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"Saveiro partiu de noite, foi...
Madrugada não voltou.
O marinheiro bonito...
Sereia do mar levou."

"É Doce Morrer no Mar"- Dorival Caymmi


caymmi - por elifas andreato -

O Lorde cumpriria seus 80 anos no dia 11 desse mês. Com certeza organizou a festa mais tarde, só para esperar seu amigo. Deve ter havido um grande abraço!

Eram ambos homens da música e do mar...



O banzo nem é por Pasárgada… tão linda e ensolarada!
Nem por seus mares mansos e mornos, nem pela água de coco verde bem embaixo da janela, nem pelos belos rios que a cortam em ilhas, nem pelas antigas pontes que cruzam suas águas ou os belos casarões que enfeitam suas margens...

recife%20de%20hoje.jpg O banzo é por eles, pelos queridos irmãos e amigos, pela bela e doce cunhada, bruxa das boas, com halo dourado sobre a cabeça e olhos amarelos como os de um gato na escuridão.
Ela foi uma das poucas a quem eu contei a troca de cartas com olhos-de-mar-azul. E naquele momento também foi a única que disse "vai dar certo, acredite, aposte, concentre nisso suas energias, não deixe a razão desviar seu coração…"
Ela é bruxa do bem.

Não a chamo de fada porque ela é feita de outro material e espírito e quem tem intimidade com bruxas e fadas sabe a diferença. Eu tenho e sei. Ela é bruxa mesmo. Das raras e muito boas. Tive sorte de tê-la por perto em momentos tão decisivos de minha vida.

Então… claro que eu acreditei nela. E nunca esqueço que cada vez que meu medo crescia e eu duvidava de mim mesma, do meu romantismo, dos meus sonhos, ela me aprumava na mesa da cozinha diante de uma xícara de café fresquinho e fumegante, um pedaço de bolo de fubá cheiroso e macio e, com voz doce mas segura e firme, tão firme que parecia saber mais, muito mais do que eu contava, dizia "eu sei que vai dar certo, confie e não disperse energia". E parecia que qualquer dúvida se esfumava, desaparecia, perdia a força.

Pois sim…
Tenho banzo disso. Desse tipo de aconchego nordestino. Da cozinha dela com café e bolo de fubá.
Também tenho de outras cozinhas ou sofás de amigas, onde a conversa fluía lenta com tanta facilidade e sem qualquer preocupação por escolher palavras e esconder sentimentos. As expressões que em si mesmas já diziam tudo e que aqui não servem para nada. " Vixe, eu heim! Pense numa pessoa troncha de saudade ! Tô até demente!" Ho ho ho…

Outro dia eu disse assim: « Tô querendo ir não, visse. Tô de banzo, dengosa, devagar quase parando… tô só querendo espalhar minha saudade pelos cantos da casa e escutar Lenine cantar… »
Depois vi que não havia trocado o chip e estava falando em perfeito pernambuquês e, claro, a outra pessoa não tinha entendido nada.
Nem dava pra traduzir.
Primeiro que eu nem sabia (ainda não sei ) como dizer isso em Espanhol, "Yo no estoy queriendo nada. Yo estoy…"
Desisti. Como se diz essas coisinhas da alma pernambucana em madrileño?
Deu logo vontade de chorar…

Ainda bem que falo Português com meu marido ( que chic e que estranho chamar meu prometido, meu amante, meu querido olhos-de-mar azul de marido! ) e para ele posso dizer essas besteirinhas, que não servem se forem ditas em nenhum outro idioma. E ele me responde em Espanhol, que eu também adoro e acho lindo. Não é uma maravilha isso? Nem um de nós dois precisa abdicar de seu próprio idioma, de suas expressões mais pessoais. Eu acho isso bárbaro!

Falo Espanhol com outros e me esforço em melhorar a pronúncia e o vocabulário, mas com ele falo em Português. Assim, quando ele chega no Brasil entende tudo e fala o que consegue. E já consegue muito!
Tem gente que assume tão completamente a cultura do país onde está que fala unicamente o idioma do lugar. Até os filhos educam sem ensinar o idioma de sua terra natal.

Tenho uma prima que vive nos EUA há mais de dez anos. Seu marido não sabe dizer nada em Português, exceto "obrruigaddo". E sorri como se tivesse realizado um dos trabalhos de Hercules!
E seus filhos falam exclusivamente Inglês. Perguntei-lhe uma vez por que ela não falava com seus filhos em Português para que fossem bilíngues sem qualquer esforço e ela me respondeu que seus filhos eram A-me-ri-ca-nos e falavam perfeitamente o idioma de Seu país. Aprenderiam Português se quisessem, quando fossem adultos.

Que "bourrrah" ! ( Leiam com sotaque, viu?)

Os pobres meninos quando vão ao Brasil não podem comunicar-se com seus avós, tios e primos. Dependem da mãe para tudo… e olham para o mundo como se ele – todo, inteiro – tivesse a obrigação de falar Inglês.

Desculpem os que defendem essa atitude, mas eu acho de uma burrice aterradora. Imaginem já ser bilíngue com três ou quatro anos de idade! Isso é uma maravilha para uma criança, desenvolve seu cérebro, ajuda a que ela comunique-se com sua família, abre seus horizontes. Ela não perde nada aprendendo os dois idiomas simultaneamente. Pelo contrário, só ganha!
Tá. Sei lá o que passa na cabeça desta minha prima. Deve ser algo marrom e fedorento… hhahahaha!

Tá bom… fui venenozinha, admito. Mas fico furiosa com brasileiros que saem de seu país e parecem ter vergonha dele. Esquecem os amigos, a própria cultura, as suas raízes.
Deixa para lá… eu estava falando do meu banzo, das minhas saudades…

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Não era brincadeira quando escrevi, antes de viajar, que lá em Pernambuco cada amigo é rei. Cada irmão, cada amigo e até os parentes e amigos deles, que muitas vezes nem nos conhecem bem, nos abrem suas casas e seus corações tão completamente que nos sentimos em verdadeiros palácios feitos de amor.
O carinho com que todos nos recebem, a consideração, o desejo de abraçar, tocar, acarinhar, fazer dengos é uma característica constante do nosso povo. Que delícia! Lá a gente passa o tempo todo se tocando, dando as mãos, trocando beijos…

Uma farra de abraços e beijos era tudo o que eu queria da minha Pasárgada…
E tive!

E de quebra, ( vai dizer isso em Espanhol, vai! ) também os mares morninhos, agulhas fritas com cervejas estupidamente geladas, carne de sol com feijão verde e farofa, manteiga de garrafa, bobó de camarão, escondidinho de xarque, peixe fresquinho, patolas e casquinhos de carangueijo, cuscuz e munguzá, tapioca quentinha e bolo de rolo… e mais e mais… aí, ai, meu deus!
Que farra! Tanto a de carinhos quanto a de delícias culinárias!
Que mamão docinho, que abacaxi mel, que mangas macias e saborosas, que bananas mais lindas, que melões e melancias tão suculentas…
E sorvete ( sorvete de fruta! ) de cajá? De pitanga ou graviola ou mangaba??
Alguém sabe lá o que é TER E PERDER isso tudo de uma vez?
Dá banzo ou não dá?

Desta vez os amigos fizeram uma mesa que tinha até ingá, tamarindo, pitanga, carambola, umbu, cajú, cajá, cajarana, jaca, azeitona preta… A poupa, não! As frutas! Todas fresquinhas, vindas diretamente da feira de Jaboatão!
Cada uma trazia dentro do si um gosto de infância, uma lembrança da Princesa, outra do Lorde, do Janga de antigamente, da casa de Casa Forte, do sítio do Poço da Panela, dos pés descalços e sujos, das ruas de barro e mato, dos jardins perfumados por rosas e jasmins.

Um casal de amigos fez a festa do nosso casamento justamente aí, na casa deles, bem no meio do Poço da Panela. Tão pertinho do meu passado que ele estava todo alí! Meus queridos fantasmas espalhados entre samambaias, trepados nas palmeiras, rindo felizes…

Na brincadeira de jogar o buquê - que não havia - peguei um ramo florido de jasmim. Nele o cheiro inteiro da Princesa, não pensem que eu não sabia. Quando fiquei de costas e joguei a florzinha branca e cheirosa para o alto, todas as amigas tinham um ramo igual entre os dedos. Foi uma anarquia só. Todas se casarão no mesmo dia, para que eu possa ir! Gargalhamos juntas, numa alegria imensa só por isso, por gargalharmos juntas.

Dá banzo deixar esse mundo… esse rir junto aos amigos, esse dengo que eles me dão, esses abraços tão apertados no meio da rua, os beijos estalados, esse sentir a presença da própria história no ar, esse contar as coisas na língua de toda a vida!

Aí eu vim… cheguei aqui meio chorona. E tive a felicidade de ganhar um presente: fui convidada para um aniversário no Liceu de Belas Artes de Madrid, com dez brasileiras. Êbaaa!

Só conhecia pessoalmente a aniversariante, mas peguei um trem para Recoletos, caminhei por uma Madrid bela e primaveril para estar com todas elas, com muita vontade.

Adoro Madrid e sua gente. Mas desta vez foi como estar dentro de um mar morninho ou numa bela e aconchegante cozinha, tomando um café fumegante e trocando carinhos.
Só faltou o bolo de fubá.
Prometo que no próximo encontro não vai faltar.



Ainda estou com banzo...

toquinho2%202007.jpg



Vou-me embora pra Pasárgada...
Lá todo amigo é rei...
Levo o homem que quero... pra cama que escolherei!

pasargada2.jpg

Se houver tempo e lugar... escreverei!

Hasta la vuelta.



Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então...essa é uma das que resolvi imprimir.
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Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás...
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras.... é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio....

Pois é... eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: " Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar..."
Aí passa um carro, faz a volta... uma mulher desce com ar desconfiado.
- Vocês vão fazer o que?
- Estamos limpanho e plantando a pracinha...
- Vocês conheciam o Mano Teodósio?
- Não... mas gostamos dele.
- Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
- Não... só vamos lavar. Por que?
- Ele era meu irmão...
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja... brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo... "Obrigada... Obrigada..."
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
- Sim. Elas disseram.

Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta... e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.

pra%E7a%20mano%20teodosio.jpgEla voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre... assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita... exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: " Estava à toa na vida... o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor... "

Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher... o Mano de outra...
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava...
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: " Voce sabe ser feliz?"
E lá estava eu ... feliz, assim de repente.
Por nada...



Passei o dia com uma vibração dentro do peito. Fiz o que nunca faço: logo pela manhã elegi a roupa que pretendia usar à noite e, como a criança obediente que fui, deixei-a sobre a cama com zelo. Assim gostava de fazer a minha mãe,a Princesa. Eu, que jamais gostei de escolher a roupa antes da hora de vestir-me, estranhei.

Andei pela casa como suspensa numa nuvem antiga e reconhecida. Cuidei das plantas sem conversar com elas, deixando que os sons remotos das vozes perdidas ecoassem na minha memória. Engoli o almoço sem sentir seu sabor. Parecia… por momentos, estar de volta à lugares e idades distintas. Faço isso muitas vezes na minha vida.
Acho que não tenho muito delimitado essa coisa de passado, presente e futuro. Vivo e re-vivo e pré-vivo sentimentos e sensações com a memória e a imaginação frequentemente.
Ontem o tempo oscilava entre presente e passado a cada larga hora do dia…
Há anos que eu não sentia um dia passar tão devagar!
la boheme1.jpg
Sobre a mesa do gabinete, uma página impressa recordava o motivo de minha inquietude. Registrava que tínhamos entradas para a ópera em Madrid. La Bohème, de Puccini.

(Clique aqui e escute a ária Si, me chiamano Mimi , com Maria Callas. Também pode escutar Che gelida manina, com Pavarotti, na mesma página do site El Poder de La Palabra, cujo link eu indico aí ao lado.)

Então... minha primeira vez no Teatro Real de Madrid. E também minha primeira vez numa ópera ao vivo e a cores.E logo La Bohème! Emocionante demais! Mais do que se possa imaginar.
Apesar de ser minha estreia numa apresentação desse tipo, a emoção maior não era apenas por isso. Era algo mais visceral.
Eu nasci escutando ópera. Esta era uma das grandes paixões do Lorde. E La Bohème uma de suas prediletas.

Recordo, mais com a memória dos sentimentos que com a memória da razão, estar entre seus braços numa das muitas noites de brumas da casa do Poço da Panela, escutando Mimi em seus primeiros instantes de enamoramento…

"Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve.
A tela o a seta
ricamo in casa e fuori... "

Não que eu soubesse o que estava dizendo aquela voz tão extraordinária, era muito pequena, mas sentia que seu encanto e beleza se espalhavam por sobre nós e a casa, avançavam como uma onda por sobre as baronesas que cobriam o braço do rio e iam enfeitiçar as árvores centenárias da outra margem. Quem sabe estavam os seres encantados que viviam nas matas também fascinados como eu?

Depois, muitas foram as vezes que escutei Mimi e Rodolfo recitarem seu amor e desventuras… aí eu já sabia o que diziam e o prazer só aumentou.

Acho que já disse aqui que a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música. E foi através dessa herança que eu "reabilitei" a minha relação com ele.

O Lorde era uma criatura fora de série. Podia ser o sujeito mais sensível do mundo para umas coisas e o mais rude para outras. Era dono de uma inteligência e sensibilidade privilegiadas, mas como pai não foi nada competente. Amava com muita crueldade. Quem sabe um dia eu fale sobre esse aspecto de nossa relação. Agora não creio que valha a pena.
Muitos anos depois de sua morte, resolvi rememorar apenas seus momentos suaves… embora, de vez em quando, os outros ressurjam das brumas e venham sombrear recordações de minha infância e juventude.

Ontem ele estava lindo, com seus verdes olhos molhados de emoção assistindo La Bohème comigo.

cafe de oriente-madrid2.jpg
Antes, como para preparar-nos, levei-o dentro do peito para a bela praça diante do Palácio Real de Madrid. Sentamos na antiquíssima " terraza " do Café Oriente e tomamos um café com Drambuí e sorvete como sei que ele amaria, enquanto olhávamos as pessoas que chegavam para a função.
(Adoro olhar as roupas, sapatos, abrigos… Para mim já faz parte do "evento" observar como estão vestidas as pessoas. E mais, eu ainda crio histórias para elas… mas isso dá outro post sobre manias.Já descobri que mantenho algumas das antigas, só que tinha esquecido delas.)

Pois sim…

labohememadrid2.jpg
O coração batia forte quando entramos no teatro e buscamos nossos assentos. Quando a cortina abriu e a orquestra executou os primeiros acordes, temi deixar-me levar pela irritação por ter comprado lugares em um dos camarotes laterais, caros demais para uma visão tão reduzida. ( Como se atrevem?)

Mas depois, levantando-me muitas vezes, contando com a paciência amorosa de Pepe e o próprio cuidado da produção que fez com que os personagens se movessem por ambos lados do cenário, numa primorosa recriação da buhardilla parisiense ou da antiga rua do quartier latin francês de 1840 relaxei e aproveitei. E aos poucos, principalmente pela força da representação e da música, entrei em transe.

Tomei nos braços a minha lembrança daqueles belos momentos de intimidade com meu pai e desejei de todo coração que ele e minha mãe pudessem estar mesmo ali comigo e com Pepe. E, se não... imaginar que eles podiam assistir nossa ópera favorita através de meus olhos e de minha saudade.

A atuação da companhia foi deslumbrante!
E eu chorei feliz, como estava previsto, com o lenço branco de olhos-de-mar-azul em volta do nariz para não fazer barulho.
Assim, foi com o coração cheio de suave alegria e um toque de agradável nostalgia que brindei com Pepe, no hall do teatro durante um dos intervalos, ao sabor de uma bela taça de cava espanhol, à memória do Lorde e da Princesa, que infelizmente ele não conheceu.

Dediquei a eles minha estreia.
Sim, porque essa foi só a minha primeira vez. Tenho certeza que virão outras.
Pretendo, um dia, se Deus ajudar, ir ao Festival de Ópera de Verona.
E Deus gosta de mim. Eu sei.



Há quase meio século atrás, Cabelinho de Espiga de Milho tinha o mesmo tamanho e a mesma idade que eu.
E, enquanto eu era morena e tinha os cabelos muito curtos, maltratados pelo mesmo barbeiro que pelava meus irmãos como se eles fossem soldados em vias de serem enviados à guerra mais próxima, ela tinha belos, longos e lisos cabelos da cor dos raios de sol, olhos azuis e sobrenome inglês. Era quase igual às bonecas das vitrines da Lojas 4.400, a loja rainha da Rua da Imperatriz de minha infância.
Mas ela não era uma bonequinha de loja, nem de livro. Era real e definitivamente a rainha da rua. Falava a língua do P com perfeição, xingava quando perdia no jogo, atirava pedras, roubava frutas das árvores alheias, dava ordens aos meninos que lhe seguiam por toda parte. Era mais autoritária que qualquer Imperatriz. E eu gostei dela.
Quando chegamos em Casa Forte, Cabelinho de Espiga de Milho transformou-se em minha melhor amiga. Inseparável amiga. Tínhamos 5 anos.
Éramos diferentes das outras meninas da rua. Enquanto elas brincavam de bonecas e comidinhas, nós fazíamos guerra de bolas de lama, lutas de mocinho e bandido, campeonatos de bola de gude, queimado e gamão, criávamos teatros de marionetes, fomentávamos as corridas de bicicleta pelas ruas do bairro…
Estávamos sempre entre os meninos.
Enquanto passavam os anos e eu deixava os cabelos crescerem em indomáveis e fartos cachos castanhos, ela ia cortando os raios de sol cada vez mais curtos. Eu chegando ao metro e setenta, ela parando a pouco mais do metro e meio. Eu romantizando a vida. Ela racionalizando-a. Eu escrevendo cadernos de poesias. Ela lendo novelas policiais. Eu lenta e desarrumada. Ela diligente e ativa. Era a melhor ajudante da mãe para criar os quatro irmãos que nasceram depois dela. Mas continuávamos inseparáveis. Éramos como irmãs e nos apresentávamos, com todo orgulho, assim: “Somos gêmeas, idênticas. Não vêem as semelhanças?”

Estudamos juntas até a entrada na faculdade, quando a vocação de cada uma nos separou. Eu fui estudar Psicologia, ela Engenharia. Mas a amizade continuou para sempre.
Quando tínhamos 19 anos, caiu a bomba sobre nós. Cabelinho de Espiga de Milho estava com câncer.
Eu me debulhei em lágrimas infelizes. Ela se preparou para a luta.
Seu cabelo caiu todinho, fez mil e uma cirurgias investigativas. O tratamento foi violentíssimo, mas ela ganhou. Nunca deixou que a doença tomasse conta do seu espírito. Era indomável.

Depois disso, o cabelo cresceu mais escuro, os olhos ficaram mais duros e determinados, mas ela deu a volta por cima e sem perder uma prova da faculdade, formou-se e transformou-se numa excelente profissional. Sua capacidade de mando continuou por toda a vida. Sua força vital também. Ganhou mais duas batalhas contra a doença, que insistia em dobrá-la. Nunca o conseguiu.
Casou-se. Adotou um menininho lindo como filho querido, já que a capacidade de ser mãe estava limitada pelas muitas radiações que tomou na vida.
Depois, não sei precisar exatamente quando, as contingências da vida de cada uma, profissionais e pessoais foi nos afastando da convivência diária, dos programas sociais…
Apesar de vivermos na mesma cidade, víamos-nos tão pouco! Falávamos por telefone e prometíamos encontros nunca marcados.

ninarubia3.JPG
Meses atrás, por casualidade, estive com seu irmão em Madri. Ele disse que o câncer havia voltado e que desta vez a luta estava mais acirrada, a miserável tinha tomado conta de seu ponto mais forte: o cérebro.
Não havia mais nenhuma saída.
Recebi um e-mail de sua sobrinha uns dias atrás... Nele uma foto de minha amiga de toda a vida, com cabelos curtos e escuros (talvez postiços) ao lado de um texto de despedida com data de nascimento e de morte.
Enquanto eu fazia mechas de luz nos cabelos castanhos para comemorar os 50 anos, exatamente no dia 15 de setembro passado, minha querida e lutadora amiga, faltando apenas dois meses para cumpri-los também, adormeceu para sempre.
Minha primeira e eterna amiga morreu no dia do meu aniversário de 50 anos!
Há uma semana a lembrança de seu cabelinho de milho, sua voz, seu sorriso, o encanto de seus olhos azuis de boneca me acompanham por toda a casa… e nessas lembranças não temos os cinquenta anos que já vivemos, juntas ou separadas…
Temos os cinco anos de quando nos encontramos pela primeira vez, numa rua de barro e lama de Casa Forte.
E esta é a maior e será a minha eterna saudade…



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Acabo de ler a notícia da morte de um grande personagem da vida política de Pernambuco e do Brasil.

Miguel Arraes de Alencar era um cavaleiro andante, um lutador, um político excepcional. Eu tive a honra e o prazer de trabalhar três anos em um projeto social da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, sob a coordenação do Dr. Cyro de Andrade Lima, Dra. Terezinha Tabosa e Dra. Bernadete Lins Paes, durante o governo de Dr. Arraes. Apesar de todas as dificuldades de infraestutura do Estado, o Projeto Boa Visão foi uma das experiências profissionais mais gratificantes de minha carreira.
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Ainda tive a honra de estar presente, sentada sobre o solo da grande sala da casa de Ariano Suassuna, a mais gostosa que existe na Rua do Chacon, em Casa Forte, em noites maravilhosas de conversas animadas e inteligentes entre Arraes e meu querido Ariano , amigo eterno do meu pai.

Noites em muito aprendi e que eu jamais esquecerei.

Arraes foi muito mais que um mito. Era um homem de idéias e princípios.E de muito trabalho.

Pernambuco, principalmente o interior do Estado, deve muitas de suas conquistas a ele.

Estou de luto.
Meu coração está lá...



A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas...
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco...
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?

Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
- Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.

Pois então... os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios... "Pedacinhos de morte", como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida...

Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim... estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.

Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!

Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista...
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia... suspirei nem sei por que.

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Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, - cabiam tão poucos! - voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.

Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias... Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas... agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas...cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado... Mas esse capítulo merece um post a parte.

Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.

Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão) e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.

Pois sim...ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.

Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc... e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando...

Soube que está lendo como nunca... e sorrio feliz com a notícia!

......................

Ps:Alguem quer saber um pouco sobre a Alhambra de Granada? Pois vale a pena clicar AQUI e viajar pelo monumento histórico mais visitado de toda a Espanha!



No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim...
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

dali-gala.jpg

UM INSTANTE

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.

Ferreira Gullar
.....................


Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.

.......................

A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo - são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! - e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho...
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos...
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz "quitaran mi bolso!"
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: "Quitaran mi bolso... Ai, quitaran mi bolso, hija mía."
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: "Quitaran mi bolso...quitaran mi bolso, hija mía."

- Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)

Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de "assalto". Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto... Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.

-"Dez euros...todo meu dinheiro, e as chaves de casa... ai, e as fotos de meus sobrinhos...ai, hija mía, quitaran mi bolso!"

Aquela voz me trouxe lembranças queridas... e eu quase começava a chorar antes dela...
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado "Maruja!"
Pensei: "Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos."

Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A "nossa" espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com " su bolso" outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa...

Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos...
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia...

Madre mía...




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