setembro 30, 2008
Mudaram as Estações...
Passou. Já passou. Tudo passa...
O inferno astral existe, aviso. Mas passa...confirmo.
Meu tempo de viver aqui no paraíso também acabou. Estou de mudança para o centro de Madrid. Uma mudança que de tanto ser adiada, cada vez está mais desejada!
É verdade, preparei meu espírito para sair daqui na primeira semana de Setembro, mas não pôde ser. Nem na segunda... nem na terceira... nem em todo Setembro.
O verão acabou... e o outono vem se insinuando entre as frestas das árvores, com uns dias nublados e um friozinho nas pontas do dia. Pela manhã a bruma envolve a casa , o frio gela os lençois da cama, eu procuro abraçar umas costas quentinhas e, desde o limbo do quase-desperta-quase-dormida, tomo total e absoluta consciência da felicidade e da sorte.
Depois, durante o dia, a boa sensação se esvai quando uma atmosfera abafada e úmida toma conta da casa, fazendo pesada a solidão e o silêncio de um lugar já com cara de passado... até que o sol se deita. Então o frio volta... e com ele meu abraço quentinho e a deliciosa companhia a que me acostumei nesses seis anos de Espanha.

Hoje, o último pedaço de Setembro se esvai nas brumas de um dia que não faz sol nem chove...só abafa.
A casa vai, pouco à pouco, se transformando numa coisa amorfa, que nem é mais a que eu encontrei quando vim viver aqui, nem mantém a aura que tinha até menos de um mês atrás. Algumas plantas eu já presenteei. As redes eu já enrolei, as luminárias de latão que eu trouxe do Brasil já estão desencaixadas de seus nichos e guardei cuidadosamente alguns objetos, pois não quero arriscar que alguma outra pessoa os embalem sem suspeitar de seus significados.
Meus marionetes de madeira, Don Quixote e Sancho Pança , comprados numa deliciosa viagem à Zamora já não pendem da estante de livros da sala, nem o lindo Caboclo de Lança pernambucano guarda os meus DVD´s de música brasileira.
Os instrumentos musicais estão numa caixinha à parte. Nem posso imaginar um sujeito que faz mudanças tendo a paciência e o amor necessários para com minúsculos violinos de madeira, delicadas flautas e trombones de mentira.
Também não confiaria a desconhecidos a sopeira que foi da minha mãe ou uma escultura de ébano e marfim que foi do Lorde.
Para eles o valor da sopeira é algo que o seguro cobre. Para mim não há dinheiro que pague.

Muitas vezes me lembrei de uma carioca que estava interessada em comprar meu apartamento em Recife, justamente quando eu estava tentando enfiar minha vida em quatro malas.
Quando ela soube que eu pretendia vir viver na Espanha deu-me um conselho valioso. Ela disse: "deixe as roupas e sapatos...disso leve apenas o indispensável. Mas escolha algumas coisas significativas na sua história e meta-as na sua bagagem como for. Esses serão seus referenciais, são insubstituíveis. As roupas a gente compra novas, mas a história não. "
Foi o que fiz.
Desfiz-me de metade das roupas das malas e trouxe quadros, livros, objetos, fotografias. Poucos, mas importantes.
E não me arrependi, nunca!
Uso o mesmo conselho agora. Enquanto escolho o que vai e o que fica, removo seis anos de vida na Espanha. Esvazio gavetas, estantes, armários... encho sacos de plástico negro com roupas que já não nos servem, encontro coisas perdidas, descubro porcarias tão bem guardadas que nem me lembrava que ainda existiam.
Mudo móveis de lá para cá, organizo caixas... e as espalho por toda parte. Quem disse que é fácil organizar caixas de história?
Sei que a mudança vai ser boa para nós. Adoro a ideia de investigar e conhecer Madrid como habitante de suas ruas e não apenas como visitante em dias de passeio.
Sei que sair de uma casa maravilhosa como essa para ocupar um dois quartos minúsculo exige praticidade e organização na hora de escolher o que vai, mas já me conheço de outros Carnavais. Sou capaz de adaptar-me a uma cesta de gato.
O problema é só a nostalgia que me acompanha no momento da "passagem" de um estado para outro. Fico com saudade antecipada do canto dos rouxinóis enamorados na janela do quarto, da enorme lua dos campos, das amapolas que invadem todos os cantinhos onde há verde e pintam de vermelho a vida e enchem os meus sorrisos de felicidade. Elas me animam, me encantam, me fazem rir no meio da rua e falar com elas, como louca. Velha e louca, eu fiquei aqui.

Sinto uma saudade das noites diante da lareira, com música bem alta e um bom vinho! De sair para o jardim enrolada na manta de lã para ver um eclipse ou apenas para buscar as constelações do hemisfério norte, as velhas estrelas de meu novo céu.
Na cidade a gente tem cinema, teatro, bares e restaurantes... mas nadica de estrelas.
Lá a gente tem transportes rápidos e fáceis, pessoas por toda parte, muito para observar, muito o que explorar... mas nada de raposas esquivas pelos sendeiros ou rubros esquilos engraçados buscando nozes no meu jardim , nada de velhas senhoras coelhas entrando pelo portão, sempre aberto, em busca de algo para seu café da manhã... e menos esse silêncio que acompanha um por de sol diferente a cada entardecer.
O campo tem uns encantos que só quem vive nele tem tempo de descobrir...
Quando cheguei, era pleno Inverno. Lindíssimo inverno. Pouco a pouco fui reconhecendo cenas em "deja vú" de antigos sonhos infantis. Enquanto descansava sob os prunos, fazia um bolo escutando ópera ou lia diante da lareira, parecia que já havia vivido isso em algum outro momento da minha vida. Nunquinha da silva tive tempo de viver isso. Mas creio que tive tempo de sonhar nos escondidos dos desejos impossíveis. Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo... por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.

Acho que foi fantástico ter podido estar aqui esse tempo, consolidar minhas escolhas, amadurecer a relação de amor com meu pirata, conhecê-lo melhor e fazer-me conhecer ao vivo e a cores, sem pressa.
Agora chegou a hora de sair do ninho do monte e ir viver no meio do mundo. De aventurar por uma cidade que promete ser encantadora... mesmo sem lareira, sem cheiro de mato e sem amapolas.
Aprenderei a admirar as luzes das maravilhosas fontes, as fachadas neoclássicas de seus edifícios, os ruídos das crianças em seus inúmeros parques, os concertos de música clássica, as peças de teatro, os cinemas espalhados por toda parte... as cafeterias, os bares de tapa...a confusão de gente de todas as raças cruzando as belas ruas e bulevares da cidade.
Faltam apenas 17 dias...
A lá vou eu arrumar mais uma caixinha...
Posted by norab at 8:29 PM | Comments (12)
julho 17, 2008
Praia com névoa!
Névoa na Praia dos Lances. Clique na foto para vê-la maior.
Vinda do nordeste do Brasil, jamais imaginei a beleza de ir à praia com uma névoa dessas...
A semana passada a Praia dos Lances, em Tarifa, estava imersa numa bruma esbranquiçada e apesar disso em sua orla estavam as crianças jogando, os jovens em suas pranchas...e eu com a câmara na mão, rindo. Durou quase uma hora.
Coisa mais linda e feliz estar ali naquele momento!
Posted by norab at 8:11 PM | Comments (15)
Enamorada por Córdoba...
Mas uma vez estive em Córdoba. E mais um vez me enamorei pela cidade. Sempre acontece...
Há tempos atrás escrevi em outro blog algo sobre esta linda cidade espanhola e tive o enorme prazer de haver incentivado, com minhas impressões, alguns brasileiros a quererem conhecê-la. Nenhum deles se arrependeu. Inclusive, sempre que pude, acompanhei amigos e lhes mostrei o que me havia cativado.
Vou aproveitar um pouco dos meus arquivos de texto e de fotos e acrescentar algumas novas experiências, principalmente as gastronômicas. Desde que estou aqui, muita coisa aprendi sobre os sabores mediterrâneos. A comida em Córdoba, como em toda Andaluzia, é um importante atrativo. Além de maravilhosa, tem preços muitíssimo mais baratos que em Madrid.
Então...
Um mísero final de semana sempre é insuficiente para aproveitar toda a riqueza cultural de uma cidade, mas é o bastante para atiçar a curiosidade sobre ela. E também é assim com Córdoba e os diferentes povos e culturas que a habitaram. Só para dar um gostinho de quero ver, há registros dessas passagens desde mais de 3 mil anos atrás e um museu arqueológico interessantíssimo para ser visitado.

A geografia foi fundamental em sua história, tanto nas épocas de glórias quanto na sua decadência.
Córdoba está no vale de um dos mais importantes rios espanhóis, o Guadalquivir, no sudoeste da Espanha, na Andaluzia. Conquistada pelos romanos em 152 a.C, foi transformada num importante centro cultural. Depois, foi ocupada pelos vândalos, visigodos, bizantinos e muçulmanos. E por falar nisso, vou contar uma historinha interessante.
Uma vez meu pirata estava visitando um país centro-americano, durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento da América, quando foi abordado por uma mulher, esposa de um político importante. A criatura aproximou-se e com cara de desprezo disse-lhe que odiava os espanhóis porque eles haviam invadido e saqueado seu país. Ele respondeu com tranquilidade e aquele sorriso que lhe caracteriza: " A senhora teve sorte. Seu país só foi invadido por um povo. O meu foi invadido e saqueado por tantos, que já perdemos a conta.Se fôssemos odiar a todos..."
A mulher emudeceu e saiu de mansinho. Só conseguiu demonstrar sua ignorância sobre a história europeia daqueles tempos, além da falta de educação e diplomacia, naturalmente.
Bom, voltando a Córdoba...
Durante a ocupação muçulmana na Espanha, a partir do século VIII, a cidade se converteu em capital de Al-Andaluz, a mais importante do ocidente, tanto pela sua população como pelo seu elevado nível cultural. E muitas coisas aconteceram em torno e a partir dela, até que no século XIII o rei Fernando III, o Santo reconquistou-a para seu católico reinado espanhol.
Uma pena para a riqueza cultural da cidade, é preciso reconhecer. Depois de reconquistada, Córdoba foi convertida em reduto militar por sua importância estratégica e sua população civil, formada por árabes, judeus e cristãos foi quase que totalmente evacuada, o que levou a cidade à decadência pelos séculos seguintes.
Seus monumentos e palácios espetaculares, como a Medina Azhara, construídos durante os séculos de ocupação muçulmana, foram ocupados com objetivos militares e depois destruídos e saqueados, até serem reduzidos às ruínas que são atualmente...
O antigo Alcazar dos reis foi transformado em quartel e depois em prisão. Afortunadamente, hoje é um bonito museu.
E, para culminar a desgraça, a cidade inteira foi saqueada pelos franceses em 1808. Só não levaram para a França o que a população conseguiu esconder de seus tesouros e obras de arte.

Dizia Federico Garcia Lorca, o grande poeta espanhol, que Córdoba era uma cidade melancólica. Esta melancolia o pintor cordobes Júlio Romero de Torres registrou magistralmente nas fisionomias de suas musas, de tristes e molhados olhos negros.
Para mim não há nada melhor que a arte para ilustrar qualquer história...escolhi dois de seus quadros que eu mais gosto para o painel.
Adorei visitar o museu do artista. Uma visita imperdível para quem estiver na cidade com um pouco mais de tempo.
Mas Córdoba não é só seu passado histórico... ela também está renascendo das cinzas em modernas áreas e bem decorados espaços públicos. Está se transformando numa cidade mais completa, com ambientes adoráveis, bem cuidada, cheia de hotéis novos e bonitos, passeios arborizados, bares de copas bem transados, terrazas com sofás na calçada e luminárias árabes lindíssimas que podem transformar a noite num sonho romântico...
A música também ilustra lindamente um lugar. E na minha memória ficará para sempre a noite em que jovens trovadores de uma de suas universidades se reuniram numa calçada, diante da taverna em que eu estava e cantaram para mim. Arrepiei. Foi emocionante.
Pregadas em suas capas estavam as dezenas de fitas coloridas bordadas pelas amadas ou amigas e os brasões das universidades por onde já passaram a cantar suas tradicionais canções. Era uma Tuna, uma tradição em quase todas as universidades europeias. Eu adoro!
Desta última vez, semana passada, estive em Córdoba para assistir o casamento de um sobrinho. Seus irmãos e amigos não perderam a oportunidade de presentear os noivos com uma apresentação. O "muchacho das panderetas" é um dos meus novos sobrinhos e irmão do noivo. Fiquei alucinada com a dança dele e até tentei fazer um video AQUI .
Voltando ao passado...

Para quem gosta de mergulhos na história, a cidade conserva ainda restos abundantes da ocupação romana e muito mais da muçulmana, embora jamais tenha recuperado a pujante vida cultural dos séculos passados. De vez em quando a gente se depara com alguma ruína romana que emerge numa escavação qualquer de alguma obra bem no centro da cidade. Não pensem que é coisa pequena, não... são colunas impressionantes!
Mas minha predileção é justamente a Juderia. Adoro o bairro judeu. Adoro as casas e as ruas estreitas. Adoro visitar as lojinhas passeando com tempo e paciência, aproveitando o tempo, sem correr para nada.
Por entre os muros altos e varandas coloridas pelas flores, a gente vai viajando no tempo.
Descobri que as ruas são assim estreitas como uma forma de se protegerem dos excessos de frio ou calor. Durante o inverno, os muros guardam um pouco do calor do sol e evitam as correntes de ar frio. E durante o verão criam sombras protetoras.
As casas em estilo árabe mesclam-se com a Juderia e a gente não sabe mais onde acaba um bairro e começa o outro. São quase todas brancas, com grandes ou pequenos pátios centrais, onde há uma profusão de plantas e vasos coloridos e, invariavelmente, um poço. Funcionando, lindo... Com a ajuda deles os moradores mantêm suas casas decoradas, além de frescas e alegres durante todo o ano.
É comum encontrar casas de chá decoradas com peças árabes, mesinhas baixas cercadas por banquetas de couro trabalhado onde descansam bandejas de metal com serviços de chá de fina delicadeza, com seus desenhos florais e cores diversas.
Nunca deixo passar a oportunidade de entrar e provar algumas das variedades dos chás e doces.
Tomar chá é um costume que permanece forte entre os cordobeses.
As "teterias" também funcionam para uma descansada breve depois de comer... é um lugar fantástico para escapar do sol e relaxar antes de voltar para a rua.
Os banhos públicos voltaram a funcionar e estão na moda atualmente. Existem casas de banho maravilhosas, onde se pode relaxar em piscinas térmicas com direito a massagens com óleos perfumados, em ambientes com cheiro a incensos exóticos ao som de uma doce canção do médio oriente e a visão de uma linda cordobesa bailando a dança do ventre. Ainda não foi desta vez que provei os banhos, mas será da próxima. Garanto!
Como eu não tinha tempo para estar pela rua e o calor era tanto, decidi não gastar as energias antes de ir ao casamento montada em uns saltos vermelhos que só de olhar já me assustavam. Fiquei na piscina do hotel, relaxando e descansando enquanto os jovens iam visitar a Mesquita. Este sim... é um passeio imperdível para quem não conhece. O monumento mais importante e encantador de Córdoba.
Iniciada por Abd al-Rahman I em 780 d.C. a Mesquita foi o primeiro monumento de todo o ocidente islâmico.

Sua construção inicial foi ficando pequena para a quantidade de fiéis e, durante os séculos seguintes, foi ampliada pelo menos quatro vezes. Em cada uma delas, principalmente na terceira, uma decoração mais esmerada, mais espetacular. Assim, a Mesquita conta atualmente com uma variedade de estilos e materiais, de acordo com o tempo em que foi construída ou reformada.

No retângulo original, as colunas são romanas e visigodas, aproveitadas de antigas construções anteriores ao poderio do Califa.
Nas ampliações posteriores podemos apreciar uma seqüencia alternada de colunas de mármore azul e rosa, que levam ao Mihrab , e que fazem a gente respirar fundo várias vezes, para aguentar a emoção que cresce dentro do coração.
O Mihrab é o oratório e todo o caminho até ele é de uma beleza espetacular. (Não deixem de ver outra vez o painel de fotos depois de ler ese texto.)
As mulheres não podiam rezar nesse espaço. Aliás, elas nem podiam entrar na Mesquita propriamente dita. Só podiam rezar numa parte construída no Pátio de Los Naranjos , na entrada do templo, e reservada para elas. O grande centro do retângulo era destinado apenas às orações masculinas.
Hum... as religiões são engraçadas. Quase todos os preconceitos de gênero vem delas.
Gostei de ficar um tempo no pátio. As laranjas são amargas e não servem para comer mas emprestam ao ambiente um colorido fantástico! E um perfume!
Os árabes não cultuam imagens e assim sua arte religiosa consiste de motivos florais ou de arabescos, textos sagrados, etc. Sempre fico embasbacada com a perícia dos artesãos mozárabes nas portas desenhadas, nos tetos de madeira e gesso trabalhados, nos pórticos do Mihrab e do tesouro.
A luz que entra suavemente pelas janelas no alto e dão um toque de ouro e sombras aos recantos da mesquita. Um coisa impossível de descrever.
E aí... a Espanha cristã, quando reconquistou seus territórios, resolveu construir uma Catedral dentro da Mesquita. Derrubar parte do templo islâmico mais antigo e singular do ocidente, para elevar um templo cristão.
Pelo amor de Deus! O tal sujeito que teve essa " brilhante" ideia não podia aguentar tanta beleza noutra crença?
Não, parece que não. Além de acreditarem ser aquele solo sagrado, não podiam deixar o símbolo de uma religião que não fosse a cristã dominando a paisagem da cidade.
A Catedral foi construída dentro da Mesquita.
Sorte que uma alma sensível àquela arte aproveitasse parte do templo islâmico como decoração do templo cristão.
Eu soube que aconteceu até uma manifestação pública do conselho de Córdoba , na época, pregando nas ruas e praças da cidade a pena de morte para os pedreiros, carpinteiros e peões que aceitassem o contrato para trabalharem na demolição da Mesquita.
Mas, deixando as crenças de lado, a arte que podemos contemplar no templo misto é o que vale, seja qual for a religião do visitante.

A Catedral é espetacular. As capelas, o coro, o altar maior... tudo construído com esmero para superar a beleza da Mesquita... embora, na minha opinião, o que restou do templo muçulmano é o que empresta à Catedral de Córdoba seu singular encanto.
Ninguém sai incólume a tanta formosura.
Ps: Algumas fotos foram retiradas da Internet com a intenção de ilustrar o texto.
Posted by norab at 11:14 AM | Comments (2)
maio 12, 2008
Avistando África... desde Tarifa.
* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.
Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um " ái...el levante parece que afloja esa tarde" e outro responde "ná...parece que vá seguir hasta maña..." Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ná; todo, dizem tó... cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao...e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade...
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona...Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes...tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah... e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A "fauna" tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto...
Entoncesss... me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta ... tcs.tcs...só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno... também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma... "noventa-e-um euros, vaya!" e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que "dentro tinha coisas mais caras"... hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin...
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!
O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros...
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI
Posted by norab at 6:45 PM | Comments (4)
março 24, 2008
Mais um sonho...
Se você quer desaparecer por uns dias, esquecer o que lhe preocupa ou apenas viver um sonho dentro de um belo cenário medieval... vá à Praga.
Se um dia quiser estar sozinho com alguma nostalgia ou apenas viver uns poucos dias de solidão programada...vá à Praga.
Tá bom. Eu entendo. Não quer nem pensar em solidão e sequer passar perto da nostalgia? Então escolha muito bem a companhia... e vá a Praga.
Mas cuidado... eu disse que escolha muito bem a companhia. Não é uma cidade para se ir com gente que "dá por visto" o que se apresenta. Não é uma cidade para gente que não se impressiona com a beleza e menos para gente que acredita que por já ter visto muitos lugares bonitos este é apenas mais um.
Praga é mais que uma cidade bonita... é para ser vivida com toda a intensidade.
Ela respira história, cultura e é preciso deixar-se perder pelas ruas para ir descobrindo-a pouco a pouco. E a beleza está por toda parte, acredite.
Em cada esquina se desenha ao fundo uma torre escura, uma cúpula de igreja ou de palácio, um prédio cuja fachada está trabalhada com pinturas, brasões ou esculturas.
É preciso saber gastar um tempo razoável diante dessas coisas. Se possível ler algo antes sobre sua história, seus heróis, seus personagens... senão a gente corre o risco de não sentir nem escutar a pulsação desta fantástica cidade.
Há muito escrito por aí... ainda estou lendo, mesmo depois de já ter voltado. Decidi escrever assim, sem grandes detalhes... só pulsando... Pra-ga! Pra-ga! Tum-tum...Tum-tum!
Praga e música são quase sinônimos... Então aproveite para por em dia todos os seus sonhos de assistir espetáculos maravilhosos (a preços razoáveis) sem fazer fila meses antes para comprar os ingressos. Os concertos são oferecidos a cada dia pelas ruas. É só pegar o folheto distribuído aqui e ali e comprar as entradas no mesmo dia. Delícia!
Se numa igreja medieval há um concerto de música erudita, entre.
Se no Teatro Nacional há um ballet clássico, assista.
Se no Teatro Imperial há uma ópera e mais adiante uma apresentação do mais típico Teatro Negro de Praga... programe-se e vá a ambos.
E haverá! Há concertos todos as tardes e noites. Fica até difícil escolher entre tanta oferta.
Nas outras horas, deleite-se com apresentações de violinistas ou grupos de Jazz pelas ruas mesmo.
Agora... se tiver a sorte feliz de ver um velho (da foto do slideshow ) que canta com uma triste voz rouca enquanto toca um estranho e antiquíssimo instrumento musical de madeira... fique ali com ele por um tempo, imagine outra época, outra gente caminhando por aquelas ruas. Emocione-se com seu sorriso escuro, fixe-se em seus olhos úmidos... e por favor, não deixe de dar-lhe uma moeda. O momento que ele proporciona a gente não tem preço, mas a moeda será bem vinda...
Praga é assim... emoção por toda parte.
Tem mais... se num fim de tarde fria quiser sentar num dos cafés diante do relógio atronômico, o mais antigo do mundo em funcionamento para tomar um gostoso chocolate quente, enquanto observa os turistas se agrupando diante do mesmo à espera de que os apóstolos apareçam nas janelinhas e ouvir os sinos badalarem a hora em ponto, faça isso... e agradeça ao universo por estar aí neste momento...
Se já for noite, peça um vinho... tinto, é claro. E nem ligue para o gemido de decepção dos turistas diante da simplicidade do ritual do relógio... para mim é justo isso o que encanta do lugar.
Depois...não tenha pressa... caminhe mais e mais, cruze as pontes, namore com o rio, jante ao sons dos violinos ou coma salsichas com mostarda no meio da rua, entre numa livraria e compre algo de Kafka , algo de Dvorák... e prometa a si mesmo voltar.
Praga é lugar para se voltar...
Já prometi.
E eu tenho a melhor companhia...
Posted by norab at 6:25 PM | Comments (10)
setembro 4, 2007
Outra Vez em Galicia...
Esta foto é a vista aérea de Ferrol. Dizem que lá chove… e muito.
Eu sei, eu sei. Mas a Galícia é tão espetacular em seus verdes e azuis que fiquei com vontade de plantar a tenda do futuro naquelas paragens. Juro.

É tudo tão lindo!
Por toda a costa ocidental da Espanha o mar brinca de apaixonado e avança para dentro da terra como se seus largos dedos molhados quisessem abraçar as curvas da dama desejada e acariciá-las com seu tato frio…
E ela, feliz, se deixa tomar pelo abraço e ri alto através dos gritos das gaivotas, pede aos ventos que soprem brisas úmidas por sobre os campos e cidades e desenha coisas bonitas no horizonte com a cumplicidade do sol. Juntos eles criam cantos e recantos espetaculares, montes e praias de todas as cores e formas, calhas, ilhas, estreitos e discretos esconderijos onde se pode navegar, pescar, pensar, meditar, tomar o sol, namorar…

Por toda parte da costa atlântica e das Rias Gallegas (os dedos molhados do mar se chamam assim) multiplicam-se os pueblos de lindas casas de pedra e vidro, como estas de Mugardos, algumas com suas parcelas de terra cultivada em ricas hortas, vinhedos, fruteiras. Além disso há centenas de pequenos portos e milhares de barcos pesqueiros de todos os tamanhos e cores, como numa impressionante exposição de aquarelas antigas.
Recordei o meu avô, pai do Lorde, que pintava um quadro atrás do outro, sempre com o motivo da pesca, dos marinheiros e pescadores de antigas paisagens do Janga, sabendo, é claro, que as Rias Galegas não tem nada a ver com a larga praia da minha infância.
Mas os elos da cadeia inconsciente não respeitam essas barreiras e trazem - junto com as cores alegres dos barcos pesqueiros e os cheiros de conchas, algas e sal gallegos - as imagens felizes de meus quatro ou cinco anos, na praia pernambucana. E eu gosto disso…

A amiga que estava comigo disse que era melhor não fantasiar baseada nas poucas experiências que eu tive nas terras do noroeste espanhol, porque quando o céu desaba - e ele sempre desaba! - passa o ano inteiro caindo justamente ali. Que pena!
Da chuva eu gosto muito, mas não suportaria viver sob ela por meses e meses seguidos, sem previsão de mudança duradoura.
Sim, eu adoro as semanas que precedem o Outono, quando a chuva cai caudalosa e intempestiva sobre meus campos e perfuma a terra, lava as árvores e enche os córregos de felizes ruídos.
Adoro sair para caminhar sentindo o sabor da clorofila na boca…mas se ela perdura, perdura e perdura, com o tempo vou me aninhando, ficando triste, lenta, cinza, espectral.
Preciso do azul do céu, da luz amarela sobre as copas das árvores, da magia do arco íris despedindo-a e trazendo de volta o brilho do sol.
Agradeço todo santo dia a sorte que tive ao vir viver justamente em Madrid, onde até no Inverno o céu é alegre e brilhante, com tons de azul absolutamente incríveis.
Pois sim… em Galícia chove demais. E quase sempre o ano inteiro.
Dizem que eu tive muita sorte nas três ou quatro vezes vezes que estive ali, pois São Pedro estava de férias e deixou algum anjo desavisado em seu lugar. Resultado: chovia em toda a Espanha, menos na Galicia. Bárbaro!
Desta vez estive ainda mais agradecida do despistado anjo porque o meu programa incluía uma navegação à vela com o meu Lobo do Mar.

Hum! Que delícia de dia.
Brisa forte, mar gelado - a gente se acostuma com tudo nessa vida! - um barco diferente do que havíamos imaginado, mas afinal um dia muito gostoso.
Descobri uma habilidade que não conhecia (sei dar rumo ao barco) e desmistifiquei o medo de enjoar. Passei muito bem, obrigada, apesar de saber que as condições de vento e de mar eram muito favoráveis e não havia motivo algum para marear-me. De qualquer forma serviu para garantir, num futuro próximo, a realização daquela fantasia tantas vezes escrita nas longas cartas apaixonadas que trocávamos anos atrás: Navegar juntos e sozinhos por algum lugar deste planeta.
Da Galícia eu trouxe lindas imagens guardadas na câmara e na memória, na boca um gosto de maresia e no coração um desejo de talvez.
Quem sabe em algum momento da vida eu passe lá uma estação inteira e não apenas uns poucos dias de férias.

É preciso apostar nos sonhos para que eles se realizem.
E escrevê-los sempre me ajudou bastante. Por isso estou aqui, de volta ao meu pequeno pedaço de universo virtual, tão abandonadinho, coitado! para tentar, mais uma vez, retomar meu prazer de escrever. Desta vez a ausência tem o nome de inferno astral... hohoho!
É verdade que eu já perdi as contas das vezes que pedi desculpas aos meus visitantes (me encanta que ainda venham aqui!) e prometi melhorar minha constância, mas cada vez tenho menos paciência com minhas impossibilidades tecnológicas. Assim que eu sou muito consciente que esse perdão eu nem mereço.
Enfim… deixemos para lá esse repetitivo assunto de minhas prolongadas ausências e voltemos à Galícia.

Estive em Marin, hospedada na casa de um amigo. A vista é simplesmente encantadora, a casa confortável e acolhedora, mas pouco permanecemos aí porque o que nos rodeia possui tal força atrativa que passamos os dias enfeitiçados entre um pueblo e outro, uma cidade e outra, visitando praias e antigas fortalezas, exprimentando mariscos e crustáceos estranhíssimos e saborosíssimos (dedicarei um post a eles)...
Como eu não escrevi sobre a minhas anteriores visitas, vou tentar resumir num único relato e talvez caibam em dois ou três posts as deliciosas descobertas que fiz dessa linda região espanhola. Vou começar por uma receita de polvo...hummm!
Sim?
Ps: Estou estreando o upgrade da Verbeat e ainda não estou muito bem com a configuração, as novas possibilidades, etc...
Mais dificuldades para mim, aprender tudo de novo! Uff!
Posted by norab at 8:54 PM | Comments (5)
maio 29, 2007
Rosas, rosas, rosas…
Rosas formosas se espalham por Madrid.
Em cada jardim, cada praça, elas se mostram, simplesmente espetaculares, na mais gloriosa festa da natureza: a Primavera.
Não lhes importam que as águas das torrenciais chuvas dos últimos dias tenham inundado as ruas, os túneis, as garagens subterrâneas e tenham alimentado - com gosto e vontade - os imensos buracos cavados pelos obreiros municipais e transformado a cidade num enorme campo cheio de poços de água e lama.
Não lhes importam nada disso...

Elas aproveitam a confusão e pintam as folhas com novo verde, afiam discretamente os espinhos, suspiram com feminilidade… e amanhecem no dia seguinte, bem ali ao lado, na encosta de uma estrada, na cerca de um parque, nas rotondas, nas varandas das buhardillas, nos jardins dos museus, nas praças... lindas, radiantes, sedosas, magníficas em suas cores, cada uma escolhida com cuidado na vagarosa toilete matinal.
Umas ainda mantém, penduradas nas pétalas, as gotas de orvalho que roubaram da névoa que na madrugada cobriu a cidade…
Acho que durante as noites de chuva elas mergulham na terra, deitam sob mantos de folhas perfumadas e dormem como deusas surdas. Nem percebem a tromba d´água, as sirenas dos bombeiros, os prantos dos que perdem o rumo e o prumo em noites de tempestade.
Elas apenas descansam. E isso é absolutamente necessário, ninguém discute. Dormem em um leito verde e mágico só para que, ao dia seguinte, quando despertem, todos os desesperados, sobreviventes dos assustadores relâmpagos e escandalosos trovãos que os deuses cuspiram sem dó sobre a cidade indefesa, possam recuperar o juizo, a ternura, o desejo de viver e serem felizes apenas ao vê-las.
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Psit um :
Nem só de amapolas vive meu coração na Primavera. Para um boa crise de ego, nada melhor que um largo passeio entre as rosas de Madrid !
Psit de novo!
Perdoem mais um vez o abandono!
Crises de ego são poderosas, intimidam, paralisam. Cada movimento abre feridas do passado. Recomendo um passeio entre as rosas, amapolas, margaridas... o que estiver ao alcance de cada um...
Ah, psit again:
Vou responder a todos os comentários... vocês arrasaram!
Também pudera, com um texto assim como o do post passado! Já soube que ninguém sabe quem o escreveu, o que não diminui em nada a força de sua poesia.
Posted by norab at 4:45 PM | Comments (11)
outubro 27, 2006
O Caminho das Águas...
Como eu disse no post passado, uma das coisas mais interessantes de nossa visita a Albacete foi conhecer as curiosas cavernas da região. Claro que só vê-las de longe não dá para sentir muita coisa. O bom mesmo foi entrar em algumas delas e imaginar as vidas que por ali passaram.
Isso sim, foi a grande viagem!
Paca, a mãe de meu amigo e dona das bochechas rosadas, possui uma casa-cueva há mais de 30 anos. Foi fantástico poder viver por algumas horas dentro da gruta transformada numa adorável casa de campo à beira do rio.
Eu conto...
Primeiro fomos de carro a um pequeno povoado chamado Valdeganga. Fiquei meio decepcionada com a paisagem, à princípio. É que eu olhava em volta e só via uma grande planície, nenhuma montanha. Onde estariam as cavernas?
Pois… justamente abaixo do pueblo.
Foi passar por ele e começar a descer até o leito do rio e já pudemos ver os imensos barrancos que, há milhões de anos atrás, eram o "caminho" das águas. Imaginei a imensidão caudalosa do rio daqueles tempos e comparei com o pequeno córrego de agora. Impressionante!

Também imaginei os primeiros seres que habitaram aquelas grutas, algumas delas enormes e naturais, outras menores e escavadas propositadamente e perguntei-me com que toscos instrumentos eles construíam suas casas, por que escolhiam justo aquele lugar para viver, que dificuldades tinham que enfrentar para estabelecer-se em algum novo lar?
Dando mais asas à imaginação pude ver os homens dos clãs trazendo a caça e a pesca para alimentar suas famílias. Quis saber mais sobre as antigas populações íberas, romanas ou árabes daquele lugar e tive um pouco de inveja dos arqueólogos que investigaram e descobriram a infinidade de objetos de diferentes épocas, hoje expostos no Museu Arqueológico de Albacete e que havíamos visitado apenas algumas horas antes.

Esqueci de dizer não é?
Pois sim… um dos passeios que fizemos pela cidade na manhã daquele mesmo dia foi conhecer o belo parque cheio de patos e esquilos onde estava o museu. Nem sabíamos que ele estava ali mas quando passamos pela frente resolvemos dar uma olhada. Valeu a pena. O museu está muito bem organizado e era di-grátis! Passamos umas duas horas olhando as peças encontradas na região, lendo as explicações mais interessantes e vendo fotos das escavações. Deve ter sido emocionante demais realizar esse trabalho, não é?
Sabem o que mais? O Museu estava vazio… num sábado pela manhã estávamos ali apenas quatro pessoas e milhões de anos de história.

Pois então, com essas imagens na cabeça, ficou ainda mais fácil deixar a imaginação fluir… Eu olhava as cavernas e pensava na vida daquelas pessoas defendendo-se da intempérie, dos animais, criando seus filhos, ensinando-os a sobreviver, inventando novas formas de fazer as coisas, criando instrumentos de defesa, de caça, de cozinha, de lazer.
Quis imaginar suas vidas e seus sentimentos, mas aí não pude mais. A imaginação foi curta para tantas possibilidades.
Quando entramos à casa de Paca eu mal podia conter a emoção. Apenas a cozinha, o banheiro e a sala tinham luz natural porque estavam na parte dianteira da caverna. Para dentro haviam uns quatro ou cinco "ocos", melhor dizer recintos, de tetos muito baixos, iluminados por luzes indiretas incrustadas em minúsculos nichos nas paredes, como se fossem velas. O efeito é simplesmente encantador. Que delícia de lugar!
Fiquei emocionada por estar ali. Juro!
Mesmo havendo camas normais, cobertas com colchas macias e quadros simples nas paredes pintadas a cal branco, imaginei como poderia ter sido aquele lugar antes de nós e como nossos antepassados deviam ter coberto aquele solo com palha ou pele de animais para amortecer a dureza do chão e aquecer seus corpos nas noites frias.
Sou uma fábrica de imagens… hehehe. Adoro imaginar.
Imediatamente quis dormir ali nem que fosse apenas por uma noite. Mas isso não estava na programação dos outros… que pena! Infelizmente não tenho fotos para mostrar o interior da caverna, fiquei sem bateria!
Bueno...usem a imaginação queridos, até que volte lá!

Então mergulhamos na preparação e desfrute de um daqueles loooongos almoços manchegos a base de morcillas, pancetas ( bacon ) e embutidos caseiros ( uma das maravilhas feita pela mãos mágicas da mãe de Carlos ) salada fresca, frutas, pão e vinho, enquanto o céu começava a por-se escuro, escuro, escuro…
Antes de terminarmos o banquete digno de Sancho Pança enquanto governador da Ínsula de Barataria, já precisando da luz de velas pois a eletricidade acabou, o céu desabou numa tempestade espetacular. Adoro o barulho das tempestades!
Pensamos que era melhor não enfrentar a estrada nessas condições, claro. E ficamos para la siesta! Hummm! Que suerte!
Deitei numa das largas e macias camas do último recinto transformado em quarto e deixei a mente fluir . A sensação de proteção e segurança que eu sentia por estar abraçada ao meu homem no fundo escuro ( absolutamente escuro ) daquela caverna, com o céu desmoronando lá fora e escutando os sons longínquos dos trovões, devia ser a mesma de todas as mulheres que viveram as mesmas circunstancias através dos tempos … era incrível o que eu estava vivendo!
Estava emocionada por sentir-me totalmente protegida embaixo da terra como deveriam sentir-se aquelas famílias abrigadas nas suas tocas em semelhantes tempestades ao longo dos milhares de anos... e agradeci no fundo do coração por estar tendo a oportunidade de experimentar emoções tão simples e ao mesmo tempo tão intensas.
Pensei em quantas pessoas passam por cima daquele pueblo sem sequer imaginar o que existe embaixo dele e o que perdem por não saberem!

Quando voltamos à Albacete decidimos investigar um stand turístico na Féria e descobrimos um pueblo lindo e próximo que poderíamos conhecer. Decidimos então deixar as belezas da capital para outra visita e passarmos o dia seguinte numa excursão ao longo do rio Júcar até chegarmos a Alcalá del Júcar.
Que excelente idéia! Imperdível!
Acreditem em mim.
*Alcalá significa El Castillo, em árabe. Por isso é tão comum encontrar lugares na Espanha com este nome.

Mas a cidade ainda queria nos dar um presente.
Antes de sairmos para a excursão fomos tomar café numa cafeteria por trás da Catedral.
Enquanto fazíamos o pedido, percebi algumas pessoas vestidas com trajes típicos, com ramalhetes de flores na mão, todos caminhando na mesma direção.
Descobri que haveria um desfile tradicional de oferenda floral à virgem padroeira de Albacete.La Virgen de los Llanos.
Ah! Isso eu não queria perder de jeito nenhum!
Tomamos o café e nos dirigimos para as escadarias da Catedral.

Que lindo! Homens, mulheres, crianças e até bebês dentro de seus carrinhos estavam vestidos com os trajes típicos da região manchega, dispostos a desfilarem pelas ruas da cidade levando oferendas de flores para a virgem de sua devoção. Que festa tão linda!
Ficamos por um tempo, acompanhando a chegada das pessoas enquanto terminava a missa e podíamos entrar para conhecer por dentro a Catedral. Não tem nada de muito espetacular, mas gostei das paredes cobertas por belos frescos.

A jovem mãe adotiva de uma criança chinesa estava toda orgulhosa arrumando o belo vestido de lã bordado de sua menina enquanto a pequena enfiava uma madalena inteira boca adentro. Lindas as duas, mãe e filha.
Sorri enternecida pela imagem da pequena aprendiz da cultura popular espanhola crescendo num mundo tão diferente daquele onde ela nasceu. Pensei em destino, em karma...
Passamos mais ou menos uma hora e meia admirando os belos trajes, escutando os tambores e dulzainas.
*Las dulzainas são instrumentos de sopro medievais de variadas formas e tamanhos, que produzem um som bastante agudo, muito apropiado para as festas religiosas e profanas. O normal é que sejam construídas utilizando diversas madeiras, mas também podem encontrar-se algumas feitas de barro cozido ou de casca de algumas árvores.
Só depois que o desfile começou partimos para nossa improvisada excursão ao longo do rio Júcar.
A estrada sinuosa e estreita seguia o curso do rio cuja margem estava repleta de hortas e árvores frutíferas. Em ambos lados do caminho tínhamos os enormes barrancos, de vez em quando salpicado de cavernas e casitas dependuradas. Paramos inúmeras vezes ao lado da estrada para "assaltar"as figueiras carregadas de frutos maduros que comíamos entre risadas da mais pura felicidade. Eu estava eufórica com o tamanho e a doçura dos figos que praticamente caiam nas nossas mãos assim que os tocávamos!
Numa dessas paradas perguntamos a um homem que passava se podíamos mesmo fazer o que estávamos fazendo e ele disse que sim. Era melhor comê-los que deixar que caíssem ao solo.
Conversamos alguns minutos com ele. Falou-nos de sua vida de trabalhador em Madrid antes de aposentar-se e voltar à terra de infância para cuidar do patrimônio da família. Falamos do contraste da vida na grande cidade com a vida em um pueblo que tinha uma única rua, um rio, uma punhado de casitas penduradas nos barrancos de pedra e muito silêncio…
Ele apenas sorriu...
Antes de ir-se nos presenteou com uvas, tomates e pimentões de sua horta.
A capacidade dos seres humanos de adaptar-se às mudanças é surpreendente.

Alcalá del Júcar é uma lugar precioso.
Presidido pelo antiga torre do castelo árabe, foi também terra de nobres cristãos e tem uma história muito interessante. Durante a ocupação árabe foi uma lugar importante onde se cobravam os impostos do Caminho Real de Castilla à Múrcia.
Hoje é apenas um pequeno lugarejo de interesse histórico de La Manchuela, bonito de se ver e gostoso de se estar.
O turísmo é seu negócio principal e existem muitas possibilidades para aproveitar o tempo.
Há muitas cavernas-casas que se alugam por dias, pequenos hostais, Casas Rurais e hotéis encravados na rochas. Muitos deles oferecem guias e atividades de senderismo, piraguismo, ciclismo, passeios a cavalo, excursões de espeleologia, etc.
Estivemos visitando as ruas do empinado pueblo ( exercício fantástico para as pernas), entramos numa impressionante caverna que atravessa toda a montanha, chamada Caverna Del Diablo, com uma vista impressionante do vale e do pueblo e também comemos na beira do rio.
Quando voltamos para a casa da velha e desconhecida senhora, escolhemos vir pela auto estrada. Era muito mais rápido e já tínhamos que arrumar a maleta e voltar à Madrid.
A diferença foi extraordinária. Pela manhã o caminho atravessava pueblos, pontes, ventos e árvores que contavam historias passadas. No final da tarde-noite a auto estrada era a modernidade, o futuro. Tudo num zás!
Claro que eu gosto de poder atravessar o país em poucas horas, mas se a gente quer conhecer um país é preciso saber encontrar o prazer dos pequenos e sinuosos caminhos.
Quem usa a auto estrada para chegar à Alcalá del Júcar ganha tempo, mas perde em felicidade.
Melhor ter a paciência de ir pela velha estrada do rio... vá por mim!
Não temos dúvida que esse é um passeio para se repetir… e descobrir nuances daquela região que, mesmo fazendo tudo devagar, não tivemos tempo de explorar.
É um lugar para se voltar e ficar mais uns dois ou três dias… é um lugar para se banhar de beleza natural e também para refletir sobre a nossa passagem por este planeta.
É mais do que um lugar… é a própria experiência do tempo.
A Espanha tem dessas coisas… um simples final de semana para estar com amigos numa festa com roda gigante e barraquinhas de comidas gostosas… de repente se transforma numa viagem mágica...muito mais rica e profunda.
Posted by norab at 11:48 AM | Comments (15)
outubro 17, 2006
Em Terras de La Mancha...

Eles se chamam Carlos e Marina.
Ele é espanhol. Ela, sueca. São nossos vizinhos há menos de 6 meses e já conquistaram um espaço em nossas vidas.
Às vezes uma amizade se constrói tão rapidamente que surpreende. Também encanta! Tenho o pressentimento de que vai ser amizade longa e duradoura. Vamos cuidar para que seja! Ambos são positivos, cheios de vida e alegria, transbordam energia por todos os poros. São super criativos e estão sempre fazendo algo ou pensando no próximo algo a fazer!
Mas isso não quer dizer que sejam “hiperativos.” Ojo!
Também sabem ficar em paz e assistir um por-do-sol, deitar numa espriguiçadeira e ficar ali, fazendo nada.
Ainda bem! Eu não aguento acompanhar os hiperativos! Eles me cansam demais. Gosto de mover-me sim… mas sem desesperos, não é?

Pois sim… quando eles nos convidaram para um final de semana em Albacete, claro que adoramos a idéia e a aceitamos na mesma hora.
Albacete é a capital da província de mesmo nome e fica em Castilla La Mancha. Seu nome vem do árabe "Al Basit", que significa A Planície. Fica há 250 km de Madrid.
A cidade é bonita e simpática. Parece que está esperando que você chegue e aproveite seus parques e museus, seus bares e suas lojas, seus arredores e suas festas populares.
Me pareceu um lugar manso e agradável, apesar de estarmos justamente no final de semana da inauguração da Féria Anual, a maior festa da capital.
A Féria de Albacete é considerada uma das melhores da Espanha.
É muito organizada e oferece uma variedade imensa de opções de divertimento para o público em geral. E tudo muito tranquilo. Não vi nada frenético, nada desvairado e em nenhum momento senti-me sugada por algum torvelinho de gente puxando ou empurrando para conseguir espaço ou ter acesso às atividades sugeridas pelas luzes coloridas das barracas.
Uma das mais bonitas era a que oferecia vinho moscatel, com manequins bailando sobre tonéis de uvas e uma música bobinha e aguda que atraía todo mundo para perto.
A foto está publicada dois posts abaixo.

Sem pressa a gente ia descobrindo as coisas, respirando devagar e aproveitando tudo o que a festa oferecia, sem agonia. Adorei esta "estátua viva" de Don Quixote. Passei um tempo enorme admirando a beleza de seu traje cheio de luzes brilhantes e vendo como se movia com garbo e elegância ao receber as moedas. Estava lindo!
Embora houvesse muita gente passeando e divertindo-se por entre as dezenas de lojinhas de artesanato, comidas, bebidas e atrações do grande parque de diversões armado em torno do edifício principal, pudemos caminhar entre as pessoas, escolher o que e onde comer, beber ou dançar.
Escolhemos várias iguarias, em vários lugares, sentadinhos e bem servidos. Mas entre todas, o melhor foram umas Berinjelas de Almagro, feitas em conserva e servidas na mão, em pé, sem prato nem nada. Era pedir, pagar e comer.
A mulher enfiava um garfo numa tina de madeira e tirava dali uma coisa do tamanho de um punho fechado, de cor meio esverdeada, escorrendo em vinagre e azeite e estendia-o com um guardanapo de papel bem grosso que era para a gente enxugar a meladeira entre os dedos. Também tínhamos direito a uma esguichada na boca do vinho tinto que estava numa bota de couro negro pendurada numa coluna da barraca para quem quisesse servir-se. Delícia! Só de lembrar me dá água na boca! Eita coisa gostosa!

Também podíamos comprar uma infinidade de artigos de couro ou corda, cerâmicas cruas ou pintadas e – principalmente - a especialidade da região:facas, navalhas e tesouras.
Albacete é conhecida pela variedade e qualidade de sua cutelaria.
Não comprei nenhuma, mas tive a sorte de ganhar, num sorteio de tômbola, um conjunto completo para churrasco. Bien!
Voltamos para casa a pé, sem sobressaltos, sem riscos de assalto, sem confusão. Adorei que fosse assim. Esse é um dos melhores aspectos das médias cidades espanholas: a segurança. É tão prazeiroso poder ir tranquilamente caminhando pelas ruas em direção à casa às três da madrugada…
Enfim… por falar em casa, ficamos hospedados num antigo apartamento de uma amiga da mãe de Carlos. A dona do apartamento nunca casou nem teve filhos. Agora, com o avanço da idade não pode mais viver sozinha. Está vivendo numa residência para anciões no final da mesma rua.
A amiga tem as chaves para manter o apartamento arejado e dar ordens à “muchacha” que vem semanalmente limpar tudo. É um pedido pessoal de um sobrinho da proprietária e este, em troca, lhe concede que hospede seu filho ali quando ele vai visitá-la. Assim, ficamos bem no centro da cidade, sem alterar a rotina de ninguém. Maravilha!
A casa está perfeitamente em ordem, como se ela fosse entrar pela porta a qualquer momento. Mas ela nunca vai voltar e sua ausência já se espalha por cima de tudo…
Seus pequenos objetos de adorno estão condenados ao silêncio apesar de permanecerem espalhados pelos móveis, seus quadros parecem tristes nas paredes frias, seus paninhos bordados sobre os braços das poltronas, inúteis…
As belas roupas e espetaculares casacos de vison, pendurados no armário, envolvidos em sacos de plástico transparente, como mortos, já cheiram apenas a passado…
Quantas histórias e casos vividos por aquela velha dama eles guardam? De quantas viagens foram testemunhas? Em que belas festas estiveram, que cenários enfeitaram?
Quem saberá contar uma de suas histórias de inverno ao acariciar de leve o belo abrigo marrom? Quem saberá de onde vem aquela antiga boneca com a cara de porcelana e vestido de rendas que mora no sofá de veludo vermelho da saleta de leitura?
Tive pena por ela não estar ali para contar-nos um pouco de sua vida e de seus significados… mas me disseram que ela já não saberia contá-los.
Recordei minha mãe e seu desaparecimento precoce dentro das brumas de sua doença. Recordei quantas vezes eu mesma lhe contava as melhores histórias de sua vida ou cantava as músicas que ela mais gostava.
Pelo menos a Princesa tinha quem lhe recordasse, mesmo que por breves e espaçados minutos, as belas noites de inverno de Casa Forte, o dia em que avistou, de longe, o Lorde e soube que se casaria com ele, as músicas que ganhou de presente ao longo de seus anos de casada…
Tive muita pena que aquela senhora de Albacete não tivesse alguém que lhe recordasse sua história.
Senti-me, por alguns momentos, como uma intrusa, invadindo frivolamente a intimidade de seu quarto. Pensei como deve ter sido estranha e difícil a primeira noite longe de seu ninho, num impessoal abrigo ao final da mesma rua em que sempre viveu.
Tive vontade de ir ali para visitá-la mas achei que seria incompreensível para ela. Aliás, seria incompreensível para todos. Pensei também que talvez eu quisesse rever nela a Princesa. Seria puro egoísmo de minha parte.
Sua amiga vai vê-la todas as semanas. Contará que estivemos ali, que se abriram as grossas cortinas e antigas janelas, que a brisa da manhã arejou os salões, os quartos, as bonecas… Que a casa respirou e reviveu por três dias e que quatro corações desconhecidos pulsaram entre suas paredes.
Talvez ela goste de saber…talvez nem se inteire de nada.
E esse foi o traço amargo de minha passagem por Albacete.

(Foto: prefeitura antiga de Albacete, iluminada e bonita, enquanto caminhavamos pelas noites da cidade)
A mãe de Carlos foi o traço alegre e cheio de vida.
A senhora movia-se com uma agilidade e determinação incríveis.
É uma mulher cheia de coisas a dizer, forte e bonita, de bochechas rosadas.
E cozinha maravilhosamente!
Fez-nos umas fritillas com chocolate quente e nos convidou para o café-da-manhã em sua casa.
Que bela forma de começar o dia!
Bela e gorda forma de começar o dia!
As fritillas são deliciosas e é simplesmente impossível comer apenas uma.
Preferi abrir mão do chocolate e comê-la com café preto e bem quente. Aqui o chocolate é muito espesso e eu acho meio enjoado.
Ingeri menos calorias e a culpa diminuiu bastante!
Então pude comer só mais uma… ho ho ho!
A receita vai aí abaixo, num post separado para que fique no arquivo de Coisas de Comer.
Posted by norab at 8:11 PM | Comments (9)
outubro 8, 2006
Viajar é Preciso!

Volver y contar também é...
Pois então…voltei.
Que maravilha é viajar!
Acho que é um dos mais deliciosos prazeres de minha vida atual, sem sombra de dúvida. Pelo menos dos que posso contar sem ferir a moral e os bons costumes! Ho ho ho!
Nem em meus sonhos mais audaciosos eu imaginei ter um período de "férias" tão prolongado.
Se por um lado sinto falta da vida acadêmica e do trabalho de consultoria, por outro estou curtindo muito a liberdade de poder, num piscar de olhos, fazer a maleta e sair por aí, sem lenço e [literalmente] sem documento, disposta a ver, ouvir, sentir… e fotografar. Quase sem planos definidos de para onde ir e o que fazer de cada dia. Fantástico!
É um privilégio e tenho plena consciência disso. Aproveito ao máximo, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo essa folga toda ainda pode durar!
Pois é isso que venho fazendo, sempre que possível, desde que vim viver na Espanha. Muitas dessas viagens fui relatando, pouco a pouco, nos blogs que já tive durante esses quase quatro anos. Gostaria de ser mais rápida e mais constante em meus relatos, mas já desisti de tentar mudar. Eu tenho um ritmo lento mesmo. Pronto.
Meu Mega-Super-Computer-Lentium500 também é osso duro de roer, então ficamos quites. Eu "dou um gelo" nele de vez em quando e vou fazer outras coisas… até recarregar as baterias da paciência e voltar. E sempre ele passa uns tempos mais bem comportado! Acreditem!
Pois voltei. Tenho mil e uma coisas novas para contar e muitas fotos para mostrar.
Estive em lugares simplesmente encantadores durante todo o mês de setembro.
Primeiro fui a Albacete, a convite de um casal de amigos ma-ra-vi-lho-sos, para conhecer as festas anuais da cidade.
Adorei, claro.
Mas o melhor estava mais escondido e longe da bela festa. (foto: casseta de viño dulce)
E foi o que descobrimos depois, investindo o tempo nos caminhos tortuosos dos pequenos pueblos repletos de árvores frutíferas, cavernas e grutas pré-históricas, muitas delas adaptadas em bucólicas casas habitadas ao longo do rio Júcar. Pequenos esconderijos de história e de encanto.
Depois, outro convite e outro en-can-ta-dor casal de amigos. ( Ando ganhando uns amigos fantásticos! Escolhidos pelo dedo de Deus, juro! ) Desta vez o convite foi mais misterioso ainda.
Era um presente-surpresa. E não soube para onde iria, até estar à caminho da região de Soria, conhecendo a Espanha mais profunda, visitando seculares fortalezas árabes, castelos, torres e muralhas medievais, comendo em restaurantes minúsculos decorados e servidos pelos próprios donos, conversando longamente com cuidadores de catedrais ou de pequenas igrejas templárias ou ainda antigas e românicas ermitas do século XI.
(foto:Berlanga del Duero)
É inacreditável o que ainda se mantém da punjante história e da arte deste país em cada pequena cidade encrustrada nos montes ou protegida nos vales e margens de rios.
É emocionante descobrir que por trás da próxima curva da estrada pode estar um pequeno grupo de moradores de ancestrais casas de pedra e madeira, cheios de coisas a dizer sobre seu passado e dispostos a construir sobre ele, um futuro.
Muitos desse pueblos estão sendo recuperados procurando mantendo ao máximo suas características medievais. Em muitos deles proliferam as Casas Rurais, pequenos hospedarias e restaurantes de excelente qualidade.
As pessoas estão descobrindo que além de rentáveis negócios ainda ganham um upgrade na qualidade de vida.
Viver num pequeno pueblo, hoje em dia, é uma opção excelente para muitos casais. Saem das grandes cidades e montam seu pequeno negócio longe do stress e do corre-corre das metrópolis. O telefone celular e a Internet, além das excelentes estradas e meios de transporte, diminuem as distâncias e as limitações de viver longe dos grandes centros urbanos.
Ganha a Espanha, certamente. Mas as famílias ganham muito mais. As pessoas dividem espaços reduzidos, onde todos se conhecem. Escolas são ressuscitadas, prefeituras são renovadas e todo o povoado se renova e se enche de VIDA.
Preservando e cuidado de sua história, cultura e arte os espanhóis de todas as regiões estão trazendo um novo tipo de turista ao país. O turista tranquilo, que gosta de cultura. Este vem em qualquer época do ano e não só nos meses de verão e praia.
E isso é o que sustenta e incrementa a indústria turística de um país: O investimento contínuo.
Pois… estou adiantando-me ao post que pretendo escrever para contar um pouco do que vi nessa encantadora viagem. ( foto: Burgo de Osma)
E, para terminar o mês com chave de ouro, estive por 10 dias em Galícia.
A costa noroeste da Espanha é simplesmente deslumbrante! conheci um pouco de Vigo, Pontevedra, A Coruña, Santiago de Compostela, Marim, entre outros pequenos lugares. Lindos!
De cada viagem, de cada lugar, eu trouxe livros e postais, folders, revistas. E muitas fotografias. Estou organizando tudo para poder fazer os posts. ( foto: Rias Baixas-Galícia)
Hoje foi o primeiro dia que pude sentar aqui para tratar as fotos e complementar as informações da minha cadernetinha azul. Por sinal, cada vez que escrevo nela recordo o livro de Paul Auster que estou lendo - A Noite do Oráculo - onde ele descreve o belo caderno azul onde o seu personagem tenta escrever uma novela. E cada dia mais me convenço que deveria deixar de preguiça (e de medo) e tentar mesmo, a sério, escrever esse livro de viagens que vocês tanto dizem que sou capaz. Um dia eu vou e acredito! Tenho mais medo que preguiça, admito.

Como nem tudo são flores na vida de ninguém, as aranhas adoram quando viajo e fazem a festa. Enfeitam todos os cantinhos com suas teias. Sempre.
Viver no campo tem esse lado detestável: Aaaaranhaaaassss!
Ainda bem que não tenho baratas, que aí sim, seria uma Questão de Estado. Mas, de qualquer forma, estive gastando boa parte dos meus dias tentando deixar a casa habitável outra vez.
Além do mais… lá fora os dias continuam lindos e muito agradáveis. O calor acabou.
O outono é uma linda estação e eu preciso fazer exercícios aeróbicos para gastar tudo o que comi. A gastronomia espanhola, mais uma vez, botou a perder as minhas - já fracas - tentativas de perder peso.( Guardei também as fotos das iguarias e algumas das receitas. Aguardem-me! )
Bueno, valeu a pena. Pelo menos eu não ganhei nenhum quilo a mais do que já tinha. Trouxe exatamente TODOS os que levei!
Uff!
Posted by norab at 12:44 PM | Comments (13)
outubro 3, 2006
Santiago de Compostela...
Estar nesta cidade emociona...
Desde as pedras das ruas às esplanadas das praças, desde as caras dos peregrinos aos telhados úmidos pelo chovisco constante.
Suspiro longamente antes de dizer: Estive em Santiago de Compostela.
Ainda não tive tempo de parar para escrever o post, pois uma semana em Galícia é assunto para muito mais. Vou devagar, como sempre. Mas vou contar tudo.
Por enquanto, deixo uma foto da belíssima catedral e um poema de Lorca musicado por Alberto Gambino.
Tenho a música tocando agora em minha casa, interpretada por Luar na Lubre. Um CD de música gallega simplesmente fantástico!

Chove en Santiago
meu doce amor
camelia branca do ar
brila entebrecida ao sol.
Chove en Santiago
na noite escura.
Herbas de prata e sono
cobren a valeira lúa.
Olla a choiva pola rúa
laio de pedra e cristal.
Olla no vento esvaido
soma e cinza do teu mar.
Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol;
agoa da mañan anterga
trema no meu corazón.
Letra: FEDERICO GARCIA LORCA.
Música: ALBERTO GAMBINO.
Posted by norab at 2:16 PM | Comments (4)
setembro 7, 2006
À Caminho de Granada (2)...

Saindo de Fuentevaqueros e escutando os poemas de Lorca no som do carro, o coração agradecia pelo especial momento. Nunca viajo sem meus companheiros CDs.
Eu ainda não havia recebido de presente o CD de poemas musicados interpretados por Ana Belén, enviado pela querida Mônica, do Crônicas da Mônica. E que eu adoro! O meu CD é de poemas recitados e foi comprado numa dessas incursões à Feira do Livro de Madrid.)
Bueno... deixei atrás o pequeno pueblo de Granada pensando que um dia voltaria com minha filha, para que pudesse - ela também - guardar na memória esse contato físico com um lugar que guarda uma pequena parte da história do que foi - e ainda é - um dos maiores ícones da poesia em língua castelhana.

Então... fixei-me no espetáculo fantástico que era o horizonte! Sierra Nevada é um conjunto de montanhas belíssimo, onde está o ponto mais alto de toda a Península Ibérica. Quase 4 mil metros acima do nível do mar!
Apesar de ser uma das mais célebres estações de esqui da Espanha, não havia burburinho de gente, nem esquis espalhados pelos suportes de madeira armados diante dos pubs ou bares de tapas. Era verão. E estavam todos nas praias.
Mas morri de vontade de estar ali no inverno e aprender a esquiar. Uma das minhas fantasias juvenis.
Tá bom… já sei que agora vai ser mais difícil, mas eu pretendo tentar. Um dia…
Ao descer a serra encontramos um pueblo chamado Pinos Genil e vários cartazes de hotéis simpáticos, para todos os gostos e bolsos. Escolhemos um que dizia: Hostal Meson de Los Patos. Era esse!
Decidimos aproveitar ali o final da tarde e só chegar em Granada no dia seguinte. Decisão mais do que acertada!
Estava tudo tão agradável com o frescor que vinha da água!
O povoado era pequeno e lindo, às margens de um rio de desce pelas encostas de Sierra Nevada, o Rio Genil.
O hotel que escolhemos fica em uma de suas margens.
Agora, vamos combinar o seguinte: Chame de hotel a hospedaria, limpa e fresca como a casa de um amigo.
Chame de rio um córrego gelado, cheio de pedras sob as águas transparentes e que faz um barulho adorável e romântico, descendo a encosta com força e paciência constante.
E perca um tempo razoável acompanhando o movimento dos patos entrando e saindo de casitas equilibradas nas pedras...
Agora imagine a ducha revigorante e a escolha de uma roupa confortável… um jantar no meio da ruazinha estreita, junto à balaustrada de pedras que a separa do leito do rio.
A mesa com toalha xadrez verde, um vinho tinto na taça e um cheiro de carne assando na pedra quente. E mais... uma salada de tomates frescos e os enormes pimentões vermelhos assados na brasa…
Além disso, o pão caseiro com um cheiro espetacular de forno de lenha e uns joelhos mornos que encostam, com intimidade, nas pernas...
...
Já?
...
Agora junte um sol a se por, banhando de tons de cobre cada pedra, cada folha das árvores às 10:00 horas da noite, e perguntem-se: Teriam pressa de chegar a algum lugar?
Pois eu… nenhuma. Nem ele.
Posted by norab at 11:14 AM | Comments (22)
setembro 5, 2006
À Caminho de Granada...
Quando soube que iria visitar Granada, eu sabia muito pouco sobre a cidade, mas já tinha em mente três coisas muito importantes para ver. A primeira era a Alhambra, a cidade-fortaleza do último reino nazarí em Espanha, o monumento mais visitado do país. A segunda era estar em Fuentevaqueros e na casa de Garcia Lorca. E a terceira era conhecer a Capela Real da Catedral de Granada onde estão os restos mortais de Juana, la Loca.
Na época eu havia acabado de escrever alguns posts sobre ela e estava encantada em poder estar na mesma cidade onde a rainha havia desejado, inutilmente, enterrar o seu amado Felipe, el Hermoso. Talvez eu traga também para cá os posts sobre Juana. Vou pensar. Eu gostei tanto de escrevê-los!
Pero… há que respeitar os ensinamentos de Kavafis e aproveitar a viagem, antes de alcançar qualquer destino.
Aproveitei cada segundo da viagem de Madrid até Granada. É belíssima!
E como eu sabia que passaria pela Rota De Quixote, não tinha pressa alguma em chegar.
Admirei com calma a vegetação, os vinhedos espalhadas pelos dois lados da estrada, as bodegas de vinho, os moinhos de vento.

Para ir à Andaluzia desde Madrid é necessário atravessar Castilha La Mancha. E, como todos sabem, por aqui estiveram em espetaculares aventuras, Don Quixote e Sancho Pança, na fértil e prodigiosa imaginação de Miguel de Cervantes .
Na minha era como se os famosos personagens tivessem existido de verdade.Não canso de afirmá-lo, porque é assim que me sinto. Sempre. Para mim é como se tivessem feito parte da verdadeira história do lugar. Ali a fantasia e a realidade se entrelaçam de tal forma que eu podia ver sombras na colina, mais além do castelo e dos moinhos… e parecia escutar um murmúrio no ar que dizia: " En algun lugar de La Mancha, de cujo nombre no quiero acordar..."
Me emocionei... soprei, quis ficar ali.
Por que temos tanta pressa em chegar se há momentos tão especiais para deixar-se estar?
Deixei-me estar, imaginando ver e ouvir o cavaleiro andante, o louco e sonhador fidalgo suspirando por sua amada Dulcinea e lutando contra os moinhos de vento como se fossem perigosos gigantes enfeitiçados pela negromancia de seus inimigos invisíveis!
Prometi a mim mesma voltar ali para estar um dia inteiro, talvez dois.
Há uma programação turística que leva pessoas de Madrid até essas paragens. Os moinhos foram recuperados, há restaurantes e pousadas lindas. Vale a pena!
Sugiro que venham... e deixem-se estar entre os caminhos por onde Don Quixote cavalgou com Rocinante e com o inseparável escudeiro e amigo Sancho. Sugiro que, "mientras tanto", se puderem, escutem as músicas de El Hombre de La Mancha… deixem que lhes falem ao coração.
E então compreenderão que não há pressa alguma em sair dali...
Entre Castilha La Mancha e Andaluzia, há uma estreita e perigosa passagem entre as montanhas de Sierra Morena. Gostei do nome.
A passagem é a única possível para viajantes em carro partindo de Madrid. Vale o medo da estrada-serpente pela grande beleza de costear o Desfiladeiro de Despeñaperros. O nome é meio estranho, mas descobri que o signicado real vem da época das guerras entre moros e cristãos, em torno dos anos 1200.
Esta passagem dificultava o avanço dos árabes para a região e quando estes perdiam as batalhas eram chamados de perros ( cães ) e executados sem apelação, sendo atirados nas profundas gretas entres os enormes rochedos.
Por ali há um bar e restaurante chamado Casa Pepe. É um rincão interessante, pois guarda muitas fotos, recortes de jornais e referências à época franquista espanhola. O dono é um dos fãs mais fiéis de Franco e de seu regime fascista "desde que nasceu".
É tão espalhafatoso que o lugar foi ficando famoso dentro e fora da Espanha. " Se houvesse um prêmio ao local mais "kitsch" do país e de vocação mais fascista ele ganharia a medalha de ouro." Garante o jornal espanhol El Mundo.
É um lugar para descer do carro e tomar um café ou uma cerveja, tirar umas fotos ou comprar alguma "recordação" de sua passagem, se é que interressa ao passante. Ele vende bandeiras, queijos com a cara do Caudillo (???... para meter a faca é?), dedais com os símbolos da Falange, soldadinhos de chumbo.
Mesmo que atualmente seja "politicamente incorreto", eu parei.
Gosto de ver tudo.
A partir do desfiladeiro a paisagem muda completamente. E começam os grandes campos de olivos, famosos pelo bom azeite que produzem. Reconheci um cheiro no ar que invadiu minhas narinas e trouxe da memória lembranças de infância. Era um cheiro igualzinho ao do vinhoto da cana de açúcar nordestina.
Pensei em Lorca e seus cantos. Nos poemas que cheiravam à Granada em plena Nova York.

" Mi Pueblo: Quando eu era menino vivia em um povoadozinho silencioso e perfumado da vega de Granada. Tudo o que nele ocorria e todos seus sentires passam hoje por mim velados pela nostalgia da infância e pelo tempo. Eu quero dizer o que sentia de sua vida e de suas lendas. Eu quero expressar o que passou por mim através de outro temperamento. Eu anseio referir as distantes modulações de meu outro coração"
Quisera ser poeta também para escrever o que contam minhas raízes!
Elas guardam as memórias gravadas pelos cinco sentidos, por onde quer que eu vá.
Pois sim...antes de entrar em Granada fui ver o pueblo onde nasceu Federico Garcia Lorca, cruzando um caminho sombreado e lindo de chopos.
Mas Fuentevaqueros me pareceu uma cidade fantasma.
E era.
Naquela tarde, às quase 5 da tarde, não havia uma alma nas ruas... nem um jovem de bicicleta, nem uma criança, nem um velho sentando solitário em algum banco público.
Nada... Apenas o sol causticante sobre as casas de janelas pequenas, cobertas por cortinas estampadas.
Haviam também cortinas nas portas. Com certeza para que o ar pudesse circular sem trazer as moscas, nem perderem suas intimidades.
A gente podia apenas imaginar a vida por trás das cortinas...um costume herdado dos árabes e também muito utilizado nas quentes cidades do interior nordestino.

A Casa Museu é o número 4 da rua García Lorca. E estava fechada.
Desta vez, com porta de madeira, sem as cortinas que indicam vida, por mais escondidas que estejam. Era a hora final da siesta espanhola e nem a sorveteria estava aberta. Suspirei de sede e decepção. Mas não desisti.
Finalmente encontrei um pequeno cartaz que dizia: Horários de visita : 5:00h, 6:00h e 7:00h da tarde. Uff ! Faltavam apenas três minutos para as cinco!
E, "às 5 en punto de la tarde" ( uma referência a um dos seus poemas mais conhecidos) a porta se abriu e um homem apareceu perguntando se queríamos ver o museu. Compramos as entradas e como num passe de mágica, apareceram mais doze pessoas. Onde estavam eu não sei. Soube depois que só atendem 15 de cada vez. Éramos 14...
A porta se cerrou à nossas costas e o calor do sol desapareceu.

Como todas as casas da Andaluzia, a Casa de Lorca tem um pátio e um poço. E toda ela rescende a jasmim e frescor.
Vi suas pinturas de criança, seu quarto e seu berço, a cozinha e seus utensílios... um piano...
Só ali eu soube que ele também tocava piano e compunha belas canções.
A casa é muito simples. Vale pelo sabor de estar dentro da história do grande poeta. Não esperem um museu de verdade... ela não o é.
Na parte de cima, no antigo celeiro de grãos, havia uma pequena exposição, que varia de tempos em tempos.
Coube-me a do momento, sobre as cartas e fotos que o poeta trocou com sua grande amiga, Anna Maria Dalí, irmã do pintor surrealista espanhol, Salvador Dalí.
De cara, dei com o quadro que eu adoro e que conheci no Museu Rainha Sofia, em Madrid.
Era como encontrar uma velha amiga minha. Inclusive já utilizei-a num dos posts da história para estar aqui.Chama-se Muchacha en La Ventana. Está bem AQUI.
Que delícia é viver devagar e observar pequenos detalhes que fazem as coisas mais belas!
Ps. Este post é uma adaptação de antigos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
Posted by norab at 2:06 PM | Comments (11)
julho 18, 2006
Onde o Cicatrizes da Mirada ?
Pois...
Parece que a sina do meu blog sobre a Espanha é morrer. É a quarta vez que ele "bate as botas".
Agora, depois de meses tentando guardar as postagens no "baú" de guardados do Blogspot, ele não aceita mais fotos. Tentei importar os posts para cá, mas o risco de desconfiguração da página me assustou e desisti.
A saída é trazer um a um os posts que consegui salvar.
Peço paciência aos amigos que já os conhecem de outras épocas e outras tentativas de manter o Cicatrizes da Mirada funcionando. Mas me recuso a guardá-las num arquivo morto do meu computador. Quero que eles estejam on line e possam ser visitados por gente que se interessa pela Espanha e sua cultura, arquitetura, culinária. Ou apenas por aqueles que querem compartir minhas impressões de imigrante. Mas também não gosto da idéia de deixar o blog lá, abandonado e sem gente. Desta vez vou deletá-lo mesmo. Agora é para valer. O Cicatrizes da Mirada será apenas mais uma das categorias do Língua de Mariposa. Pelo menos aqui eu tenho a garantia de que ele não vai sumir ou fazer a malcriação de não publicar as fotos.
Ainda não entendi porque comigo tem que ser tão difícil. Visito blogs com muito mais fotos do que os meus!
Bueno... lá vou eu trazer meus trapinhos para cá. De qualquer forma, eles estão costurados com novas linhas e bordados.
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Hoje vou falar de Santorcaz. Ele é um dos meus cinco pequenos pueblos. Não vivo dentro e sim muito perto dele e acho que é aí que vou casar. A Igreja é linda, mas nada de casamento religioso, claro. Só posso casar no civil.
Queria mesmo casar em Alcalá de Henares, a cidade de Cervantes... mas lá tenho que esperar vaga. E tô fora de fazer fila e esperar que me digam quando e a que hora posso dizer "sim, quiero". Quando os documentos estiverem prontos, avisarei a data.
Em Santorcaz, hoje em dia, é tudo muito simples, claro. Até a vida e a morte. Mas nem sempre foi assim. O pequeno povoado fica a 45 km de Madrid. É gracioso, silencioso e cheio de histórias e lendas. Vou contar algumas delas, mesmo que já tenha feito isso pelo menos umas cinco vezes antes. Não faz mal. Acho que elas devem estar registradas. E eu gosto de contá-las!
Diz-se que nasceu aqui um homem, chamado Cayo Apio, filho de um capitão romano, Cayo Cornelio. Pois bem... dizem que a criatura, em viagem com seu pai, centurião romano enviado à Judéia e Cafarnaum de Galiléia, assistiu ao sacrifício de Jesus.
Depois disso, convertido em um dos 7 Varões Apostólicos de Cristo, voltou à Espanha com o intuito de pregar o Cristianismo. Foi perseguido e martirizado pelos romanos, e por isso foi beatificado e chamado de Santo Torcuato.
Como filho da cidade, o santo foi tomado como seu patrono. Aos poucos, a cidade que se chamava Orcada, foi tomando o seu nome e transformandondo-se em Santorcaz.
Diz-se também que era um terra de bom pão, bons vinhos e bom azeite...

Pois sim... quem sabe? Existem documentos e escritos dos bispos de Toledo e outros escritores eclesiásticos... mas quem confia neles? Cada canto deste país tem uma história ligada à religião que foi um de seus mais fortes alicerces.
Bom, eu gosto de lendas e histórias. Elas emprestam colorido aos lugares. E o certo é que existem resíduos de construções no povoado que antecedem o período de ocupação romana e que estão esperando dinheiro para serem estudados e datados corretamente.
O que se vê agora é apenas um pequeno lugarejo, de 540 habitantes, uma antiga igreja, um castelo em ruínas, restos de uma muralha... e muita paz.
O clima é seco e frio. Oito meses de inverno e três de "fresquinho". O povo é quieto. Só vejo muita gente nas festas anuais, quando os fogos de artifício tiram os muitos velhos e as poucas crianças de suas casas, trazem os parentes que já não vivem alí de volta as suas raízes. A praça se enche de jovens e de novas histórias. As mesmas que vão alimentar as conversas das senhoras na padaria, no mercadinho ou no açougue até o ano seguinte.
Mas eu gosto da cidade também - e até mais - quando ela está recolhida atrás de suas portas sempre fechadas e suas janelas floridas. Ao passar por suas ruas estreitas, sinto no ar uma saudade, nem sei de que...
Uma nostalgia que se sente na maioria das pequenas cidades, vilas ou povoados espanhóis. Como se seus fantasmas passeassem nas ruas ou seu sangue borbulhasse pelas galerias subterrâneas. Como se eu pudesse ouvir os ruídos das patas dos cavalos nas pedras, os gritos de antigos comerciantes de rua... ou um choro de mulher aprisionada.

Em Santorcaz houve uma dessas. Importante, me parece. Chamava-se Ana de Mendoza, a Princesa de Éboli.
Conta-se que durante o reinado de Felipe II,a princesa, que era viúva, mantinha relações um tanto íntimas com dois dos conselheiros mais importantes do rei. Pois, quando ambos conselheiros acusaram-se mutuamente de conspirar contra o monarca - e parece que este a " favorecia", porque rei não se "deita" com uma mulher... a "favorece" -, um deles foi assassinado e o outro culpado pela sua morte. Dizem que foi um estratagema real. Preso, o sobrevivente fugiu do país vestido com os trajes de sua mulher e a Princesa de Éboli foi acusada de intriga e encarcerada no castelo de Santorcaz.
Esse é o Paradigma de Eva. A mulher é a culpada...sempre.
Pois... a princesa fugiu do castelo de Santorcaz, porém foi novamente presa e enviada para um convento carmelita perto daqui, em Pastrana. E, por incrível que pareça, as monjas se foram numa noite escura e a abandonaram no convento!
Fiquei curiosíssima por esta história!

Estive em Pastrana e no convento... lindo lugar, numa encosta maravilhosa, com um visual incrível. E enquanto estava sentada sobre um de seus muros, perguntava-me "o que será que a tal princesa havia feito, para afugentar todas as monjas?" .
O que pude descobrir, em algumas investigações que fiz nos livros de história que encontrei pelas nossas estantes ( simples, pois há um mundo de literatura sobre a criatura) é que ela sofreu uma perseguição implacável do rei até o fim de seus dias, exilada neste convento.
Como quase todo exílio, concluí que um motivo político se escondia sob o disfarce de uma crise de ciúmes. A verdade é que Felipe II descobriu que sua "favorecida", além de traí-lo com seu mais íntimo conselheiro, Antônio Pérez, conspirava contra seus interesses, facilitando informações do reino de Espanha aos holandeses e prejudicando seus negócios nos Países Baixos.
A mulher é um personagem muito interessante. Achei que valia a pena contar um pouco mais sobre ela.
Ana de Mendonza, a Princesa de Éboli, era muito bonita e seu pai, representante do Rei da Espanha no Peru, casou-a com um príncipe português muito mais velho que ela. Tiveram que esperar que crescesse mais um pouco até que o casamento pudesse ser consumado. Mas era uma menina inteligente, dinâmica e esperta.
Em sua infância, comportava-se de forma inadequada para uma dama da sua linhagem e enquanto praticava esgrima às escondidas com um pajem, perdeu um dos olhos.
Imaginei o que deve ter acontecido ao pajem depois de tal acidente!
Ana usava, desde então, um tapa-olho negro que não a desfavorecia em nada. Parecia mais forte e mais misteriosa para todos. Era uma mulher sedutora, ambiciosa e avançada para a sua época. Sabia ler e escrever em latim e castelhano e reivindicava seus direitos e o de seus filhos, usando para isso suas armas e artimanhas.
Incluídos em suas posses estava Pastrana e o convento, dirigido por uma monja, chamada Teresa, que depois virou santa. Parece que naquela época só havia essas duas opções de fama e poder para uma mulher inteligente que não estivesse casada: santa ou puta.
Pois... para a princesa, caiu o de puta, que de santa não tinha nada.
Depois descobri que havia mais uma alternativa além dessas duas: Louca.
Mas isso é outra história boa de contar.
Bueno...
Depois que Ana caiu em desgraça para o rei, se espalharam muitas lendas sobre ela, o que confunde até hoje seus historiadores. Me parece um típico caso de "difamação pública". Imagina o gostinho das fofoqueiras do reino, com um prato tão delicioso para suas tardes de tertúlia!

O certo é que seu exílio no convento incluía restrições gravíssimas.... e só podia ver o sol uma vez por dia, por uma hora. Geralmente, à hora do crepúsculo, saía ao pátio do relógio, hoje chamado Plaza de Las Horas, em sua homenagem.
Seu temperamento voluntarioso não arrefeceu durante o castigo e fazia da vida das monjas um inferno.
Trocava todos os horários, mudava as rotinas, mandava fazer comidas especiais... e queria ser tratada como a princesa que era. Assim, encabeçadas por Teresa, "A Santa", as monjas abandonaram o convento, deixando que a princesa ficasse apenas com sua filha, também monja carmelita, até o fim de seus dias.
Em Santorcaz há uma casa rural chamada Casarão de Éboli, onde o hóspede pode curtir a paz do pueblo desde sua jacuzzi...
Pastrana também é um bom lugar para visitar. Depois escrevo mais sobre ela.
Pois é...Pois é...
Gosto muito de saber as histórias das coisas e dos lugares. Mesmo que estas estejam repletas de lendas.
Não ficou mais interessante mi pueblo?
Posted by norab at 5:19 PM | Comments (21)
maio 16, 2006
Mais um Toque de Beleza …

Esta é uma época em que fico menos disposta a passar meu tempo diante do computador. A primavera está explodindo por toda parte. As amapolas estão invadindo todos os campos e dividindo protagonismo com centenas de flores silvestres de cores e formas distintas.
Claro, ela é rainha. Sua singela forma é plenamente compensada pela cor rubro-extravagante. Ela é como um splash vermelho no meio do verde, amarelo e branco, rosa, violeta e azul das outras florzinhas lindas dos meus caminhos.
Ela é, em parte, a responsável pela minha ausência do blog. Venho aqui meio de passagem, leio uma coisinha ou outra e um cheiro delicioso de mato vem pela janela e me chama… e eu vou. Vivo lá fora, caminhando, plantando, aguando, passeando…
Dia desses, ele e eu resolvemos sair por aí, quase sem destino certo. Digo quase porque tínhamos apenas uma idéia em mente: tentar seguir umas das rotas dos Pueblos Negros de Guadalajara. Esses pequenos lugarejos ficam na serra norte-ocidental da província e são mais antigos que a presença romana na Península Ibérica.
A arquitetura popular desses povoados é única na Espanha, pois consiste em conglomerados de casas, currais e armazéns de cereais totalmente construídos de ardósia, com sua coloração escura, cinza-azulada ou negra, abundante nessas serras.
Resolvemos o passeio em cima da hora e não tínhamos muita informação, mas resolvemos arriscar, de qualquer forma.

Montamos um kit-excursão-sem-destino: uma mini geladeira com cerveja, água e coca cola, alguns sanduiches de pão artesanal com morcilla e chorizo, biscoitos, manta, canivete mil-e-uma-utilidades e um mapa.
Ah!… e música boa e variada para encantar qualquer estrada.
Entramos e saímos de muitos pequenos povoados ao longo da serra. E NADA DE CASINHAS NEGRAS!
No início do passeio não vi nada distinto aos outros minúsculos pueblos quase despovoados de Castilla La Mancha. Exceto por suas imponentes igrejas românicas, o resto das construções não chamavam qualquer atenção e as casas não apresentavam nenhum indício das famosas e populares pedras-ardósia.
Em Hita ( fotos acima) nos encontramos com la Puerta de los Caballos e pedaços de uma muralha medieval, além de um singelo relógio solar em plena praça.
Também havia uma grande plaza de toros, só que ao contrário do que se vê hoje, todas redondas, essa era retangular, o que indica que a cidade mantém a tradição das Plazas de Justas medievais, onde se celebravam os torneios e jogos durante a idade média.
Ao ver a grande porta da cidade, percebe-se a intenção de recuperar lugares históricos do povoado para atrair também os turistas que trafegam por aquelas pequenas e estreitas estradas.
Em Cogolludo ( que nome! ) nos encontramos com um palácio renacentista do século XV, dos Duques de Medinacelli, que – dizem - foi o primeiro desse estilo a ser construído em Espanha e por isso é precursor das mudanças arquitetônicas dos castelos medievais.

Tentamos buscar informações na oficina de turismo que estava ao lado da grande praça diante do palácio, mas estava fechada. Hora de la siesta.
Tá. Em um feriado internacional, a oficina de turismo fecha para "la siesta".
Estamos na Espanha, lembram?
Tudo bem. Subimos as estreitas ruas em direção à Igreja de Santa Maria, construída no século XVI. Também estava fechada. Bingo!
Eu já estava ficando com fome e resolvemos parar perto de um rio e fazer o lanche programado.

Isso sim… relaxadamente. Sem pressa e sem agonia.
Afinal saímos para passear, investigar… e nada de estresse só porque as coisas não estavam saindo como a gente imaginava.
E depois, com olhos-de-mar-azul ao lado, qualquer programa, por mais simples que seja, fica gostoso.
Sabe quando a gente está em um lugar e pensa: " que bom ter um amor de verdade com quem compartilhar as coisas mais simples" e olha para o lado e não é apenas um sonho, um desejo… É justamente isso que a gente tem?! De verdade.
Que privilégio da vida!
Adoro estar com ele e trocar impressões sobre os assuntos do jornal, a música que está tocando ou o livro que cada um está lendo. Adoro fazer planos mirabolantes com um dinheiro imaginário que ganharemos - um dia - na loteria. Adoro estar fazendo planos para um casamento, com viagem de lua de mel incluída, que eu sequer imaginei ou desejei nos últimos 20 anos de mulher separada. Mas agora estou gostando da ideia.
Ainda não temos a data, mas qualquer dia destes os papéis ficam prontos e pimba! Casaremos. He he he…
O melhor de tudo: continuo perdidamente enamorada pelo sujeito do sorriso tarja-preta que vi naquela bendita festa há 11 anos atrás.
Qualquer dia conto mais desta história…

Bueno…voltamos ao mapa e escolhemos ir a Valverde de los Arroyos. Não sabíamos o que nos esperava, mas a esta altura não nos importava muito. A medida que subíamos mais a serra, a paisagem ficava ainda mais bonita, a estrada mais estreita e antiga e estávamos tão relaxados que resolvemos aproveitar o que encontrássemos. Esta seria apenas uma primeira excursão para arrecadar informações.

Foi uma boa escolha. Valverde de los Arroyos é um pueblo encantador. Muito procurado pelos turistas para ser um ponto de apoio das excursões a pé pelas muitas trilhas, cascatas e florestas de pinhos que a circundam.
Este povoado é um dos mais conhecidos da região e muitas casas já foram reformadas e transformadas em pequenos hotéis de turismo ecológico ou restaurantes. Outras foram transformadas em chalés de final de semana das famílias de Madrid ou Guadalajara, pois no inverno há pistas para esquiar e no verão pode-se seguir muitas trilhas de montanhismo. Essas oportunidades levam muitos visitantes , tanto espanhóis como estrangeiros, ao lugar.
É um dos Pueblos Dorados da serra e pertenceu nos século XIII ao Señorío de Galve.
A diferença é que suas casas tem os telhados cobertos pela ardósia negra, mas suas paredes são construídas com pedras de vários tons de marrom que, sob a luz do sol, refletem tons dourados.
A arquitetura das antigas construções é mais ou menos a mesma, sem janelas e apenas com pequenos orifícios para entrada de luz e ar, insuficientes para deixar entrar o frio dos largos e duros invernos da região, os currais e armazéns adosados às casas, demonstrando a forma simples de viver dos antigos pastores de cabras e ovelhas, cujas famílias dividiam com os animais o mesmo espaço físico, separados apenas por baixos muros de pedra.
Os quartos eram cubículos minúsculos e escuros. O lugar nobre dessas casas era a cozinha onde reinava uma enorme lareira de pedra em constante utilização. Diante dela a vida da casa acontecia.

Muitas delas estão em ruínas, mas é possível encontrar ainda casas dessas em plena restauração.
Algumas prefeituras estão incentivando com ajuda financeira a que os moradores mantenham a arquitetura original de suas casas, pelo menos na fachada, evitando desvirtuar o conjunto arquitetônico da cidade.
Essa estrutura arquitetônica popular não é muito diferente das casas de taipa que ainda podemos ver no interior de Pernambuco, onde chiqueiro, galinheiro e curral também são peças coladas às pequenas habitações de seus donos. Só muda mesmo o material utilizado em sua construção. Enquanto as nossas são de taipa e madeira, as daqui são de madeira e pedra.
Ainda não desisti de visitar os Pueblos Negros. Queremos explorar mais esta região e já compramos um guia sobre as várias rotas onde encontrá-los. Assim que pudermos vamos montar outro kit-excursão: tortilla de patatas, jamon serrano, vinho tinto, música boa, câmara fotográfica…e a vontade de passar bem.
Fico devendo umas fotos. Demoro mas cumpro!
Posted by norab at 10:42 PM | Comments (15)
abril 28, 2006
Eles invadiram minha casa...
E descobriram antigos sonhos perdidos...

Tentei aprender violão e flauta doce em épocas distintas de minha juventude.
Porém, apesar de adorar a música e ter um ouvido privilegiado para ela, não tive a resposta que pretendia com estes estudos. Talvez não tenha investido o tempo e a paciência necessárias para sair do estágio de "aprendiz de notas" para realmente tocar algo interessante.
Não tive, nunca, qualquer incentivo familiar para investir tempo e dinheiro nessas aprendizagens. Eu insistia por conta própria, pagando como podia as aulas e assistindo-as em horários quase impossíveis entre o trabalho e os estudos. Muitas vezes nem tinha tempo de preparar bem as lições antes das classes.
O esforço era grande demais e, talvez, o talento de menos. Pelo menos eu pensava assim naqueles idos.
As horas de estudo e treinamento eram "incômodas para a família" e eu não parecia tirar sons muito agradáveis daqueles instrumentos, enquanto lutava com as cordas do violão ou com os buraquinhos das flautas.
Até entendo o desespero deles, coitados!
Bueno... afinal tive poucos momentos de verdadeiro prazer e muitos de frustrações. Na verdade, apenas cheguei a fazer uma apresentação de música barroca - com um grupo de flautistas do conservatório pernambucano de música - numa Igreja de Recife. Ninguém da família foi assistir, naturalmente.

E o violão? Esse nunca abandonei em definitivo. Toquei-o, mesmo mal e limitadamente, a vida inteira…
Tocava só para mim, exceto quando tomava uns viskies a mais e perdia a vergonha de tocar diante de um público maravilhoso, que além de muito amigo também estava meio "borracho" e gostava. Ho ho ho! Inesquecíveis amigos!
Gostosas lembranças...
Mas quando vim para a Espanha, deixei o violão com um sobrinho.
Que pena!
Enfim... nunca entenderei porque meu pai, que tocava piano tão bem e era um incondicional amante da música, jamais tenha me dado um dedinho de ajuda e incentivo…
Talvez a culpa tenha sido do rio, que levou seu piano quando eu tinha uns sete anos de idade e recebia nele as aulas que me dava a bruxa da praça. Eu tinha medo dela e não gostava das aulas…
Talvez ele tenha pensado que eu não gostava do piano… ou pior, que eu não tinha talento.
Eu sempre pensei que ele achava que eu não tinha talento para nada…
Quando o piano boiou nas águas do Capibaribe e desmembrou-se todo, ele chorou, e nunca mais falou no assunto. Também nunca mais comprou outro piano. E eu parei com as aulas.
Engraçado... de vez em quando eu descubro tantas perguntas para fazer ao Lorde!
Quando ele morreu eu era jovem demais para entendê-lo…
Pois sim...

O que aconteceu este final de semana é que cinco jovens músicos invadiram minha casa por três dias… e eu tive saudades de mim.
O grupo faz parte da European Union Youth Orchestra, e estava na Alemanha e na Áustria com toda a orquestra, para a gira da primavera 2006, durante todo o mês de Abril.
Então…
Maria José Ordoño (flauta) Espanha - José Luis Garcia Vegara (oboé) Espanha - Amanda Kleinbart (trompa) Luxemburgo - Povilas Bingelis (fagot) Lituania - Thomas Lessels (clarinete) Gran Bretanha.
Estes cinco vieram fazer um concerto de sopro em Madrid e os convidamos a ficar em nossa casa, pois José Luis ( o primeiro à direita ) é filho de Pepe e já fazia um bom tempo não o víamos.
A casa ficou ainda mais bonita com a presença dos jovens músicos! Que sol gostoso, que clima ameno, que conversas agradáveis, que sons maravilhosos de música, risadas e vozes juvenis!
Eles se divertiram e nos animaram com suas brincadeiras. Fingiram tocar os mini instrumentos de minha coleção, vestiram minhas máscaras, pintaram e bordaram pela casa inteira.
Que maravilha!
A bagunça da sala, transformada num lugar de ensaio, foi o de menos.
O gostoso foi vê-los e escutá-los preparando o concerto em minha casa.
Enchi os olhos d´água várias vezes!
Minha dificuldade maior era ter que falar Inglês e Espanhol ao mesmo tempo. Três deles falavam Espanhol mas os outros dois apenas falavam Inglês e fazem simplesmente 17 anos que não exercito meu Inglês.
Anyway, a mímica e o carinho ajudaram sempre…
Depois de alimentá-los, cuidá-los com mimo e atenção por todo o tempo que permaneceram aqui, imaginem que no concerto em Madrid, numa das salas da Fundação Carlos Amberes, era como se todos fossem um pouco meus filhos.

Eu estava mesmo com uma cara de mãe orgulhosa de seus pimpolhos.
Não faltaram, por supuesto, meus aplausos e exclamações de Bravo! Bravo!
Claro, eles tocaram maravilhosamente bem.
São os melhores da Europa.
Passam por um teste muito exigente para fazerem parte da Youth Orchestra.
O repertório foi um pouco de Mozart, Milhaud, Ibert, Hindemith e para fechar, o Opus Número Zoo de Luciano Berio.
Essa peça é composta por sons e vozes.
Os músicos contam pequenas histórias de animais, entrecortadas pelos sons de seus instrumentos e expressões corporais engraçadíssimas!
Embora algumas das peças fossem modernas demais para a idade média da maioria do público, surpreenderam a platéia... e os aplausos foram sinceros e abundantes.
Podem imaginar que eu dissolvi de prazer, não é?
E mais… admito que - no fundo no fundo - tive um pouco de inveja daquele grupo.
Grande escolha essa de ser músico!
Agradeceram-nos o carinho presenteando-nos com um livro de Garcia Marquez e um CD de Tchaikovsky, que eu estou simplesmente adoraaando!
Mas nós é que agradecemos a eles pela alegria que deixaram aqui, impregnando a nossa casa…
Posted by norab at 2:36 PM | Comments (13)



