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Não mate o amor! Enamore-se dele.

Não mate o amor. Enamore-se dele.



Pediram-me que eu escrevesse uma mensagem para ser lida no aniversário de uma grande amiga. Inspirei-mei numa antiga carta que tinha escrito para enviar-lhe uma cesta imaginária cheia dos meus presentes, minha saudade e meu carinho.
Já que isso aqui também é meu cadernos de especiarias, não há melhor lugar onde guardá-la.

A mensagem virou carta... e ficou assim.

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Tete, minha tão querida amiga.
Queria estar com você neste momento para cantar o especial parabéns deste ano. Pode imaginar como eu queria estar nas "Bodas Douradas" de sua vida ? Pode imaginar como eu queria poder cantar em voz bem alta aquela sua música predileta - "Abra os braços pra me guardar/ e eu toda vou me entregar/ começo, meio e fim... e a minha cuca ruim "- e me acabar de rir com a coreagrafia, que eu sei de memória, mas que é sempre como se eu a visse pela primeira vez?

Queria poder encher seu copo de whisky e gelo para ver você subir na mesa mais próxima e fingir um sambinha legal olhando para as mãos - como você me ensinou - com ele sobre a cabeça - que isso eu nunca aprendi - e ver a cara de angústia daqueles que ainda não acreditam que esse copo não vai cair de jeito nenhum.
Eu sei. Eu sei.

TT, muléu do meu coração, queria poder entrar aí de surpresa - mais uma das muitas preparadas para esta noite - com um grande ramalhete de rosas coloridas e uma cesta cheia de presentes, meu sorriso, meu carinho, minha imensa vontade de estar com todos vocês.
Mas não posso ir de verdade e então descrevo o que há dentro da cesta e aí você faz de conta que ela existe...e me diz se você gosta.

Claro que há um búzio grande e rosado para você ouvir o mar que mora dentro dele - e de mim - mesmo enquanto estiver no escritório... chuam! chuam!
Minhas cestas sempre levam um búzio rosado... será que esta foi uma das minhas casas?
Leva também um caleidoscópio de lata, que faz txim...txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. Esse foi um dos belos presentes que eu ganhei do Lorde. Inesquecível presente... inesquecível ruído... absolutamente inesquecível felicidade!
E você diz " essa Nora é doida mesmo!" Mas ri encantada porque sente uma alegria antiga de menina feliz.

Tá bom... tá bom...
Também tem umas garrafas do whisky que você gosta, blusas lindas e decotadas e sapatos de saltos altos. Vai junto um kit com as melhores novelas de todos os tempos e uma assinatura da revista que conta a história delas com um mês de antecedência.
Tem uma agenda nova com todos os telefones de todas as pessoas que você conhece e quer voltar a ver. E ela se atualiza sozinha, como mágica.
Tem um pote cheio de saúde pra você distribuir com quem precisar, viu? Tirei só um pouquinho pro meu pé fodidinho e meu joelho podre. O resto estou mandando...

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Do lado de lá da cestinha há uma caixa enfeitada, cheia de biscoitos da sorte, cada um com uma mensagem de boa ventura. Se você quiser poderá distribuir para toda a gente que te ama e que está aí... e assim haverá ventura para todos.
Aposto que todo mundo vai comer pelo menos um. E ninguém vai pensar se o tal biscoito engorda! Vai por mim, TT querida, todo mundo vai querer.
E você dirá, que eu mandei dizer, que felicidade engorda um pouco... mas vale a pena. Eles vão rir e trocar cúmplices olhares. Muitos já sabem, não é mesmo?

Deixe a caixa com papel dourado para o fim, que ela é nostálgica e talvez não seja ainda a hora de abri-la. Aproveite e prove as botas de camurça verde que acho que é seu número e fique sabendo que com elas vai poder viajar - sem pagar passagem alguma - pelo mundo inteiro!
Mas primeiro venha me ver, minha amiga, que a saudade é enorme e tenho tanta Espanha para te mostrar!

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Pode abrir também a lata branca da paz profunda. Uma lata grande e redonda que está no fundo da cesta, já viu? Mas só abra de pouquinho, querida. Na natureza, já se sabe , é preciso alguma forma de inquietude, alguma ânsia sem nome que nos desperte no meio da noite, um desejo de vencer o tempo, um desafio da mente e até alguma lembrança triste para gente saber o que vale a alegria.

Então... ao lado ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de você precisar... a gente sempre precisa, não é? Se não pelas nossas dores, pelas dores dos amigos...
É preciso compartir de um tudo e eu sei que você é fera nesse negócio de ser amigo para todas as horas. Além das farras, das festas, das serenatas pelas madrugadas a fora, nunca deixa de estar com a gente nos dias escuros da dor.
Eu sei. Eu sei.

Também tem uma caixinha pequena, embrulhada com algodão, com vários tipos de silêncios. Assim você escolhe aquele que mais combine com a sua necessidade... ou a de seu amigo.

Mas veja bem, eu vou e ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir que é mágica, que tal? Você vai poder usar seus poderes para repartir balas e doces com as crianças ou tratar de alimentar seus velhinhos....
- Por sinal, por onde anda aquele seu velhinho?

Ou quem sabe, está precisando congelar alguém por um tempo, talvez fazê-lo desaparecer de uma vez por todas do cenário numa nuvem de pó bem fedorento!

Ah!... cuidado com esse saquinho cheio de furos, pois dentro há um bichinho! É um filhote de papagaio que já fala e sabe mil e uma sacanagens só para você embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas. Assim você esquece as agústias e os medos... e dorme o sono que precisa dormir.
Que? Não faz mal rir do que já se sabe que é engraçado. Isso eu sei que você sabe! E como sabe!

caixa dourada

Agora pode abrir a tal caixa dourada. Digo que é uma caixa nostálgica porque ela guarda imagens, cheiros, gostos e sons que te contam as grandes e pequenas estórias... suas e minhas, nossas.
Guarda as estrelas cadentes sobre a casa de Toquinho, as agulhinhas fritas da Janete, um por do sol bem rosado em qualquer parte perto do rio... e depois, umas tantas caipiroskas com luas cheias nascendo, enormes e bonitas, bem em frente ao Bar Biruta.
Guarda os cinco contos de réis - porque fosse qual fosse a moeda a gente sempre saía com "contos de réis" - dos whiskies compartidos no antigo Bairro do Recife e os 17 cigarros fumados no Bar Real. Desculpe, você só tinha 17. Mas a gente fumou junto!
Guarda um desfile com uma baliza em biquini, sons metálicos das gargantas imitando as cornetas e os instrumentos feitos com sandálias havainas enfiadas nos dedos das mãos pelas ruas e praças da Barra, e também um prato de "Tinha" no bar miserável que nem sei mais o nome, onde faltava tudo o que tinha, menos nossa risada, apesar da fome!

Guarda a saudade do Urso de Casa Forte, dos bailes do Siri na Lata, das fantasias de pescadoras... "Caiu na rede é Peixe, meu bem! "
Guarda aquele seu maravilhoso Taxi de joelho fodido e amarrado - agora eu tenho um igual - que levava para todo lado uma índia beijoqueira, uma cigana macumbeira ou uma fada embrigada diante da câmara da televisão :
- Essa fada sai todo ano? Um microfone enorme e global bem na minha boca.
- Safada é teu passado, minha filha? Olhando para a câmara com cara de fada inocente.

Ai, meu deus... quanta ladeira!

A caixa dourada guarda o cheiro dos mares de Pernambuco, o gosto da cervejinha de Peu, dos Parmeggianas dos fins de noite, guarda os sons das serenatas dos amigos, o carinho dos muitos anos que convivemos, tantas coisas que compartilhamos, o respeito que sempre tivemos pelas nossas diferenças...

Ai.. Sodade. Sodade...


Já basta de nostalgias. Hora de festa! Felizes próximos 50 anos, muléu.
Eu sei que você já foi feliz nos 50 que já viveu. Abra o último dos pacotes e distribua a metade dos meus beijos para todo mundo que está aí! A outra metada é só pra você. Com todo o meu amor!

E manda botar o som na caixa, bem alto, com a melhor de todas as minhas saudades. Você chegando de braços abertos, balançando o corpo e dançando...

"Tetê..Te-te-re-tê... Tetê... Te.te-re-tê... Tetê... Te-te-re-têee!!!

Tetêeeeeeee!"



À pedidos, vou publicar a receita do bolo de noiva , estilo pernambucano, que eu mesma fiz, aqui em Santorcaz.
Claro que, para o casamento, eu contratei duas tortas maravilhosas na pastelaria artesanal perto de casa. Uma de damasco e outra de nozes. Deliciosas!

Pero...O paladar dos madrilenos para doces é muito diferente do meu. Eu gosto de doce que leva açúcar. Doce, doce. Aqui as sobremesas são meio "sosas", falta açúcar. Em compensação, eles gostam de muita gordura e os cremes e natas abundam. Puff...
pastel de la boda
Então... como o casamento era MEU, eu queria um bolo de noiva pernambucano. Pronto.
Liguei para a boleira mais maravilhosa do mundo, minha cunhada, bruxa das boas, já disse aqui. Anotei passo a passo suas recomendações e resolvi arriscar-me.
Mas decidi fazer um bolo pequeno e apoiar a sobremesa oficial nas tortas que havia encomendado, pois não queria impor meu gosto aos convidados

Tá bom,tá bom... para ser muito sincera, também não quis arriscar fazer uma merreca de bolo. Eu sou um tanto perigosa na cozinha... e mais quando o assunto é pão ou bolo. Eles queimam, suicidam-se, murcham, viram pedra... ou papa. Em quase 90% das tentativas. É uma estatística " de peso"!

Mas não desisti da ideia...

Acertei nos 10%. Ficou ótimo! E não sobrou nem um pedacinho pra guardar no congelador por um ano, como manda a tradição.
Bueno, nada é perfeito... valeu ter feito, acertado e compartilhado com todos minha obra de arte culinária!

Aí vai a receita...

BOLO DE NOIVA
( Receita de Jacyra, uma boleira pernambucana )

INGREDIENTES:


- 150 gr. de passas s/caroço
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera)

150 gr. de frutas cristalizadas picadas
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera )

- 300 gr. de ameixas s/ caroço
(Obs: fazer um doce dessa ameixa com 2 x. de água e 1 x. de açúcar na véspera. )

-300 gr. de manteiga

-300 gr. de farinha de trigo peneirada

-3 c/sopa rasas de fermento em pó

- 3 x. de açúcar

- 6 ovos

- 1 pitada de sal

- 1 pitada de noz moscada

- 1 x. de chocolate amargo

- 3 copos de vinho doce ( moscatel )


bolo de noiva
MODO DE FAZER:

Bater o açúcar com a manteiga, o sal e as gemas. Acrescentar a farinha de trigo, o fermento e a noz moscada. Juntar aos poucos o vinho e por fim o chocolate.
Acrescentar as frutas e passas umedecidas com o resto do vinho e finalmente juntar o doce de ameixa.
Untar uma forma com manteiga e polvilhar com farinha de trigo. Pré aquecer o forno por 10 minutos à temperatura de 170·.

obs. Eu usei uma forma retangular, mas acho mais bonito em duas formas redondas para que se possa montar o bolo.

Manter o bolo nesta temperatura por +- 1 hora.

Verificar a consistência com um palito. Não deixar secar demasiado. Deixar esfriar antes de retirar da forma.

Obs: Se o forno for muito forte, deixar uma vasilha com água em baixo da grade, para criar um pouco de umidade.

COBERTURA

Eu polvilhei açúcar glacê sobre o bolo frio. Mas o bolo VERDADEIRO leva uma cobertura de açúcar maravilhosa que ELA sabe fazer... Um dia eu aprendo!

A foto é do bolo que Jacyra fez para nós quando fomos comemorar o casamento em Recife.




Segunda feira, 4 de Dezembro. O casamento estava marcado para o sábado 9, ao meio dia. Diferente do evento primaveril que imaginamos a princípio, estávamos entrando num belo e frio inverno madrileño. Mais de cem convidados, vindos de toda parte da Espanha. Amigos e familiares sem outro compromisso que não fosse estar conosco no bendito dia D. Todos confirmados...TODOS! E juro que era para ser o mais simples almoço em família. Juro! Não sei como, a lista foi crescendo sozinha, todo dia e toda noite...

casalzinho
Tudo bem, nós gostamos de um bocado de gente, a verdade é essa. E nosso casamento, depois da inusitada e romântica história que vivemos, havia se transformado em um evento imperdível. As pessoas queriam estar dentro da nossa história também. Acho que elas queriam ser testemunhas oculares do que estávamos demonstrando há quatro anos. Que era possível realizar os sonhos. Ser feliz era possível. Muitos deles, enquanto estavam em nossa casa em alguma ocasião durante esses anos, sentiam-se mais amorosos com seus pares, demonstravam mais carinho uns com os outros. Diziam que nossa harmonia os inspirava.

Não é que assinar um pedacinho de papel fosse acrescentar amor ao nosso convívio, mas aqui na Espanha o estado civil faz muita diferença na interpretação que as pessoas fazem de um relacionamento. Nosso casamento significava, principalmente para a ala mais conservadora deles, que estávamos "confirmando" social e juridicamente nossa intenção de seguirmos juntos. À vera!

Pois sim... no dia seguinte já estaria aqui a única representante da turma de amigos pernambucanos.

Mas nada de documentos. E sem eles não haveria casamento.

O homem do Registro Civil havia prometido de pés juntos, depois de assumir seu erro, que resolveria tudo em uma semana. Os dias passaram, acabou o prazo dele... e nada.
Olhos-de-mar-azul disfarçava seu nervosismo e tentava convencer-me que fingir uma assinaturazinha num livro falso era menos criminoso do que desmarcar tudo e avisar às pessoas que "nada, que estava tudo bem mas que podiam ir comer com a sogra que aqui não ia haver nadica de boda."

Tá. Neguei-me. Neguei-me às duas alternativas, fingir ou desmarcar, e escolhi uma terceira: negar o problema. Saí de casa no dia seguinte para comprar uma camiseta de seda e rendas para vestir por baixo da blusa, decidida a me fazer de louca diante das bruxas..larita... laritaaa... Se elas vissem que eu não estava com medo ou arrancando os cabelos de histeria, quem sabe perdessem a graça da brincadeira de mal gosto.
Rodei por todas as lojas buscando uma simples camiseta interior para uma cinquentona gordinha - mas noiva - e com direitos iguais aos das outras noivas jovens e magras: algo sexy e bonito no dia do seu casamento.
A tarefa não era fácil. Assunto mais do que batido aqui. Já viram as camisetinhas das pessoas "maiores"? Elas parecem um babador. Arredondadas no pescoço, sem desenho nem corte. E renda? Aqui, "renda" se diz "encaje". Encaixar pra que? Quanto mais discretas melhor, de alças largas e cor da pele, no máximo com um lacinho central, sem graça, que é para ninguém olhar duas vezes.

loja H&M Mas eu achei uma. Uau! Linda. Branca, rendas finíssimas, alcinhas delicadas e fazendo jogo com umas calcinhas perfeitas, bonitas e inteiras. Nada dessa coisa sem traseiro, quase fio-dental que é moda sexy atual.( Requisito absolutamente dispensado por mim desde sempre. Não sei como as mulheres aguentam aquilo! )
Comprei o conjunto, feliz da vida. A-do-rei!
No mesmo momento em que saí da loja com um sorriso estampado na cara, soou o celular. Era o prometido.
Já tinha os papéis na mão.
Yesssss! Oh!... sim... sim...SIM!
Suspirei fundo e me senti taaaaaão feliz que não podia mais fechar a boca. Sabe cara de louca, riso de louca? E nem tchum para quem estivesse com medo de mim! Ahahahahhahah! Que foi?
Ok. Ok... eu sabia que já eram duas da tarde do dia 5 de Dezembro. Expediente encerrado. E dia 6 seria feriado. Mas isso a gente resolvia, nem que fosse invadindo a casa do prefeito em pleno Dia de La Constituición.

Ele não estava, mas tudo bem, calma... ainda tínhamos o dia 7, dia normal. Esperávamos que não tivessem declarado "puente" na prefeitura. Imprensar aqui é fácil como no Brasil.
No dia 7, às 9 da manhã estávamos em Santorcaz com tudo na mão para entregar a Florentino. Ah, Florentinozinho, por favor... não invente problemas, tá? Ele sorriu e disse que já estava pensando que havíamos desistido!
Ho ho ho! Ni muerta...

Pronto. Tudo pronto.
Aproveitei a paz da manhã para fazer um bolo de noiva, como é costume no nordeste brasileiro. É feito com vinho doce e frutas cristalizadas, ameixa e passas. Uma delícia! Aqui não existe este costume. O bolo de noiva é comum, só com aquela cobertura especial e lisinha. Isso não sei fazer, mas o bolo sim. E fiz um. Cobri com açúcar fininho e pus numa bandeja. Em vez de flores, frutas ou bonequinhos de plástico, decidi fazer uma brincadeira. Enfeitei a bandeja com um barco de madeira que comprei para "concretizar" o sonho de um dia fazer uma grande viagem num veleiro, com meu lobo do mar. O barco está atracado há anos em cima da estante, junto ao farol azul. Sonhar faz bem, não é?
Para completar, juntei um marinheiro barbudo, de gesso, que havia recebido dele, por surpresa, em Recife, muitos anos atrás. Eu o deixava na sala e às vezes conversava com ele, como se pudesse realmente ouvir-me, naqueles tempos de louca e apaixonada por uma "ilusão".
Gostei que ele pudesse estar conosco na mesa em vez de um objeto qualquer que não tivesse qualquer papel na nossa história. E, como sua parceira, uma boneca de barro, "a peituda", sua companheira na estante desde que vim morar na Espanha. Pronto. Estava engraçadinho mesmo.

Em casa já estavam alguns dos convidados. A festa havia começado. Todo mundo achava que já que estava aqui, bem que podíamos começar, né não?
Nãooooooo! Imagine, começar a beber e comer dois dias antes! No dia mais importante estaríamos inchados, cansados e de ressaca!? Eu tinha que estar sequinha pra vestir a roupa cereja e não parecer uma!!

mafalda música
Mas o vizinho decidiu ajudar. E fez a festa na casa dele. Chamou todo mundo para um almoço de aniversário. Como assim? De repente estava todo mundo lá, bebendo, comendo, fumando, bebendo, bebendo... e bebendo.
Apareci por uma horinha, agradeci o convite e voltei para casa. Queria descansar, finalmente poder relaxar, curtir uma música suave, receber uma massagem no pé... ( de quem? ) mas tinha que conferir a arrumação do salão, levar as plantas, o som, as cortinas, contar novamente as pessoas e reorganizar as listas das mesas. Nunca entendi porque ela mudava todos os dias. A gente organizava as pessoas nas mesas e guardava o papel. No dia seguinte, ao conferi-la, estava diferente. Parecia uma mágica. De repente, descobríamos um casal fora de lugar, uma cadeira vazia. Saco! Como é que eu ia levar as plantas para o salão sozinha? E o som? Como assim SOZINHA? Essa turma que chegou antes não vinha para ajudar?! Como assim festinha na casa do vizinho?
Pois sim... todo mundo lá, inclusive o prometido. E era quinta-feira. Quinta! Eu não queria fazer TUDO justamente no dia anterior e depois aparecer no sábado com dor nas costas, pernas pesadas e cara de cansada.
A velocidade com que eu pensava tudo isso não estava lá muito saudável. Respirei fundo. Tomei um banho demorado, organizei a sala super bagunçada pela presença das bolsas e sapatos dos filhos e todos os seus objetos imprescindíveis espalhados por todas as mesas, sofás e tapetes. Quem mandou querer fazer festa de casamento! Quem mandou querer todo mundo em volta!

Em busca de um momento zen, escolhi uma música, recostei no sofá e dormi enquanto esperava que chegassem do tal almoço. Nada. Sete da noite e nada.

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Quando despertei e olhei o relógio, a mulher zen do cochilo evaporou-se rapidamente e em seu lugar apareceu uma criatura em transe raivoso. Às oito e meia decidi telefonar para o celular do prometido.
"Quiéquitutáfazendoaí!!!! AINDA!" Pelo tom da minha voz ele percebeu que algo estava fora do normal e veio. ( Vê como é bom poder falar no próprio idioma nessas horas?!)

Chegou preocupado e encontrou o prototipo da mulher insuportável. Agora sim, ele ia desistir mesmo. Eu estava simplesmente horrorosa!

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A cara inchada, o nariz vermelho, falando enquanto chorava com a boca enorme igual a de Mafalda, os cabelos idem, arrepiados por ter dormido com eles molhados, andando pela casa e guardando coisas nos armários, que fechava com uma força desmedida, odiando a mim mesma, sentindo-me ridícula por estar me comportando assim, por desejar ser o centro de suas atenções, que estivesse comigo conferindo os últimos preparativos e não bebendo e comendo na casa dos outros, sem mim e... e... eu estava explodindo!
Finalmente toda a tensão dos meses anteriores começou a sair por todos os poros. Comecei a enjoar e corri para o banheiro. Vomitei. Eca! como é que o cara vai querer casar com esse troço de gente!? Chorei mais e mais. Enquanto lavava o rosto me olhei no espelho. Oh! meu Deus! solucei.Tenho que parar de chorar antes de sábado!

Quando apareci na cozinha ele segurava um copo de água fresca, abraçou-me e tentou acalmar-me. "Pronto. Já está. Amanhã faremos tudo. Você descansa", prometeu. "Eu vou ficar aqui. Que quer que eu faça?" perguntou. "Nada, a essa hora mais nada", respondi. "Só que fique comigo." Tá. Mais calma, cortei e pintei as unhas, ainda fungando, enquanto ele, mais uma vez, conferia e corrigia a lista das pessoas nas mesas.
Duas horas depois chegaram os festeiros e o vizinho, cantando felizes e cheios de vinho. Mas eu já estava refeita.

No dia seguinte chegaram outros hóspedes. Cada um com seus horários! Um tal de ir e vir que só vendo.
Enquanto meu pirata tranquilão terminava de organizar as bebidas, as plantas e mesas e as mulheres da família recebiam ordens da cozinheira, etc. descobri que havíamos esquecido de comprar as frutas que iriam ornamentar as mesas. Inferno! Dia 8 de Dezembro. Feriado nacional. Nada aberto. Nada! Como assim!!! Como pude esquecer isso????

Esqueci. Pronto!
Desisti da ornamentação. Ia ficar meio feio ver as mesas brancas e nuas, mas eu não podia mais brigar com as bruxas. Desta vez elas ganharam! pensei.

Que nada! Minhas amigas podiam. Rá! Uma pernambucana que não falava Espanhol e uma espanhola que não falava Português, duas artistas e tanto, uniram-se na empreitada e armadas de facas e tesouras desapareceram nas trilhas em volta da casa. Voltaram com nozes e amêndoas e improvisaram umas cestas fantásticas com frutos secos, fitas e plantas invernais. Ficou lindo e super natural!

Pronto. Tudo ok.

Só teria que livrar-me das ideias adolescentes da cunhada que queria jogar açúcar na minha cama, para adoçar nossa última noite de solteiros e tudo sairia bem. Prometi arrancar-lhe o olho esquerdo se tentasse a gracinha e ... já. Esquecido o assunto.
Será que ela acreditou mesmo? Deve ter ficado no mínimo na dúvida. Uma sul americana pode ser muito perigosa, né não? Ho ho ho! E uma que vem de Pernambuco, lá onde o vento faz a curva... nunca se sabe!
Salvei-me da doce noite!

Então... Organizei a roupa sobre o aparador do quarto, provei tudo de novo, escolhi uma correntinha de ouro que ganhei de presente de minha mãe no meu aniversário de dezoito anos e uns brincos que foram dela. Na corrente decidi pendurar uma medalha que foi da minha avó, outra que usei toda a minha infância e uma pequena e lindíssima figa de ébano que também era da Princesa. Queria um pedacinho de cada uma das mulheres que amaram até as últimas consequências das suas vidas, perto de mim. Quando estava tentando enfiar a corrente no pequeno aro da figa, ela se quebrou em duas, na minha mão. Ó...ó!
A figa não é um símbolo de proteção!? Como assim a danadinha se parte bem na véspera do meu casamento!? Ui, que mêda!!

Sem dizer nada a ninguém fui buscar uma cola super-hiper-rápida no armário da cozinha, mas não encontrei. Eu não sou muito shsssss....supersticiosa, hahahaha, dizendo bem baixinho... mas com essas bruxas voando sobre o telhado era melhor não dar bobeira!
Cascavilhei a caixa de jóias da Princesa e encontrei outra figa, esta de marfim. Com todo cuidado enfiei-a na corrente e guardei a quebrada dentro de um chumaço de algodão. Pedi proteção a todos os bons fluidos do universo, incluindo minha mãe e minha avó, e dormi com ela pendurada no pescoço.

No dia seguinte, tan-tan-tan-aaannnnnn... que nervoso, meu jesuscristinho! Todo mundo acordou cedo. Uns de ressaca, obviamente. Uma confusão de gente para comer e tomar banho e tal e qual. Gente se vestindo no escritório, as mulheres de roupão, maquiando-se pela casa... secadores soprando ares quentes em todos os cômodos, eu sendo requisitada para saber quem estava bem, quem estava mal ( todas estavam maravilhosas ) e então...

O grande-e-carinhoso-noivo-dono-do-melhor-dos-corações foi buscar seu irmão mais velho na estação de trem mais próxima, a meia hora daqui. Saiu às 10 horas da manhã. Uma hora para ir e voltar. Tá. Voltaria às onze, sem falta. E às doze e meia estaria lavado, perfumado e vestido, me esperando lá na Câmara dos Oficiais, onde celebraríamos a cerimônia.Tá.
Às doze ele ainda não estava aqui. O portão quebrou. O portão e-lé-tri-co da base pifou, fodeu, morreu... sei lá o que. Não abria e pronto!

Estava fazendo um frio de rachar a alma, como em nenhum dos dias até aquele. As bocas tiritando do lado de fora do carro, todos os soldados tentando resolver o problema e nada do portão abrir. Depois de um tempo escutando as risadas assustadoras das narigudas ( tinham que ser elas ) um técnico improvisado convocado às pressas conseguiu abrir o pesado portão de ferro e o carro entrou.

Ele chegou em casa correndo mas sorrindo, como sempre. Tem um humor fantástico esse meu pirata!
Não sei como ele consegue essas coisas, mas de banho tomado, perfumado e vestido, às doze e meia em ponto ele estava na Câmara, me esperando. A criatura é capaz de aprontar-se completamente em menos de dez minutos.

Agora já estavam todos lá. Só faltava eu. O padrinho prontinho na sala, esperando... e eu ainda de roupão. Olhei a tal roupa cereja sobre a cama com satisfação. Valeu a pena o suplício que passei para encontrá-la em pleno outono-inverno madrileño. Simples e elegante, era justo o que eu queria. E então... comecei a vestir-me... e a suar. Na cara, no cabelo, no pescoço, nas pernas... Já tentou vestir uma meia fina com as pernas úmidas? Hã? ( Pergunta só para mulheres, sim?) A meia furou no meio do caminho da segunda perna. Plano B. Meia suplente na gaveta. Auto comandos mentais. Calma. Tudo bem, tenho outra meia. Essa não pode furar. E eu suando... queria outra ducha ( Jorro de água dirigido sobre o corpo de alguém, com fins terapêuticos ou higiênicos, segundo Aurélio ) queria um ar condicionado, queria não suar!

Só estando louca! Um frio de morte lá fora e eu morrendo de calor. Pense. Pense. Ar condicionado do lado de fora. Abrir a janela, JÁ!! Escancarei a janela do quarto e fiquei ali, contando até dez. Em menos de segundos eu estava perfeitamente gelada. E seca. Recomecei com calma. Fui me vestindo olhando para o jardim e levando um bafo gelado por todo o corpo. Que boa ideia! Quando terminei, peguei o ramo, o braço do meu amigo e padrinho... e lá fui eu casar com olhos-de-mar-azul. Atrasei meia hora justa. Normal. Não sou da marinha nem tive qualquer treinamento militar em toda a minha vida. E depois, para quem esperou tanto... bem que podiam esperar-me uma meia horinha!

Quando entrei na sala, estavam todos ali mas eu só olhei para ele. Quando nossos olhos se encontraram e ele sorriu daquele jeito tarja-preta, confirmei o que soube desde o primeiro encontro há tantos anos: nasceu para mim esse sujeito. Onde estava? Por que demorou tanto, tanto!

Daí em diante, nem bruxas, nem duendes, nem nada. Eu e ele. Juntos. De mãos dadas. Em volta de nós as palmas, o adágio de Benedetto Marcello tocado maravilhosamente pelo filho músico, o olhar feliz da minha filha, os olhares úmidos dos amigos emocionados, as palavras de Florentino, o livro onde assinar de verdade... as minhas lágrimas misturadas com um enorme sorriso, os abraços e beijos dos amigos, o brinde com cava espanhola, a paella gostosa, os olhares cúmplices que trocávamos, a felicidade estampada em nossas caras.

Todo o resto a nossa volta foi lindo... mas o realmente especial era que o inacreditável para muitos, até para nós no início dessa história, estava realmente acontecendo. Havíamos superado todos as dificuldades, um oceano... e estávamos juntos.

Quase doze anos depois daquele primeiro e frustrado encontro na festa do Juan Sebastian Elcano em Recife, estávamos casados!

Incrível! Mas aconteceu mesmo!


Ps. A "peituda" foi roubada no dia seguinte ao casamento. Não posso nem imaginar quem possa ter feito isso. Quando estive em Pernambuco, tentei encontrar uma igual, mas não consegui. Ainda não me conformei!
Ps2: A figa de ébano já está coladíssima!




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Faltava menos de um mês para o casamento.
A roupa já estava no armário, completinha e linda, mas... o resto estava cada dia mais complicado. A lista de convidados crescia todas as noites quando os amigos e familiares confirmavam a presença acompanhados de sua prole completa.
Todo dia tínhamos que refazer a conta e eu já estava ficando nervosa que uma pequena e enxuta lista de cinquenta já estivesse perto de noventa.

Com os nervos à flor da pele e as bruxinhas dando voltas sobre o telhado de minha casa, briguei com olhos-de-mar-azul por tudo e por nada. Eu nem me recordo agora por que coisas me irritei pro-fun-da-men-te! O fato é que cheguei ao ponto de questionar se era mesmo para casar... mas fui em frente.

O plano era fazer uma cerimonia simples e aconchegante, depois umas copas e um almoço. Dançar se todos quisessem. Simplíssimo.
O responsável pela cozinha tomaria conta de organizar a comida e a bebida e nisso eu estava mais do que tranquila. Fiquei de resolver apenas sobre o bolo, as flores e a decoração. Estava no papo. Sou prática : muitas plantas pelos cantos, cestas de frutas naturais sobre as mesas e tchum. Resolvido.
Ah! Queria um arranjo de flores sobre a mesa onde Florentino ( oh! nomezinho querido!) iria fazer-me a imensa pergunta: " Nora, aceita este homem...etc...etc..." Ui, que nervoso!

Todo mundo se ofereceu para ajudar na arrumação e tal e qual. Que maravilha!
Só que isso significava que "todo mundo" teria que chegar antes da data. Me explico: dia 9 de Dezembro era um sábado seguinte ao feriado da Virgem de la Concepción. Festa nacional. Acontece que o dia 6 era outro feriado. Dia da Constituição Espanhola. Entonces... dia 7 era puente e muita gente não ia trabalhar. Parecia bom para quem vinha de fora, mas para quem tinha que organizar, comprar, contratar, ir buscar... era o inferno. Tudo estaria fechado!

Tá bom. Tá bom! Quem morava fora de Madrid queria aproveitar o feriadão e chegar antes. E hospedar-se? Hum, aqui mesmo!
Heim? Como assim?
Então... na mesma semana do casamento eu teria que organizar quartos, banheiros, lençóis e toalhas para todo mundo. Café-almoço-jantar para todo mundo!? Siiiim? Jura? Fiiz bico.
Pois sim. "Lé com lé, cré com cré...um sapato em cada pé." Comecei a cantar umas músicas do arco da velha, que nem me lembro como estavam guardadas na memória!
Deixei este problema para resolver mais perto do dia D, porque havia um outro muito mais sério: podia ser que não houvesse casamento. Rá!


Por causa das brigas eu estava novamente com medo que as coisas entre nós mudassem drasticamente e de repente eu me transformasse naquela esposa das piadas machistas.
Sabem qual é a figura mais menosprezada da família, depois da sogra? A esposa! Como a minha mãe já morreu, eu estaria no pódio. Em primeiríssimo lugar.
Parece engraçado, mas não é. Nunca achei engraçado as piadinhas que mostravam as mulheres como histéricas ridículas, loucas para casar. E menos ainda que tivessem que lutar com unhas e dentes por este status com um noivo medroso e parecendo estar indo para a forca.

Pode ser que eu tenha um trauma. Meu primeiro noivo,quando me pediu em casamento parecia muito mais estar querendo botar um selo de garantia de posse na mulher que sería SUA, um dia qualquer do futuro distante, do que realmente apaixonado. Na verdade, cada vez que se falava em enxoval e casamento ele parecia que estava com a cabeça na guilhotina. Toda vez que perguntavam quando sería a data do casamento ele respondia que "estava todo arrepiado só de pensar" ou então "quem sabe será na semana santa, só não sei de que ano", dizia com uma enorme gargalhada, o idiota! E eu, com cara de pateta ao lado, morta de vergonha.

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Pois eu cansei. Mandei o rapaz casar com outra porque enchi o saco daquele papel de mocinha-virgem-esperançosa-e-feliz por ter conseguido um jovem-macho-tão-bonito-e-cuidadoso, de boa família... loucamente ciumento, por quem eu tería que esperar dez anos, no mínimo, antes que ele "concordasse " em marcar uma data para o "enforcamento" e passasse o resto da vida queixando-se de seu destino.
Quando amadureci um pouco dei o pira deste cenário "paradisíaco" e fui viver minha vida. Também é novelesca a segunda experiência com noivado e casamento...
Mas essas são outras histórias, quem sabe um dia eu conto.

Mas agora eu era uma mulher madura, apaixonada e correspondida por um homem maduro e convicto de sua vontade. Meu prometido desta vez era Ele, seguramente o homem com quem eu queria viver a minha vida, amava-me de verdade e queria casar-se comigo, sem medo e sem dúvidas.
Oh, meu deuzinho do céu! havíamos superado tantos obstáculos! Eu precisava acreditar que, de uma vez por todas, era possível despertar um amor real, forte, profundo e duradouro em um homem maravilhoso. E casar não iria mudar isso. Ponto. Acalmei meu juízo como pude... e segui adiante.

Então... mais uma coisa aconteceu. As bruxas nunca deixaríam a coisa fácil e tivemos que travar mais uma luta com elas...

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Descobrimos por onde elas iam atacar! Os papéis!
No dia 13 de Novembro ainda não tínhamos recebido nenhum comunicado sobre os documentos... tcs...tcs... Tá. Normal, será ao largo da semana.
Não foi.
Apenas no dia 23 ficamos sabendo que o tal gnomo que nos havia prometido tudo pronto em dois meses havia se enganado.
Como assim? Como assiiiiimmmmm?
Assim... ele havia mandado nossos papéis para Madrid dois dias atrás, 21 de Novembro. Só agora os dois meses seríam contados!
Disse que receberíamos o chamado em Janeiro do ano seguinte e então poderíamos marcar a data.
- Heim?
Havíamos contado dois meses a partir do dia 13 de Setembro. O casamento já estava marcado para o dia 9 de Dezembro. Dentro de 16 dias!
Ainda bem que eu não estava lá na hora pois não sei o que teria feito com o tal sujeito.

Entretanto...a fada madrinha deve ter escutado a conversa porque de repente a criatura levantou-se, serviu um cafezinho, fez umas chamadas... e pediu desculpas pelo seu erro. Pediu nosso telefone dizendo que iria resolver tudo pessoalmente. Qualquer problema era só mudar a data, vale? Ele nos telefonaria.
- Era para rir?
Não telefonou.
Enquanto isso, os preparativos em marcha e eu descobrindo outras coisinhas. Um arranjo de flores simples para a mesa podia custar entre 80 a 120 euros ( já estávamos no inverno ) mas se você dissesse que era para um casamento, mesmo caseiro e sem pompa, o preço saltava para 400 euros.
Eu queria um ramo simples na mão. Pois se era para uma noiva ele valia três ou quatro vezes mais caro.
Um bolo "de noiva" seguia a mesma regra, apesar de não haver por aqui nenhuma tradição de bolo como no Brasil, feito com frutas cristalizadas e vinho. Era um bolo normal, com uns cremes que eu detesto, com enfeites de bonequinhos. E desse eu não queria. Ora bolas, que absurdo! Resolvi mentir... disse que era uma comemoração caseira para os 25 anos de casada. Funcionou. Consegui tudo simples, bonito e com preços justos.

No final do mês estava tudo pronto e organizado, apesar das muitas outras gracinhas das bruxas. Uma delas é que tive que ir encomendar as sobremesas montada numa ambulância. Não, claro que não foi preciso apitar o tuim-tuimmmmmmm! Mas pareceu muito estranho à senhora que nos atendeu na pastelaria artesanal do pueblo mais próximo que eu tivesse chegado ali acompanhada por um enfermeiro de bata branca, com ambulância e tudo. Quase o mesmo que chegar de vassoura, né?
Talvez por isso ela tenha exigido o pagamento adiantado. Hahhahahahah!
Nesta época eu ainda estava rindo...

Aí... o sujeitinho da cozinha, justo aquele que resolveria tudo da comida, veio aqui e disse que não poderia coordenar o "evento" porque sua mulher estava para dar a luz a qualquer momento e poderia ser justamente naquele sábado.
Hum. Tá . Já sabíamos que não se podia garantir nada nessa minha história! Tínhamos dois dias para resolver o problema e vivemos no campo, longe DE TUDO. A lista de convidados já havia engordado para 110 pessoas, sentadas, querendo comer e beber. TODOS confirmaram, ninguém tinha qualquer impedimento!

Bom, claro que eu queria que viessem e estava feliz com isso, mas a festa estava muito maior do que havíamos imaginado no início e precisaríamos de mais ajuda.
Conseguimos três jovens que se ofereceram para trabalhar no sábado, mas seria necessário gente na cozinha no dia anterior. Feriado nacional, já disse! Tóin!
Pois sim... lá estariam as cunhadas e amigas hospedadas em casa. Não queriam ajudar? Ho ho ho... que tal?
Mas aí eu já estava com um motorzinho ligado dentro do peito e o riso soava completamente trêmulo. As lágrimas saíam com muito mais facilidade!

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Quanto mais dificuldades enfrentamos, mas criativos nos tornamos, não é?
Pois sim. Um dia olhos-de-mar-azul acordou pela manhã com uma ideia. "Se os papéis não estiverem na minha mão hoje, vamos fingir que casamos. Falamos com Florentino e ele nos faz assinar um livro de mentirinha... e depois vamos lá e casamos de verdade." "Que piensas de eso?"
Ele estava alucinando!? Como? Que loucura! Como vou fingir que estou casando? Como eu ia assinar um livro de mentirinha? Fingir diante da mãe dele, uma senhora de 85 anos, dos tios, irmãos e amigos que vinham de todas as partes da Espanha para um casamento de verdade?

Imaginei a cena do "Sim, eu aceito..." e me vi dando umas gargalhadas de engasgar, com os olhos rasos de lágrimas - VERDEIRAS! Que ridículo! Estaríamos representando! E pior, fazendo todo mundo de idiota.

NÃO! Assim não caso!

Mas era dia 4 de Dezembro e nada de papéis.



Florentino...
Chamava-se Florentino o sujeito escolhido pelo acaso - ou pelo destino - para casar-nos. Uma criatura delgada, de sorriso tímido e olhar úmido. Esse era outro Florentino, mas eu olhava para ele como se fosse o mesmo aquele da minha juventude... Queria imaginar que em breve ele não mais estaria aqui, num pueblo de 500 habitantes no alto de uma colina espanhola e sim navegando por algum rio do planeta, numa viagem sem fim com a sua Fermina.

Estávamos prestes a dizer o "sim, quiero", olhos-de-mar-azul e eu, respondendo a uma pergunta deste Florentino, depois de todos os séculos que podem estar guardados nos quase 12 anos que vivemos, separados ou juntos, mas unidos num sonho comum de sermos felizes desde aquela primeira troca de olhares e sorrisos.

Nestes anos todos, também havíamos vivido um pouco de cada loucura e desespero dos amantes caribenhos...
Cada vez um de nós pôde ser Florentino, outra vez Fermina... eu até tive minha Tránsito Ariza e seu olhar infantil por dois largos e tristes anos!

Decidi fazer o que já estava querendo há algum tempo. Tirei outra vez o livro da estante. Recomecei a ler, pela quarta vez, O Amor nos Tempos do Cólera. Pela primeira vez em Espanhol. E foi como reviver os meus seis últimos anos nos cinquenta e tantos em que se desenrola o romance.
Mergulhei na linguagem mágica e emocionada de Garcia Marques, sentindo agora na própria pele o passar dos anos - e foram tantos - nas histórias nossas...

Vinte anos depois de ter lido o romance pela última vez era tudo tão diferente! Sabia muito mais agora sobre esperas, sonhos impossíveis, imagem amada colada na cara da lua, espelhos que guardavam segredos...
Guardei novas frases na caderneta da mesinha de cabeceira... grifei outras dores...reconheci como meus os artifícios do amor distante.

Trouxe um pedaço do livro aqui, como um presente para quem ama de longe ou para quem tem um amor do passado prisioneiro em algum espelho da casa...

"Certa noite entrou na Pousada do Sancho, um restaurante colonial de alto nível, e ocupou o canto mais afastado, como costumava fazer quando se sentava sozinho para comer suas merendas de passarinho. De repente viu Fermina Daza no grande espelho do fundo, sentada à mesa com o marido e outros dois casais, num ângulo em que ele podia vê-la refletida em todo o seu esplendor. Estava indefesa, conduzindo a conversação com uma graça e um riso que crepitavam como fogos de artifício, e sua beleza ficava mais radiante debaixo dos enormes lustres de pingentes: Alice tinha tornado a atravessar o espelho.
Florentino Ariza a observou à vontade e quase sem respirar, viu-a comer, viu-a apenas provar o vinho, viu-a tagarelando com o quarto Sancho da estirpe, viveu com ela um instante de sua vida sentado em sua mesa solitária, e durante mais de uma hora flanou sem ser visto pelo recinto vedado de sua intimidade. Depois tomou mais quatro xícaras de café para fazer tempo, até que a viu sair confundida com o grupo. Passaram tão perto que ele distinguiu o cheiro dela entre as lufadas de outros perfumes de suas acompanhantes.
A partir dessa noite, e durante quase um ano, manteve um assédio tenaz ao proprietário da pousada, oferecendo-lhe o que quisesse, em dinheiro ou em favores, para chegar ao que mais lhe apetecesse na vida, desde que lhe vendesse o espelho. Não foi fácil, pois o velho Sancho acreditava na lenda de que aquela preciosa moldura talhada por ebanistas vienenses era gêmea de outra que pertencera a Maria Antonieta, e que desaparecera sem deixar rastro: duas jóias únicas.

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Quando por fim cedeu, Florentino Ariza pendurou o espelho na sua casa, não pelos primores da moldura e sim pelo espaço interior, que tinha sido ocupado durante duas horas pela imagem amada.”

Gabriel Garcia Márquez
Imagem: Somewhere in Time



Não deixaram... elas não deixaram.

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As alianças ficaram prontas dentro do prazo, mas o jantar que eu havia prometido ao bom amigo que iria recorrê-las não se concretizou. Dois dias antes ele teve um sério problema de coluna que não o deixava mover-se. Isso significava não conduzir, não caminhar, não nada! Sua noiva nos trouxe as alianças numa tarde em que não estávamos em casa, deixou-as na casa dos vizinhos e apenas uma semana depois descobrimos o fato. Claro que o jantar foi adiado sem data prevista… para 2007.
As bruxinhas erraram o alvo e acertaram um amigo que só estava querendo ajudar.
Na verdade elas estavam se concentrando em outro departamento. Para começar, esfregaram as mãos na odisséia que tive de enfrentar para encontrar o que vestir. E começou no final do mês de Outubro.

Eu confeso que não estava muito preocupada. Esperava perder algumas quilos - Oh!My God! - incômodos antes de meter-me nos provadores das lojas espanholas, sem arrancar os cabelos e chorar desesperada com os tamanhos dos manequins atuais.
Mas, quando comecei a receber telefonemas de amigos e familiares, todos perguntando-me o que eu pretendia usar, comecei a preocupar-me em sério.
Cunhadas, amigas, primas e até a mãe do prometido estavam em polvorosa para saber o que a brasileira iria escolher para casar-se. Hum...tá.

No início eu respondia divertida que já havia comprado a coroa e só faltava decidir a cor do manto, mas como ninguém ria com a minha graça, comecei a pensar que elas estavam deveras assustadas com o que iriam se deparar no dia do casamento! Ho Ho Ho!
(Se eu fosse mais ousada, teria me fantasiado de algo, justo no dia anterior, só para assustá-las. Teria sido bárbaro! )

Então...quando os homens da família começaram a fazer-me a mesma pergunta, preocupei-me mesmo. Que coisa! Era assim tão importante saber ANTES o que eu iria vestir?
Pois sim.Parece que sim. Tomei a decisão de começar imediatamente a procurar meu vestido e criei mentalmente os requisitos: bonito, elegante, simples e nada a ver com o tradicional das noivas. E não muito caro, por supuesto!

Todas as amigas se ofereceram para ajudar-me. Bom. Muito bom.
Tentei com a primeira. Decepção total. Noventa por cento das roupas oferecidas nas vitrines das boas lojas eram negras, tons variados de marrom ou cores muito escuras, quase fúnebres. Os dez por cento restante era composto de grossos abrigos, botas de cano alto e blusões de lã.
Tá! Casar de preto ou marrom? Nunca!

Eu havia esperado demais. Estávamos já em finais de Outubro e todas as lojas estavam vendendo para o outono e próximo inverno. Isso. Inverno europeu, entenderam? Lã!
Aliada a essa condição ( que eu nem havia pensado ) estava a famigerada dificuldade de encontrar coisas bonitas do tamanho normal de uma mulher grande. E isso eu deveria ter recordado.
Além de não encontrar meu tamanho em qualquer loja, ainda há aquelas que decidem ter suas próprias medidas.
Agora não tem mais quem se entenda nesse mundo da moda! Quem disse que 38 é 38 em toda parte? Mentira! Minha filha tem roupas que variam de 36 a 42, vejam só!
E muitas lojas aqui se recusam a ter manequins maiores que esses. 42 é seu “tamanho G”.
Tamanhos 44 ou 46 de toda a vida, isso não! São grandes demais, deformam a prenda e não entram em suas coleções! E dpeois, nem pensar em ter esse tipo de clientes passeando entre seus corredores! Gordas dentro da loja? Que baixaria!
Já olham em pânico quando insistimos em entrar. E se você perguntar se há números maiores, lhe olham com uma carinha de ora, por favor, não se enxerga !?

Ora, por favor, não se enxerga digo eu. Fico indignada com isso.
Sabe o que é pegar uma roupa tamanho G e a danada não passar nem acima dos joelhos? Isso está dizendo que você não tem a menor chance de caber no seguinte tamanho, se houver, que já será EX.
Já sabem: Ex - mulher. Eu já escrevi sobre o assunto aqui antes, mas não acho muito repetir. Temos que lutar contra essa discriminação!

Um parêntese por favor.
(Agora há uma proposta do Ministério de Saúde da Espanha ( aqui )para igualar os tamanhos das roupas em todas as confecções. E incluir o tamanho 46 na coleção normal e não “especial” como está hoje. Claro, como o tamanho 46 atualmente é considerado especial isso significa, fora do padrão normal, então ele pode ser muito mais caro.
Isso é irreal! A maioria das mulheres grandes usa 44 ou 46!

Vamos esperar para ver no que essa proposta vai dar! Tomara dê mesmo certo.Outro dia vi na TV que estão pesando e tirando as medidas de uma quantidade enorme de mulheres NORMAIS para redesenhar os padrões da mulher espanhola. Sí!
Tá bom, sou brasileira, mas pelo menos vou poder saber qual é meu número de verdade!)

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Sim, mas meu problema continuava aí e era urgente encontrar algo! Estava a apenas um mês e meio de meu casamento e não encontrava nada que eu pudesse vestir justamente no dia em que todo mundo estaria olhando TUDO em mim!

Mandar fazer uma roupa a essa altura do campeonato seria uma grande tolice. Nunca deu certo comigo essa coisa de "mandar fazer". Nunca saiu do jeito que eu imaginei que saisse. E o pior: tinha que pagar mesmo se não gostasse. Vestir sem gostar é terrível, né não?! Imagine no dia do casamento.
Claro… também nunca fui a Dior. Nem iria agora. Passei pelo outro lado da calçada! Ho ho ho! Preço também era um fator para ser levado em consideração, embora eu estivesse disposta a gastar mais do normal em função da ocasião.

Já recordada de todas as dificuldades que teria, comecei a procurar nas lojas onde havia menos probabilidades de me enforcar nas cabines de provas ou sair com cara de choro de algumas delas. Coisa não muito fácil, já que conheço poucas e sair de compras não tem sido um esporte muito praticado por mim nos últimos anos. Fora o mercado, onde me divirto, só compro em lojas esportivas ou no Corte Inglês. Nunca saio pelas lojas de Madri.

Então…
Casar exigiria um esforço extra não é? Sim, claro. Alguém poderia querer vestir outras cores durante o inverno, não é? Sim, claro. Bastaria ter paciência e procurar! NÃO É?
Sim, claro que sim. As jovens ou as magras. Essas podem usar vermelho, bege, rosa, azul ou verde no inverno. Vermelho sangue de touro, tá? E de alcinha, com um leve bolerinho transparente sobre os ombros.
Mulheres maiores que G tem que usar negro ou marrom. E pronto.
Ah! Também tinha muita coisa em “oncinha”, “leopardo” ou “zebra”.
Oh! comecei a rir diante das vitrines, meio histericazinha, admito.
Que tal a brasileira aqui vestida de oncinha no dia de seu casamento? Heim? E de índia? Gosta não? Bem que eu tinha uma fantasia lindona de índia nos meus antigos tempos dos Carnavais de Olinda!
Oh! Deus! Era preciso rir um pouco, senão o desespero entrava com todo o gás!

Mas se não o desespero, entrava sim, um imenso desânimo!
Minha amiga e eu começamos a futucar as lojas em busca de qualquer outra cor. E o que encontrávamos, sempre no setor “festas” - o que significa setor muito mais caro - era em cores estranhas como azul-pavão-com-riscos-dourados e bordado de pedras “preciosas”. Para casar de manhã? Fantasiada de pavão misterioso?
Tá. Então... que tal granate-cor-de-sofá, com panos e panos dobrados… que me deixava igualzinha ao antigo sofá da casa de meus avós, enorme e amarfanhado!
Não? Então prova essa saia cor-de-chocolate-derretido, mas que tem uma blusa estampada-com-cores-de-frutas-cristalizadas-também-bordada-com-fios-dourados, muito natalino, muito natalino!

Nãooo??? Ora, por que não provar para ver como é que fica? Perguntava a amiga, já impaciente. Comecei a ter vontade de correr, desistir. E casar de jeans e camiseta. Ou quem sabe, arriscar fazer a brincadeira do manto e da coroa, mais fáceis de achar, aposto!

Respirei fundo e tentei outra vez. Tá. Provei uma saia ( marrom, só para satisfazê-la ) e uma blusa branca com bicos bordados nos punhos e na gola. A blusa me transformava num liquidificador coberto por uma batinha de bicos, que minha mãe adorava e aumentava em dois números o tamanho de meus seios. A saia me transformava num baú de loja de antiguidades coberto por uma manta de babados de tafetá.
Eu disse que não havia gostado, que parecia deixar-me velha e barriguda. Então a minha amiga encolheu os ombros, fez uma carinha de “e daí? ” e disse: “Mas você é assim, querida. Que fazer se você tem barriga?”
Tóin! Respirei umas dez vezes, antes de responder com alguma educação e uma vontade interna de chorar ali mesmo, que se eu não tivesse bunda nem peito, não escolheria uma roupa que acentuasse isso. E que ter alguns anos a mais do que ela não me obrigava a usar roupas que não me deixassem elegante ou que me fizessem parecer muito mais velha e muitíssimo mais gorda.
Se é que tenho, AINDA, esse feminino direito!

Gemi. Tirei a roupa e não quis provar mais nada. Queria apenas ir para casa e pronto. Outro dia tentaria outra vez. Naquele dia não podia mais.
Pois sim… na saída vi algo que me chamou atenção, mas a raiva não me deixou parar e procurar meu número. Claro que não devia haver!

Ainda saí com outras duas amigas e cascavilhamos Madri, mas nada me agradava. Algumas roupas tinha preços exorbitantes para uma coisa que nem havia caído bem em mim, outras não tinham meu tamanho e outras eram horrorosas mesmo.
Imaginem só, pagar uma fortuna para ficar bem feia e gorda no dia do meu casamento com olhos-de-mar-azul. Nem morta!

Criei todas as fantasias negativas. Imaginei seus amigos perguntando-se o que ele havia visto em mim, sua família balançando a cabeça de um lado para o outro, sem entender como se casava comigo, minha filha com carinha de "está tudo bem, mãe! o que importa é que você está feliz!" Pronto. Fiquei com um mal humor desgraçado e comecei a ter insônia. Todos as noites.
Tive até vontade de voltar a fumar. Juro!

Tentei procurar na Internet endereços de lojas especializadas em Noivas e Madrinhas. Que boa idéia, heim? Oh! sim, esquece! As noivas todas tem 20 anos, vestem vestidos bordados e apertadinhos, longos e brancos.
E as madrinhas? Só existem dois tipos: as que tem 55 quilos e podem usar cores bonitas em vestidos alegres e bem cortados e as senhouras gordas, que devem – todas – gostar de vestidos duas peças, sem forma, de cores escuras e com pedrinhas bordadas no cangote!
Ah! E que custem os olhos da cara!

Quem disse que gordinhas gostam de ficar feias? Quando? Onde isso?
Não quero mais casar!
Entrei em pânico!

Dei um tempo. Fui fazer outras coisas até passar a agonia. Fui à Barcelona para visitar a Virgínia, imaginar nosso futuro barco a vela no Salão Náutico e assistir um concerto de José Luís, meu enteado, numa apresentação única na Espanha da Orquestra Verbier.Que delícia de programa!
Psssit! Leia bem baixinho! Não resisti e dei uma olhadinha nas lojas. Tudo marrom e preto. Tá.

Voltando a Madri saí com Anlene. Rodamos um dia inteiro por todas as lojas que ela conhecia, até que entramos no Corte Inglês, numa das lojas da grande rede espanhola. E lá estava. Era um conjunto gracioso e feminino, composto por uma saia leve, estampada de tons groselha e cereja e um casaquinho de algodão crú, cor de cereja, lindo. Era justamente aquela roupa que eu havia gostado naquela primeira tentativa frustrada citada aí em cima.
Se eu havia gostado dela naquele primeiro dia, imagine o quanto estava gostando agora! Depois de tudo o que havia visto e provado, ela me parecia simplesmente bárbara!
Vai ser essa, decidi.

Tinha meu número! Vibrei. Escolhi uma camisa de seda branca para usar por baixo do casaquinho e fui feliz para o provador. A saia era do meu tamanho, mas o casaquinho não dava em mim. Ficava meio apertado no braço "Uchôa de Medeiros" ( leia-se "de lenhador" ) que eu sempre tive. Que inferno! Senti-me como a irmã malvada da Cinderela provando o tal do sapatinho de cristal. Queria cortar metade do braço, para que ficasse bem. Oh! Por favor!

Pedi um número maior à vendedora. Ela disse que não tinha. Aquele era o último. Mentira! Impliquei. Agora eu não ia desistir fácil. Pedi a vendedora que tentasse chamar as outras lojas para ver onde ainda poderia haver meu manequim. Ela disse que não ia adiantar, que já havia tentado para outras clientes e não havia mais nenhum em toda Madri! Insisti que tentasse outra vez. Ela teimou que não. Eu já estava com vontade de avançar no telefone e chamar eu mesma…

Pensei em procurar o supervisor, o gerente, o que fosse. Então tive uma idéia: pedi-lhe que chamasse a loja central de Barcelona, pois ali minha amiga podia comprá-lo para mim. Ela fingiu que concordava. Saiu. Me fez esperar meia hora e voltou triunfante. Em Barcelona também não tinha. Riu, satisfeita de sua vitória.
Não acreditei. Claro que não acreditei!
Filha de uma… criatura sem sentimentos… sua… pensei tudo que podia pensar de de ruim sobre a vendedora. Miserável, imprestável! Fiquei olhando para ela, muda de impotência. Fuzilava-a com meu olhar. Mas ela ria feliz. No hay!

Anlene salvou-a de morrer estrangulada entre meus dedos. ( Ela não estava histérica, conseguia pensar.) Sugeriu que eu comprasse a saia e a blusa e anotasse a referência do casaquinho. Se não o encontrasse em outra loja da rede, podia devolvê-las e receber o dinheiro de volta. Achei a idéia boa. Valia tentar. Isso significava que tínhamos, ambas, a certeza que a bruxa mentia e que havia ainda alguma possibilidade.

Pois sim. Comprei as duas peças e tomei o trem para casa. No caminho fui escrevendo num caderno uma rede de amigas espalhadas pela Espanha que poderia procurá-lo para mim. Barcelona, Málaga, Algeciras, Cádiz, Bilbao, Guadalajara, Zaragoza… etc.
Agora eu queria casar com aquela roupa. Só desistiria se não houvesse NENHUMA chance.

Na estação de trem perto de minha casa, o prometido me esperava. Contei-lhe meus planos. Detestei a idéia de voltar para casa com meia-roupa, faltando apenas um mês para o casamento e já sabendo que agora é que seria impossível gostar de outra.
Sou assim, quando implico com um vestido já me imagino com ele e não consigo me ver em outro. É horrível, mas é assim!
Olhei para cima para soprar meu cansaço e vi a placa inconfundível da loja brilhando no alto. Lá estava, bem diante de mim, a primeira loja onde eu havia vislumbrado o tal conjunto. Antes de acionar a rede de amigas na busca e captura do casaquinho cereja, eu decidi conferir a mentira da bruxa, pessoalmente!

Em 5 minutos estava dentro da loja. Dirigi-me ao andar de roupas femininas com determinação e muita esperança, por favor… por favor… por favor…
Encontrei a marca que eu queria e o vi. Sim! Sim! Siiiiiiim!
Não podia acreditar no que estava vendo, mas lá estavam! Cinco casaquinhos iguais pendurados nos cabides. Cinco! Em todos os tamanhos. To-dos.

Rá! Pulei sobre o meu, vesti-o com incrédula alegria. Bingo!
Meus olhos e meu sorriso saltavam do rosto e bailavam pela loja em plena felicidade. Que fada madrinha eu tenho! É certo que me deixa sofrer um bocado, mas no final a danada transforma trapos em sedas!
Obrigada! Obrigada!!! Comprei-o imediatamente, com o coração palpitando como um tambor. Tum-tum-tum...
No andar de baixo da loja ainda dei de cara com o sapato que faria um par perfeito com o conjunto. Por metade do preço de todos os que eu havia visto até aquele momento! Saltos perfeitos, cor de ouro-velho, meu número.Rá!
Bingo outra vez!
Bingo! Bingo! Bingo! Ho ho ho! Nem bruxas nem nada… tudo dentro da sacola. Roupa completíssima!

Era dia 9 de novembro. Faltava exatamente um mês para o dia D. Agora eu podia relaxar e começar outra vez a brincar de coroa e manto com quem me perguntasse o que iria vestir.
Tranquila, heim?!
Pois não!
Não sei como, nem por que... invadiram-me uns medos. Começaram as confusões e as brigas…
Depois de quatro anos juntos numa paz e felicidade até fora de moda… estávamos brigando? Como assim?
Pois então nada de casar!



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Quando eu percebi que elas haviam descoberto nossos planos, fiz tudo para agir na surdina… Tentei ir devagar, sem dar muita importância o fato. Afinal casar com olhos-de-mar-azul nem estava mesmo em meus planos iniciais. Viver com ele até o final de meus dias, sim. E talvez fosse mais fácil alcançar meu objetivo sem casar, dizia meu cérebro, amassado pelos anos de solidão em que via tantos casados traindo-se mutuamente, agredindo-se com palavras e atos, sentindo-se amarrados, presos, infelizes e sonhando desesperados com a liberdade. Isso, em geral, eu não via nos casais que viviam juntos apenas porque se queriam, sem o laço oficial da instituição civil ou religiosa.
Tá bom. Posso estar exagerando. Mas eu admito que tinha um medinho de casar de novo…

Entretanto, meu coração era todo mel… e estava tão feliz, enamorado, sonhando em dizer "sim, te quiero" aos olhos mais adoráveis e ao sorriso mais encantador que já encontrei em toda a minha vida, que jogava o medo para o fundo do baú.
A felicidade exige alguns riscos, pensei "fadinha boa". E chorei desconsoladamente quando, finalmente, fomos entregar os papéis ( difíceis papéis!) ao encarregado do registro civil de Alcalá de Henares e o departamento estava fechado por "vacaciones de verano". Inacreditável!!!!
Pois sim…
Tivemos que esperar o final do verão para que reabrisse, apenas uma semana antes do final do meu prazo de validade dos documentos e no dia 13 de setembro, depois de uma fila enoooorme, na calçaaaaaaada, com um papelzinho na mão com o número 79 ( sim, isso mesmo), conseguimos sentar diante de um sujeito muito bronzeado, levando duas testemunhas e toda a papelada exigida.

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Aí o"gnomo" recebeu tudo, olhou, olhou, olhou… e disse: Tudo bem, tudo certo.
Respirei pela primeira vez em cinco minutos. Mas por que vocês não levaram isso para Santorcaz? Teria sido tudo muito mais simples. Agora, vou ter que mandar os papéis para a prefeitura de lá e daqui que passe um mês de proclamas, que me devolvam, que eu mande para Madrid, que me devolvam… etc. Vai levar uns dois meses!
Perdi o ar de novo. Encarei a criatura com surpresa. Em Santorcaz nos disseram que tudo tinha que ser feito por aqui. Ele nos interrompeu, sorrindo, o desgraçado, ahhhh! como as informações são difícies com essa gente! Tcs.Tcs!

Saí de lá com vontade de voltar em Santorcaz e enforcar a mocinha, que por pura preguiça ou simples falta de interesse em informar-se melhor, havia feito com que eu perdesse quase um mês da validade de meus documentos. Respirei. Não, bufei como um touro bravo! Engoli meus intintos homicidas e resolvi esquecê-la e partir para os seguintes passos a serem dados.

A contar dos dois meses que o "gnomo" nos deu, em 13 de novembro teríamos tudo pronto, então somamos mais um tempo de segurança e marcamos o casamento para 9 de dezembro. Meio frio, mas não tínhamos outra opção.

Comemoramos, junto com meu aniversário, com uma bela viagem de final de semana pelos pueblos medievais de Sória, a convite de um casal de amigos. Estivemos em lugares espetaculares de se ver e estar. Tenho fotos incríveis dos castelos e muralhas medievais, ermitas românicas e igrejas templárias. Aproveitei e disfrutei com gosto e vontade da fantástica gastronomia! Vinhos Ribeira Duero incluídos. Mas esse é outro post, verdade?

Quando voltamos desta viagem eu estava disposta a começar uma dieta organizada, com médico, medicamentos, o que fosse necessário, desde que no dia da boda eu estivesse um pouco mais leve e com a auto estima mais elevada. Tinha quase três meses pela frente e queria estar bonita naquele dia, oras! Afinal seria o alvo de todos os olhares.
Mas, como eu disse antes, elas escutam tudo que eu penso. E preparam armadilhas infalívies.

Em Sória já havia me "despedido" das iguarias e vinhos ( Que comida, meu Deus!) e estava pronta para fechar a boca e só abrir no Natal.
Rá! No dia 20 de setembro lá estava eu na Galícia, para uma semana de comemorações dos 25 anos de formatura do meu "prometido".
Agora era assim. Fui apresentada a todo mundo como "a prometida". Ho ho ho!

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Sabe que eu gostei? Toda vez que escutava meu novo título abria um sorriso daqueles! Embora tenha percebido uma ou outra careta de surpresa.
Algumas pessoas que frequentaram o passado de olhos-de-mar-azul imaginavam que, só porque ele estava vivendo com uma brasileira, ela deveria ser – com certeza absoluta - uma bela e JOVEM MORENITA, de 22 anos mais ou menos, com grande bunda sob a mini saia verde-amarela e que andava sambando pela rua.
Ah ah ah ah ah!

Olhavam para mim e para ele com uns olhos abertos de Como assim?

Devo dizer, sem medo de errar, que a grande maioria dessas carinhas idiotas foram femininas. Os homens, e sei que alguns pensaram o mesmo, disfarçaram melhor. Mas as mulheres nunca o conseguiram.
E a grande decepção, quase geral, foi quando me convidaram para sambar e eu disse que não sabia.
Heim?! Uma brasileira que não sabe sambar? Falsier, na certa!
Eu morria de rir por dentro. Mas estava tão tranquila que não fiz sequer meio esforço em parecer o que não era, só para agradar a platéia.

Então… entre mais de cem pessoas novas, muitas se aproximaram e estabeleceram uma conversação tranquila, educada e inteligente. As que não quiseram conhecer-me eu simplesmente apaguei do cenário. Estava tão feliz por estar ali, com ele, comemorando um momento tão bonito de sua carreira, que o resto era resto. Trocávamos olhares e sorrisos cúmplices, sorríamos carinhosamente, dançávamos como dois apaixonados. Aproveitamos todos os momentos para estar felizes.
Esta tem sido nossa escolha. Sempre.

As bruxas trabalharam bem naqueles dias e comi tudo de gostoso que a Galícia pode oferecer. E é muito! Vinhos Albariño incluídos. Num dos passeios pelas ruas estreitas de Combarro, uma senhora que vendia recordações da Galícia, bateu palmas quando eu passei. E dezenas de bruxinhas de brinquedo começaram a mover-se e dar risadas malígnas. Era tão engraçado que comecei a rir também! E de repente me vi ali, gargalhando alto com trocentas bruxas. Seria um sinal?
Saí dali depressa. Eu heim!
Também as fadas estavam despertas e estive ma-ra-vi-lho-sa nas roupas que escolhi para as festas. Assim que nem liguei muito para a dieta, até que um dia tive que dar um basta. Meu estômago começou a queixar-se de tantos mariscos e tive que parar. Ufa!

Salva pelo gongo. Não engordei nem uma grama, mas também não emagreci nada.
Minha médica brasileira enviou-me uns medicamentos pelo correio que me ajudariam na luta contra a ansiedade e a vontade de comer qualquer coisa que estivesse na geladeira, mesmo sem fome e eu estava contando que iria encontrá-los esperando-me quando chegasse em casa.
Nada. Não estavam e nunca chegaram! Sumiram no éter!
Nem eu os recebi aqui, nem ela sabe por onde estão. As bruxas devem estar magérrimas voando por aí, mas aqui nunca chegaram as pílulas que me salvariam da histeria pré- casamento que se instala e desenvolve-se a rédeas soltas em qualquer mulher. Juro.

Começou Outubro e com ele veio o outono. Época linda e tranquila para caminhar pelo campo, tentar comer pouco, aproveitar os dias frescos para boas e largas caminhadas, as noites mais longas para planejar a festa do casamento, pensar nos convidados, na comida que iríamos oferecer, a bebida, os doces...
( Pausa para um comentário em voz baixinha: Que merda ter que pensar nisso justo de noite, a boca se enchendo de água e o estômago - bem acostumado aos vinhos e delícias espanholas - pedindo algo parecido e rejeitando, com escandalosos ruídos, o iogurt de cereais Urgh!< Peloamordedeus que tortura! )
Então... Melhor pensar que estaria mais magra e melhor na roupa que usaria e...
Roupa!!! Trrrrimmmm! Saltou o alarma.
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Tinha que começar JÁ a pensar em algo.
Mas não era melhor emagrecer um pouco antes de começar a provar o que fosse, pensei como "bruxinha"?
Achei melhor esperar o final do mês para começar a provar roupas enquanto imaginava o que gostaria de vestir no dia do meu casamento. Algo suave e leve, com movimento e classe. Sim, mesmo no inverno! Nada de vestido de noiva, por supuesto.
Mas esse negócio de casar com nenhuma cara de noiva também não me agradava.
Havia estado no casamento de uns amigos há alguns anos atrás e o casal, apesar de feliz e apaixonado, não demonstrava sequer um tracinho leve de que era um par de noivos . Nem alianças trocaram!
Tudo bem que era um casamento apenas no civil, mas achei que podia ter um pouquinho de frisson, um pouquinho de romance. Que custava?
Alianças??? Trrimmmm! Soou outro alarma! Eu queria alianças, por supuesto
Avisei ao meu prometido. Assim… devagarzinho, dando por fato consumado que haveria alianças. Técnica aprendida com a Princesa. Era tiro e queda! Aproveitei uma noite em que escrevia meus planos no caderno e perguntei onde as compraríamos.
"Eu não posso usar aliança", ele respondeu. Explicou que já havia visto alguns oficiais marinheiros perderem o dedo em manobras nos barcos por causa delas.
"Bien, entonces la mia vai poder ser más bonita y más cara!" Sorri inocente, em meu Portuñol.

Saímos para comprar A aliança em Madrid. Era uma noite maravilhosa e fria do outono madrilenho e elegi uma roupa com cuidado. Era uma noite especial, merecia detalhes. Na joalheria escolhi um modelo moderno, de ouro rajado e ele um outro, de bordas arredondadas e que não enganchava em nada. ( Oh! ) Encomendamos as duas.
O vendedor nos olhava surpreendido. Era a primeira vez que um casal encomendava alianças diferentes. Eu sorria de boca inteira.
Que passa? Cada um escolhe a que mais lhe agrada, ou não? Somos diferentes, ora! Mas pelo menos são DUAS!

Saímos para comemorar! Vinhos Rioja incluídos! Um amigo nos ofereceu seu apartamento em Madrid e não voltamos para casa àquela noite.
Que noite fantástica! Eu estava realmente me sentido uma noiva de verdade, com romance colorido e tudo! Muito mais do que na primeira vez que me casei. Que divertido isso! Estava me sentindo leve e completamente relaxada, como se caminhasse a meio palmo do chão. Coisa mais linda e mais gostosa não há que a felicidade das pequenas coisas.

De repente estar caminhando de mãos dadas com ele, o meu ELE, sentindo o ar frio no rosto, percebendo as calçadas cheias de gente, as vitrines iluminadas, as luzes estratégicas dos enormes prédios neoclássicos chamando atenção para as bordas cheias de esculturas, respirando os cheiros dos bares de tapas... era a felicidade perfeita.

Depois de jantar com nossos amigos, eles se foram e deixaram a casa só para nós. Ficamos na saleta do apartamento tomando as últimas copas, recordando os sonhos escritos nos anos em que estivemos nos correspondendo, descobrindo satisfeitos que estávamos transformando todos em realidade e que esta estava saindo ainda melhor do que tínhamos podido imaginar.

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Recordei algumas noites em que estive diante do computador, escrevendo mais uma das enormes cartas em que desejei com toda a força do meu ser passar com ele uma noite como aquela.
Recordei o gostinho amargo de solidão que podia guardar uma taça de vinho tinto tomada diante da minha pequena janela de Boa Viagem, numa noite de brumas.
Recordei como desejei estar entre seus braços e que gosto bom deveria ter um Rioja bebido na mesma taça!
Recordamos trechos que havíamos escrito com os detalhes do futuro que queríamos para nós e tomamos plena consciência da alegria que estava sendo descobrir que havíamos ajudado um ao outro a escrever nosso destino.
Era a noite de 16 de outubro. Dentro de um mês as alianças estariam prontas e nossos amigos as recorreriam e nós os convidaríamos a jantar.

Se as bruxas deixassem…



As famigeradas tentaram de tudo...

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Provocaram brigas, esconderam roupas, quebraram carros e portões entre outras cositas mas....

Mas minhas fadas são fantásticas!
E com calma, jeitinho e muita paciência me ajudaram a resolver TUDO!
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Venci o round! Mais um!

Muito obrigada pela paciência e os deliciosos comentários.
Antes do final desta semana voltem que haverá post novo.

Juro!

Prometo!

Smack! Smack!



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Pois é... desta vez vamos casar mesmo. Na manhã do dia 09 de dezembro!
Será tudo muito simples e caseiro, pero... está dando um trabaaaaalho!

Queria escrever antes, meus queridos, mas simplesmente não pude. Estava esperando que a data ficasse mais perto para contar assim bem baixinho e tentar que as bruxas não escutassem.
Inútil subterfúgio! Elas já sabem! Elas sempre sabem!

As miseráveis estã trabalhando dobrado, mas eu também. E afinal, aposto que vai dar tudo certo. Estou anotando tudo o que nos está acontecendo para escrever assim que passe, pois não penso fugir da raia.
Bueno... também tem seu lado engraçado. Fui encomendar o bolo de noiva na ambulância da Estação de Radio porque o carro quebrou justo na hora... claro!
Mas em compensação, um homem chamado Florentino vai realizar a cerimônia. Florentino! Naturalmente que eu já batizei o sujeito de Florentino Ariza, o personagem do Meu romance de Garcia Marquez preferido. Quem leu o livro sabe do que estou falando. Acho que Florentino Ariza é um símbolo! Penso que vai dar sorte para meu amor tardio, mas completa e profundamente apaixonado.
Casar aos 50 é fantástico!
E isso é só uma pitada do resto da receita.
Assim que puder volto, com textos e fotos!
Muitos beijos a todos.

Ando feliz que nem borboleta!




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