O Lord e a Princesa...
Parece brincadeira, mas não é. Meu pai achava mesmo que sua mulher era uma princesa. E que devia viver numa torre, para evitar desgraças no reino com a sua extraordinária beleza.
Por isso, ele construiu uma. Não era alta e de pedra como as de contos d´antanho, mas era rodeada de densa floresta.
Não creio que escondê-la fosse a intenção da casa, claro. Mas ajudava bastante ao isolamento da família.
Minha mãe a adorava , mas queixava-se por passar semanas sem ver uma alma viva passar. Sempre esperou que sua casa fosse apenas a primeira de muitas que viriam depois. Nunca vieram.
Ele não. Ele torcia para que não viesse ninguém.
Adorava o mato, o silêncio, o espaço. Adorava que seus irmãos e amigos perguntassem, horrorizados, como tinham coragem de viver ali, longe de tudo.
- Tudo o que? Perguntava o Lord com voz grave e condescendente, como se dissesse "que pobre de espírito, coitado."
E levava os assustados visitantes pelos sendeiros de sua "propriedade-quase-rural". Plantava uma horta no quintal, que adulava quase todos os dias. Criava um cachorro negro e enorme - Toby - com quem brincava de jogar os sapatos na noite escura, para que o animal os encontrasse e trouxesse-os de volta, depositando-os delicadamente diante de seu trono de vime, no terraço mal iluminado por lamparinas de ferro.
Vaga-lumes enfeitavam o jardim como pequenas estrelas ao alcance da mão. Grilos e sapos faziam a festa todas as noites. E durante o dia, o sol nunca esquentava muito em Casa Forte. Porque as árvores não deixavam. Sopravam seu perfume úmido e verde por todo o bairro.
Em nossa casa mais... pois o jardim era de grama e roseiras e jasmins e árvores frutíferas. Jambeiros imensos, azeitonas pretas centenárias, palmeiras de toda a vida.
E ainda possuia os canários, sabiás, patativas e galos de campina, que faziam seus concertos com exclusividade para o Lord e sua princesa. Nada de gaiolas... soltos, com acesso livre às terrinas de barro para água e pequenos grãozinhos de comida espalhados por toda parte.
A casa era idolatrada pelos dois. Mas...a princesa tinha gostos plebeus. Adorava arrumá-la e mudar tudo de lugar. O Lord ficava louco. Ela ria.
Ele dizia que ela não precisava fazer aquele serviço. Mas ela gostava e o fazia com prazer e alegria.
Arquiteto de profissão e Lorde por personalidade, meu pai escolhia com cuidado cores e objetos. Um quadro ali, cujo vermelho dava um toque de luz sobre o cinza dos sofás de couro, um espelho acolá, que dava a sensação de maior espaço... etc. etc.
Minha mãe vinha e botava o sofá do outro lado, embaixo da janela. Pegava o quadro e levava para a outra sala. Pendurava-o sobre a mesinha do telefone. Ele ficava louco. Ela ria.
Não que ela não concordasse com seu gosto, mas é que tinha faniquito para mexer e mudar as coisas. Cada vez que limpava um cômodo, queria mudar tudo. Era impossível para ela viver num lugar que fosse igualzinho por toda a vida.
Assim, de vez em quando trocava os móveis e os objetos de um canto para outro. Encostava minha cama na parede e eu, acordando à noite para ir ao banheiro e querendo sair pelo lado de sempre... tóin! metia a cara numa parede desconhecida. Gritava de pânico. Por segundos achava que era um pesadelo... ou que estava prisioneira em alguma masmorra! (ah, Freud!)
Ele implorava para que ela respeitasse pelo menos seu escritório.
Pois sim... ela respeitava. Quase nunca o limpava. Qual era a graça de limpar e não poder mudar as coisas daqui-prali ? Hunf!
Assim, as coisas do Lord: suas caixas de ébano e marfim, suas esculturas africanas, suas réguas de todos os tamanhos e formas e suas canetas de nankin, ele e só ele manuseava. Centenas de livros e discos espalhados nas estantes, cadeiras e bancos, rolos e rolos de projetos sobre a enorme mesa de desenho. Ele era assim.
O engraçado é que ela era muito organizada e sabia onde estava cada um dos objetos da casa. Ele era extremamente desorganizado e misturava tudo nas gavetas. Mas estavam onde ele queria que estivessem: na sua bagunça.
Quando queriam uma conta a pagar ou algum documento importante, ela era requisitada para procurar nas coisas dele. Dizia que parecia um ninho de bicho. Às vezes nunca encontravam. Ela ficava louca. Ele ria.
Mas o Lord e sua princesa amavam-se como nenhum outro casal que eu conheci. Se entendiam por telepatia.
Ela fazia a lista das compras e esquecia de pedir alho. Quando descobria, falava em voz alta na cozinha, e ele "escutava" lá no supermercado. Quando ele chegava dizia:
- Você esqueceu de botar alho na lista, quando já estava no caixa, pensei que podia não ter e fui buscar.
Ela dizia que tinha mandando a "mensagem".
Quando ele chegava com um presente, que nunca precisava de data certa para chegar, testava:
- Adivinha o que eu trouxe para você?
Um livro, uma camisola, uma joia. Invariavelmente ela acertava, a danada.
Um vez ele esqueceu o presente no carro. Quando estávamos jantando, ela disse:
- E meu presente? Está no carro? É um relógio?
Era. Ele ficava louco. Ela ria.
Sempre assim.
Outra vez, enquanto estávamos no terraço da casa da praia e ele lá longe, pescando, com um copo de cerveja na mão e sem camisa - ele sempre esquecia a lordice no Janga - ela disse só para nós:
- Ele vai trocar o copo de mão e coçar o umbigo.
E foi exatamente o que ele fez.
Saímos correndo para contar-lhe que ela estava lendo seus pensamentos. Ele ficava louco. Ela ria.

Um dia, numa das muitas alterações nos móveis da casa, inundada inúmeras vezes pelo rio o Lorde, maquiavélicamente, fez camas cujos espelhos eram chumbados na parede. Todas.
E fez armários de concreto. E mesas de madeira maciça, pesadíssimas. Impossíveis de serem mudados de lugar com a facilidade que ela gostava. Por mais bonitos e harmônicos que fossem, ela perdeu o gosto e a alegria.
Aos poucos foi deixando de arrumar, de botar flores, de rir.
Ele ficou louco quando viu que a casa era muito mais bonita antes...
Só porque ela ria.
Quando percebeu que não valeu a troca, era tarde...
*Still Life With a Cupboard - Carmen Laffn
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