Um dia assisti estes vídeos com uma palestra desta jovem escritora nigeriana e me encantei. Chama-se " O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA"

Guardei o link para voltar a vê-los, uma ação que repito sempre que algo me impresiona à primeira vista. Gosto de saber como reajo a um segundo ou terceiro contato.
Cada vez que os vejo, mas gosto deles. E mais quero comparti-los.

É uma pena perceber como as vítimas da educação para o desconhecimento e a crença numa "meia" história deixam-se levar , entre gritos raivosos ou silêncios condescendentes, para a ignorãncia sobre si mesmos, sobre o seu povo, seu país, seu passado e seu futuro.
Claro está que há um motivo: para os governantes é mais fácil manipular gente assim.

Hoje o dia está estranho, nublado e quente. Acho que vou ali na Fnac comprar o livro desta inteligente criatura.

Depois conto.

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los-ojos-amarillos-de-los-cocodrilos
Nada melhor do que viajar com um livro gostosinho e leve para ler, não é?
Pois sim.
Los Ojos Amarillos de los Cocodrilos*, de Katherine Pancol é justamente assim. Um livro que não demonstra ter profundas pretenções literárias, mas que leva a gente a participar das emoções de seus personagens como se eles fossem nossos vizinhos do bairro.

Katherine Pancol-Foto de Eric Robe
Essa novela poderia ser contada no rádio, como antigamente, ou num filme suave de algum diretor francês com sensibilidade para explorar os pequenos detalles da personalidade de seus personagens, seus diálogos internos, os quase imperceptíveis movimentos de medo ou coragem de homens e mulheres dos nossos dias, a grande solidão que assola a sociedade moderna.
Não esperem uma trama complexa, nem grandes arrobos de profundidade.
O livro, pelo menos para mim, foi uma experiencia interesante justamente pela sua singeleza. Eu o li numa das praias de Pernambuco, debaixo de um guarda sol e tomando água de coco...

E os crocodilos, verdadeiros no livro, para mim simbolizavam apenas os "bichos imaginários" que ameaçam as pessoas que não agem para transformar seus sonhos em realidade.

Brasil
Joséphine, o personagem principal, praticamente ensina a como escrever uma novela. Achei isso muito interessante.
Quem sabe, depois de ler este livro, eu crie coragem, finalmente, de organizar-me para escrever o meu.
Nem que seja para ser lido pela minha filha aos meus netos numa tarde de sombra e agua fresca em Porto de Galinhas.

Taí...Gostei desta imagen. Gostei muito.


* Título em Espanhol. Não sei se já foi traduzido para o Português.

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Um sábado destes, saí pela manhã brillante de Barcelona, sem nenhum objetivo além de respirar o ar fresco entre as ruas estreitas do bairro gótico, observar a diversidade da fauna humana que cruza suas calçadas... sentir o pulsar de seus corações, quase todos enamorados pela cidade.
Quer programa melhor?
Pois sim.
Garimpar as pérolas que guardam as esquinas de pedras ancestrais de seus palácios e igrejas.
Concerto ao ar livre em Barcelona
Em uma delas, encontrei um grupo de pessoas que cercava um músico cego. A voz da criatura se elevava sobre um centenar de cabeças e cantava maravilhosamente as antigas canções de toda a minha vida. Sentei num canto perto e fique ali, não sei quanto tempo, mas fiquei com ele, seu concerto e minha história. Que sensação tão boa de felicidade! Até sorria sozinha.
Diante de mim havia um homem que, de olhos fechados, vivia cada música, estalando os dedos e movendo levemente a cabeça no ritmo de cada canção. Entre uma e outra música, as pessoas mudavam, umas saíam aplaudindo, outras paravam, adiando um pouco a chegada ao seu destino. Umas poucas, como eu e o sujeito dos olhos fechados, estavam sem destino certo, entregues a cada descoberta, sem nenhuma vontade de perder o espetáculo inteiro. Ficamos até que o homem começou a guardar sua guitarra. Comprei seu disco. Chama-se Aaron Lordson. Foi uma boa idéia. Escuto-o agora e sorrio levemente sentindo outra vez o perfume do vento marítimo de Barcelona, experimentando outra vez a sensação de felicidade singular que aquele momento me trouxe.

Arias de óperas nas calçadas de BArcelona
Andei mais um pouco, tentando perder-me o mais possível pelos belíssimos becos cheios de varandas floridas, quando outra pérola me fez parar. Especialíssima! E esta estava praticamente sozinha. Um senhora linda, com um cabelo preso num coque antigo, cantava arias de ópera sobre um balcão elevado da calçada de um palácio. Ao seu lado, uma cadeira com una cestinha para as moedas e um cartaz que dizia "Aulas de Canto Clássico, fone tal e tal" .
A senhora já não tinha tanta força na voz para os tons mais altos e então entrecortava-os com classe e doçura. Uma emoção funda me invadiu. Quase chorei... Que presente!
Então sentei do lado oposto da calçada e deixei que ela cantasse Mimi, de La Bohème, para mim, enquanto os passantes, turistas apressadinhos com seus mapas na mão, evitavam parar para não precisar colocar uma moeda em sua cestinha.
Pedi licença para fazer a foto e deixei minha moeda, agradecida e enfeitiçada pela sua beleza.
Precisava guardar esse momento para compartilhar aqui. Depois de tanto tempo sem computador e sem Internet decente, seria uma boa reentrada em cena. Ou não?


Ps: Olha só o que encontrei no iutubi. Hohoho! Ela se chama Pilar Rodrigues.






Mudanças, internas ou externas, me calam.
Estive por um tempo fora do ar, mas isso não significa que estivesse sem assunto. Escrevi na mente muitos posts que nunca transformei em escritos de verdade. Escrevi outros que achei decepcionantes por não conseguirem expressar realmente o que eu sentia.
Foi só isso.

Assim... mais uma vez o silêncio instalou-se neste espaço. Entretanto ele é tão amigo, tão querido, que me espera pacientemente. E vocês também. Isso me consola e me permite os excessos.

Pois é...

As mudanças estão em pleno avoroço.
Organizados os armários na casa nova de Madrid, parti para organizar a mim mesma. Reescrevi no caderno azul as metas que queria alcançar. Expressei desejos e procurei soluções para derrubar as barreiras que me impediam de realizá-los...
Encontrei uma médica que descobriu meus problemas de excesso de peso, emagreci, aprendi a nadar, estive mais perto da minha filha e dos amigos, desviei-me dos eventos gastronômicos sempre que pude, li mais, escutei mais música, cozinhei mais, caminhei pelas ruas de Madrid, vi exposições maravilhosas, conheci recantos especiais da cidade, fiz algumas viagens, curtas mas deliciosas.
E escrevi menos... quase nada.

Claro que esse último detalhe não estava nos pedidos, mas foi uma consequência deles. Estive mais fora do que dentro do computador. Quase nunca visitava os blogues alheios ( às vezes, nem o meu ).
Também descobri que não gostava do clima do escritório que criei em casa. Não gostava do abafado, da pouca luz, dos cheiros...
Bem em frente à única janela da saleta, estava a cozinha da vizinha, com seus ruídos e perfumes de cortiço do século XIX. E bem embaixo da minha mesa, o banheiro da gata...nhém!

Então... Rá, ré, ri, ro, RUA!

Sabem de uma coisa, peçam tudo que desejarem, já disse. É impressionante como os desejos expressos se realizam. Mas muito cuidado com o que pedem, viu. E justamente por que se realizam. Também já disse isso... Ho, ho ho!

Muitas vezes adorei cada rincão novo que conheci de Madrid e muitas vezes agradeci ao Deus que me ama pela oportunidade incrível que estava tendo na vida... mas eu queria mais. Pedi, quase inconscientemente, uma cidade linda como ela, com mar.
Até escrevi aqui, sem pensar, quando visitei Vigo. Sem pensar?

Tóin! A fada madrinha atenta, só anotando tudo.
Queria brisa marítima, tóin! ela anotando.
Queria poder despertar com uma linda vista do outro lado da janela. Tóin, que fada!
Setembro, mês de aniversário. Presente surpresa: Acabo de me mudar para Barcelona! Rá!

...re , ri, ro, RUA!

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Os blogs andam a seu ritmo. Todo mundo que tem um já sabe. Mas o meu, de vez em quando, flutua no éter do abandono.
Eu acho que é um mal sinal.

Não é que tenha mais coisas a fazer, é que faço o que tenho que fazer muito devagar... e o pior é que descontinuamente.
Começo e paro... e volto... e vou. Minhas tarefas se entrelaçam durante o dia. É um esforço terminá-las.
Descubro toalha de prato na estante da sala, a tesoura da cozinha dentro do guarda roupa, minha mesa de cabeceira com tudo que deveria estar no banheiro... e olho pra ela e deixo assim mesmo...
Muitas vezes me assisto parada, fazendo nada...

Meda!

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Minha amiga linda, a Virgínia, do Além do Atlântico, está passando um prova difícil hoje e amanhã.
Estou aqui, COM TODO MEU CORAÇÃO em sintonia, querida!

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O verão é gostoso porque a gente tira de cima dos ombros o peso das roupas do inverno, veste coisinhas frescas e sandálias bonitas... mas precisava fazer TANTO CALOR?!

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Madrid dá de presente a música do Teatro Real. Grátis, na praça bem em frente ao Palácio Real, todos os dias, ao anoitecer.
Aqui anoitece às 22:00hs. Tóin!

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Fui ver a exposição de Joaquim Sorolla, no Museo del Prado. Imperdível. Um conjunto de pinturas que dificilmente poderão ser vistos juntos em outra oportunidade. Quadros de coleções particulares, painéis vindos de Nova York. Belíssimos! Espetaculares! Vou escrever um post.
Babei!

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Agora está na moda as curtinhas, é?

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Não mate o amor! Enamore-se dele.

Enamore-se.




Pois sim...de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.

espirito

Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam.
É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira... mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.

Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era.
Voltaram para casa... mas então não podiam mais ser os mesmos e voltaram a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato...
Choravam todos...
Arrepiei. Chorei também.

Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.

Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.

alma

Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?
Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: "Onde estava? Por que demorou tanto?"
Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!

Ainda bem que pude - depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira - contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo.
O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora...

O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem... decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.

Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

"... Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.

Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais..."



Pediram-me que eu escrevesse uma mensagem para ser lida no aniversário de uma grande amiga. Inspirei-mei numa antiga carta que tinha escrito para enviar-lhe uma cesta imaginária cheia dos meus presentes, minha saudade e meu carinho.
Já que isso aqui também é meu cadernos de especiarias, não há melhor lugar onde guardá-la.

A mensagem virou carta... e ficou assim.

flores.gif

Photobucket

Tete, minha tão querida amiga.
Queria estar com você neste momento para cantar o especial parabéns deste ano. Pode imaginar como eu queria estar nas "Bodas Douradas" de sua vida ? Pode imaginar como eu queria poder cantar em voz bem alta aquela sua música predileta - "Abra os braços pra me guardar/ e eu toda vou me entregar/ começo, meio e fim... e a minha cuca ruim "- e me acabar de rir com a coreagrafia, que eu sei de memória, mas que é sempre como se eu a visse pela primeira vez?

Queria poder encher seu copo de whisky e gelo para ver você subir na mesa mais próxima e fingir um sambinha legal olhando para as mãos - como você me ensinou - com ele sobre a cabeça - que isso eu nunca aprendi - e ver a cara de angústia daqueles que ainda não acreditam que esse copo não vai cair de jeito nenhum.
Eu sei. Eu sei.

TT, muléu do meu coração, queria poder entrar aí de surpresa - mais uma das muitas preparadas para esta noite - com um grande ramalhete de rosas coloridas e uma cesta cheia de presentes, meu sorriso, meu carinho, minha imensa vontade de estar com todos vocês.
Mas não posso ir de verdade e então descrevo o que há dentro da cesta e aí você faz de conta que ela existe...e me diz se você gosta.

Claro que há um búzio grande e rosado para você ouvir o mar que mora dentro dele - e de mim - mesmo enquanto estiver no escritório... chuam! chuam!
Minhas cestas sempre levam um búzio rosado... será que esta foi uma das minhas casas?
Leva também um caleidoscópio de lata, que faz txim...txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. Esse foi um dos belos presentes que eu ganhei do Lorde. Inesquecível presente... inesquecível ruído... absolutamente inesquecível felicidade!
E você diz " essa Nora é doida mesmo!" Mas ri encantada porque sente uma alegria antiga de menina feliz.

Tá bom... tá bom...
Também tem umas garrafas do whisky que você gosta, blusas lindas e decotadas e sapatos de saltos altos. Vai junto um kit com as melhores novelas de todos os tempos e uma assinatura da revista que conta a história delas com um mês de antecedência.
Tem uma agenda nova com todos os telefones de todas as pessoas que você conhece e quer voltar a ver. E ela se atualiza sozinha, como mágica.
Tem um pote cheio de saúde pra você distribuir com quem precisar, viu? Tirei só um pouquinho pro meu pé fodidinho e meu joelho podre. O resto estou mandando...

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Do lado de lá da cestinha há uma caixa enfeitada, cheia de biscoitos da sorte, cada um com uma mensagem de boa ventura. Se você quiser poderá distribuir para toda a gente que te ama e que está aí... e assim haverá ventura para todos.
Aposto que todo mundo vai comer pelo menos um. E ninguém vai pensar se o tal biscoito engorda! Vai por mim, TT querida, todo mundo vai querer.
E você dirá, que eu mandei dizer, que felicidade engorda um pouco... mas vale a pena. Eles vão rir e trocar cúmplices olhares. Muitos já sabem, não é mesmo?

Deixe a caixa com papel dourado para o fim, que ela é nostálgica e talvez não seja ainda a hora de abri-la. Aproveite e prove as botas de camurça verde que acho que é seu número e fique sabendo que com elas vai poder viajar - sem pagar passagem alguma - pelo mundo inteiro!
Mas primeiro venha me ver, minha amiga, que a saudade é enorme e tenho tanta Espanha para te mostrar!

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Pode abrir também a lata branca da paz profunda. Uma lata grande e redonda que está no fundo da cesta, já viu? Mas só abra de pouquinho, querida. Na natureza, já se sabe , é preciso alguma forma de inquietude, alguma ânsia sem nome que nos desperte no meio da noite, um desejo de vencer o tempo, um desafio da mente e até alguma lembrança triste para gente saber o que vale a alegria.

Então... ao lado ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de você precisar... a gente sempre precisa, não é? Se não pelas nossas dores, pelas dores dos amigos...
É preciso compartir de um tudo e eu sei que você é fera nesse negócio de ser amigo para todas as horas. Além das farras, das festas, das serenatas pelas madrugadas a fora, nunca deixa de estar com a gente nos dias escuros da dor.
Eu sei. Eu sei.

Também tem uma caixinha pequena, embrulhada com algodão, com vários tipos de silêncios. Assim você escolhe aquele que mais combine com a sua necessidade... ou a de seu amigo.

Mas veja bem, eu vou e ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir que é mágica, que tal? Você vai poder usar seus poderes para repartir balas e doces com as crianças ou tratar de alimentar seus velhinhos....
- Por sinal, por onde anda aquele seu velhinho?

Ou quem sabe, está precisando congelar alguém por um tempo, talvez fazê-lo desaparecer de uma vez por todas do cenário numa nuvem de pó bem fedorento!

Ah!... cuidado com esse saquinho cheio de furos, pois dentro há um bichinho! É um filhote de papagaio que já fala e sabe mil e uma sacanagens só para você embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas. Assim você esquece as agústias e os medos... e dorme o sono que precisa dormir.
Que? Não faz mal rir do que já se sabe que é engraçado. Isso eu sei que você sabe! E como sabe!

caixa dourada

Agora pode abrir a tal caixa dourada. Digo que é uma caixa nostálgica porque ela guarda imagens, cheiros, gostos e sons que te contam as grandes e pequenas estórias... suas e minhas, nossas.
Guarda as estrelas cadentes sobre a casa de Toquinho, as agulhinhas fritas da Janete, um por do sol bem rosado em qualquer parte perto do rio... e depois, umas tantas caipiroskas com luas cheias nascendo, enormes e bonitas, bem em frente ao Bar Biruta.
Guarda os cinco contos de réis - porque fosse qual fosse a moeda a gente sempre saía com "contos de réis" - dos whiskies compartidos no antigo Bairro do Recife e os 17 cigarros fumados no Bar Real. Desculpe, você só tinha 17. Mas a gente fumou junto!
Guarda um desfile com uma baliza em biquini, sons metálicos das gargantas imitando as cornetas e os instrumentos feitos com sandálias havainas enfiadas nos dedos das mãos pelas ruas e praças da Barra, e também um prato de "Tinha" no bar miserável que nem sei mais o nome, onde faltava tudo o que tinha, menos nossa risada, apesar da fome!

Guarda a saudade do Urso de Casa Forte, dos bailes do Siri na Lata, das fantasias de pescadoras... "Caiu na rede é Peixe, meu bem! "
Guarda aquele seu maravilhoso Taxi de joelho fodido e amarrado - agora eu tenho um igual - que levava para todo lado uma índia beijoqueira, uma cigana macumbeira ou uma fada embrigada diante da câmara da televisão :
- Essa fada sai todo ano? Um microfone enorme e global bem na minha boca.
- Safada é teu passado, minha filha? Olhando para a câmara com cara de fada inocente.

Ai, meu deus... quanta ladeira!

A caixa dourada guarda o cheiro dos mares de Pernambuco, o gosto da cervejinha de Peu, dos Parmeggianas dos fins de noite, guarda os sons das serenatas dos amigos, o carinho dos muitos anos que convivemos, tantas coisas que compartilhamos, o respeito que sempre tivemos pelas nossas diferenças...

Ai.. Sodade. Sodade...


Já basta de nostalgias. Hora de festa! Felizes próximos 50 anos, muléu.
Eu sei que você já foi feliz nos 50 que já viveu. Abra o último dos pacotes e distribua a metade dos meus beijos para todo mundo que está aí! A outra metada é só pra você. Com todo o meu amor!

E manda botar o som na caixa, bem alto, com a melhor de todas as minhas saudades. Você chegando de braços abertos, balançando o corpo e dançando...

"Tetê..Te-te-re-tê... Tetê... Te.te-re-tê... Tetê... Te-te-re-têee!!!

Tetêeeeeeee!"



Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.

Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de "especiarias" os poemas preferidos.

O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar... e por aí.

Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.

Meu caderno sumiu em uma das mudanças... O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.

Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.

Então...

Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero

Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.

Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.

Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.

Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.

Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.

Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.

Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti



Galícia - Ria de Vigo


Às vezes a semana nos dá de presente uma vista assim.
Quem dera fosse mais frequente.

O casamento de um amigo nos levou à Galícia.

O ganho extra foi aproveitar, por dois dias, o verde perfumado dos montes, as rias que se podem ver desde a estrada como se fossem dedos marítimos que penetram a terra galega levando os frutos do mar até a porta dos habitantes.

Além do mais, poder provar a comida saborosa e escutar o sotaque gostoso dos galegos.

A gente volta renovada... pena que é tão longe e não se possa ir sempre e sempre!

Eu adoro Madrid... mas sinto uma falta do mar!




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