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A primeira vez que vi uma procissão de Semana Santa na Espanha fiquei muito impressionada. Na época, escrevi para o blog Cicatrizes da Mirada. Estávamos em 2003 e meu blog tinha mais ou menos um mês.

Não havíamos podido viajar até a Andaluzia ( região famosa pelos espetáculos sacros durante essa época ) e assistimos as procissões de Alcalá de Henares, a cidade mais próxima ao "pueblo" onde eu morava. Fiquei absolutamente encantada!

A cidade estava toda apagada, as luzes das velas jogando tons amarelados sobre os muros antigos da muralha, as sombras dos penitentes, encapuzados e vestidos com longos hábitos e capas com as cores de sua confraria, projetando-se pelas ruas. O silêncio apenas interrompido pelos sons dos tambores.
Tum-tum...tum-tum!

Sob os hábitos e os capuzes que os igualavam em forma e altura, os penitentes tinham visíveis apenas os olhos e os pés, muitos deles descalços, com grossas correntes prendidas nos tornozelos que arranhavam o asfalto num ruído mórbido... srenckmm...srenckmmm... lentamente e repetidamente....o mesmo ruído... Apesar de nossa presença, eles iam caminhando compenetrados, cumprindo suas penitências.

No começo foi dando em mim um estado de letargia...
A respiração parecia seguir o mesmo passo lento de todos... e depois era como se voltássemos no tempo... não estávamos mais aqui, no início do século XXI e sim em algum lugar de um passado sem data, sem tempo, sem hora.

Por um tempo indefinido a procissão passou... lenta, pacientemente...e meu coração quase parou.

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Eu não sou religiosa, mas respeito as crenças alheias. Gosto dos rituais litúrgicos e adoro a música sacra. Ficar em silêncio numa hora dessas é um sinal de cuidado e consideração, mesmo se as pessoas que estejam ali assistindo não tenham qualquer devoção católica.

Mas este silêncio todo, descobri depois, era fruto de um comportamento regional. Em Castilla as procissões são mais formais, mais solenes, mais medievais.
Em Andaluzia todo mundo fala, ri, joga flores e elogios às suas imagens. Se por um lado essa abertura toda é bonita... por outro dá lugar a que muita gente que está ali nem se preocupe com a procissão, converse em voz alta, grite ao telefone bem no pé do seu ouvido, fume na sua cara e beba em latas que joga pelo chão durante o desfile e, para mim, isso desvirtua o ato religioso, desrespeita o fiel e desprestigia o espetáculo.

Na minha opinião a Semana Santa da Espanha é um evento mais do que religioso. É um evento estético. É uma expressão da arte sacra. E já compreendi que esta arte faz parte da pele e do sangue deste povo.

Por uma semana completa, a Espanha inteira é um grande palco por onde desfilam as tradições católicas. Cada pequeno pueblo tem seu Cristo, sua Virgem especial.

As procissões serpenteiam pelas ruas das grandes e pequenas cidades, dia e noite, como um rosário de contas coloridas, cada uma com suas características próprias. Cada uma é única.

Essas fotos acima foram feitas em Tarifa, ao sul da Andaluzia. Ali também as pessoas não se cortam em conversar durante o cortejo ou andar por entre os penitentes, como se eles não estivessem ali.
Isso me incomodou muitíssimo.

De qualquer forma, em Tarifa, as confrarias também não se importam. Jamais vi algum penitente ou organizador impedir o passeio desrespeitoso por entre suas alas. Todas as noites da semana saem de suas igrejas e desfilam pelos becos estreitos, enfrentando o vento, o frio e o descaso da grande maioria de seus assistentes, insistindo em manter o clima de compenetração, que é quase impossível.

Desta vez eu tive pena deles . Tanto esforço, tanto sacrifício para que as pessoas passeassem por entre os círios, tropeçando em seus nazarenos, indiferentes ao seu significado.
Tarifa se enche de turistas de praia, a maioria jovens e estrangeiros. Eu entendo que não se interessem, mas bem que podiam passar por outra rua... que custa?

Meu cunhado e minhas sobrinhas participaram de duas procissões. Fiquei com um pena deles!

Mas...de qualquer forma, assistir o espetáculo sempre vale a pena. É preciso ter paciência, buscar um bom cantinho, num rua com menos movimento e exercitar a benevolência e a compaixão.

Bueno... é preciso também saber onde ir. Se quiser mais recolhimento é melhor não ir à Andaluzia.

Málaga, Cádiz, Salamanca, Ávila, Segóvia,Toledo.... todas as cidades tem seus rituais.

Zamora desfila em absoluto silêncio e quando canta é um mísere gregoriano. Lindíssimo!
Sevilla grita, chora e aplaude. Emocionante também!
Cada um com seu estilo e sua tradição.

Em qualquer lugar do país há um espetáculo imperdível, pode apostar. Por minha vontade eu iria cada ano a uma região.

Os Pasos são obras, em sua maioria, de madeira e metal. Sobre eles vai uma imagem de Virgem ou de Cristo que representam uma das muitas confrarias de uma igreja da cidade.

As Virgens são lindas, todas cobertas com rendas renascentistas e espetaculares mantos bordados, com suas lágrimas de cristal transparente, rodeadas de luzes ou velas. A gente arrepia só em vê-las passar, sofrendo todos os dias a morte de seu filho.
A mais famosa delas é a Macarena, de Sevilla.
Há lindos cantos e poesias em sua homenagem e quando ela desfila a cidade inteira está nas ruas por toda a noite. Gritam seu nome entre lágrimas: "Guapa! Guapa!" (Bela, bela!)

Os Cristos morrem em suas cruzes, pedindo ao povo que recordem sua dor.

Por baixo disso tudo, homens e mulheres vestidos com roupas reforçadas por turbantes e peças alcochoadas, levam sobre os ombros o peso de mais de mil quilos.
São os costaleiros, tradicionais em toda a Espanha. Poucas são as procissões que utilizam rodas em seus Pasos.

É belíssimo ver como se movem mais de duzentos pares de pés, dentro de suas sapatilhas de esparto, ao mesmo passo, ao mesmo ritmo, balançando-se levemente para fazer mecer o Paso e sua imagem querida.
Sobem e descem encostas, metem-se em ruas tão estreitas que pensamos que será impossível vencer o desafio, dobram-se sobre os joelhos quando precisam desviar de alguma construção mais baixa ou passar por uma porta impossível e seguem bailando, como se não sentissem o peso que carregam por muitas horas... às vezes por toda uma noite.

O Cristo ou a Virgem balançam no alto, como se viessem levitando sobre as cabeças dos fiéis. Uma mudança de ritmo da música é acompanhado por uma mudança de ritmo nos passos dos que os carregam...

Uma coisa linda! De arrepiar todos os pelinhos do corpo...

Algumas dessas imagens são obras de arte que tem um valor incalculável, além de muitas histórias, mas isso não importa muito. O simbolismo que representam é o mais valioso...

De repente, o Paso para. E de uma sacada uma mulher começa a cantar, à capela... sem música alguma que a acompanhe. É uma Saeta. Uma prece triste e ardorosa, bem ao estilo espanhol, como uma canção flamenca.

E nesse momento, os pelinhos do corpo parecem saltar para fora...
Parece, por instantes, que as gentes que desfilam e as que assistem vão, finalmente, obedecer o mais importante ensinamento de Jesus Cristo: "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei".

E eu, mesmo não sendo religiosa, agnóstica por falta de convicção, me emociono até as lágrimas...

E rezo... para que toda aquela gente que baila e canta ao seu senhor e senhora seja benevolente consigo mesma, com o próximo e também com o distante... que a compaixão seja uma prática, mais que uma canção...

*Diana Navarro é uma conhecida cantora espanhola. Amei encontrar este vídeo no iutube.

É uma maravilha poder contar com esta ajudazinha.
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"Saveiro partiu de noite, foi...
Madrugada não voltou.
O marinheiro bonito...
Sereia do mar levou."

"É Doce Morrer no Mar"- Dorival Caymmi


caymmi - por elifas andreato -

O Lorde cumpriria seus 80 anos no dia 11 desse mês. Com certeza organizou a festa mais tarde, só para esperar seu amigo. Deve ter havido um grande abraço!

Eram ambos homens da música e do mar...





Ele canta. E canta maravilhosamente! Essa interessante criatura chama-se Diego," El Cigala".
Bonito não é. Mas tem um charme inegável quando se apresenta. Diego é um dos grandes nomes do Flamenco cantado em todo o mundo.

O Flamenco é um gênero musical que espelha perfeitamente a personalidade espanhola: dramática e passional.
Graças aos traços fortemente marcados pela passagem árabe e cigana na Península Ibérica, a Espanha possui essa riqueza cultural que esbanja por todas as suas expressões artísticas.

Comecei a gostar da música flamenca escutando Paco de Lucía, no Brasil.
Depois que cheguei em Madrid, fui escutando outros, entre eles Camarón de la Isla, um mestre do gênero. Agora sou uma enamorada do canto, da dança e do toque flamencos. Estrella Moriente é uma das minhas favoritas. Escreverei sobre ela em outra ocasião.

Pois sim...

Diego é um apaixonado pelo Flamenco. Vive, chora e canta Flamenco por todos os poros. Eu adoro como ele se transforma enquanto está cantando...

Bebo&Cigala-Lagrimas Negras Mas o interessante é que ele conquistou meu coração justamente quando gravou, junto com o extraordinário pianista cubano Bebo Valdez, um CD encantado: Lágrimas Negras.

Não é um disco de Flamenco, mas ele interpreta as músicas com seu jeito chorado de dizer as canções, que eu adoro.
Ai, meu Deus... é de arrepiar!

Ele, inclusive, interpreta Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes, com uma participação especial de Caetano Veloso recitando a letra de Coração Vagabundo em vez da poesia de toda a vida, O Soneto da Fidelidade

Comprei e ouvi todos os dias... até poder cantarolar com ele todas as músicas do CD.
E atualmente é um dos meus melhores CDs de música popular. *Qualquer dia destes eu faço uma "apresentação" dos meus preferidos aqui.

A paixão foi tão grande que levei-o como presente para todas as amigas pernambucanas. Depois de um tampo eu vi que o projeto ganhou muitos prêmios internacionais e transformou-se num grande êxito em concertos por todo o mundo. Quem me dera ver um!
Por um tempo o show ficou em cartaz no Calle 54, em Madrid. Mas eu não pude ir.

Na época publiquei no Impressões, meu antigo e desaparecido blog, um post sobre ele. Vou fazer melhor agora. Vou deixar aqui uma marca mais forte. Um vídeo onde Diego e Bebo interpretam a música título do CD.


Boas Notícias!!! El Cigala acaba de lançar seu mais novo trabalho. Chama-se Dos Lagrimas.

Diego, El Cigala - Dos Lagrimas


Segundo li no jornal, é uma continuação do Lágrimas Negras. Claro que eu vou comprar JÁ!





Porque eu tenho um café quente na caneca azul...porque eu choro quando estou cheia daquelas saudades sem nome.. porque eu amo quando Tom Waits enche a casa com essa voz ... E porque hoje é sexta e eu queria um whisky com os amigos na casa com cheiro de jasmim de Casa Forte.


Eu ouço e derreto.

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Um dos grandes prazeres de ter uma boa conexão é descobrir as pérolas do YouTube.

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Às vezes me surpreendo encontrando umas delícias como esta cena do Il Postino ( O Carteiro e o Poeta ).
Para mim, este é um dos grandes filmes que eu já vi na vida. É daqueles para se ter e poder rever sempre que se queira.

Por muito tempo eu mantive um caderno onde escrevia todos os filmes que via, com comentários e fotos. Não sei em qual das mudanças ele se perdeu e foi uma pena tão grande que deixei de anotá-los.
Depois de séculos eu voltei a registrá-los num arquivo do micro, porque durante um ano ou dois um dos meus trabalhos era assistir filmes. O trabalho consistia em encontrar cenas que pudessem ilustrar um manual de habilidades presentes no comportamento dos líderes.
Era uma delícia de trabalho! Imagine quantos filmes eu tive que ver... a trabalho e em casa, com um pacote de pipoca, em plena segunda feira! Ho ho ho! Eu adorava!

Muitos de meus amigos me telefonavam quando estavam numa locadora só para que eu indicasse algum filme ou comentasse sobre outro que queriam alugar.

No Brasil eu tinha uma boa coleção de videos, mas tive que deixá-la com meu irmão porque aqui na Europa o sistema era outro.
Agora estou pensando seriamente em fazer uma pequena lista dos filmes inesquecíveis e ir comprando-os, pouco a pouco.
Talvez eu compartilhe essa lista aqui...

Então... vou começar por este. IL POSTINO me emociona tanto que choro as mil vezes que o veja.


Aqui há um comentário sobre o filme.

A música é de Luis Enriquez Bacalov
Direçao de Michael Radford

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Talvez tenha sido o acordeonista de ontem, nas ruas de Alcalá de Henares...
Ou o desejo de crépe au marron-glacè. Quem sabe sonhei com Paris!
Ou com o Poço da Panela de outrora... Talvez tenha sido só pelo perfume do vento...
Ou pela profusão de cores pelo chão... Quem sabe foram as borboletas... ou dois filhotes de pássaros que caíram de alguma árvore dentro do meu jardim.

O certo é que depois da caminhada pelo campo, a ducha fresca e um café fumegante na caneca azul, me vi precisando dela. Piaf era presença obrigatória nos dias de beleza pura do meu passado, fosse no Poço da Panela ou em Paris.
Parece que ela continua necessária nas colinas que cercam Madrid.

Ps: Nem todas as cicatrizes recordam dores. A maioria das minhas são belas. E desde que vivo um amor inteiro, tenho cada vez mais orgulho delas.

piaf.jpg

La Vie en Rose

Letra de Edith Piaf
Música de Louiguy - 1945


Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l'homme auquel j'appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré, pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens dans moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l'as dit, l'as juré, pour la vie
Et dès que je t'aperçois
Alors je sens dans moi
Mon coeur qui bat.

La Vie en Rose
(tradução)

Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço
Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Vejo a vida cor-de-rosa
Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca
Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa
É ele para mim, eu para ele
Na vida, ele me disse
Jurou pela vida
E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar
Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer
Quando ele me toma em seus braços.



Hoje amanheci verde e amarelo,
branco e azul, escutando Chico Buarque.
Então a cor dos meus sonhos mudou.

Hoje amanheci da cor da saudade...

..........

solidao2.1.jpg

O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa não vai não
Em casa a roda
Já mudou, que a moda muda
A roda é triste, a roda é muda
Em volta lá da televisão
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão
No céu a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões
Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão
O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões

A Televisão- Chico Buarque (1967)


*Post publicado no Como Shirley ... no dia dos 60 anos de Chico.
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