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Solidão a dois...

casal
Dia desses estava no Leite de Cobra, o blog da Kênia, lendo um post sobre um casal que almoça em um shopping de Recife, sempre na mesma mesa e sempre em silêncio completo. Ele concentrado em seu alimento. Ela concentrada em si mesma. Ambos indiferentes à presença um do outro. Vale a pena ler o post. Está muito bom.
Enquanto estava comentando, a memória me trouxe imagens de mil anos atrás. Recordei uma antiga história da minha vida.

Eu tinha menos de trinta anos, um casamento com menos de três, e uma filha de dois.
Todos os finais de semana nos juntávamos a um grupo de animados amigos para fazer um churrasco, comer caranguejos ou sair por aí, pelos bares da vida, com os violões. Eu gostava deles, me divertia sempre.
Não tem nada demais isso. Acho muito saudável ter amigos, sair com eles e farrear. Tínhamos filhos pequenos e eram programas que começavam cedo para terminar a tempo de podermos dormir um pouco antes que as criaturinhas começassem a pedir atenção.
Um sábado, não sei porque cargas d´água, houve um desencontro de informações e quando chegamos ao bar da vez eles não estavam. Saímos de bar em bar para ver se os encontrávamos e nada. Depois da terceira ou quarta tentativa, sugeri que ficássemos sós, que não era absolutamente necessário estar com outros, que podíamos estar só nós dois. Ele olhou-me como se eu fosse um ET. "Soooó nós dois? Qual é a graça?" Perguntou.
Respondi que se ele não via graça em sair só comigo o que estávamos fazendo casados?
Ele riu. " Lá vem você com essas conversas." Eu também ri, mas insisti em ficar ali. Recusei-me a passar a noite de lá para cá.
Tá. Ele acedeu.

Sentamos numa bar bonito, à beira-mar, e pedimos algo para beber. Ele estava um tanto irritado por não haver encontrado a turma. Eu não... afinal estávamos sós, como há muito tempo não estávamos.
Para descontrair, de brincadeirinha, eu disse: " Por que você não finge que não me conhece e aproveita para me paquerar?"
"Tá doida, é?" Foi a resposta desconcertada.
Não pude rir. Emudeci. Olhei em volta e vi um casal, uns dez anos mais velhos que nós, calados e olhando em volta com umas caras de enfado. Ele tomava um whisky, ela um coquetel qualquer. Ela maquilada e vestida com "vontade de ficar bonita", mas estava feia.Tinha olhos tristes. Ele vestia um jeans velho, camiseta e um tênis. Parecia que estava vestido para ver um jogo na televisão, em casa de um amigo. Acho que era o que ele gostaria de estar fazendo. Ela parecia querer sair para dançar, namorar... e ambos, coitados, tinham cara de "que é que estamos fazendo juntos".

caminhar Olhei de volta para meu estranho ao lado. Tive vontade de me levantar e sair andando pela noite, sem olhar para trás. Acho que foi isso que minha alma fez, enquanto corpo ficava ali, como uma casca. A solidão é fera... a solidão devora. ( E o primeiro bocado é justamente a auto estima.)

Nesta noite eu tive mais uma prova de que meu casamento tinha os dias contados. Na verdade eu tive muitas provas...
E contei cada uma das muitas noites de solidão a dois... até que dei o passo definitivo, tropecei nas pernas... mas fui andando para longe daquele futuro.

Ainda tive outras noites de solidão... mas sozinha foi mais fácil de suportar.

Comments

Amei teu blog.. principalmente pelo título que me remeteu automaticamente para "La Lengua de las mariposas"..
Também morei na Espanha e amo este pais.
bjum

Nora, gosto muito do seu blog, sempre leio, mas não comento. Escrevo para dizer que a Ella voltou!
Achei que você gostaria de saber:) Conheci você no blog dela.
Bjs.
Tereza.

queridos todos!
EU AINDA ESTOU SEM INTERNET!!! PODE????
Agradeço a todos os que vieram e deixaram seus recadinhos. VOLTAREI! PROMETO!

Acabei de conhecer seu blog, mas já esteou te linkando, porque quem escreve um post assim TEM que estar no meu blog roll, com certeza.
Eu entendo perfeitamente o que vc diz, para meu ex marido, eu sempre disse que a solidão ä dois estava me matando...mas parece que ele nunca se importou.
Perfeito o seu post!

Querida Nora
Como combinamos, estou testando a página de comentários.
Espero que esteja bem... dê notícias de quando em vez.
beijo

Oi Nora querida,
Vc sabe mesmo contar uma história...
Eu estou aqui tentando ficar sozinha e feliz, que é o primeiro passo.
Um grande beijo...saudoso.

Oie Nora...que história triste...a solidão acompanhada é muito triste. E você já mudou?? Saudades...te andei um email.bjks

Concordo com Socorro, a história é triste, mas tão bem escrita, com tanta honestidade e sensibilidade, que chega a ser 'bonita'(o post).

Lembrei de você. Achei um livro parecido com aquele que eu tava lendo (sobre como contar estórias) em espanhol. O foco é criá-las para o cinema ou tv. Não sei se esse é teu foco, mas não seria uma má idéia ;)

El Guion/ Story: Sustancia, Escritura, Estilo Y Principios De La Escritura De Guiones (Robert McKee)

bjos

Eita, Nora! Vivi cenas assim, nos mesmos lugares e, mais ou menos no mesmo tempo. Até que dei o mesmo passo que vc.

Beijo grande daqui.

Saber a hora de tirar o time de campo é fácil, o dificíl é tomar a coragem e sair em busca da felicidade... parabéns por teu espaço, belo e culto, tal como você...
um beijo

Parece até que tínhamos tido uma conversa antes de vc escrever esse seu post. Pensei coisas tao a ver com isso nesse meu domingo de manhã...

Um beijo bem gordo!

Muito interessante o post. Imagino que os homens tenham mais dificuldade para deixar a relação. Pode parecer que não, mas são eles que nos fazem tomar a iniciativa de terminar o relacionamento. A grande maioria dos homens, quando se fecha ou procura relacionamentos paralelos, está dizendo, no íntimo: por favor, abra os olhos e aja, porque me falta coragem para aceitar o óbvio...

Ah, Nora, uma vez eu criei sem querer, na troça mesmo, uma expressão para relações como essas: casamento no nível fim de festa. Depois foi que eu atinei para o significado dessa bobagem aparente...

Beijos.

Vc já parou para pensar quantas mulheres vivem um casamento assim?

Por que demoramos tanto tempo a tomar uma atitude?

QUERIDOS TODOS... ESTOU MUDANDO DE CASA NA SEXTA 17. vOU ESTAR UNS DIAS SEM INTERNET, MAS PROMETO IR BISBILHOTAR UM CYBER POR PERTO.
BEIJOS E ATÉ A VOLTA.

Adorei seu blog ! Este post é a mais pura verdade...a pior solidão é a solidão a dois.
beijos
e apartir de hj estarei sempre aqui.

Ihhh, deixa eu corrigir porque ficou esquisito!
Por isso agradeço ter uma companhia POR 25 anos....

Do jeito que escrevi parece que eu tenho uma companhia com 25 anos. Já imaginou! haha
bjs

Nora,

Tuas histórias, mesmo quando são tristes, são bonitas. Merecem ir para um livro.
Beijos

Dora, essa sua coluna veio a calhar porque justamente ontem eu pensei sobre esse assunto. Saí com o meu marido para comemorarmos os 26 anos de casados. Nada demais, só nós dois em um restaurante japonês. Só que, como somos bichos diurnos, ficamos cansados rapidamente da "noitada" e optamos por voltar para casa. Já tínhamos passado o dia inteiro na praia o que também cansa muito.

O agradável é que estávamos tendo uma conversa muito animada e combinamos retornar hoje. Eu senti o maior prazer de saber que tenha a companhia de um marido há tanto tempo e que ainda me vê como uma pessoa boa para conversar. Eu também tenho o mesmo sentimento por ele.

Causa-nos uma certa perplexidade quando vemos casais olhando para os seus pratos sem nada a dizer um para o outro. Acabaram-se os segredos e as descobertas? Ainda assim podemos surpreender o outro com um pensamento que antes não existia.

EXCELENTE a sua coluna, vou ver a outra que você linkou.

Beijocas carinhosas

É mesmo, quantos casais estão assim hoje em dia, juntos e extremamente sós!
E não é só velhos,não! Como vocês mesmos eram, jovens, mas já não estavam na mesma sintonia.
Por isso agradeço ter uma companhia de 25 anos que ainda é tão boa e cheia de papos prá contar, como ainda ontem à noite, quando fui buscá-lo nas barcas depois do trabalho e ele me ligou antes se não queria aproveitar a noite e a lua para tomarmos um choppinho à beira mar.
Não precisou mais nada, pois em 20 minutos estávamos lá debaixo da lua prateada, duas Bohemias geladas e uma porção de petiscos. Prá não dizer que minto, tá lá no Blog a lua que fotografei ontem.

Mas que bom, você estava tão lúcida que não esperou o futuro chegar ao lado dele!
beijo carioca

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