Está nevando. Como um presente tardio da borrasca que quatro dias atrás invadiu toda a Espanha, menos o pedacinho de céu sobre a minha casa. A neve despencou com generosa beleza até nas areias do Mar Cantábrio, mas em Madrid não quis dar o ar de sua graça.
Hoje sim. Hoje um restinho de poeira branca e gelada cobre todo o meu jardim e convida a um passeio que se não fosse já tão tarde para arvorar-me por dentro dos pinheiros pintados de branco e prata, não resistiria ao chamado. Fui dar uma espiada lá fora e descobri pegadas de raposa bem diante do meu terraço. Sim, isso mesmo. Aqui moram raposas de verdade. Ruivas.
Melhor aproveitar a proteção do invernadeiro e suas enormes vidraças transparentes para admirar o espetáculo, um bom Neruda nas mãos, nas costas a manta de lã macia, pés dentro de meias coloridas e Mozart dando um concerto privado para mim e minhas azaléias e gardênias, lindas apesar do frio. Assim está bom.
Aí encontrei um poema que precisava vir parar aqui. Está no livro Estravagario do grande poeta chileno, minha paixão de toda a vida, meu inspirador para encontrar o caminho do amor, mesmo sem me chamar Matilde.
O poema chama-se Sucedió en Inverno. (Traduzo no final do post se preferirem ler em Português.) E chamou-me a atenção porque reconheci a flor que apesar do profundo adormecimento do abandono, dentro da minha casa ( meu eu ) insistiu em buscar a própria primavera.
Sucedió en Invierno
No había nadie en aquella casa.
Yo estaba invitado y entré.
Me habia invitado un rumor,
un peregrino sin presencia,
y el salón estaba vacío
y me miraban con desdén
los agujeros de la alfombra.
Los estantes estaban rotos.
Era el otoño de los libros
que volaban hoja por hoja.
En la cocina dolorosa
revoloteaban cosas grises,
tétricos papeles cansados,
alas de cebolla muerta.
Alguna silla me siguió
como un pobre caballo cojo
desprovisto de cola y crines,
con tres únicas, tristes patas,
y en la mesa me recliné
porque allí estuvo la alegria,
el pan, el vino, el estofado,
las conversasiones con ropa,
con indiferentes oficios,
con casamientos delicados:
pero estaba muda la mesa
como si no tuviera lengua.
Los dormitorios se asustaron
cuando yo traspuse el silencio.
Allí quedaron encallados
con sus desdichas y sus sueños,
porque tal vez los durmientes
allí se quedaron despiertos:
desde allí entraron en la muerte,
se desmantelaron las camas
y murieron los dormitorios
con un naufragio de navío.
Me senté en el jardin mojado
por gruesas goteras de invierno
y me parecia imposible
que debajo de la tristeza,
de la podrida soledad,
trabajaran aún las raíces
sin el estímulo de nadie.
Sin embargo entre vidrios rotos
y fragmentos sucios de yeso
iba a nacer uma flor:
no renuncia, por desdeñada,
a su pasión, la primavera.
Cuando salí crujió una puerta
y sacudidas por el viento
relincharon unas ventanas
como si quisieran partir
a otra república, a otro invierno,
donde la luz y las cortinas
tuvieran color de cerveza.
Y yo apresuré mis zapatos
porque si me hubiera dormido
y me cubrieran tales cosas
no sabría lo que no hacer.
Y me escapé como un intruso
que vio lo que no debió ver.
Por eso a nadie conté nunca
esta visita que no hice:
no existe esa casa tampoco
y no conosco aquellas gentes
y no hay verdad en esta fábula:
son melancolías de invierno.
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Aconteceu no Inverno
Não havia ninguém naquela casa. Eu estava convidado e entrei. Havia me convidado um rumor, um peregrino sem presença, e o salão estava vazio e me olhavam com desdém os buracos do tapete.As estantes estavam quebradas. Era o outono dos livros que voavam folha por folha. Na cozinha dolorosa revoloteavam coisas cinzentas, tétricos papéis cansados, asas de cebola morta. Alguma cadeira me seguiu como um pobre cavalo manco desprovido de cauda e crina, com três únicas, tristes patas, e na mesa me reclinei porque ali esteve a alegria, o pão, o vinho, o ensopado, as conversas com roupa, com indiferentes ofícios, com casamentos delicados: mas estava muda a mesa como se não tivesse língua. Os dormitórios se assustaram quando eu atravessei o silêncio.
Ali ficaram encalhados com suas desditas e seus sonhos porque talvez os dormidos ali se despertaram: desde ali entraram na morte, se desmantelaram as camas e morreram os dormitórios com um naufrágio de navio.
Sentei-me no jardim molhado por grossas goteiras de inverno e me parecia impossível que debaixo da tristeza, da podre solidão, trabalhassem ainda as raízes sem o estímulo de ninguém. Sem embargo entre vidros quebrados e fragmentos sujos de gesso ia nascer uma flor: não renuncia, por desdenhada, à sua paixão, a primavera.
Quando saí rangeu uma porta e sacudidas pelo vento relincharam umas janelas como se quisessem partir a outra república, a outro inverno, onde a luz das cortinas tivessem cor de cerveja.
E eu apressei meus sapatos porque se tivesse dormido e me cobrissem tais coisas não saberia o que não fazer. E escapei como um intruso que viu o que não devia ver.
Por isso nunca contei a ninguém esta visita que não fiz: não existe essa casa tampouco e não conheço aquelas pessoas e não há verdade nesta fábula:
são melancolias de inverno.
Pablo Neruda em Estravagario
( Tradução minha )









