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Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.

Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de "especiarias" os poemas preferidos.

O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar... e por aí.

Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.

Meu caderno sumiu em uma das mudanças... O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.

Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.

Então...

Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero

Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.

Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.

Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.

Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.

Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.

Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti




O escafandro e a borboleta- o livro
Quando ganhei esse livro, em 2001, vivia no Brasil, estava me recuperando de uma depressão e minha mãe estava desaparecida em si mesma, numa enfermidade carnívora. Uma doença que vai tirando da pessoa tudo que é dela, até suas lembranças mais viscerais. Depois ela transforma a pessoa em uma casca vazia, só mata depois que destroi tudo.

Quando soube que o livro contava a história de um jornalista francês que havia sofrido um acidente cerebral e que havia escrito o relato piscando um olho para as letras do alfabeto que uma enfermeira lhe mostrava, não tive coragem nem de abri-lo.
Guardei o presente para ler em outra época. Eu estava tão fragmentada ainda. Tinha um medo horrível de entrar no túnel escuro da tristeza sem nome... precisava cuidar mais das minhas emoções e tinha consciência da fragilidade da minha saúde afetiva.

Aliás, essa foi uma aprendizagem da época. Aprendi a cuidar mais de mim. Aprendi a perceber quando estou mais sensível, mais vulnerável... e evitar expor-me a sensações muito fortes.

Mas... um dia desses, arrumando as novas estantes da casa, encontrei o livro. Li a dedicatória carinhosa da amiga brasileira e criei coragem, abri a primeira página e comecei a ler.
E não parei mais até que o terminei. Li de um só fôlego.

Foi fantástico ver o mundo através de sua experiência. Uma hora com humor, outra emudecida pela impotência, outra ainda entre lágrimas de saudades das coisas mais simples, como estender a mão e fazer uma carícia...

Jean-Dominique Bauby

Vou contar um pouco a história.

Jean Dominique Bauby, um jornalista francês, bem sucedido, jovem pai de dois filhos e cheio de energia, sofreu um acidente vascular cerebral com pouco mais de quarenta anos, entrou em coma e quando saiu deste estado percebeu que sua mente estava quase intacta... mas o único que havia perdido era a conexão com seu próprio corpo.
Estava completamente paralisado, numa síndrome chamada "locked-in", que significa "trancado em si mesmo".
Não podia mexer-se, comer, falar, nem sequer respirar sem ajuda de uma máquina. Apenas um olho se mexia. Ele piscava. Uma vez para dizer sim e duas para dizer não.

Escrevendo um livro

Com esse único movimento físico ele decidiu se comunicar com o mundo, seus filhos e seus amigos e contar que estava vivo, que pensava sair daquela prisão e queria que soubessem o que ele sentia lá dentro de sua cabeça e de seu coração.
Para isso ia piscando e indicando as letras que iriam formar as palavras e frases de um livro espetacular de 140 páginas.

Emocionada, fiquei me lembrando dos monólogos que tive com a Princesa, durante seu último ano de vida, desejando que dentro dela estivesse escondida a mulher que ela era. Recordei as histórias que eu lhe contava, as músicas que cantava, as sinfonias e concertos que fazia tocar no som de seu quarto, baixinho, para que pudesse escutá-las mais uma vez.
Às vezes eu tinha a impressão que algo em sua expressão mudava...
Era só uma impressão?
Talvez.

Aprendi muito sobre a vida com a morte da minha mãe. Eu já disse muitas vezes e vou repetir, minha mãe me pariu outra vez quando morreu.
Não quero que isso seja visto apenas como um drama particular, embora sua morte tenha sido dramática para mim. Estou falando de como reaprendi a viver.
Estou falando de aprender a dar o valor real à vida e tomar consciência de sua fugacidade.
Aprender a valorizar a memória, a imaginação, a capacidade para mover-se, ler um livro, escutar uma música, abraçar um filho, um amigo.
Aprender a valorar mais as relações e menos as coisas. Agora. Enquanto é possível.

Estou falando em ter consciência disso on line, durante a ação.
Saber que este é um privilégio que algumas pessoas perderam num segundo... e que a gente não tem sequer a noção do que significa essa perda.

Cena do filme "O escafandro e a Borboleta"

Bauby também ensina os verdadeiros valores da vida desde sua prisão - seu corpo - um escafandro, como ele o chama... e de sua alma, a borboleta com a qual ele voa, visita seus filhos, viaja pela Paris que adora, toca e beija seus queridos...

É impossível ser o mesmo depois de ler seu livro. Não é ficção, é real. Aconteceu de verdade...
Só não reflete e aprende quem for impermeável.

Descobri, cafufando a Internet, que rodaram um filme em 2007 que foi indicado a 4 Oscars. Como assim? E eu não vi!
Pois sim. Em 2007 eu estava vivendo lá no meu monte, longe de... quase tudo.
Aposto que ele não passou no pequeno cinema da praça de Los Santos Niños, em Alcalá de Henares.

Li algumas críticas excelentes. Vou tentar encontrá-lo em uma locadora por aqui por perto. O diretor é o mesmo de Antes do Anoitecer, um de meus filmes queridos, e trata o tema com delicadeza, fugindo do dramalhão piegas hollywoodiano em que se transformam excelentes livros.

E sou fã do cinema francês.

Mas um para minha extensa lista de perdidos...

O escafandro e a Borboleta- O  filme

(Le Escaphandre et le Papillon - França / EUA, 2007 / Brasil 2008 - 112 min)

Direção: Julian Schnabel.

Roteiro: Ronald Harwood adaptando livro de Jean-
Dominique Bauby
.

Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sydow, Marina Hands, Isaach De Bankolé.

Gênero: Drama, Biografia.





Vejam só onde pode chegar um blog, mesmo um tão pouco conhecido como o meu. Durante todo o tempo que escrevi sobre a Espanha, nos antigos endereços principalmente, recebi mensagens de pessoas que guardavam meus posts para utilizá-los em suas viagens. Algumas delas mudaram completamente o roteiro de suas férias europeias e vieram aproveitá-las em algumas cidades que eu tinha visitado. Era uma delícia comprovar que o que eu estava vivendo emocionava e inspirava uns viajantes brasileiros.

Alguns textos pessoais também fizeram alguma história pelo mundo virtual. Um dia, recebi por e-mail um spam que era um texto meu, Neura de Mulheres. Dizia que o autor era desconhecido. Respondi para o remetente, assumi a autoria do mesmo e agradeci a divulgação.
Depois disso, durante um ano inteiro, recebi dezenas de cópias do mesmo texto, já com meu nome. Fiquei contente que uma cronica minha tivesse se transformado em um spam. Significava que um bocado de gente se identificava com ela. Gostei.

Outro texto comentado por muitos é A Casa e O Rio. Fiz amigos através dele. Infelizmente os comentário ficaram perdidos quando salvei o arquivo de um apagão, mas os amigos ficaram. Conheci pessoalmente vários deles.
Sonja, uma brasileira que vive há mais de 20 anos na Inglaterra, foi a primeira. Quando nos encontramos, em Londres, ela confessou-me que estava emocionada por estar tomando um café com a "escritora" da cronica que ela mais gostou de ler em todos os blogs que havia visitado. Disse-me que chorava sempre que o relia e que o havia enviado para todos os seus amigos. Engasguei com o café quando ela me chamou de escritora. Quem me dera! Quase que choro eu!

A história de amor que me trouxe à Espanha é outra das grandes atrações desse blog. Tenho uma porção de amigos, aqui e no Brasil, conquistados depois que escrevi como tudo se passou. O drama e a graça dos encontros e desencontros entre Ele e eu seduziram e fascinaram os leitores de uma forma que me surpreendeu e inspirou. Escrevi dez capítulos! Cada vez mais gente me pedia para continuar. E eu continuei...

Até hoje isso acontece. Gente que chega por acaso aos arquivos do Língua de Mariposa através do Google, lêem os posts sobre a Espanha ou sobre a depressão, ou ainda sobre um livro ou filme que indico e me escrevem encantados e agradecidos. E me pedem para continuar...
Que maravilha! Eu adoro, viu!

É por isso que sempre volto.

Pois hoje quero comentar publicamente um desses prazeres. Mais de um ano atrás recebi uma mensagem eletrônica de uma artista, Clarissa Garcia, que vive no Poço da Panela, um bairro histórico da cidade do Recife.

Clarissa Garcia- artista plastica
Ela é antropóloga, além de artista plástica. Ao ler A Casa e O Rio, emocionou-se muito e pediu-me para usá-lo em um projeto da tese de doutorado que ela estava escrevendo sobre os moradores do bucólico bairro onde vivi, quase inteira, uma das minhas vidas. Eu concordei.

Depois de um tempo ela perguntou-me se eu conhecia um artista amigo seu, pois achava que eu já havia ido à sua casa, jantar. Imaginem!
Pois fui mesmo. Tive um breve affair com o artista amigo dela e uma noite ele me convidou para jantar com um casal de amigos no Poço.
Tenho uma boa recordação daquela noite, junto à gente inteligente, simpática e agradável, embora esta lembrança estivesse guardada nos escondidos da memória. Clarissa reavivou-a e senti uma enorme alegria por saber que a lembrança que ela tinha de mim também era boa.

Agora a artista "está montando uma espécie de galeria em sua casa que vai funcionar como um clube para amigos e curtidores dessas coisas todas: tem uma biblioteca, filmes para assistir, fotografias para olhar e para vender, amigos com violão, quadros, cerveja, whisky e delícias para comer, etc." em suas próprias palavras.

Não posso deixar de compartilhar isso com meus amigos do Brasil... é tudo que mais gosto na vida. Livros, filmes, fotos, música, um "visquizinho com gelo" e comidinhas gostosas. Ainda mais com a artista ali mesmo, juntinho! Tudo isso dentro do coração do Poço da Panela, bem diante da Igreja onde mora o Lorde e por onde passa o rio da minha história!
Imperdível!

Quem quiser conferir é só ir lá na Rua Álvaro Macedo, 54. A rua fica em frente à igreja e a "casa é vermelha, com um terraço em cima".
Antigamente era aí mesmo que funcionava o famosíssimo e maravilhoso Bar da Beata.
Parece que que a casa, que tem alma boêmia, quer seguir sua missão. Clarissa vai ajudar...
É de bom tom dizer que foi indicado pela Nora Borges, do Língua de Mariposa.
Acho que ela vai gostar.


Arte no Poço da Panela-Clarissa Garcia

Por enquanto, quero apenas que conheçam o trabalho desta maravilhosa artista que retrata e pinta o Poço da Panela com extrema sensibilidade, bom gosto e inegável talento.

Queria que o Lorde pudesse ver nosso antigo e querido bairro, tão bem representado pela excelente qualidade de seu trabalho.
Há tanta coisa que eu queria mostrar ao Lorde e a Princesa, se pudesse.

Desde que vivo na Espanha sinto uma saudade diferente dos meus pais.
Cada vez que vou a um lugar particularmente bonito, quero repartir com eles minha imagens.
Muitas vezes, infinitas vezes, penso em ligar para a Princesa para contar-lhe algo, compartilhar minhas emoções. Por uma minúscula fração de segundo esqueço-me que ela está morta, que não posso chamá-la por telefone, nem rir com ela, nem escutar sua voz e sua lindas risadas.
Então tento me conformar e dedico-lhe silenciosamente o meu momento.

Decidi dedicar esse post a eles, ao Lorde e à Princesa porque eles adorariam conhecer o precioso trabalho de Clarissa Garcia, essa artista que ama o Poço do Panela como eles o amavam e como eu amo até hoje: apaixonadamente.

Dedico-o também a você, Clarissa... e à sua mãe.

Assim que eu estiver no Brasil, irei à Casa Vermelha do Poço da Panela.
Pode esperar!

Se ainda não entraram no link da artista, entrem AQUI para visitar a exposição virtual das fotos pintadas. Sáo bárbaras!




"Não se nasce mulher: torna-se."
Simone de Beauvoir

E eu completo com as seguintes imagens para dizer que não nos tornamos uma mulher. Nos tornamos várias. Somos eternas mutantes.

Somos todas.






Ele canta. E canta maravilhosamente! Essa interessante criatura chama-se Diego," El Cigala".
Bonito não é. Mas tem um charme inegável quando se apresenta. Diego é um dos grandes nomes do Flamenco cantado em todo o mundo.

O Flamenco é um gênero musical que espelha perfeitamente a personalidade espanhola: dramática e passional.
Graças aos traços fortemente marcados pela passagem árabe e cigana na Península Ibérica, a Espanha possui essa riqueza cultural que esbanja por todas as suas expressões artísticas.

Comecei a gostar da música flamenca escutando Paco de Lucía, no Brasil.
Depois que cheguei em Madrid, fui escutando outros, entre eles Camarón de la Isla, um mestre do gênero. Agora sou uma enamorada do canto, da dança e do toque flamencos. Estrella Moriente é uma das minhas favoritas. Escreverei sobre ela em outra ocasião.

Pois sim...

Diego é um apaixonado pelo Flamenco. Vive, chora e canta Flamenco por todos os poros. Eu adoro como ele se transforma enquanto está cantando...

Bebo&Cigala-Lagrimas Negras Mas o interessante é que ele conquistou meu coração justamente quando gravou, junto com o extraordinário pianista cubano Bebo Valdez, um CD encantado: Lágrimas Negras.

Não é um disco de Flamenco, mas ele interpreta as músicas com seu jeito chorado de dizer as canções, que eu adoro.
Ai, meu Deus... é de arrepiar!

Ele, inclusive, interpreta Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes, com uma participação especial de Caetano Veloso recitando a letra de Coração Vagabundo em vez da poesia de toda a vida, O Soneto da Fidelidade

Comprei e ouvi todos os dias... até poder cantarolar com ele todas as músicas do CD.
E atualmente é um dos meus melhores CDs de música popular. *Qualquer dia destes eu faço uma "apresentação" dos meus preferidos aqui.

A paixão foi tão grande que levei-o como presente para todas as amigas pernambucanas. Depois de um tampo eu vi que o projeto ganhou muitos prêmios internacionais e transformou-se num grande êxito em concertos por todo o mundo. Quem me dera ver um!
Por um tempo o show ficou em cartaz no Calle 54, em Madrid. Mas eu não pude ir.

Na época publiquei no Impressões, meu antigo e desaparecido blog, um post sobre ele. Vou fazer melhor agora. Vou deixar aqui uma marca mais forte. Um vídeo onde Diego e Bebo interpretam a música título do CD.


Boas Notícias!!! El Cigala acaba de lançar seu mais novo trabalho. Chama-se Dos Lagrimas.

Diego, El Cigala - Dos Lagrimas


Segundo li no jornal, é uma continuação do Lágrimas Negras. Claro que eu vou comprar JÁ!




Esta cidade me dá cada alegria!

Um vez me deu de presente uma noite com Vinicius de Moraes através de um belo filme chamado Quem Pagará o Enterro E As flores Se Eu Morrer de Amores. Chorei como uma "Madalena" enquanto escutava todas as canções de minha adolescência, mas voltei para casa com a alma lavada.
Tem choro que não causa dano, hidrata.

Essa semana fui mais longe. O contato foi de terceiro grau! Tive o enorme prazer e sorte de poder participar de uma oficina musical com o artista brasileiro Antonio Nóbrega. Assim, carne e osso, pertinho, numa classe quase particular de cultura brasileira onde se repartiu altas doses de talento, carisma e grande conhecimento da história da nossa música.

Por duas manhãs inteiras pude participar ativamente da oficina, rir e chorar, cantar e conversar com Antonio e seus músicos. Lula,na sanfona; Gabriel, na bateria; Pitoco no sax, clarinete; e Edmilson, no violão e cavaquinho. Antonio com voz, violino, bandolin, violão e a dança. Tudo e todos na mesma empreitada: explicar os fundamentos da musica brasileira, contar um pouco da sua formação, tocar e cantar o mais emblemático dela. Coisa mais linda, meu Deus!

Eu, como Nóbrega, sou de Recife, Pernambuco. Só de ouvir um Baião, um Xote...um Frevo rasgado, meu coração dá cambalhotas. Agora imagine ouvir essas músicas tocadas em seu violino, interpretadas por suas mãos mágicas e acompanhadas por movimentos de dança que só ele sabe fazer. Não é que outros não possam reproduzir seus passos. Mas é que a forma como ele dança é só sua.
Como a gente reconhece o andar de Chaplin, a gente reconhece a postura de Antonio Nóbrega quando ele toca, canta e dança. Ele não apenas dança...ele flutua.
Só ele faz como ele. Antonio é único.

Um amigo espanhol disse que ele é capaz de dançar sobre uma moeda, referindo-se ao pouco espaço que o artista tinha no palco para mover-se e a beleza com que o fazia, apesar dos limites.
Por sinal, meu amigo também disse que se Antonio dançasse e cantasse pelo mundo a fora, poderia não terminar com a fome, mas com certeza acabaria com toda a tristeza. Eu concordo. Ele é de uma alegria contagiante.

Entretanto, para mim, também estimula a nostalgia, a emoção reflexiva... e a saudade, pois traz em sua bagagem artística obras de antigos compositores e as músicas que os fizeram imortais.

Ele tem uma marca registrada: seus chapéus. Desde que eu me lembro, e fazem muitos anos, ele se apresenta de chapéu. As calças são frouxas e ele dedica um tempo a levantá-las com as mãos, numa forma a mais de compor seu estilo.
Cada movimento de braços e pernas, de caras e bocas, de saltos e paradas mais um toque nordestino à sua singela figura.

Agora eles estão indo para Barcelona, repetir a dose lá. Dias 9 e 10 de Junho.

E eu fico aqui, com a linda lembrança destes dois dias, a enorme saudade de Pernambuco...e o coração hidratado.

Hoje passei o dia escutando o CD que ganhamos de presente na última visita ao Brasil, 100 Anos de Frevo, e depois já emendei com Luís Gonzaga, Alceu Valença, O Bloco da Saudade...

Ai, ai... saudade. Saudade tão grande...

Ps. O vídeo é de um show lindo... vale a pena!





hostia.jpg
Sofia estranhou aquela consistência. Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum. O comum era não ter gosto. Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.

Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubeceu. 'Algo errado?' Perguntou ele se aproximando. Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo. 'Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.'

Leila Silva

Ps. Leila é dona do excelente blog Cadernos da Belgica. Adoro seus contos.




Sempre tive uma fascinação pelos anônimos, muito mais do que pelos famosos.
Geralmente não sinto curiosidade pelas revistas de assuntos do coração (como chamam aqui as revistas de fofocas), nem gosto de cascavilhar a vida das pessoas que conheço. Isso não significa que não sinta interesse por elas e sim que tenho um grande respeito por suas intimidades. As pessoas só me contam o que querem contar. Gosto de escutá-las quando falam de suas vidas e contam suas histórias, mas nunca faço-lhes perguntas indiscretas sobre o que não desejam comentar.

Com os desconhecidos é diferente.
Sento num banco da estação de trem nas proximidades de Madrid e quase imediatamente me sinto tragada pela vida da gente que me rodeia. Observar as pessoas é algo que me distrai imensamente. E mais agora que vivo fora da cidade.

Pode ser apenas uma mulher que passa com um penteado absurdo ou uma jovem com um vestido apertado sobre uns jeans rasgado equilibrando-se nos saltos, finos como agulhas, dos sapatos cor-de-rosa-choque. Onde vai vestida assim e correndo tanto?

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Sinto uma enorme empatia por uma mulher, quase anciã, que lê um livro tão velho quanto ela, cujas páginas amareladas parecem terem estado guardadas numa arca escondida no fundo de um escuro porão. Imagino se é a primeria vez que o lê ou se já leu muitas vezes a mesma história… ou quem sabe apenas tomou-o emprestado de alguma biblioteca empoeirada de um bairro distante e o faz respirar e reviver em suas mãos um tanto trêmulas.

musico2.JPG
Quero saber mais sobre o músico que toca uma balada conhecida numa esquina fria enquanto os passantes mais sensíveis jogam uma moeda dentro da caixa de seu instrumento, ou sobre um mendigo que passa falando sozinho empurrando um carrinho de supermercado cheio de objetos escondidos atrás de um cobertor... ou ainda sobre um sujeito com cara de professor que está sentando num banco da praça com os olhos cheios de lágrimas…
Ah! como me impressionam as lágrimas do anônimo sujeito!

E sigo eu perdida, por um tempo incontável, imaginando histórias para suas vidas, de onde vêm, para onde vão, quem são seus seres queridos, como ocupam seus dias e noites.


Outro dia foi assim…tanto viajei na imaginação e me deslumbrei com ela que tive que sair correndo para não perder o trem. No banco deixei o livro que levava, sem abri-lo sequer. Outra novela de Marcela Serrano, dedicada e assinada pela autora. Faltava-me ler apenas dez ou quinze páginas para terminá-lo.

Ainda pude avistá-lo de longe, abandonado no banco da estação, enquanto o trem se afastava lentamente. Era impossível abrir a porta e descer. Precisava esperar a seguinte estação e voltar em outro trem para tentar recuperá-lo. Um tempo demasiado longo. Possivelmente ele não mais estivesse ali. Era noite e eu estava voltando para casa. Voltar podia significar mais de uma hora de atraso. Deixei-o ali. Triste e calada segui meu rumo.

Imaginei quem iria encontrá-lo, quem teria coragem de ficar com ele. Na capa, um copo que cai e espalha um líquido rubro sobre um tudo que não se vê..

O título? Para que não me olvides.

Sorri com o inusitado do acontecido. Um livro esquecido numa estação de trem, que sussurra para quem passa : Para que não me esqueças…




Onde está Deus, ainda que ele não exista?

nino.jpg
Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa, de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo… E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído das chamas no lar…Um calor no inverno…Um extravío suave de minha consciência… E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho – com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio nas esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia. De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. As vezes, de noite, quando me sento sozinho, o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim, que talvez não seja nunca esse pai de minha alma… Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria, e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos? Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto… Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido… E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado… Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono! Vai buscar, oh vento, minha Mãe. Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…Volta a dar-me, oh Silêncio, minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”


firma-pessoa2.jpg

Bernardo Soares, em O LIVRO DO DESASSOSSEGO.

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Que soco no estômago! Que dor! Fiquei querendo ser mãe desta criatura, ser sua deusa,seu colo...
Então recordo que minha filha escreveu assim: "Mãe, tu és a melhor invenção do universo!"
E eu agradeci por ter podido ser, pelo menos em parte, o que ela precisava.
Obrigada, minha linda. Você também é minha deusa, meu regaço imenso, minha estrela mais brilhante, minha canção de ninar, minha alegria...

Update:
Amigos blogueiros avisaram-me que o texto não faz parte dos escritos de Fernando Pessoa, nem de seus heterônimos. Bem que procurei nos meus livros e não achei nada.
Ainda não entendi como pode uma pessoa escrever um texto tão bom e não assumir sua autoria! Se alguém souber a quem pertence, por favor avise-me.
Obrigada a Manoel Carlos e Meg.

Update feliz: Meus queridos amigos, o texto é MESMO de Fernando Pessoa. é com imenso prazer que ponho de volta sua assinatura embaixo do fragmento do texto publicado.
Obrigada a Luis Madureyra e Bill.



de Mario Vargas Llosa

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Estou lendo a novela. E estou absolutamente "atrapada" pela história.
A linguagem é fluida, rápida, natural. A descrição dos fatos de épocas convulsas em Paris, Lima, Londres, Tokyo ou Madri, mesclada com a construção detalhada dos dois personagens principais, entrelaçados numa relação de afeto apesar da contraposição de seus valores de vida e as histórias paralelas que se desenvolvem em torno desta relação, fazem da novela um entretenimento inquietante!

Avançar em seus capítulos nunca é prazeiroso, porque ainda não me explico muito bem (talvez nunca o consiga) como funcionam esses amores dolorosos, ambora já tenha vivido e me perdido dentro de um deles. Quem já não viveu?
(Paguei caro, mas superei. E estou aqui vivinha para contar, ou esquecer para sempre, a história.)

Talvez justo por isso Travessuras de uma menina má, traduzindo o título para o Português, é um livro fascinante para mim. Como mulher e como psicóloga.
Me vejo parando uma tarefa no meio do dia e buscando o livro só para tentar avançar mais um pouco. Quem sabe só para terminar de vez com ele, para livrar-me dos incômodos sentimentos que afloram...
E cada vez mais a imaginação do autor tem me surpreendido, revelando novas nuances da personalidade de suas criaturas, alargando o tempo, criando novas circustâncias, aprofundando o mergulho numa corredeira de tramas e me levando junto com a história.

mario-vargas-llosa.jpg
A novela tem 375 páginas e eu estou aí pela 270, justo quando se descobre que ela inventou outra ela porque não podia suportar viver com o ela que de verdade ela era…
( Nada a ver com O Mundo de Sofia, onde quem inventou a outra foi outra pessoa, no caso, o pai da criatura. Lembram? Acho que foi isso. Sim! Sim! Outra boa novela para se ler. Anote aí! )

Pois sim...
Ainda há muito o que desvelar destas Travessuras... E ainda não sei a volta que isso vai dar.Vargas Llosa é bamba! Todo mundo sabe disso.

A crítica diz assim: " Criando um admirável tensão entre o cômico e o trágico, Mario Vargas Llosa brinca com a realidade e a ficção para liberar uma história em que o amor se mostra indefinível, dono de mil caras, como a "niña mala". Paixão e distância, azar e destino, dor e prazer… Qual é o verdadeiro rosto do amor?"

Tomara eu descubra o deles, ao final das 375 páginas…




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