abril 26, 2007
Farra de Amor…
O banzo nem é por Pasárgada… tão linda e ensolarada!
Nem por seus mares mansos e mornos, nem pela água de coco verde bem embaixo da janela, nem pelos belos rios que a cortam em ilhas, nem pelas antigas pontes que cruzam suas águas ou os belos casarões que enfeitam suas margens...
O banzo é por eles, pelos queridos irmãos e amigos, pela bela e doce cunhada, bruxa das boas, com halo dourado sobre a cabeça e olhos amarelos como os de um gato na escuridão.
Ela foi uma das poucas a quem eu contei a troca de cartas com olhos-de-mar-azul. E naquele momento também foi a única que disse "vai dar certo, acredite, aposte, concentre nisso suas energias, não deixe a razão desviar seu coração…"
Ela é bruxa do bem.
Não a chamo de fada porque ela é feita de outro material e espírito e quem tem intimidade com bruxas e fadas sabe a diferença. Eu tenho e sei. Ela é bruxa mesmo. Das raras e muito boas. Tive sorte de tê-la por perto em momentos tão decisivos de minha vida.
Então… claro que eu acreditei nela. E nunca esqueço que cada vez que meu medo crescia e eu duvidava de mim mesma, do meu romantismo, dos meus sonhos, ela me aprumava na mesa da cozinha diante de uma xícara de café fresquinho e fumegante, um pedaço de bolo de fubá cheiroso e macio e, com voz doce mas segura e firme, tão firme que parecia saber mais, muito mais do que eu contava, dizia "eu sei que vai dar certo, confie e não disperse energia". E parecia que qualquer dúvida se esfumava, desaparecia, perdia a força.
Pois sim…
Tenho banzo disso. Desse tipo de aconchego nordestino. Da cozinha dela com café e bolo de fubá.
Também tenho de outras cozinhas ou sofás de amigas, onde a conversa fluía lenta com tanta facilidade e sem qualquer preocupação por escolher palavras e esconder sentimentos. As expressões que em si mesmas já diziam tudo e que aqui não servem para nada. " Vixe, eu heim! Pense numa pessoa troncha de saudade ! Tô até demente!" Ho ho ho…
Outro dia eu disse assim: « Tô querendo ir não, visse. Tô de banzo, dengosa, devagar quase parando… tô só querendo espalhar minha saudade pelos cantos da casa e escutar Lenine cantar… »
Depois vi que não havia trocado o chip e estava falando em perfeito pernambuquês e, claro, a outra pessoa não tinha entendido nada.
Nem dava pra traduzir.
Primeiro que eu nem sabia (ainda não sei ) como dizer isso em Espanhol, "Yo no estoy queriendo nada. Yo estoy…"
Desisti. Como se diz essas coisinhas da alma pernambucana em madrileño?
Deu logo vontade de chorar…
Ainda bem que falo Português com meu marido ( que chic e que estranho chamar meu prometido, meu amante, meu querido olhos-de-mar azul de marido! ) e para ele posso dizer essas besteirinhas, que não servem se forem ditas em nenhum outro idioma. E ele me responde em Espanhol, que eu também adoro e acho lindo. Não é uma maravilha isso? Nem um de nós dois precisa abdicar de seu próprio idioma, de suas expressões mais pessoais. Eu acho isso bárbaro!
Falo Espanhol com outros e me esforço em melhorar a pronúncia e o vocabulário, mas com ele falo em Português. Assim, quando ele chega no Brasil entende tudo e fala o que consegue. E já consegue muito!
Tem gente que assume tão completamente a cultura do país onde está que fala unicamente o idioma do lugar. Até os filhos educam sem ensinar o idioma de sua terra natal.
Tenho uma prima que vive nos EUA há mais de dez anos. Seu marido não sabe dizer nada em Português, exceto "obrruigaddo". E sorri como se tivesse realizado um dos trabalhos de Hercules!
E seus filhos falam exclusivamente Inglês. Perguntei-lhe uma vez por que ela não falava com seus filhos em Português para que fossem bilíngues sem qualquer esforço e ela me respondeu que seus filhos eram A-me-ri-ca-nos e falavam perfeitamente o idioma de Seu país. Aprenderiam Português se quisessem, quando fossem adultos.
Que "bourrrah" ! ( Leiam com sotaque, viu?)
Os pobres meninos quando vão ao Brasil não podem comunicar-se com seus avós, tios e primos. Dependem da mãe para tudo… e olham para o mundo como se ele – todo, inteiro – tivesse a obrigação de falar Inglês.
Desculpem os que defendem essa atitude, mas eu acho de uma burrice aterradora. Imaginem já ser bilíngue com três ou quatro anos de idade! Isso é uma maravilha para uma criança, desenvolve seu cérebro, ajuda a que ela comunique-se com sua família, abre seus horizontes. Ela não perde nada aprendendo os dois idiomas simultaneamente. Pelo contrário, só ganha!
Tá. Sei lá o que passa na cabeça desta minha prima. Deve ser algo marrom e fedorento… hhahahaha!
Tá bom… fui venenozinha, admito. Mas fico furiosa com brasileiros que saem de seu país e parecem ter vergonha dele. Esquecem os amigos, a própria cultura, as suas raízes.
Deixa para lá… eu estava falando do meu banzo, das minhas saudades…

Não era brincadeira quando escrevi, antes de viajar, que lá em Pernambuco cada amigo é rei. Cada irmão, cada amigo e até os parentes e amigos deles, que muitas vezes nem nos conhecem bem, nos abrem suas casas e seus corações tão completamente que nos sentimos em verdadeiros palácios feitos de amor.
O carinho com que todos nos recebem, a consideração, o desejo de abraçar, tocar, acarinhar, fazer dengos é uma característica constante do nosso povo. Que delícia! Lá a gente passa o tempo todo se tocando, dando as mãos, trocando beijos…
Uma farra de abraços e beijos era tudo o que eu queria da minha Pasárgada…
E tive!
E de quebra, ( vai dizer isso em Espanhol, vai! ) também os mares morninhos, agulhas fritas com cervejas estupidamente geladas, carne de sol com feijão verde e farofa, manteiga de garrafa, bobó de camarão, escondidinho de xarque, peixe fresquinho, patolas e casquinhos de carangueijo, cuscuz e munguzá, tapioca quentinha e bolo de rolo… e mais e mais… aí, ai, meu deus!
Que farra! Tanto a de carinhos quanto a de delícias culinárias!
Que mamão docinho, que abacaxi mel, que mangas macias e saborosas, que bananas mais lindas, que melões e melancias tão suculentas…
E sorvete ( sorvete de fruta! ) de cajá? De pitanga ou graviola ou mangaba??
Alguém sabe lá o que é TER E PERDER isso tudo de uma vez?
Dá banzo ou não dá?
Desta vez os amigos fizeram uma mesa que tinha até ingá, tamarindo, pitanga, carambola, umbu, cajú, cajá, cajarana, jaca, azeitona preta… A poupa, não! As frutas! Todas fresquinhas, vindas diretamente da feira de Jaboatão!
Cada uma trazia dentro do si um gosto de infância, uma lembrança da Princesa, outra do Lorde, do Janga de antigamente, da casa de Casa Forte, do sítio do Poço da Panela, dos pés descalços e sujos, das ruas de barro e mato, dos jardins perfumados por rosas e jasmins.
Um casal de amigos fez a festa do nosso casamento justamente aí, na casa deles, bem no meio do Poço da Panela. Tão pertinho do meu passado que ele estava todo alí! Meus queridos fantasmas espalhados entre samambaias, trepados nas palmeiras, rindo felizes…
Na brincadeira de jogar o buquê - que não havia - peguei um ramo florido de jasmim. Nele o cheiro inteiro da Princesa, não pensem que eu não sabia. Quando fiquei de costas e joguei a florzinha branca e cheirosa para o alto, todas as amigas tinham um ramo igual entre os dedos. Foi uma anarquia só. Todas se casarão no mesmo dia, para que eu possa ir! Gargalhamos juntas, numa alegria imensa só por isso, por gargalharmos juntas.
Dá banzo deixar esse mundo… esse rir junto aos amigos, esse dengo que eles me dão, esses abraços tão apertados no meio da rua, os beijos estalados, esse sentir a presença da própria história no ar, esse contar as coisas na língua de toda a vida!
Aí eu vim… cheguei aqui meio chorona. E tive a felicidade de ganhar um presente: fui convidada para um aniversário no Liceu de Belas Artes de Madrid, com dez brasileiras. Êbaaa!
Só conhecia pessoalmente a aniversariante, mas peguei um trem para Recoletos, caminhei por uma Madrid bela e primaveril para estar com todas elas, com muita vontade.
Adoro Madrid e sua gente. Mas desta vez foi como estar dentro de um mar morninho ou numa bela e aconchegante cozinha, tomando um café fumegante e trocando carinhos.
Só faltou o bolo de fubá.
Prometo que no próximo encontro não vai faltar.
Posted by norab at 4:22 PM | Comments (18)
abril 21, 2007
Voltei lá de Pasárgada...
Ainda estou com banzo...

Posted by norab at 3:26 PM | Comments (7)
março 20, 2007
Pasárgada...
Vou-me embora pra Pasárgada...
Lá todo amigo é rei...
Levo o homem que quero... pra cama que escolherei!

Se houver tempo e lugar... escreverei!
Hasta la vuelta.
Posted by norab at 10:44 PM | Comments (18)
agosto 25, 2006
Era um Sábado...
Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então...essa é uma das que resolvi imprimir.
..............................................................
Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás...
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras.... é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio....
Pois é... eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: " Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar..."
Aí passa um carro, faz a volta... uma mulher desce com ar desconfiado.
- Vocês vão fazer o que?
- Estamos limpanho e plantando a pracinha...
- Vocês conheciam o Mano Teodósio?
- Não... mas gostamos dele.
- Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
- Não... só vamos lavar. Por que?
- Ele era meu irmão...
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja... brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo... "Obrigada... Obrigada..."
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
- Sim. Elas disseram.
Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta... e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.
Ela voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre... assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita... exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: " Estava à toa na vida... o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor... "
Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher... o Mano de outra...
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava...
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: " Voce sabe ser feliz?"
E lá estava eu ... feliz, assim de repente.
Por nada...
Posted by norab at 2:53 PM | Comments (15)
março 29, 2006
Vozes Remotas...
Passei o dia com uma vibração dentro do peito. Fiz o que nunca faço: logo pela manhã elegi a roupa que pretendia usar à noite e, como a criança obediente que fui, deixei-a sobre a cama com zelo. Assim gostava de fazer a minha mãe,a Princesa. Eu, que jamais gostei de escolher a roupa antes da hora de vestir-me, estranhei.
Andei pela casa como suspensa numa nuvem antiga e reconhecida. Cuidei das plantas sem conversar com elas, deixando que os sons remotos das vozes perdidas ecoassem na minha memória. Engoli o almoço sem sentir seu sabor. Parecia… por momentos, estar de volta à lugares e idades distintas. Faço isso muitas vezes na minha vida.
Acho que não tenho muito delimitado essa coisa de passado, presente e futuro. Vivo e re-vivo e pré-vivo sentimentos e sensações com a memória e a imaginação frequentemente.
Ontem o tempo oscilava entre presente e passado a cada larga hora do dia…
Há anos que eu não sentia um dia passar tão devagar!

Sobre a mesa do gabinete, uma página impressa recordava o motivo de minha inquietude. Registrava que tínhamos entradas para a ópera em Madrid. La Bohème, de Puccini.
(Clique aqui e escute a ária Si, me chiamano Mimi , com Maria Callas. Também pode escutar Che gelida manina, com Pavarotti, na mesma página do site El Poder de La Palabra, cujo link eu indico aí ao lado.)
Então... minha primeira vez no Teatro Real de Madrid. E também minha primeira vez numa ópera ao vivo e a cores.E logo La Bohème! Emocionante demais! Mais do que se possa imaginar.
Apesar de ser minha estreia numa apresentação desse tipo, a emoção maior não era apenas por isso. Era algo mais visceral.
Eu nasci escutando ópera. Esta era uma das grandes paixões do Lorde. E La Bohème uma de suas prediletas.
Recordo, mais com a memória dos sentimentos que com a memória da razão, estar entre seus braços numa das muitas noites de brumas da casa do Poço da Panela, escutando Mimi em seus primeiros instantes de enamoramento…
"Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve.
A tela o a seta
ricamo in casa e fuori... "
Não que eu soubesse o que estava dizendo aquela voz tão extraordinária, era muito pequena, mas sentia que seu encanto e beleza se espalhavam por sobre nós e a casa, avançavam como uma onda por sobre as baronesas que cobriam o braço do rio e iam enfeitiçar as árvores centenárias da outra margem. Quem sabe estavam os seres encantados que viviam nas matas também fascinados como eu?
Depois, muitas foram as vezes que escutei Mimi e Rodolfo recitarem seu amor e desventuras… aí eu já sabia o que diziam e o prazer só aumentou.
Acho que já disse aqui que a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música. E foi através dessa herança que eu "reabilitei" a minha relação com ele.
O Lorde era uma criatura fora de série. Podia ser o sujeito mais sensível do mundo para umas coisas e o mais rude para outras. Era dono de uma inteligência e sensibilidade privilegiadas, mas como pai não foi nada competente. Amava com muita crueldade. Quem sabe um dia eu fale sobre esse aspecto de nossa relação. Agora não creio que valha a pena.
Muitos anos depois de sua morte, resolvi rememorar apenas seus momentos suaves… embora, de vez em quando, os outros ressurjam das brumas e venham sombrear recordações de minha infância e juventude.
Ontem ele estava lindo, com seus verdes olhos molhados de emoção assistindo La Bohème comigo.

Antes, como para preparar-nos, levei-o dentro do peito para a bela praça diante do Palácio Real de Madrid. Sentamos na antiquíssima " terraza " do Café Oriente e tomamos um café com Drambuí e sorvete como sei que ele amaria, enquanto olhávamos as pessoas que chegavam para a função.
(Adoro olhar as roupas, sapatos, abrigos… Para mim já faz parte do "evento" observar como estão vestidas as pessoas. E mais, eu ainda crio histórias para elas… mas isso dá outro post sobre manias.Já descobri que mantenho algumas das antigas, só que tinha esquecido delas.)
Pois sim…

O coração batia forte quando entramos no teatro e buscamos nossos assentos. Quando a cortina abriu e a orquestra executou os primeiros acordes, temi deixar-me levar pela irritação por ter comprado lugares em um dos camarotes laterais, caros demais para uma visão tão reduzida. ( Como se atrevem?)
Mas depois, levantando-me muitas vezes, contando com a paciência amorosa de Pepe e o próprio cuidado da produção que fez com que os personagens se movessem por ambos lados do cenário, numa primorosa recriação da buhardilla parisiense ou da antiga rua do quartier latin francês de 1840 relaxei e aproveitei. E aos poucos, principalmente pela força da representação e da música, entrei em transe.
Tomei nos braços a minha lembrança daqueles belos momentos de intimidade com meu pai e desejei de todo coração que ele e minha mãe pudessem estar mesmo ali comigo e com Pepe. E, se não... imaginar que eles podiam assistir nossa ópera favorita através de meus olhos e de minha saudade.
A atuação da companhia foi deslumbrante!
E eu chorei feliz, como estava previsto, com o lenço branco de olhos-de-mar-azul em volta do nariz para não fazer barulho.
Assim, foi com o coração cheio de suave alegria e um toque de agradável nostalgia que brindei com Pepe, no hall do teatro durante um dos intervalos, ao sabor de uma bela taça de cava espanhol, à memória do Lorde e da Princesa, que infelizmente ele não conheceu.
Dediquei a eles minha estreia.
Sim, porque essa foi só a minha primeira vez. Tenho certeza que virão outras.
Pretendo, um dia, se Deus ajudar, ir ao Festival de Ópera de Verona.
E Deus gosta de mim. Eu sei.
Posted by norab at 2:44 PM | Comments (13)
setembro 28, 2005
Ela Não Se Chamava Emília...
Há quase meio século atrás, Cabelinho de Espiga de Milho tinha o mesmo tamanho e a mesma idade que eu.
E, enquanto eu era morena e tinha os cabelos muito curtos, maltratados pelo mesmo barbeiro que pelava meus irmãos como se eles fossem soldados em vias de serem enviados à guerra mais próxima, ela tinha belos, longos e lisos cabelos da cor dos raios de sol, olhos azuis e sobrenome inglês. Era quase igual às bonecas das vitrines da Lojas 4.400, a loja rainha da Rua da Imperatriz de minha infância.
Mas ela não era uma bonequinha de loja, nem de livro. Era real e definitivamente a rainha da rua. Falava a língua do P com perfeição, xingava quando perdia no jogo, atirava pedras, roubava frutas das árvores alheias, dava ordens aos meninos que lhe seguiam por toda parte. Era mais autoritária que qualquer Imperatriz. E eu gostei dela.
Quando chegamos em Casa Forte, Cabelinho de Espiga de Milho transformou-se em minha melhor amiga. Inseparável amiga. Tínhamos 5 anos.
Éramos diferentes das outras meninas da rua. Enquanto elas brincavam de bonecas e comidinhas, nós fazíamos guerra de bolas de lama, lutas de mocinho e bandido, campeonatos de bola de gude, queimado e gamão, criávamos teatros de marionetes, fomentávamos as corridas de bicicleta pelas ruas do bairro…
Estávamos sempre entre os meninos.
Enquanto passavam os anos e eu deixava os cabelos crescerem em indomáveis e fartos cachos castanhos, ela ia cortando os raios de sol cada vez mais curtos. Eu chegando ao metro e setenta, ela parando a pouco mais do metro e meio. Eu romantizando a vida. Ela racionalizando-a. Eu escrevendo cadernos de poesias. Ela lendo novelas policiais. Eu lenta e desarrumada. Ela diligente e ativa. Era a melhor ajudante da mãe para criar os quatro irmãos que nasceram depois dela. Mas continuávamos inseparáveis. Éramos como irmãs e nos apresentávamos, com todo orgulho, assim: “Somos gêmeas, idênticas. Não vêem as semelhanças?”
Estudamos juntas até a entrada na faculdade, quando a vocação de cada uma nos separou. Eu fui estudar Psicologia, ela Engenharia. Mas a amizade continuou para sempre.
Quando tínhamos 19 anos, caiu a bomba sobre nós. Cabelinho de Espiga de Milho estava com câncer.
Eu me debulhei em lágrimas infelizes. Ela se preparou para a luta.
Seu cabelo caiu todinho, fez mil e uma cirurgias investigativas. O tratamento foi violentíssimo, mas ela ganhou. Nunca deixou que a doença tomasse conta do seu espírito. Era indomável.
Depois disso, o cabelo cresceu mais escuro, os olhos ficaram mais duros e determinados, mas ela deu a volta por cima e sem perder uma prova da faculdade, formou-se e transformou-se numa excelente profissional. Sua capacidade de mando continuou por toda a vida. Sua força vital também. Ganhou mais duas batalhas contra a doença, que insistia em dobrá-la. Nunca o conseguiu.
Casou-se. Adotou um menininho lindo como filho querido, já que a capacidade de ser mãe estava limitada pelas muitas radiações que tomou na vida.
Depois, não sei precisar exatamente quando, as contingências da vida de cada uma, profissionais e pessoais foi nos afastando da convivência diária, dos programas sociais…
Apesar de vivermos na mesma cidade, víamos-nos tão pouco! Falávamos por telefone e prometíamos encontros nunca marcados.
Meses atrás, por casualidade, estive com seu irmão em Madri. Ele disse que o câncer havia voltado e que desta vez a luta estava mais acirrada, a miserável tinha tomado conta de seu ponto mais forte: o cérebro.
Não havia mais nenhuma saída.
Recebi um e-mail de sua sobrinha uns dias atrás... Nele uma foto de minha amiga de toda a vida, com cabelos curtos e escuros (talvez postiços) ao lado de um texto de despedida com data de nascimento e de morte.
Enquanto eu fazia mechas de luz nos cabelos castanhos para comemorar os 50 anos, exatamente no dia 15 de setembro passado, minha querida e lutadora amiga, faltando apenas dois meses para cumpri-los também, adormeceu para sempre.
Minha primeira e eterna amiga morreu no dia do meu aniversário de 50 anos!
Há uma semana a lembrança de seu cabelinho de milho, sua voz, seu sorriso, o encanto de seus olhos azuis de boneca me acompanham por toda a casa… e nessas lembranças não temos os cinquenta anos que já vivemos, juntas ou separadas…
Temos os cinco anos de quando nos encontramos pela primeira vez, numa rua de barro e lama de Casa Forte.
E esta é a maior e será a minha eterna saudade…
Posted by norab at 6:41 PM | Comments (25)
agosto 13, 2005
Um Cavaleiro ...

Acabo de ler a notícia da morte de um grande personagem da vida política de Pernambuco e do Brasil.
Miguel Arraes de Alencar era um cavaleiro andante, um lutador, um político excepcional. Eu tive a honra e o prazer de trabalhar três anos em um projeto social da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, sob a coordenação do Dr. Cyro de Andrade Lima, Dra. Terezinha Tabosa e Dra. Bernadete Lins Paes, durante o governo de Dr. Arraes. Apesar de todas as dificuldades de infraestutura do Estado, o Projeto Boa Visão foi uma das experiências profissionais mais gratificantes de minha carreira.

Ainda tive a honra de estar presente, sentada sobre o solo da grande sala da casa de Ariano Suassuna, a mais gostosa que existe na Rua do Chacon, em Casa Forte, em noites maravilhosas de conversas animadas e inteligentes entre Arraes e meu querido Ariano , amigo eterno do meu pai.
Noites em muito aprendi e que eu jamais esquecerei.
Arraes foi muito mais que um mito. Era um homem de idéias e princípios.E de muito trabalho.
Pernambuco, principalmente o interior do Estado, deve muitas de suas conquistas a ele.
Estou de luto.
Meu coração está lá...
Posted by norab at 11:04 PM | Comments (21)
agosto 11, 2005
Pedaços de Mim...
A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas...
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco...
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
- Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então... os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios... "Pedacinhos de morte", como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida...
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim... estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista...
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia... suspirei nem sei por que.

Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, - cabiam tão poucos! - voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias... Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas... agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas...cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado... Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão) e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim...ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc... e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando...
Soube que está lendo como nunca... e sorrio feliz com a notícia!
......................
Ps:Alguem quer saber um pouco sobre a Alhambra de Granada? Pois vale a pena clicar AQUI e viajar pelo monumento histórico mais visitado de toda a Espanha!
Posted by norab at 8:10 PM | Comments (15)
agosto 5, 2005
Saudade da Princesa...
No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim...
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
.....................
Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
.......................
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo - são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! - e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho...
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos...
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz "quitaran mi bolso!"
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: "Quitaran mi bolso... Ai, quitaran mi bolso, hija mía."
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: "Quitaran mi bolso...quitaran mi bolso, hija mía."
- Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de "assalto". Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto... Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-"Dez euros...todo meu dinheiro, e as chaves de casa... ai, e as fotos de meus sobrinhos...ai, hija mía, quitaran mi bolso!"
Aquela voz me trouxe lembranças queridas... e eu quase começava a chorar antes dela...
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado "Maruja!"
Pensei: "Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos."
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A "nossa" espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com " su bolso" outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa...
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos...
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia...
Madre mía...
Posted by norab at 9:49 AM | Comments (16)
maio 26, 2005
Nem Todas Doem...
Talvez tenha sido o acordeonista de ontem, nas ruas de Alcalá de Henares...
Ou o desejo de crépe au marron-glacè.
Quem sabe sonhei com Paris!
Ou com o Poço da Panela de outrora...
Talvez tenha sido só pelo perfume do vento...
Ou pela profusão de cores pelo chão...
Quem sabe foram as borboletas... ou dois filhotes de pássaros que caíram de alguma árvore dentro do meu jardim.
O certo é que depois da caminhada pelo campo, a ducha fresca e um café fumegante na caneca azul, me vi precisando dela.
Piaf era presença obrigatória nos dias de beleza pura do meu passado, fosse no Poço da Panela ou em Paris.
Parece que ela continua necessária nas colinas que cercam Madrid.
Ps: Nem todas as cicatrizes recordam dores. A maioria das minhas são belas. E desde que vivo um amor inteiro, tenho cada vez mais orgulho delas.

La Vie en Rose
Letra de Edith Piaf
Música de Louiguy - 1945
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l'homme auquel j'appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l'a dit, l'a juré, pour la vie
Et dès que je l'aperçois
Alors je sens dans moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s'effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d'amour
Des mots de tous les jours
Et ça m'fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C'est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l'as dit, l'as juré, pour la vie
Et dès que je t'aperçois
Alors je sens dans moi
Mon coeur qui bat.
La Vie en Rose
(tradução)
Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço
Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Vejo a vida cor-de-rosa
Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca
Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa
É ele para mim, eu para ele
Na vida, ele me disse
Jurou pela vida
E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar
Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer
Quando ele me toma em seus braços
Posted by norab at 9:52 PM | Comments (20)
maio 7, 2005
Antes Que Eu Me Esqueça...
Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era cordata.
Não toda cordata, porque nunca foi muito obediente.
Mas meio sim. Por fora.
Parecia mais...
O que tentaram ensinar-lhe ela aprendeu. Mas só um pouco.Tudo não. Senão seria aquela que queriam que ela fosse.
Também aprendeu muitas outras coisas que não lhe ensinaram, apesar de saberem desde sempre que teria um dia que aprender - por força da vida - se sobrevivesse aos perigos de viver. Parece que não queriam que sobrevivesse.
Diziam que eram muitos. Ela acreditou.
Nunca lhe ensinaram a ter coragem. Só a ter medo.
Nunca deixou de tê-lo. Mas aprendeu também que coragem é a força para enfrentar o medo e não a ausência dele. Se sobreviveu foi por esta força visceral e invisível que lhe tomava apesar de si mesma e que arrancava-lhe o corpo do quarto protetoramente acolhedor mas sem horizonte, atirava-a com força para além do jardim sem se importar com a estação, lhe expunha às dores em todas as suas mutações, mas também às alegrias e à beleza. Expunha-lhe à luz e ao mundo e não lhe deixava voltar.
Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era livre.
Não toda livre, porque não sabia. Mas meio sim. Por dentro.
Parecia menos...
Muitas vezes sonhava que andava nua por uma cidade desconhecida.
Tentava encontrar alguma porta por onde entrar e se esconder mas jamais encontrava uma. Aliás, não havia qualquer porta nas paredes daquelas cidades.
Uma variação comum era sonhar que voava nua sobre os campos e as ruas, numa velocidade exagerada e precisando desviar dos cabos elétricos e copas de árvores. A sensação de poder voar era boa, mas voava baixo e sabia que precisava subir mais. Jamais conseguia.
E pousar? Nem pensar, pois estava nua.
Como se a liberdade de arriscar a ser quem era enfrentasse em cada sonho a limitação e o desconcerto da nudez pública, do choque mortal, da ausência de saídas ou entradas protetoras.
Despertava suada e tomada de angústia. Mas quando contava o sonho, sua expressão era de alegria e prazer. Pelo voar. Dizia que o medo valia a pena. Era sempre linda a cidade que via. Eram sempre espetaculares as paisagens que sobrevoava.
Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era linda.
Por fora e por dentro.E parecia.Era uma mãe espetacular.
Não sabia ser filha, só sabia ser mãe.
Sua mãe morreu quando ela era ainda uma criança. E teve o azar de seu pai casar-se com sua cunhada, uma mulher amarga e cheia de culpas – quem sabe já fosse apaixonada pelo marido da irmã mesmo antes de que esta morresse - que não perdeu nunca oportunidade alguma de humilhá-la, quanto mais ela crescia e assemelhava-se à mãe morta.
Talvez a visse como a presença viva da própria culpa. E transferiu-a toda para ela. Daí ela nunca escapou.
Essa foi sua algema por toda a vida.
Foi, para sempre, escrava de uma culpa sem nome. A culpa de outra pessoa.
Mas antes que eu esqueça... ensinou-me a ser cordata sem ter que ser "obediente", a enfrentar o medo apesar da angústia, a buscar a beleza nas situações mais simples ou mais complexas.
Ensinou-me quanto profundo e inteiro pode ser o amor. Esteve ao meu lado sempre, para os bons e os maus momentos.
Ensinou-me o que sabia e a buscar aprender sempre e ainda mais.
Por ter sido só mãe, não soube ensinar-me a ser filha.
Só pude aprender quando fui mãe da minha.
Da culpa ancestral e sem nome que herdei, tenho que livrar-me sozinha. E ensinar a Carolina, por minha vez, a ser melhor filha do que fui.
Antes que eu me esqueça...
Feliz Dia das Mães para todas a mães.E também para os filhos que ainda podem beijar, abraçar e agradecer o amor e os ensinamentos de suas mães.
À Princesa, com todo o meu amor e saudade.

*Madre y hija -Ana González Prieto
Posted by norab at 2:51 PM | Comments (18)
abril 22, 2005
Mais um Caderno...
Este é o quarto endereço do blog. Antes chamava-se Como Shirley Valentine e morava na Globo . Expulso, foi viver no Mblog rebatizado como Língua de Mariposa. Ali tentaram pedir resgate pelo seu seqüestro. Não paguei. Mataram-no.
Reconstruído no Blogspot perdi muitos de meus amigos leitores, justamente por ter repetido os posts passados, numa tentativa de recuperar os arquivos perdidos pelo trajeto.
Eu não sabia por que tinha essa preocupação pois, pelo que sei, a maioria dos novos visitantes não vai aos arquivos. E os antigos já os leram.
E então descobri que fiz isso para mim mesma.
Pois sim... Este blog existe tanto ou mais para mim quanto para o público que o visita.

Desde os 13 anos eu escrevia coisas, copiava poemas e letras de música, colava imagens recortadas das revistas, cartas recebidas ou cópias de enviadas, tudo isso e mais algumas coisas, em grandes cadernos de capa dura. Eram lindos e eu adorava construí-los.
Não os mostrava a quase ninguém. Só muito poucos tinham acesso a eles.
Infelizmente, não tenho comigo nenhum. De vez em quando o Capibaribe vinha e lia tudo...só devolvia o bagaço.
O rio não vinha apenas ler a biblioteca do Lorde... brincava também com meus quebra-cabeças, lambia os bichinhos de pelúcia com sua língua pegajosa, tocava com seus dedos de lama minhas flautas e devorava todas as letras e imagens de meus cadernos.
Ele tinha tempo. Demorava-se em nossa casa mais do que em qualquer outra.
E depois, quando deixava-nos entrar, eu ficava com a sensação de ter sido mais que roubada. Sentia como se tivesse sido violentada dentro de meu próprio abrigo.
Não me lembro quando deixei de construí-los e passei a fazer apenas pequenas anotações nas agendas de trabalho e estudo. Como eram peças descartáveis, trocadas a cada ano, perdia os meus registros pelos recantos das estantes do meu quarto. Depois de uns tempos, a cada arrumação e limpeza, as pequenas livretas desapareciam.
Desde que comecei este blog, em 2003, é como se - de novo - eu estivesse escrevendo em um dos meus antigos cadernos. Desta vez já não há um rio ameaçador e aprendi a guardar num disco todos os meus arquivos.
Desta vez também há uma grande diferença. O blog é aberto ao público. Qualquer público.
Há quem goste e fique por aqui, vindo sempre, lendo e relendo tudo, deixando comentários ou mandando e-mails. Há quem venha e não volte nunca mais, os que vem mas não deixam marcas de sua passagem, outros que vem de vez em quando. Isso transformou o meu "caderno" em um precioso tesouro e sinto muitíssimo ter perdido as centenas de comentários pelos caminhos que a página já trilhou.
Sonja, essa amiga linda que vem acompanhando todo o caminho do Língua, adora ler a história do rio que gostava de ler e sempre me pede que a repita a cada casa nova que habito.
Mas desta vez vou sugerir a quem queira que pulse no link e vá ao arquivo A CASA E O RIO. Está super simples de acessar, não demora nadinha.
Consegui republicar as fotos e formatar os textos de forma que estão todos muito acessíveis e fáceis de ler. Inclusive, estou criando categorias de forma que possam ser acessados por assunto.
Não tenho a pretensão de que todos os que aqui vem leiam os arquivos. Até porque a quantidade de blogs bons que existe por aí é enorme e as pessoas nem sempre tem tempo para dedicar mais que alguns minutos a cada página que visitam. Muitas vezes apenas lêem o último post.
Só estou aproveitando o pedido de Sonja para sinalizar o caminho...
Vou aproveitar também para indicar o caminho do Cicatrizes da Mirada. Um blog que tenta mostrar um pouco de minha experiência com a arte e cultura espanhola e que está meio perdido neste mar de blogs que invadiu o cotidiano das pessoas.
Eu gosto muito dele e me dá um trabalho enorme construí-lo.
Por algum tempo a página parecia estar com problemas para abrir, e então muitos de seus leitores desapareceram. Mas agora está rápida outra vez. Graças a não sei qual artifício!
Às vezes eu penso em deixar de escrevê-la , mas o incentivo de alguns poucos amigos que continuam a segui-la por mais de dois anos não me permite desistir dela. Espero que em breve o Cicatrizes esteja também aqui, na Verbeat, por uma petição especialíssima do Milton Ribeiro, meu vizinho da casa-cinza-de-janelas-vermelhas.
Posted by norab at 3:21 PM | Comments (17)
março 31, 2005
Heranças...
As heranças que o Lorde me deixou foram o amor à música e à leitura.
Apesar de lutar sempre e até a morte com o rio, que a cada subida levava os pedaços da casa, ele chorava apenas quando perdia seus livros e discos.
Meu pai tinha a música como a linguagem da sua alma. Dizia com ela seu estado de espírito.
Nos domingos felizes e ensolarados ele enchia o ar com o melhor de The Brother Four, Peter, Paul and Mary, Nat King Cole, Billy Holliday, Piaf.
Nos domingos de chuva despertávamos ao som de Cantos Gregorianos...
E se a chuva fosse noturna e tomada de gosto, se caía em tormentas com raios e trovões, Carmina Burana invadia a casa, o jardim, a mata e o rio. O som numa altura impossível para quem tivesse vizinhos humanos. Mas nós não tínhamos...
Aprendi a conhecer as emoções do Lorde pela música que ele escutava.
As óperas tinham lugar de destaque nas noites úmidas de Casa-Forte. La Traviata, La Bohème, Madame Butterfly, Carmem, Tosca.
Aprendi desde muito cedo a escutar os lamentos de Mme. Butterfly por dentro da névoa que cobria o jardim nas noites de inverno, numa das árias mais emocionantes que já ouvi na vida. Nessas noites ele parecia triste...
Parecia ter os olhos molhados...
Quando queria dançar ou ler ou apenas olhar o matagal escuro que se estendia além dos muros, uma diferente música lhe acompanhava.
Quando queria emocionar minha mãe, usava invariavelmente o Concerto Número 2 de Rachmaninov. E a Princesa desligava a televisão e de mansinho desaparecia dentro do gabinete.
Uma vez ele deu a ela a música La Bohème, cantada por Aznavour.
Não.. ele não chegou com o disco de presente. Ele deu A música.
Cada vez que ela escutava, sorria como a Mona Lisa e perdia o olhar brilhante em algum espaço da memória.
Muitos anos depois da morte do Lorde, a Princesa ainda ria antes de cair em lágrimas quando ouvia a Sua música.

Quando eu soube que Aznavour cantaria em Recife, não pude resistir. Comprei dois ingressos para levar a Princesa. Ela não cabia em si de contentamento. E eu mais que ela, só por poder proporcionar-lhe uma alegria assim. Lembro-me que foi caríssimo!
Pois... a Princesa vestiu-se como para um grande encontro. Chegamos muito antes de começar, sentamos e esperamos. Quando Aznavour entrou no palco ela tremia.
Mas quando ele começou a cantar La Bohème, a Princesa perdeu o controle e fechou os olhos, os ombros tremendo em soluços...
Tentei brincar dizendo que chorasse de olhos abertos, que tinha sido muito caro... mas minhas palavras saíram com gosto de lágrimas. Choramos abraçadas como se não houvesse mais ninguém na platéia além de nós duas.
E talvez nem nós duas.
Era como se estivéssemos na antiga casa do Poço da Panela, sentindo os cheiros de mato e jasmim, os cheiros de cachimbos e conhaque, do assoalho encerado do gabinete... os cheiros da névoa no jardim.
Ainda hoje eu sinto seus cheiros, vejo seus olhos verdes semi fechados e suas belas mãos de arquiteto enquanto tocava o piano - que o rio roubou numa das suas investidas traiçoeiras - quando ouço a Sonata ao Luar ou a Passionata de Beethoven.
Ainda hoje sorrio como a Mona Lisa antes de ter os olhos molhados e perdidos quando escuto a voz doce e suave de Aznavour cantando La Bohème.
Herdei-a da Princesa.
*Man Ray-Violon de Ingres1924
Posted by norab at 9:46 PM | Comments (4)
março 12, 2005
Ciranda de Saudades...
Hoje eu acordei com o assovio de Dorival Caymmi tocando no meu ouvido. Comecei o dia cantando com ele " Um pescador, tem dois amor... um bem na terra, um bem no mar."
E bateu uma saudade daquela que espreme o coração. Saudade do mar. Saudade da onda batendo na areia... Do cheiro de maresia mesclado com "o vento que balança os coqueiro"... Aquele velho pescador e violeiro cantando: " O mar, quando quebra na praia, é bonito... é bonito..."
E saudade das casas da minha vida, onde Dorival Caymmi tinha um pedestal, erguido com cuidado pelo Lord arquiteto e pescador.
Meu pai, eu já disse aqui, tinha gostos requintados. Mas quando se esquecia de querer ser inglês, sua nordestinidade tomava conta da nossa vida. Acordava assoviando o baiano Caymmi... Preparava suas varas de pescar, com molinetes (cheios de frescuras, é verdade) e suas iscas nojentas , pesos de chumbo de todos os tamanhos, enquanto Dorival cantava com ele as alturas. Nesses dias ele ficava lindo, o meu pai.
Seus dentes apareciam por nada. Sua alegria contaminava a casa de paz...
Catarolava com uma voz grave, acompanhando seu ídolo "Marina, morena Marina, você se pintou..." E lá íamos todos para a praia.
Não, não era uma praia para inglês ver. Era o Janga.
Quase duas horas de viagem pela estrada de barro e areia, em direção a uma pequena casa de portas e janelas vermelhas, rodeada de terraço. Era de meu avô e ficava já quase chegando em Pau Amarelo, onde uma antiga fortaleza de pedras, com seus canhões de chumbo nos esperava, para as brincadeiras de crianças.
No caminho do Forte, uma venda. Um "tem de tudo" de antigamente. Farinha, feijão, milho para as galinhas, em grandes sacos de pano branquíssimos! Manteiga nas latas enormes. Varas de bambu, carretéis de linha, graxa para sapato, pregos, bonecas de plástico com olhos azuis pregados em decalcomania, bruxas de pano iguais às das feiras de interior, caminhões de madeira, cachaça, café, açúcar, vassouras... coisinhas para tudo. Nem lembro mais que tudo.
Eu me fixava nos grandes vidros transparentes, repletos de bombons coloridos em branco e rosa, em verde e rosa, em azul e rosa... A gente dava a moeda e seu Vavá enchia uma pá de alumínio com aquelas belezuras doces, embrulhava em papel marrom e duro, o mesmo que usava para embrulhar os pregos, que enrolava nos dedos, como um pastel... e a gente saía feliz que só vendo.
Dia de ter mais moedas era dia de peixinho de chocolate. Dourado, prateado, vermelho, verde e azul. Um de cada cor, eu queria. Não importava que o chocolate fosse igual. Queria de cores diferentes... um de cada. E pronto. Era imbirrenta, eu.
Uma das delícias da venda de seu Vavá era o chão do pequeno terraço, de cimento encerado. Fresco, quase gelado. Sair do sol quente e areia pelando os pés e entrar na venda eram duas delícias de uma só vez. Deitar de costas no chãozinho frio e comprar os "confeitos" coloridos. Dava vontade de morar ali. E eu pensava "quando eu crescer, quero ter uma venda."
Naquela época criança andava pelo mundo. Sem riscos que não fossem as imprudências que elas mesmas cometiam. Hoje eu sei que a venda era muito perto de casa, mas na época parecia que a gente tinha que atravessar, não um pequeno maceió e a faixa de areia quente, mas um grande rio e depois o deserto do Saara, para chegar àquele paraíso.
E o mar do Janga... o que dizer do mar do Janga?
Água limpa e verde e morna e cheia de arrecifes onde pescar e pequenas piscinas de profundidades diversas. Praia sem ônibus de veranistas. Praia de pescadores.

Do lado oposto ao Forte, outro paraíso. Era O Curaçado. O bar de taipa de dona Duda. Uma senhora de lindos olhos verde-azulados, cor que variava de acordo com o mar. E que fazia as delícias da comida nordestina.
Meu pai voltava da pesca com o samburá cheio e levava para dona Duda. Lá a gente comia o peixe ao molho de coco e a farofa branca feita com coentro, cebola e água quente com manteiga. A mesa sobre o chão batido. O teto de palha trançada. A vida como uma brisa suave de felicidade...
Era bom viver esses dias.
À noitinha a gente voltava... para dançar a Ciranda. Muitos anos antes de ficar famosa a Ciranda de dona Duda já era nossa. Nossa e dos pescadores do Janga. Enlaçávamos os braços e bailávamos ao som das vozes em falsete das meninas e mulheres, os pés descalços avançando e retornando, no ritmo das ondas do mar...
Nesta noite dormíamos cansados e felizes, embalados pelo ruídos das palhas de coqueiros e do mar cheio, que quebrava com força na areia...
E escutávamos entre sonhos, desde o terraço da casinha, a voz grave do pai, desnudo de sua Lordice, cantando... "Quem vem para beira do mar... nunca mais quer voltar... Andei, por andar andei...e todo caminho deu no mar..."
--------
Posted by norab at 9:16 AM | Comments (0)
janeiro 25, 2005
Não Pude...
Não fui ver a casa...
Não pude.
A saudade que sentia desta vez era completamente distinta de outras saudades que já tive na vida.
Era uma saudade dos olhos dos irmãos e amigos, de seus sorrisos, de suas vozes.
A única coisa que eu queria era estar entre eles. Não importava o lugar.
Deixei-me estar em seus espaços, em suas mesas, suas redes, suas praias, e principalmente em seus abraços.

Apresentei a eles meu companheiro de viagem e de vida.
Deixei que seus olhos se encontrassem, que se conhecessem, que conversassem. Os sorrisos multiplicaram-se, ampliaram-se os espaços, e ele foi recebido como irmão e amigo nos abraços.
O tempo voou. Escapuliu pelos dedos como a areia fina e branca das praias pernambucanas. Toquinho, Tamandaré, Serrambi, Porto de Galinhas...
O tempo derreteu por entre os sorvetes de pinha, cajá, graviola, mangaba, coco...e desapareceu nas mesas de café com cuzcuz, manguzá, tapiocas de coco e queijo...
O tempo emagreceu, encolheu diante de casquinhos de caranguejo, patolas, lagostas, agulhas fritas, moquecas de peixe e caipiroscas refrescantes... (por que só ele e não eu?)
Os amigos e irmãos buscando espaços num tempo escorregadio para nos presentear com almoços e jantares pantagruélicos, com passeios de barcos por paisagens paradisíacas, com abraços do mais sincero carinho e consideração.
O tempo correu com uma absurda pressa que eu não tinha...
As importantes conversas que imaginei ter, não tive. Todos os negócios que necessitava resolver, não resolvi. Mas o que mais senti foi que muitas pessoas que programei ver, não vi.
Dois anos de saudade não se aplaca em vinte dias. E eu voltei com ela toda crescida dentro do peito.
Assim...
Não fui ver a casa.
Não pude.
--------
Posted by norab at 2:23 PM | Comments (0)
novembro 8, 2004
O Lord e a Moça...
O Lord adorava fazer compras. Mas não as compras de lojas, em companhia de sua Princesa. Essas não. Ele detestava o entrar e sair de portas, as vitrines iluminadas, a profusão de ofertas, as remarcações. E menos ainda acompanhando uma indecisa esposa que buscava sempre um não-sei-o-que, quase nunca encontrado. Além do mais a Princesa, como já disse aqui, era plebéia. Buscava unir ao não-sei-o-que que buscava o preço mais barato. O Lord não ia nem amarrado.

Quando ele queria comprar alguma roupa, coisa que fazia uma vez por ano, no máximo duas, ia sempre à sua loja predileta, a Montreal.
Não comparava preços. Escolhia as camisas e calças de linho, sapatos mocassins de couro marrom e preto, quase iguais. Lenços brancos e cuecas brancas, sem concessões a qualquer modernidade.
Enquanto escolhia, tomava um whiskezinho e um café com o amigo e dono do estabelecimento.
Só comprava lá. Sempre na mesma loja, sempre as mesmas cores.
Os ternos ele mandava fazer com um alfaiate conhecido desde sua juventude. O nome está na ponta da língua, mas já espremi a memória até a exaustão e não consegui lembrar-me. Deixa para lá... não tem mesmo importância.
Ele detestava os ternos e com toda a razão. Usar paletó e gravata em Recife era um suicídio, principalmente numa época em que ar condicionado no carro era ficção científica!
Só os usava para situações muito específicas.
Mas era um Lord. E o que vestia lhe caia como um traje de gala.
Seu passo lento e elegante lhe emprestava um charme de dandy.
Pois sim...O dandy aí gostava mesmo era das compras de comida e especiarias. A Casa dos Frios era sua perdição. Ali comprava caviar, vinhos, queijos que minha mãe detestava, pois fediam terrivelmente. Ele ria...
E o paradoxo é que ele adorava as feiras.
Muito antes do advento do supermercado, a feira era dele. Minha mãe nem ia. A Princesa era plebéia mas não suportava a bagunça dos cheiros, a cacofonia de gritos,a variedade de "quanto-vale-e-quanto-pesa?" da feira.
Fazia a lista do que precisava e ele saia com cara de quem ia fazer o programa mais delicioso do mundo.
E fazia a farra! Comprava duzentas coisas que não estavam na lista. Voltava com o carro entupido de um tudo. Peixes enrolados em jornais, cordas de caranguejos
(vivos!), carne para um batalhão, frutas para abrir uma banca de feira em casa. Além das permanentes: laranjas, tangerinas, bananas, maracujás, melancia... trazia também as frutas especiais que nós adorávamos: jabuticabas, jaca, pinhas, graviola, pitombas, pitangas, ingá... (tipicamente nordestina a frutinha gelada que saia da vagem verde era um manjá que esperávamos com disposição para a briga)
Era uma festa de cores e sabores.
Ele tinha seus "fregueses" cativos nas bancas das feiras. E comprava acomodado num ou noutro banco de madeira, servido de um caju amarelo e suculento acompanhado de uma aguardente "especial" para os clientes especiais.
Eu recordo que adorava ir com ele à feira e passar um tempo "pajeada" por alguma filha de freguês, passeando fascinada entre as bruxas de pano, as bonequinhas de corda, a mobilia de barro ou madeira para toda uma casa de menina. Quando eu voltava, trazia sempre alguma coisa na mão e a cara de pidona. Ele dava e eu explodia de feliz.
Belas lembranças essas...
E então... o Lord estava acostumado a ser atendido com carinho e consideração. E ele correspondia tratando todo mundo com atenção e cordialidade. Elogiava as moças, chamava os velhos de camaradas, tomava cerveja com os feirantes, a quem chamava pelo nome ou apelido. Era um tal de Zeca para cá, Biu para lá, Tonho, Piaba, Joelho...
Em troca todos o tratavam de "doutor". Os "fregueses" traziam-lhe o melhor coentro e cebolinho, o melhor alface, os tomates mais vermelhos, as melhores frutas de suas bancas. Contavam-lhe histórias e piadas. O Lord se divertia tanto na feira quanto com seus amigos arquitetos e intelectuais. Ou mais!
Depois veio o supermercado. Ele relutou até que finalmente convenceu-se a freqüentá-lo. Ainda levava a lista feita por minha mãe no bolso, mas voltava com o que tinha de novo nas ofertas das prateleiras. Sua alegria era trazer as novidades.
Mas agora era diferente. Seu prazer já não era o mesmo. O atendimento era despersonalizado. Ele ia lá e pegava as bandejas de um tudo já prontas. E ninguém para atender. Nem banquinho de madeira, nem caju com cachaça.
E para mim? Nem bruxas de pano nem panelinhas de barro.
Um dia, enquanto ele passava as compras no caixa, a moça de cara feia e muda como uma porta, não esticava o braço para pegar nenhuma mercadoria. Ainda não existiam as esteiras móveis e ele ia empilhando as coisas umas sobre as outras no pequeno espaço diante da caixa. A moça esperava até que ele lhe entregasse na mão cada ítem, com cara retorcida de mal humor e desprezo.
Meu pai tranqüilamente fez o que ela esperava. Foi passando ítem por ítem. Quando terminou o último pacote, ele pagou, guardou o troco no bolso com sua calma de sempre e soltou:
-Eu sei por que a senhora é assim.
-Como? A moça o desafiou com cara de nojo e surpresa.
-Assim tão mal humorada. A senhora além de muito feia e sem peito, tem bigode. Dever ser muito difícil ser sorridente e bem humorada.

Rindo ele afastou-se em seu passo de gato lento, deixando a mulher pasma e sem resposta. Agora ela estava ainda mais feia. Roxa e bufando de raiva, mais parecia um porco bravo!
O Lord voltou muitas vezes à feira. E só ia ao supermercado uma vez por mês, para as compras de secos e enlatados.
Frutas, verduras, caranguejos, peixes enrolados no jornal continuaram a chegar em nossa casa trazidos por um Lord nordestino, com os olhos verdes brilhando e a cara de feliz, cheirando a caju e a cachaça.
*Lord Ribblesdale - John Singer Sargent.
**Mulher com os Braços Cruzados - Pablo Ruiz Picasso.
--------
Posted by norab at 3:52 PM | Comments (0)
novembro 7, 2004
O Lord e Seus Vícios...
O Lord fumava. De tudo. Cigarros, cachimbo, charutos. Era um fumante inveterado, desses que desperta no meio da noite para acender um cigarro. Uma vez dormiu com um entre os dedos e quase provocou um incêndio na cama.
Era seu vício incontrolável. Fumava Hollywood sem filtro, charutos importados de Havana e fumos ingleses, como Half&Half.
Além do prazer que sentia com o fumo, tinha verdadeira adoração por seus cachimbos importados. Passava horas limpando-os. Tinha até mesmo uma caixinha de instrumentos especiais para a tarefa. Era como um ritual que executava com paciência e cuidado, cantarolando os Cantos Gregorianos ou as Cantatas de Bach, nos domingos de chuva pesada que Casa Forte nos dava de presente.
Eu gostava da imagem que via. Tanto que guardo-a até hoje na lembrança. A música, o janelão aberto para o grande sítio de árvores centenárias, o braço do rio Capibaribe colado no muro, coberto por baronesas enormes. E a figura de meu pai, recortada nessa paisagem, imerso em suas paixões. A música, os livros e o tabaco.
Até muito tempo após sua morte, o gabinete tinha o cheiro do Lord. E apesar do que possam pensar, ele não cheirava mal. Cheirava a um Lord. Um mistura de colônia Inglesa, linho, tabaco e conhaque. Um cheiro que " sinto" ainda, basta recordar de sua figura única.
Tinha uma coleção de cinzeiros espalhada pela casa, digna de museu. De todos os países que havia visitado, de todos os hotéis onde havia se hospedado, de todos os restaurantes onde havia comido. Adorava roubar cinzeiros. Tinha-os de madeira, chumbo, cobre, cristal, cerâmica... era um verdadeiro colecionador. Nenhum de enfeite. Usava todos. E a maioria tinha história.

A melhor de todas foi a que lhe aconteceu num restaurante de Recife. Um desses restaurantes finos, cheio de frescuras, como ele gostava. Depois de comer com um grupo de amigos, foi servido o café, os licores e conhaques e meu pai sacou seu charuto. O maitre trouxe um cinzeiro lindo, com a marca do restaurante. Pronto. Esse estava morto. Fadado a fazer parte de sua coleção.
Depois de pagarem a conta, quando meu pai já se dirigia para a porta, com o cinzeiro dentro do bolso do paletó, o maitre se aproximou com um embrulho na mão.
- Com sua licença, doutor. Leve esse que está limpo.
- Como? Meu pai perguntou, surpreso.
- O cinzeiro, doutor. Esse aqui está limpo. E mostrou o embrulho bem arrumado em um guardanapo de papel.
O Lord avermelhou de constrangimento. Mas não se encolheu. E com sua voz grave e séria, perguntou:
- Você quer estragar minha coleção, é rapaz?
Aí foi o maitre quem ficou surpreso.
- Como doutor?
- Minha coleção é de cinzeiros roubados, rapaz. Não doados. Roubados, entendeu?
- Sim senhor... entendi senhor.
E meu pai saiu do restaurante com seu passo londrino, de cabeça erguida, como se o ofendido tivesse sido ele.
Voltou ao mesmo restaurante inúmeras vezes. O maitre o recebia com um sorriso cúmplice de velhos amigos, donos do mesmo segredo. E eram.
--------
Posted by norab at 7:47 PM | Comments (0)
O Lord e a Princesa...
Parece brincadeira, mas não é. Meu pai achava mesmo que sua mulher era uma princesa. E que devia viver numa torre, para evitar desgraças no reino com a sua extraordinária beleza. Por isso, ele construiu uma. Não era alta e de pedra como as de contos d´antanho, mas era rodeada de densa floresta.
Não creio que escondê-la fosse a intenção da casa, claro. Mas ajudava bastante a manter o isolamento da família.
Minha mãe a adorava , mas queixava-se por passar semanas sem ver uma alma viva passar. Sempre esperou que sua casa fosse apenas a primeira de muitas que viriam depois. Nunca vieram.
Ele não. Ele torcia para que não viesse ninguém. Adorava o mato, o silêncio, o espaço. Adorava que seus irmãos e amigos perguntassem, horrorizados, como tinham coragem de viver ali, longe de tudo.
"Tudo o que?" Perguntava o Lord com voz grave e condescendente, como se dissesse "que pobre de espírito, coitado." E levava os assustados visitantes pelos sendeiros de sua "propriedade-quase-rural". Plantava uma horta no quintal, que adulava quase todos os dias. Criava um cachorro negro e enorme com quem brincava de jogar os sapatos na noite escura, para que o animal os encontrasse e trouxesse-os de volta, depositando-os delicadamente diante de seu trono de vime, no terraço mal iluminado por lamparinas de ferro.
Na verdade, ele estava certo. Era melhor assim. A casa era de sonhos! Vaga-lumes enfeitavam o jardim como pequenas estrelas ao alcance da mão. Grilos e sapos faziam a festa todas as noites. E durante o dia, o sol nunca esquentava muito no Poço da Panela porque as árvores não deixavam. Sopravam seu perfume úmido e verde por todo o bairro.
Em nossa casa mais... pois o jardim era de grama e roseiras e jasmins e árvores frutíferas. Jambeiros imensos, azeitonas pretas centenárias, palmeiras de toda a vida. E ainda possuia os canários, sabiás, patativas e galos de campina, que faziam seus concertos com exclusividade para o Lorde e sua Princesa. Nada de gaiolas... criava todos soltos, com acesso livre às terrinas de barro para água e pequenos grãozinhos de comida espalhados por toda parte.
A casa era idolatrada pelos dois. Mas...a princesa tinha gostos plebeus. Adorava arrumá-la e mudar tudo de lugar. O Lorde ficava louco. Ela ria.
Ele dizia que ela não precisava fazer aquele serviço. Mas ela gostava e o fazia com prazer e alegria.
Arquiteto de profissão e Lorde por personalidade, meu pai escolhia com cuidado cores e objetos. Um quadro ali, cujo vermelho dava um toque de luz sobre o cinza dos sofás de couro, um espelho acolá, que dava a sensação de maior espaço...
Minha mãe vinha e botava o sofá do outro lado, embaixo da janela. Pegava o quadro e levava para a outra sala. Pendurava-o sobre a mesinha do telefone.
Ele ficava louco. Ela ria.
Não que ela não concordasse com seu gosto, mas é que tinha faniquito para mexer e mudar as coisas. Cada vez que limpava um cômodo, queria mudar tudo. Era impossível para ela viver num lugar que fosse igualzinho por toda a vida. Assim, de vez em quando trocava os móveis e os objetos de um canto para outro. Encostava minha cama na parede e eu, acordando à noite para ir ao banheiro e querendo sair pelo lado de sempre... tóin! metia a cara numa parede desconhecida. Gritava de pânico. Por segundos achava que era um pesadelo... ou que estava prisioneira em alguma masmorra! (ah, Freud!)
Ele implorava para que ela respeitasse pelo menos seu escritório. Pois sim... ela respeitava. Quase nunca o limpava. Qual era a graça de limpar e não poder mudar as coisas daqui-prali ?
Hunf!
Assim, as coisas do Lorde, suas caixas de ébano e marfim, suas esculturas africanas, suas réguas de todos os tamanhos e formas e suas canetas de nankin, ele e só ele manuseava. Centenas de livros e discos espalhados nas estantes, cadeiras e bancos; rolos e rolos de projetos sobre a enorme mesa de desenho. Ele era assim.
O engraçado é que ela era muito organizada e sabia onde estava cada um dos objetos da casa. Ele era extremamente desorganizado e misturava tudo nas gavetas. Mas estavam onde ele queria que estivessem: na sua bagunça. Quando queriam uma conta a pagar ou algum documento importante, ela era requisitada para procurar nas coisas dele. Dizia que parecia um ninho de bicho. Às vezes nunca encontravam.
Ela ficava louca. Ele ria.
Mas o Lorde e a Princesa amavam-se como nenhum outro casal que eu conheci. Se entendiam por telepatia. Ela fazia a lista das compras e esquecia de pedir alho. Quando descobria, falava em voz alta na cozinha, e ele "escutava" lá no supermercado. Quando ele chegava dizia " Você esqueceu de botar alho na lista, quando já estava no caixa, pensei que podia não ter e fui buscar." Ela dizia que tinha mandando a "mensagem". Quando ele chegava com um presente, que nunca precisava de data certa para chegar, testava " Adivinha o que eu trouxe para você?" Um livro, uma camisola, uma joia. Invariavelmente ela acertava, a danada. Um vez ele esqueceu o presente no carro. Quando estávamos jantando, ela disse ""E meu presente? Está no carro? É um relógio?" Era.
Ele ficava louco. Ela ria.
Sempre assim.
Outra vez, enquanto estávamos no terraço da casa da praia e ele lá longe, pescando, com um copo de cerveja na mão e sem camisa - ele sempre esquecia a lordice no Janga - ela disse só para nós " Ele vai trocar o copo de mão e coçar o umbigo." E foi exatamente o que ele fez.
Saímos correndo para contar-lhe que ela estava lendo seus pensamentos.
Ele ficava louco. Ela ria.

Um dia, numa das muitas alterações nos móveis da casa, inundada inúmeras vezes pelo rio, o Lorde maquiavélicamente mandou construir camas cujos espelhos eram chumbados na parede. Todas. E também fez armários de concreto. E mesas de madeira maciça, pesadíssimas. Impossíveis de serem mudados de lugar como ela gostava.
Por mais bonitos e harmônicos que fossem, ela perdeu o gosto e a alegria. Aos poucos foi deixando de arrumar, de botar flores, de rir.
Ele ficou louco quando viu que a casa era muito mais bonita antes... só porque ela ria.
Quando percebeu que não valeu a troca, era tarde...
*Still Life With a Cupboard - Carmen Laffn
--------
Posted by norab at 7:30 PM | Comments (0)
outubro 19, 2004
Rosinha...
Ela tinha esse nome doce e suave. Fisicamente também parecia uma rosinha. Morena, magrinha, baixinha. Era toda inha a minha Rosinha.
Foi ela que recebeu meus documentos no Departamento de Pessoal da primeira grande empresa em que trabalhei.
Depois de alguns anos, estávamos compartilhando a mesma sala de trabalho.
Conversávamos muito sobre seu assunto predileto: Religião.
Extremadamente cristã, Rosinha queria converter-me. Não perdia uma missa, uma novena, um enterro, um batizado. Não perdia uma ocasião em que pudesse falar de seu amor por Jesus.
Falava da Bíblia com a devoção de fé requerida pela Igreja Católica. Sem questionamentos.
E enquanto eu lia Deus, Uma Biografia, e lhe dizia que o Deus de sua Bíblia era vingativo, cruel e fofoqueiro. Um grande olho acusador e abelhudo. Que éramos tão imperfeitos por termos sido feitos à sua imagem e semelhança, ela franzia a testa e me benzia de longe.
Enquanto eu lhe dizia que a Igreja Católica só admitiu a existência de alma nas mulheres em meados do século XVII, ela sorria ... e me benzia de longe.
Então eu a provocava dizendo que o Deus misericordioso e protetor que ela conhecia só tinha aprendido a ser assim com seus filhos. Que aprendeu sendo Pai e vendo os próprios defeitos, que tinha reproduzido de si mesmo, em sua prole... pelo DNA. E aí ela ficava confusa e recitava um Salmo em minha salvação...
- Deus não tem defeitos, menina! Dizia ela, com pena de mim.
Ficamos muito amigas. E nunca parei de provocá-la. Acho que queria que me convencesse, ao final de tudo.
Estou falando de Rosinha porque foi ela quem me ensinou a cuidar de meus sonhos. Ela chamava-os de pedidos.
Dizia que se eu quisesse muito alcançar uma "graça", pedisse a Deus com todos os detalhes, sem medo de exagerar. Que não era para pedir generalizando. Tipo assim: " que tudo dê certo".
- Não... assim não. Tem que pedir o que é esse tudo!
E aí, quem sorria era eu.
Achava injusto e mesquinho pedir a um Deus em quem não acreditava.
Numa fase especialmente negra e confusa de minha vida pessoal e profissional, resolvi aceitar o conselho e tentar.
Pois então...
Só em começar a organizar minhas idéias para saber realmente o que pedir, já foi um grande salto para a luz.
Dizer luz é muito, mas uma penumbra se fez.
Descobri que pedia pouco à vida, me conformava com menos ainda. E gastava um tempo danado me queixando por não ter. Descobri que eu não sabia querer!
Virei a mesa... e fiquei presa embaixo dela.
Foi terrível. Não sabia viver o que pedia para mim. Me encontrei com sonhos que não eram meus e que se mostravam uma farsa.
Por um lado foi bom, pois só vivendo-os e descobrindo isso, pude me livrar deles e assim construir outros.
Mas doeu... doeu muito.

O processo durou uns dois ou três anos...ou cinco, não sei.
Desencavei sonhos mais puros. Sonhos de antigamente, nos quais eu não mais acreditava.
Limpei a poeira, reescrevi os detalhes.
E comecei a caminhar em direção a eles, a viver melhor...
Ser mais feliz.
E recriei um Deus.
Diferente do descrito na Bíblia. Um que fosse todo um colo de Pai. Que me fizesse pensar em mim mesma e nos outros com mais cuidado e compaixão. Que me ajudasse a ser mais doce comigo e com os outros. Que me ensinasse a criticar menos e criar mais. Que me ajudasse a escolher... como um bom Pai faria.
Aprendi a pedir... aos amigos, aos irmãos, a mim mesma e à vida.
Aprendi que "não precisar deixa a gente muito só". Já dizia Clarice.
Agora não tenho mais medo de pedir ou de agradecer o colo do novo Pai que criei para mim. Perdi muitas coisas que acreditava fundamentais, mas ganhei outras. Hoje, muito mais importantes para minha paz, minha alegria de viver.Sou uma pessoa melhor, para mim e para os outros. Sou menor e mais ampla.
Foi Rosinha com seus sorrisos condescendentes quem me abriu esta porta. Doce e suave Rosinha. Nem sabe disso. Ou sabe? Vai ver ela era um anjo...
Por onde andará Rosinha?
*Uldra - George Frederick Watts
--------
Posted by norab at 4:53 PM | Comments (0)
outubro 17, 2004
O Lorde e Ela...

Meu pai tinha gostos requintados.
Gostava de barcos a vela e golf. Jogava tênis e tocava piano.
Sonhava ter um veleiro e por isso era sócio do Cabanga Iate Club, no Pina. Freqüentava o Caxangá Golf Club da Várzea e falava Inglês com sotaque londrino, mesmo anter de ter ido à Inglaterra.
Era um lorde...
Como arquiteto, ele dizia, tinha que estar no lugar e na hora certa para ganhar um bom projeto.
Minha mãe era mãe. Dona de casa e mãe. Seus filhos eram a sua glória, a casa própria seu sonho realizado. Na juventude estudava belas artes e pintava lindamente. Era ceramista também, mas não acreditava no próprio talento e sua arte não nunca saiu de casa.
Cuidava das rosas e jasmins, de nós e do homem da sua vida com uma dedicação tão extremada que na família lhe chamavam de Amélia.
Mas ela era uma leoa.
Uma linda leoa por quem meu pai sentia os ciúmes mais ferozes que já vi na vida.
Pois sim... meu pai de lorde só tinha os gostos. Na intimidade do lar era muitas vezes agia como um homem das cavernas. Gostava de seus livros e sua música, seus cachimbos e seus conhaques...mas não sabia muito bem se mover nos papéis de pai e marido. Era louco por ela, mas seus ciúmes também eram loucos. Amava-nos, mas nunca nos disse. E isso não tinha explicação.
Quando saíam juntos, bastava que ela soltasse uma das suas risadas cristalinas e maravilhosas, para ele fechar a cara e querer ir embora.
Um vez, estávamos no Caxangá Golf Club, uma daquelas manhãs maravilhosas de sol e brisa fresca. Meu pai rodeado por seus amigos ingleses, italianos e japoneses com as respectivas madames, quando se acercou um garçom para tomar nota das bebidas. Ele cantava o pedido, para animar a gente a beber:
- Uma cerveja...uma caipirinha... uma Coca-Cola...uma Fanta Laranja ou uma Soda Limonada?
Assim... um por um.
Na vez da minha mãe, ela trocou os cabos. Ia pedir uma Fanta,decidiu por uma Soda. E pediu, com seu sorriso maravilhoso:
-Uma Foda, bem gelada.
O silêncio que se seguiu e a cor esverdeada que se espalhou pelo rosto do meu pai durou eternos segundos, até que o garçom respondeu, impassível:
-Pois não senhora. Bem gelada!
E passou para o seguinte.
Cinco minutos mais tarde estávamos todos no carro, voltando para casa.
O Lorde, para isso, não tinha muito senso de humor.
*Lord Ribblesdale -John Singer Sargent
--------
Posted by norab at 11:58 AM | Comments (0)
outubro 16, 2004
A Casa e o Rio...
Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela, ao lado do grande rio Capibaribe.
Nossa casa havia sido o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe quando por fim, um dia, meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la.
Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno num beco sem nome e sem saída, no bairro de Casa Forte.
O terreno estava muito próximo a um sítio de vegetação cerrada e árvores centenárias, por onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca ou os ruídos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem do rio. Eram vozes abafadas, que escutávamos como se fossem de duendes e fadas.
Entrávamos ali seguindo a velha Estrada Real do Poço, salpicada por casarões antigos cujos donos eram herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar.
No meio da Estrada estava a antiga sede do engenho, mal assombrada e tenebrosa a qualquer hora do dia ou da noite.
Do nosso lado os pequenos caminhos, o mato. Muito mato e os braços largos do rio.
Como se desenha um sonho?
Não foi fácil. Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram.
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da família, no início dos anos 60. Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera.
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida. Nunca jogava nada fora. Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possível segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava. Usava um vestido até que se rasgasse...
Mas finalmente, um dia, fomos ver a construção.Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel.
Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais.Que mais era necessário? Ah, sim... uma panela grande de barro marrom e todos os ingredientes de uma feijoada.
Trabalhamos todos naquele dia. Carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro.
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores que depois seriam minhas amigas por toda a vida. Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras.
Esse foi o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta.
Quase quatro anos depois, a construção ainda era construção.
Suas paredes já se revestiam de lambris de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade... E faltavam só 4 meses para a grande inauguração. Passaríamos o Natal de 65 na Casa.
Meu pai comprou um piano.
Assim, sem avisar... Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão. Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO!
Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes, para deslizar melhor.Nunca tive muito jeito de bailarina e caía cada vez que inventava rodar como elas. Mas era uma possível-futura-pianista.
Uma noite ele veio... o rio.
Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo até a altura de meio metro. Mas na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou os lambris de madeira do escritório... e levou o piano.
Mas antes o fez bailar sobre a água... descolou cada tecla de marfim... arrepiou a madeira... enegreceu tudo. Acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista...e eu nunca seria uma bailarina.
Meu pai chorou. E nunca mais falou do assunto. Creio que queria esquecer tamanha tragédia. Ou talvez seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria...
Ao final do ano nos mudamos para a casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção.
Pois é. Por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário e fosse, aos poucos, trocando pisos e portas, comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada. E violenta.
Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão e dava um toque de habitantes da selva às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim. E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto. Até que um dia cobriu a casa deixando apenas o reservatório de água de fora, como um bote abandonado e fantasmagórico.
A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos.
Subia-os às prateleiras mais altas da estante e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete.
Eram muitos os livros de meu pai. Uma biblioteca de teto ao chão de livros, dicionários e enciclopedias. Entre os mais amados, as obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós, Edgar Alan Poe. O melhores de Rubem Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Rachel de Queiroz. Variava de coleções completas sobre arte em pintura e arquitetura a mitologia ou séries de fição científica e suspense policial...
Era um cupim de livros, o meu pai. Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente.
Mas... na pressa de salvar a família de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados...
Ledo engano. O rio gostava de ler...
E sempre subia um pouco mais, até encontrá-los...
Dos discos, derretia as capas, cobria os sulcos com uma lama escorregadia. Dos livros só levava as letras... as frases... deixava o papel grudado e inchado como um cadáver... Como um ato de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido. Para a gente saber que ele era maior.
Ele vinha e se demorava lendo. Dias e dias...
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas e a última a que nos permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava. A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais. Entranhava em tudo...
Então, víamos meu pai chorar, apanhando de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira...
Lavávamos os discos com água e sabão, nús de suas capas coloridas. Coleções inteiras de Bach e Beethoven, as suas Óperas prediletas, os Jazz e os Blues, as Grandes Orquestras.
Uma raiva impotente, uma tristeza profunda se instalava na casa e em nossos corações.
Alguns discos era possível comprar outra vez, mas a maioria estava perdida para sempre. Eram selos esgotados, fora de catálogo.
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que o rio não lavou as frases.As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Ariano Suassuna...
Talvez o rio já os tivesse lido das outras vezes e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar.
Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi exatamente nesta que ele descobriu o esconderijo do telhado. Derrubou o teto... e leu tudo.
Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar... parou de sonhar.
Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos.
Tentamos batizar com o seu nome o beco sem saída, mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto, o pároco da pequena igreja branca.
Alguns anos depois, construíram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Casas modernas se espalharam por toda parte. E até edifícios, contrariando muitas leis de proteção ao meio ambiente e o Patrimônio Histórico.
O casarão mal assombrado é agora um museu, as ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser. Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono...
Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de reino das selvas. Enterraram as árvores até que morreram sufocadas. E a nossa casa também morreu...
Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes. Nem jasmins, nem roseiras... nem cheiro de mato verde...
Metade do antigo jardim é cimentado. Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem pitangas, nem araçás...
Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio.

Ele também não está mais lá, o rio...
Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construídas onde antes eram seus braços.
Também ele não tinha mais nada a perder. Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros... nem lhe tocava La Bohème às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço...
No beco, ainda sem saída, há agora um nome : o do padre da paróquia. E meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja branca.
Lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros...
Estão juntos de novo. E se pode sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de bronze, suas queixas mútuas de amigos rabugentos...
Antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos.
*Foto: Capela Nossa Senhora da Saúde Poço da Panela - Recife/PE
--------
Posted by norab at 2:17 PM | Comments (0)