Havia uma banheira de mármore branco na casa onde eu morava, em Casa Forte. Na época, havia um braço de rio que lambia o muro. E palmeiras, como na poesia...
"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá"...
Lá viviam muitos sabiás, centenas deles.
Mas eu falava da banheira que ficava bem ao lado do gabinete cheio de livros e discos. Os tesouros da casa.
Eu gostava de prepará-la para o banho. Era um ritual lento. Abrir a torneira, deixar correr a água, escolher a música. Um prazer antecipado imaginar-me dentro da concha de água cálida...
O ritual era muito mais que um banho. Mergulhar o corpo e deixar a água e a música passear pela superfície da pele numa carícia sensual e paciente... Deixava a porta aberta, porque o gabinete, o quarto e o banheiro formavam um núcleo meio separado do resto da casa. Bastava fechar a porta do corredor e tudo o mais era só meu.
Rituais constantes das noites quentes, sinto desesperadamente a falta dela, neste calor de pedra do edifício poente, onde falta água a lém de brisa.

Agora eu vivo aqui, neste pombal, em cima de 14 outros andares, habitados por desconhecidos outros, donos da mesma fantasia de pedaço... e sinto uma saudade da concha de mármore como de uma irmã.
Ela sabia de mim tanto ou mais do que eu. Descobriu comigo o meu corpo, o crescimento dos seios, os pêlos de mulher... Acolheu meus choros de menina-moça, apaixonada por uns verdes e impossíveis olhos.
E, a medida que eu crescia, por dentro e por fora, bastava uma saudade, uma tristeza, uma paixão e o ritual aumentava em detalhes. Às vezes, apagava todas as luzes e deixava apenas a claridade do céu lá fora passando pelo vidro da janela ou acendia uma pequena vela perfumada... Sempre adorei perfumes e velas.
Quando havia lua cheia era imprescindível apagar a luz.
As músicas também mudavam, de acordo com o estado de espírito.
Prelúdio ou Bachiannas, de Villa Lobos, para as viagens do coração. Noturno, de Chopin, e Sonata ao Luar, de Beethoven, para as saudades. Concertos de Brandenburgo, de Bach, para as tristezas profundas.
Bolero de Ravel e Príncipe Igor, para as noites mais quentes, mais cheias de ânsias.
Beatles para as noites de Because ou Something.
Às vezes, Mahalia Jackson me embalava em The Upper Room ou Billie Holiday em I Cried for You.
Rachmaninoff para as noites de paz.
Eram tantas e tantas músicas!
Aí você me pergunta: "E daí? Por que essa conversa de banheira, palmeiras?"
Porque eu queria te falar de saudades, de mim, de Casa Forte, do meu exílio neste rua sem rio, sem palmeiras nem sabiás. Sem brisa, sem sussurro de árvores, sem cantigas de sapos e grilos. Sem meus vaga-lumes queridos. Onde a chuva não cheira a mangueiras e terra molhada. Aqui a chuva tem cheiro de asfalto e esgoto.
Porque aqui a lua só chega depois que todos já se foram e... porque minhas estrelas são falsas. Um milhão de luzinhas de todas as cores piscando no chão das favelas distantes, onde não moram príncipes nem rosas.
Ou só porque a banheira e a lua foram cúmplices de muitos desejos contidos, saudades e paixões.
Ou apenas porque não há água e na falta, parece que o desejo cresce.
Enquanto isso escuto aqui O Paciente Inglês, de Gabriel Yared, e imagino se eu tivesse - ah! se eu tivesse! - a banheira de Casa Forte, meus intermináveis banhos noturnos... a água levemente aquecida, a paciência com minhas silenciosas confidências, a companhia das músicas, o tempo que não tinha pressa, a cúmplice e irmã de minhas noites de verão!
Sua lembrança me recorda como eu era, tão encantada como a lua de lá.Crescendo, crescida, cheia de luz.
Não sei como você vai receber isso. Desculpe-me, mas estou apenas dividindo com você minhas saudades. Antigos fantasmas que dançam entre minha rede e a lua.
Então eu vim lhe escrever. Porque é bom lhe escrever. Porque você gosta que eu lhe escreva...
E que calor faz essa noite!
Por melancolia, talvez.
E um gostinho de solidão na taça de vinho tinto...
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