
Posted by norab at 6:18 PM | Comments (6)
janeiro 1, 2008
Eu Também Agradeço...
Uma das chaves da felicidade é saber agradecer à vida.
Feliz Ano Novo, amigos!
Posted by norab at 1:41 PM | Comments (13)
dezembro 13, 2007
Um Presente...
Posted by norab at 11:10 PM | Comments (16)
julho 18, 2007
Por todos os amores perdidos...
Para minha amiga, Matilde Rodriguez.

Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes
Posted by norab at 10:08 PM | Comments (9)
maio 3, 2007
A Solidão é fera... a Solidão devora...
Onde está Deus, ainda que ele não exista?

Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa, de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo… E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído das chamas no lar…Um calor no inverno…Um extravío suave de minha consciência… E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho – com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio nas esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia. De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. As vezes, de noite, quando me sento sozinho, o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim, que talvez não seja nunca esse pai de minha alma… Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria, e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos? Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto… Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido… E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado… Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono! Vai buscar, oh vento, minha Mãe. Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…Volta a dar-me, oh Silêncio, minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”

Bernardo Soares, em O LIVRO DO DESASSOSSEGO.
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Que soco no estômago! Que dor! Fiquei querendo ser mãe desta criatura, ser sua deusa,seu colo...
Então recordo que minha filha escreveu assim: "Mãe, tu és a melhor invenção do universo!"
E eu agradeci por ter podido ser, pelo menos em parte, o que ela precisava.
Obrigada, minha linda. Você também é minha deusa, meu regaço imenso, minha estrela mais brilhante, minha canção de ninar, minha alegria...
Update:
Amigos blogueiros avisaram-me que o texto não faz parte dos escritos de Fernando Pessoa, nem de seus heterônimos. Bem que procurei nos meus livros e não achei nada.
Ainda não entendi como pode uma pessoa escrever um texto tão bom e não assumir sua autoria! Se alguém souber a quem pertence, por favor avise-me.
Obrigada a Manoel Carlos e Meg.
Update feliz: Meus queridos amigos, o texto é MESMO de Fernando Pessoa. é com imenso prazer que ponho de volta sua assinatura embaixo do fragmento do texto publicado.
Obrigada a Luis Madureyra e Bill.
Posted by norab at 3:03 PM | Comments (21)
fevereiro 1, 2007
Narciso e Narciso...
de Ferreira Gullar
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.

E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
- e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.
Ps. Imagem = Narciso - Caravaggio
Posted by norab at 12:45 PM | Comments (7)
janeiro 27, 2007
Recados ...
“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado...”
“Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma”.
Mais uma vez fala Riobaldo, em Grande Sertão, Veredas.
João Guimarães Rosa,
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E como Il Postino, uso mais uma poesia para falar por mim. Para que não nos esqueçamos nunca que somos partes, e que elas podem, às vezes, confundir-se e desencontrar-se. Para traduzi-las e compreendê-las...é preciso arte.
Traduzir-se
de Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Este post, escrito pelo Inagaki, precisa ser lido por quem deseja estar informado sobre os acontecimentos que cercam a morte e a não-morte da Meg.
Posted by norab at 8:38 PM | Comments (5)
junho 16, 2006
O Gato...
Olho pela vidraça e encontro seus olhos assustados...
Um enorme gato preto ronda meu jardim, o terraço, os bancos sob os frondosos prunos.
Gato preto e silvestre. Grande como um filhote de tigre.
Tenho pena do bichano. Sua liberdade de felino sem dono já se transformou em solidão. Ele vem rondando a casa, como quem pede família e carinho...
Bem que eu gostaria de um gatinho. Mas tenho um lobo em casa não gosta dos bichinhos...
Vou dar para ele ( o lobo ) um poema do Ferreira Gullar.

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.
É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.
No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.
Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença - é carinho.
Posted by norab at 1:59 PM | Comments (22)
abril 23, 2006
Terra...
Sábado, dia 22 de Abril comemorou-se o dia da Terra.
Lúcia Malla sugeriu uma blogagem coletiva para o dia... e eu, como sempre, atrasada... só pude publicar agora.
Para ser muito sincera, eu não ia postar nada justamente por estar atrasada na data...

Mas não pude deixar passar uma imagem tão especial como esta.
Não sei quem é o autor, se alguém souber avise-me.
Para acompanhar, sugiro um trecho da música Terra, de Caetano Veloso
"Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemento terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada,através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?"
Posted by norab at 10:18 PM | Comments (8)
abril 3, 2006
A Janela…
Domingo na casa de colunas.
Fazenda de cabras, flores e uma casa tranquila.
Um papagaio inquieto a andar de um canto para o outro no terraço, resmungando palavras incompreensíveis.
Música numa radiola do tempo da guerra: Augusto Patativa, o cantor da voz tremida.
Dr. Diniz nos mostra sua casa ensolarada, os empregados, sua solidão e uma janela.

- Aquela janela? É a mesma deste retrato aqui. Ela ficou pequena com o tempo, mas é a mesma. A moça era uma namorada que tive, sabem, eh,eh, quando era jovem. Faz muito tempo. Eu passava pela casa dela todas as tardes, e ela ficava na janela, nesta mesma janela, como no retrato.
- Era bonita. Muito bonita. Ele disse.
- Não casou com ela?
- Não. Ela já se foi. Disse abreviadamente. Mas ficou a casa. Sabem, eu não pude comprar a casa em que ela morou. Iam demolir, fiquei esperando, então comprei a janela.
- A fotografia? Paguei a Júlio Fotógrafo. Ele foi lá escondido e… plact! Custou-me dois contos a ousadia. Mas vale a pena. Não é linda?
-Tanto a foto como a janela.
- Não, a janela já não é mais. Ficou pequena. Antigamente era bem maior.
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Texto do livro A Idade da Pedra, um encantador e lindo presente que recebi de seu autor, meu amigo Luis Manoel Siqueira, Menção Honrosa Premio Othon Bezerra de Melo da Academia Pernambucana de Letras, 1990.
Por sinal, estou enamorada do livro do Luis Manoel. Seu livro é uma delícia do começo ao fim.
Depois vou publicar um post sobre essas alegrias que o blog tem me proporcionado.
Antes eu recebia um presente assim e ficava com pudores de publicar algo sobre eles, como se estivesse "expondo" demais as pessoas que me presenteavam. Agradecia por e-mail, como para protegê-los. Que grande bobagem!
Acho , agora que estou mais a vontade neste blog, que estava sendo até uma injustiça não compartilhar com todos as delicadezas que recebo aqui na Espanha, vindas de adoráveis leitores brasileiros que frequentam esta página.
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Quadro de Nicoletta Tomas Caravia . Uma pintora autodidata, bárbara, doce, sensível. Uma das minhas últimas descobertas.
Posted by norab at 9:37 PM | Comments (7)
fevereiro 28, 2006
Pensando em Garcia Marquez...
"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.

Macondo era então uma aldeia de vinte casas de taipa construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.
O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo.”
E eu, longe da minha Macondo, de seus cheiros de começo de vida, seus meninos cinzentos e descalços, o barulho dos batuques nas latas, a "La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro"...o calor úmido das margens do rio, os risos, o tum-tum do coração no ritmo das latas... as pedras portuguesas no chão quente...
Quanto tempo ?
Agora olha eu aqui... apontando com o dedo para algumas coisas em meu novo Macondo: CLIMA DE CARNAVAL = NEVE
*Foto: no jardim de casa.
Posted by norab at 6:48 PM | Comments (19)
janeiro 31, 2006
Ah... Os Invernos!
Está nevando. Como um presente tardio da borrasca que quatro dias atrás invadiu toda a Espanha, menos o pedacinho de céu sobre a minha casa. A neve despencou com generosa beleza até nas areias do Mar Cantábrio, mas em Madrid não quis dar o ar de sua graça.
Hoje sim. Hoje um restinho de poeira branca e gelada cobre todo o meu jardim e convida a um passeio que se não fosse já tão tarde para arvorar-me por dentro dos pinheiros pintados de branco e prata, não resistiria ao chamado. Fui dar uma espiada lá fora e descobri pegadas de raposa bem diante do meu terraço. Sim, isso mesmo. Aqui moram raposas de verdade. Ruivas.
Melhor aproveitar a proteção do invernadeiro e suas enormes vidraças transparentes para admirar o espetáculo, um bom Neruda nas mãos, nas costas a manta de lã macia, pés dentro de meias coloridas e Mozart dando um concerto privado para mim e minhas azaléias e gardênias, lindas apesar do frio. Assim está bom.
Aí encontrei um poema que precisava vir parar aqui. Está no livro Estravagario do grande poeta chileno, minha paixão de toda a vida, meu inspirador para encontrar o caminho do amor, mesmo sem me chamar Matilde.
O poema chama-se Sucedió en Inverno. (Traduzo no final do post se preferirem ler em Português.) E chamou-me a atenção porque reconheci a flor que apesar do profundo adormecimento do abandono, dentro da minha casa ( meu eu ) insistiu em buscar a própria primavera.
Sucedió en Invierno
No había nadie en aquella casa.
Yo estaba invitado y entré.
Me habia invitado un rumor,
un peregrino sin presencia,
y el salón estaba vacío
y me miraban con desdén
los agujeros de la alfombra.
Los estantes estaban rotos.
Era el otoño de los libros
que volaban hoja por hoja.
En la cocina dolorosa
revoloteaban cosas grises,
tétricos papeles cansados,
alas de cebolla muerta.
Alguna silla me siguió
como un pobre caballo cojo
desprovisto de cola y crines,
con tres únicas, tristes patas,
y en la mesa me recliné
porque allí estuvo la alegria,
el pan, el vino, el estofado,
las conversasiones con ropa,
con indiferentes oficios,
con casamientos delicados:
pero estaba muda la mesa
como si no tuviera lengua.
Los dormitorios se asustaron
cuando yo traspuse el silencio.
Allí quedaron encallados
con sus desdichas y sus sueños,
porque tal vez los durmientes
allí se quedaron despiertos:
desde allí entraron en la muerte,
se desmantelaron las camas
y murieron los dormitorios
con un naufragio de navío.
Me senté en el jardin mojado
por gruesas goteras de invierno
y me parecia imposible
que debajo de la tristeza,
de la podrida soledad,
trabajaran aún las raíces
sin el estímulo de nadie.
Sin embargo entre vidrios rotos
y fragmentos sucios de yeso
iba a nacer uma flor:
no renuncia, por desdeñada,
a su pasión, la primavera.
Cuando salí crujió una puerta
y sacudidas por el viento
relincharon unas ventanas
como si quisieran partir
a otra república, a otro invierno,
donde la luz y las cortinas
tuvieran color de cerveza.
Y yo apresuré mis zapatos
porque si me hubiera dormido
y me cubrieran tales cosas
no sabría lo que no hacer.
Y me escapé como un intruso
que vio lo que no debió ver.
Por eso a nadie conté nunca
esta visita que no hice:
no existe esa casa tampoco
y no conosco aquellas gentes
y no hay verdad en esta fábula:
son melancolías de invierno.
**********************************

Aconteceu no Inverno
Não havia ninguém naquela casa. Eu estava convidado e entrei. Havia me convidado um rumor, um peregrino sem presença, e o salão estava vazio e me olhavam com desdém os buracos do tapete.As estantes estavam quebradas. Era o outono dos livros que voavam folha por folha. Na cozinha dolorosa revoloteavam coisas cinzentas, tétricos papéis cansados, asas de cebola morta. Alguma cadeira me seguiu como um pobre cavalo manco desprovido de cauda e crina, com três únicas, tristes patas, e na mesa me reclinei porque ali esteve a alegria, o pão, o vinho, o ensopado, as conversas com roupa, com indiferentes ofícios, com casamentos delicados: mas estava muda a mesa como se não tivesse língua. Os dormitórios se assustaram quando eu atravessei o silêncio.
Ali ficaram encalhados com suas desditas e seus sonhos porque talvez os dormidos ali se despertaram: desde ali entraram na morte, se desmantelaram as camas e morreram os dormitórios com um naufrágio de navio.
Sentei-me no jardim molhado por grossas goteiras de inverno e me parecia impossível que debaixo da tristeza, da podre solidão, trabalhassem ainda as raízes sem o estímulo de ninguém. Sem embargo entre vidros quebrados e fragmentos sujos de gesso ia nascer uma flor: não renuncia, por desdenhada, à sua paixão, a primavera.
Quando saí rangeu uma porta e sacudidas pelo vento relincharam umas janelas como se quisessem partir a outra república, a outro inverno, onde a luz das cortinas tivessem cor de cerveja.
E eu apressei meus sapatos porque se tivesse dormido e me cobrissem tais coisas não saberia o que não fazer. E escapei como um intruso que viu o que não devia ver.
Por isso nunca contei a ninguém esta visita que não fiz: não existe essa casa tampouco e não conheço aquelas pessoas e não há verdade nesta fábula:
são melancolias de inverno.
Pablo Neruda em Estravagario
( Tradução minha )
Posted by norab at 12:22 AM | Comments (20)
janeiro 26, 2006
Acho que Não Sei...

<< Um dia nasceu em sua alma o desejo de modelar a estátua do “Prazer que dura um instante”. E partiu pelo mundo para buscar o bronze, pois só em bronze imaginava conceber suas obras.
Mas o bronze do mundo inteiro havia desaparecido e em nenhuma parte da terra podia encontrar-se, exceto o bronze da estátua da “Dor que se sofre toda a vida”.
E era ele mesmo com suas próprias mãos quem havia modelado essa estátua, colocando-a sobre a tumba do único ser que amou em sua vida.
Sobre a tumba do ser amado colocou aquela estátua que era sua criação, para que fosse mostra do amor do homem que não morre nunca e como símbolo da dor do homem, que a sofre por toda a vida.

E no mundo inteiro não havia mais bronze que o daquela estátua.
Então, pegou a estátua que havia criado, colocou-a em um grande forno e entregou-a ao fogo.
E com o bronze da estátua da “Dor que se sofre por toda a vida” modelou a estátua do “Prazer que dura um instante”.>>
Poesia em prosa de Oscar Wilde
Esse texto é para quem vive intensamente o aqui e agora. Mas também para os que compreendem o que significa reviver as antigas emoções com força quando escutam uma música, relêem uma carta, revisam um velha caixa de fotografias.
Minha filha acaba de chegar do Brasil. Trouxe-me antigas vidas minhas nos pratos que foram da Princesa, livros cheios de pequenos bilhetes, riscos no ar de histórias que não lembrava mais que eram minhas... e fotos. Muitas fotos. Todas as fotos que sobreviveram aos anos...
Imaginem a bagunça no meu coração!
Posted by norab at 1:49 PM | Comments (11)
janeiro 24, 2006
Crepuscular...
Pegou o chápeu, embrulhou o sol, então nunca mais amanheceu.
Menalton Braff

Em:Os cem menores contos brasileiros do século.
Organização: Marcelino Freire
Copy and Paste from Et Alors
Posted by norab at 10:43 AM | Comments (5)
janeiro 11, 2006
Ano Novo...
Estou em plena crise de Janeiro.
Depois de uma semana em Tarifa, entre os novos outros da minha vida, mais uma vez cruzei as horas que separam a "noche vieja" do "año nuevo". Desta vez estava bem diante do Estreito de Gibraltar, feliz por estar com olhos-de-mar-azul ( e sempre e sempre! ) e triste por estar mais um Dezembro tão longe de meu lugar, dos meus outros de antes.
Voltei mas ainda não me recuperei do mergulho na saudade.
Agradeço com a alma dissolvida numa colher de sopa ( sensibilidade à flor da pele) os beijos e carinhos deixados aqui por tantos queridos e queridas. Eu ando que nem Zeca Baleiro, qualquer beijo de "propaganda" me faz chorar. Aqui não vejo novelas. E mire-veja, nunca pensei que teria saudades até delas!
Aqui faz um frio de três graus. Talvez neve esta noite. A neve não faz ruído. O céu também sabe chorar em silêncio nas noites frias, embora diga-se que um bom pranto necessita de algum gemido, por pequeno que seja.
Pois sim...
Ando tão Janeiro!
Entre um ou outro pranto e belos cantos ( ganhei muita música de presente de natal ) deixo-me estar assim por mais uns dias. Organizando a casa, a simbólica e a real, curtindo o frio e a lareira, as muitas saudades, os novos livros...
Cada livro maravilhoso! Depois eu conto sobre eles. Prometo.
E vou voltar a escrever sobre o Lorde e a Princesa, sobre o passado do rio e do Poço da Panela, sobre as histórias que me construíram. Algumas só agora fazem sentido!
Como Janeiro é meio assim-assim pra muita gente, deixo aqui dois fragmentos de Julio Cortázar, para usar um e outro à medida da necessidade de cada um.
Entre ambos, um momento de silêncio enquanto se cozinha ou se põe água nas plantas é recomendável.
Essas crises de nostalgia pedem um tempo de algum silêncio.
Segue a graça e a beleza poética de um mago das palavras...

Instruções para chorar.
"Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mocos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto resulta-lhe impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou em esses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência em um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos. "
Esse homem dizia cada coisa!
Se a gente está meio monga, meio assim-assim mergulha em cada lago-palavra que ele escrevia e fica lá no fundo, surpresa com tanto de silêncio contido nelas !
Mas... volta e meia eu canto.

Instruções para Cantar.
"Comece por romper os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça-se. Cante uma só nota, escute por dentro. Se ouve (mas isto ocorrerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas semi nuas acocoradas, creio que estará bem encaminhado, e o mesmo se ouve um rio por onde descem barcas pintadas de amarelo e negro, se ouve um sabor pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo. Depois compre solfejos e um fraque, e por favor no cante pelo nariz e deixe em paz a Schumann."
É verdade que eu não segui isto tão à risca, de forma que Schumann está aqui ao lado e... ainda não tive a coragem de quebrar os espelhos.
Se bem que deveria. Ah sim... deveria sim!
Ps* Paciência comigo. Não desapareçam.
Posted by norab at 5:51 PM | Comments (29)
agosto 7, 2005
O Almoço...
Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem... medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros... distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
..............

"Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover - tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte."
Posted by norab at 6:17 PM | Comments (14)
junho 3, 2005
Felicidade Clandestina...
Esta história, escrita por Clarice Lispector, foi publicada por uma amiga em sua página, a Sonja. Pedi emprestada imediatamente. Porque ela parece minha...
Não, porque ela é minha!
Menos pela des-amiga cruel, e não que não as tivesse!
Casa Forte era reduto da burguesia recifense... e sempre havia alguma diabólica filha de abastado senhor que aproveitava sua posição privilegiada para humilhar os que não tinham muitas posses, mas viviam em "seu" bairro.
Também não é pela coincidência de que Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que ganhei. Um livro meu!? Haja felicidade!
E porque o Lorde, às vezes, chamava-me de Narizinho Arrebitado, que para mim era um elogio e tanto! Mais do que quando me disseram, muitos anos depois, que eu parecia com Florinda Bolkan!!!
Digo que a história é minha porque descreve o que é felicidade clandestina...
Descreve, como eu já descrevi, o que era deixar um envelope cerrado sobre a mesa e fazer de conta que ele não estava ali ainda...
Descreve o que era sentar na rede e adiar a felicidade guardada em poucas frases...
Quem leu a História de Amor, escrita neste blog, sabe do que estou falando!
Ah! Essa Clarice!
*******************************
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.

Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser."
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector
Posted by norab at 5:58 PM | Comments (17)
maio 17, 2005
Adiamento...
Pois...
Sento-me aqui em frente à folha em branco do word e escrevo reticências...
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.
O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente...
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
........................................
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...
Álvaro de Campos
Posted by norab at 4:40 PM | Comments (17)
abril 17, 2005
Ítaca...
Uma amiga brasileira escreveu-me perguntando o que significava Ítaca. É que em um dos meus textos sobre a história de amor que eu vivi,e que está nos arquivos aí ao lado, ela leu uma citação à famosa poesia do poeta grego Konstantinos Kaváfis.
Resolvi publicá-la aqui. Não só para ela, mas também para todos os amigos que frequentam esta página.
Mesmo já conhecendo-o, é sempre bom reler belos poemas. É sempre bom rever nossas posições nesta viagem fantástica e complexa que é a vida.
Chegar a esse momento da minha não foi nem fácil nem simples. Mas valeu viver cada fase do caminho...
Escute-a...Não tenham pressa de chegar a Ítaca. O caminho vale pelo que ensina.
*Em especial dedico este post a Meg, minha tristonha amiga paulista e a Sherazade, que está construindo a sua casa.
Dedico também a mim mesma, que estou reconstruindo minha casa virtual aqui.
**Prefiro a tradução em Espanhol, talvez por ter sido a primeira que li e que me apaixonou. Mas para quem não compreende o idioma, há uma tradução brasileira ao final do poema.
Desfrutem comigo...
*****************************

Si vas a emprender el viaje hacia Itaca,
pide que tu camino sea largo,
rico en experiencias, en conocimiento.
A Lestrigones y a Cíclopes,
al airado Poseidón nunca temas,
no hallarás tales seres en tu ruta
si alto es tu pensamiento y limpia
la emoción de tu espíritu y tu cuerpo.
A Lestrigones ni a Cíclopes,
ni a fiero Poseidón hallarás nunca,
si no los llevas dentro de tu alma,
si no es tu alma quien ante tí los pone.
Pide que tu camino sea largo.
Que numerosas sean las mañanas de verano
en que con placer, felizmente
arribes a bahías nunca vistas;
detente en los emporios de Fenicia
y adquiere hermosas mercancías,
madreperla y coral, y ámbar y ébano,
perfumes deliciosos y diversos,
cuanto puedas invierte en voluptuosos
y delicados perfumes;
visita muchas ciudades de Egipto
y con avidez aprende de sus sabios.
Ten siempre a Itaca en la memoria.
Llegar allí es tu meta.
Mas no apresures el viaje.
Mejor que se extienda largos años;
y en tu vejez arribes a la isla
con cuanto hayas ganado en el camino,
sin esperar que Itaca te enriquezca.
Itaca te regaló un hermoso viaje.
Sin ella el camino no hubieras emprendido.
Mas ninguna otra cosa puede darte.
Aunque pobre la encuentres,
no te engañará Itaca.
Rico en saber y en vida, como has vuelto,
comprendes ya qué significan las Itacas.
Konstantinos Kaváfis
Se partires um dia rumo a Ítaca faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem os Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrarás se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver, se tu mesmo não o levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda espécie,quando houver, de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.
Tradução de José Paulo Paes
Posted by norab at 10:36 PM | Comments (10)
abril 7, 2005
Aviso...
Estou me sentindo tão bem nesta casa nova que fico passeando daqui pra lá, de lá pra cá... pensando que sou mesmo uma mulher de sorte.
O pessoal da Verbeat é nota dez. Obrigada pela acolhida!
Também estou tendo mais tempo para voltar a visitar com mais constância os blogs amigos. Em breve vou escrever sobre alguns deles.
Hoje quero apenas fazer referência ao Et Alors, da amiga Alma. Um blog que visito há mais de ano e sempre encontro textos interessantes, sensíveis e fortes.
Este que vou reproduzir aqui ( é a primeira vez que trago um texto de outro blog para o meu ) particularmente me encantou. Trouxe-me lembranças da Princesa, minha mãe. Trouxe-me sentimentos doces em relação às pequenas liberdades adquiridas com a velhice...

AVISO
Jenny Joseph
Quando envelhecer vou usar púrpura
com chapéu vermelho,
que não combina
nem fica bem em mim.
Vou gastar a pensão em uísque
e luvas de verão
e sandálias de cetim -
e dizer que não temos
dinheiro para a manteiga.
Vou sentar na calçada
quando me cansar e
devorar as ofertas
do supermercado,
tocar as campainhas
e passar a bengala nas grades das praças
e compensar toda a sobriedade da minha juventude.
Vou andar na chuva de chinelos,
apanhar flores no jardim dos outros
e aprender a cuspir.
A gente pode usar camisas horríveis e engordar,
comer um quilo de salsichas de uma vez
ou só pão com picles a semana inteira
e juntar canetas e lápis e bolachas de cerveja
e coisas em caixinhas.
Mas agora temos que usar roupas que nos deixem secos,
pagar aluguel, não dizer palavrão na rua
e ser bom exemplo para as crianças.
Temos de ler o jornal e convidar amigos para jantar.
Mas quem sabe eu devia treinar um pouco agora?
Assim os outros não vão ficar chocados demais
quando de repente eu for velha e usar vestido púrpura.
In Quando envelhecer vou usar púrpura, organizado por Sandra Haldeman Martz, tradução de Lya Luft, Ed. Marco Zero, São Paulo, 1997, p.13.
Posted by norab at 8:44 AM | Comments (16)
março 20, 2005
Em Todo Deserto Há um Poço...

Sí cada día cae,
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad esta prisionera.
Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caída
con paciencia.
Pablo Neruda (Últimos Sonetos)
Um dos livros mais líricos que li na vida!
*Se cada dia cai, dentro de cada noite há um poço onde a claridade está prisioneira. Há que sentar-se na borda do poço da sombra e pescar luz caída com paciência.
**Foto: Claudio F. Costa-Ilusão de Ótica
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Posted by norab at 7:04 PM | Comments (0)
fevereiro 5, 2005
Para Um Grande Amor: Recife...
Quem tem saudade
Não está sozinho
Tem o carinho
Da recordação
Por isso
Quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração.

Um sorriso
Uma frase, uma flor
Tudo é você na imaginação
Serpentina, confete...
Carnaval do amor...
Tudo é você, no coração...
Você existe
Como anjo de bondade
E me acompanha
Neste frevo de saudade
Lálálálá...
Frevo de Saudade
(Nelson Ferreira – Aldemar Paiva)
Acordei hoje lembrando dos meus magníficos Carnavais e dos amigos...
O primeiro pensamento do dia foi para o Galo da Madrugada.
Depois a saudade maior foi do Bloco da Saudade, do Quanta Ladeira, do Ceroulas, do Fudidos Porém Unidos, do Nóis sofre Mais Nóis goza, do Lili -Nem Sempre Toca Flauta, do Aurora de Amor... e tantos e tantos...
Ai!
Foto: Galo da Madrugada - Recife
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Posted by norab at 10:34 AM | Comments (0)
dezembro 12, 2004
Contagem Regressiva...
Faltam poucos dias para a partida... e pouco tempo para postar.
Escolhi então, para representar meus sentimentos, um trecho da música que soa ao ritmo de meu coração...
A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento
A ponte não é para ir nem pra voltar
A ponte é somente pra atravessar
Caminhar sobre as águas desse momento
(Lenine-Lula Queiroga)

* Foto: Recife.
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Posted by norab at 8:36 PM | Comments (0)
outubro 20, 2004
Eu Pelo Avesso...
Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:

"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço."
........................................
Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.
E então "apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente" para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!
Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.
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Posted by norab at 1:23 PM | Comments (0)
outubro 15, 2004
As Cores Dos Meu Sons...
Hoje amanheci verde e amarelo,
branco e azul, escutando Chico Buarque.
Então a cor dos meus sonhos mudou.
Hoje amanheci da cor da saudade...
..........

O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa não vai não
Em casa a roda
Já mudou, que a moda muda
A roda é triste, a roda é muda
Em volta lá da televisão
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão
No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões
Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão
O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões
A Televisão- Chico Buarque (1967)
*Post publicado no Como Shirley ... no dia dos 60 anos de Chico.
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Posted by norab at 1:57 PM | Comments (0)
Exílio...

Li num site, que encontrei por acaso, um texto que fala de exílio. Me encantei com ele.
Comparei-o um pouco com a minha saída do Brasil e minha opção de viver uma nova etapa da vida, buscando e encontrando os prazeres que ela me traz.
Sei que meus sentimentos seriam completamente diferentes se estar aqui não tivesse sido uma escolha minha e sim uma contingência da vida, uma obrigação ou pior... um castigo.
Enquanto sigo pelos caminhos dos meu novo lugar de viver, um monte perto de bonitos e minúsculos povoados, na solidão de uma tarde nebulosa e fria, sem outra companhia que a dos meus pensamentos, e surpreendo-me comparando-a com a outra solidão que eu sentia, às vezes, em plena avenida movimentada de minha cidade natal.
E penso que o exílio não é estar longe apenas de seu lugar...
É principalmente estar longe de si mesmo, de seus sonhos...de sua alma.
É viver só de memórias, de tristes saudades.
O texto diz assim:
" Quando os relógios marcam a hora invertida;quando as árvores de tua rua deixam de saudar-te e te sentes observado como uma pantera doente; quando esperas uma resposta que não chega desde o vento ausente, uma resposta daquele rosto desconhecido, de uma garrafa quebrada, uma resposta qualquer (e não chega) ; quando a distância te invade e pisas os restos de memória pelo asfalto que não reconhece teus passos; quando o vazio se empina sobre teu coração, sobre teus olhos, com a fúria calada de um sax seco; quando já não há nem ontem nem amanhã e o carteiro não vem; quando o neon te devolve uma palavra equivocada; quando o rosto dela deixa de pertencer-te... Então, moço, já não há mais escusas: algo assim é o exílio"
Não conheço o autor, mas precisava reproduzi-lo aqui. Achei suas palavras inquietantes... E pensei, mais uma vez, no por quê eu não sinto essa melancolia impotente enquanto caminho pelas ruas deste lugar.
Sinto como se este "aqui e agora" estivesse destinado para mim desde sempre e já fizesse, há muito mais tempo do que eu sabia, parte da minha história nesta vida.
Quem sabe se já não o foi em outras?
Se eu fosse a budista que queria ser, acreditaria que já vivi aqui. Infelizmente, por mais tente aprender com O Monge e o Filósofo, e admire a filosofia budista tibetana, ainda não possuo essa crença feliz de que somos uma sucessão de vidas em tempos e espaços distintos.
Quem sabe um dia...
Foto:Autumn Landscape at the Dusk-Van Gogh
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Posted by norab at 9:55 AM | Comments (0)
outubro 14, 2004
*Vem de Repente um Anjo Triste Perto de Mim...

Na volta da escada
Na volta escura da escada.
O Anjo disse o meu nome.
E o meu nome varou de lado a lado o meu peito.
E vinha um rumor distante de vozes clamando,
clamando...
Deixa-me!
Que tenho a ver com as tuas naus perdidas?
Deixa-me sozinho com os meus pássaros...
com os meus caminhos...
com as minhas nuvens...
Mário Quintana
Dediquei este post a Hilda Hilst no dia de sua morte.
*Frase do título de Renato Russo
* Foto de Taty
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Posted by norab at 1:29 PM | Comments (0)

