Porque eu tenho um café quente na caneca azul...porque eu choro quando estou cheia daquelas saudades sem nome.. porque eu amo quando Tom Waits enche a casa com essa voz ... E porque hoje é sexta e eu queria um whisky com os amigos na casa com cheiro de jasmim de Casa Forte.
* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.
Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um " ái...el levante parece que afloja esa tarde" e outro responde "ná...parece que vá seguir hasta maña..." Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ná; todo, dizem tó... cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao...e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade...
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona...Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes...tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah... e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A "fauna" tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto... Entoncesss... me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta ... tcs.tcs...só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno... também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma... "noventa-e-um euros, vaya!" e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que "dentro tinha coisas mais caras"... hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin...
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!
O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros...
Ontem me preparava para postar sobre Tarifa, onde estive por 15 dias, quando escutei uma música africana belíssima vinda da TV. Corri para ver o que era... E que presente! assim, de graça... só porque eu estava precisando!
Benditas casualidades cósmicas! Justamente naquele momento estava começando Assédio, de Bernardo Bertolucci.
Impossível perdê-lo. Esse está na lista dos que a gente deve ter.
Vi esse filme há muitos anos, em Recife. Me enamorei dele e da música e por muito tempo tentei comprar a trilha sonora mas jamais a encontrei.Tampouco pude assistir o filme nunca mais!
Ontem à noite ele me surpreendeu dentro de casa, assim, sem aviso prévio, de surpresa.
Interessante é que os filmes do Van Damme e Segall - que aqui passam quase todos os dias - são anunciados milhares de vezes. Mas uma pérola de Bertolucci vem sem anúncio, na surdina!
Adoro ver uma e outra vez os filmes da minha vida. Assédio é um deles. É uma história de desejo e amor, numa dose maciça de arte e beleza.
Imagens cuidadosamente trabalhadas entre sombras e luz, regadas por uma música que atua como um dos personagens principais.
O filme de Bertolucci é de uma fineza de detalhes, uma perfeição de luzes e cores, um espetáculo de música, de delicada sensualidade...
Um filme para se ver de mãos dadas, encolhida no fundo de um sofá cor de laranja, com a chuva madrilena molhando os cristais da janela do invernadeiro. Foi melhor vê-lo agora que na primeira vez.
É bom também deixar o som muito alto para que o piano de Mr. Kinsky inunde a sua casa junto com o sorriso doce e infantil de Shandurai.
Quem sabe essa dose maciça de arte possa remendar qualquer alma ferida pela crua e enferma grosseria da realidade televisiva dos últimos tempos.
"ASSÉDIO" (Besieged), Itália/França, 1998, 92 min. Dirigido por: Bernardo Bertolucci. Com: Thandie Newton, David Thewlis, Claudio Santamaria.
Já que eu quero voltar...vou aproveitar a disposição.
Então... eu gosto de escrever sobre o que eu estou lendo. Me ajuda a refletir sobre o livro, aprendo mais sobre o autor, recordo melhor os detalhes da história e por cima mantenho um registro da experiência. Além disso adoro compartilhar minhas impressões, seja sobre uma exposição, uma viagem, um filme ou um livro.
Agora estou lendo Murakami. Estou adorando! Ele é bárbaro!
O primeiro livro dele que li, no final do ano passado, foi Kafka en la Orilla. No Brasil se chama Kafka à Beira-Mar.
A novela é incrível! Tem um ritmo tão extraordinário que muitas vezes a gente simplesmente não pode deixá-la, fechar o livro e ir fazer outra coisa. E não porque a ação seja frenética. Pelo contrário, ele é capaz de descrever as mesmas ações simples e rotineiras inúmeras vezes, tantas quanto aconteçam. Isso funciona mais ou menos como signos. Provoca na gente a vontade de querer guardar aquele detalhe para depois, porque a pergunta "para que isso vai servir mais adiante?" não nos deixa em paz. Acabei grifando mil e uma passagens.
Fazia muito tempo que eu não grudava em um livro dessa maneira.
Murakami escreve há muitos anos, mas eu não o conhecia até o ano passado quando li uma crônica sobre ele no El Cultural, um semanário do jornal El Mundo. Guardei seu nome numa caderneta... e depois esqueci. Até que, numa daquelas tardes deliciosas de garimpagem na minha livraria preferida de Madrid, La Casa del Livro, o encontrei. Hum! A memória acendeu na hora! Comprei imediatamente e comecei a ler sem buscar nenhuma outra informação, nem sobre a novela nem sobre o autor.
Foi uma decisão acertadíssima! Ainda bem que eu mergulhei na sua criatividade sem borrá-la com as descrições secas e sem sabor que depois encontrei pela internet.
Mas, voltando a Murakami, fui conhecê-lo melhor depois que me apaixonei pelo livro. Li algumas entrevistas dele e gostei muito. Ele é uma criatura um tanto especial. Diz que aprendeu muito de seus escritores favoritos pois é tradutor de suas obras para o Japonês, mas se inspirou principalmente em Manuel Puig e García Marques para soltar a imaginação. E faz isso de uma maneira absolutamente própria e muito original. Fazer chover peixes é um bom exemplo.
Li Puig há muito tempo atrás ( Púbis Angelical, Boquinhas Pintadas, O Beijo da Mulher Aranha ) e García Marques leio constantemente. Posso entender que tenha se inspirado neles ( pensei antes nas Mil e Uma Noites, tanto que esse foi um dos meus pedidos de presente de natal ) mas o que esse escritor japonês fez comigo foi absolutamente novo.
Eu falava em voz alta enquanto lia! Ele me intrigava até quando descrevia a forma como os personagens lavavam os dentes e as mãos!
Assim. Eu ia entrando na história por um caminho, conhecendo um pouco os sentimentos de Kafka Tamura, um jovem que decidiu sair de casa no dia de seu aniversário de 15 anos para fugir de uma suposta profecia paterna: cumprir o destino de Édipo.
Eu seguia buscando compreender suas intenções, atenta a alguns traços de seu comportamento... e de repente um acontecimento inusitado, surpreendente, um "como assim, o que é isso?" desviou minha atenção e antes de poder encontrar um novo caminho que explicasse o que aquele estranho fato estava fazendo ali, surgiu um personagem intrigante, surrealista e irresistivelmente atraente, Nakata, um impressionante homenzinho de 60 anos que falava com os gatos.
Pronto. Como assim?! O que tem a ver um caso com o outro? Fiquei amarrada nos dois, curiosa para saber onde se encontrariam, como, por que? Se é que se encontrariam! Se é que... quanto mais lia mais dúvidas eu tinha.
O engraçado foi que ao mesmo tempo em que eu queria saber como o autor ia esclarecer toda a trama, não tinha qualquer pressa em descobri-la nem tentava resolver a possível ou impossível relação entre eles.
Tá bom. Admito que tentei uma ou outra vez resolver o mistério, pois era inevitável. Mas quando não consegui apenas me deixei levar pelo delicioso prazer de ler Murakami. Deixá-lo criar.
O texto é bom, bem escrito. Ele tem uma linguagem agradável, atual, conversada, gostosa. Faz a gente pensar com ele, seguir seus passos. ( A tradução espanhola é excelente e isso é muito importante! )Também procurei ouvir as musicas que ele citava ao longo da história, curtir as deliciosas conversas entre Oshima e Tamura ou entre Nakata e Hoshino, suas citações literárias, como tratava temas fortes como os tabus e preconceitos, morte e vida, realidade e fantasia. E aproveitei com prazer a experiência de ler uma novela fantástica, diferente, extremamente interessante e absolutamente absorvente.
E mais, comprei três exemplares para presentear alguns amigos. Adoro poder fazer isso!
Agora estou lendo Tokio Blues - Norwegian Wood. Murakami outra vez.
Mas acho melhor escrever sobre este em outro post.
Ps: Sugiro não leiam a história antes de ler o livro. Fazer isso é perder completamente a emoção de mergulhar na criação do autor.
Ontem acabei lendo um comentário em Português apresentando Kafka à Beira Mar aos compradores.
Achei HORRÍVEL!
Um dos grandes prazeres de ter uma boa conexão é descobrir as pérolas do YouTube.
Às vezes me surpreendo encontrando umas delícias como esta cena do Il Postino ( O Carteiro e o Poeta ).
Para mim, este é um dos grandes filmes que eu já vi na vida. É daqueles para se ter e poder rever sempre que se queira.
Por muito tempo eu mantive um caderno onde escrevia todos os filmes que via, com comentários e fotos. Não sei em qual das mudanças ele se perdeu e foi uma pena tão grande que deixei de anotá-los.
Depois de séculos eu voltei a registrá-los num arquivo do micro, porque durante um ano ou dois um dos meus trabalhos era assistir filmes. O trabalho consistia em encontrar cenas que pudessem ilustrar um manual de habilidades presentes no comportamento dos líderes.
Era uma delícia de trabalho! Imagine quantos filmes eu tive que ver... a trabalho e em casa, com um pacote de pipoca, em plena segunda feira! Ho ho ho! Eu adorava!
Muitos de meus amigos me telefonavam quando estavam numa locadora só para que eu indicasse algum filme ou comentasse sobre outro que queriam alugar.
No Brasil eu tinha uma boa coleção de videos, mas tive que deixá-la com meu irmão porque aqui na Europa o sistema era outro.
Agora estou pensando seriamente em fazer uma pequena lista dos filmes inesquecíveis e ir comprando-os, pouco a pouco.
Talvez eu compartilhe essa lista aqui...
Então... vou começar por este. IL POSTINO me emociona tanto que choro as mil vezes que o veja.
Estou navegando outra vez... devagarzinho. Uso um computador emprestado que não gosto muito porque não tem acentos e eu tenho que escrever dentro do Gmail porque o Word dele funciona mal e de vez em quando apaga tudo.
A campanha está em pleno vôo...e o novo computador já vem no mês que vem. Rá!
Claro, por enquanto este aqui vale mas não é como ter os meus arquivos a mão, minhas fotos, minhas anotações.
Estou aproveitando para dar uma renovada nos links e visitar os blogs que eu visitava de vez em quando. Descobri que muitos desapareceram. Uns se despediram num último post, outros simplesmente deixaram de postar, alguns mais apenas mudaram de endereço, de cara, de nome.
Algumas pessoas tiveram suas histórias bruscamente alteradas por uma doença ou perda de um ser querido e seus blogs refletem essas mudanças. Vi que um bocado de gente mudou de cidade, de país...
Dentro da Verbeat também houve um mundo de alterações. Gente nova chegando, gente saindo, gente abrindo outros blogs... mudanças que eu não acompanhei. Percebi que estava longe da net há um bocado de tempo. Mais tempo do que eu queria acreditar.
Quando comecei a blogar, em maio de 2003, fiz parte, por um tempo, de um grupo de blogueiros muito legal e podia, dentro das limitações da minha conexão, visitá-los com certa frequência. Depois de 2005 o boom de blogs foi tão grande que me perdi. Já não pude acompanhar a expansão... a não ser que pudesse ( e quisesse ) passar o dia ( e a noite ) no computador. Eu acho que nem assim...
Nunca aprendi a usar o RSS. Gostava de entrar no blog, gostava de ver a página em seu original.
Não entendia muito bem por que as pessoas valorizavam tanto o tempo que economizavam lendo os textos sem entrar no blog, até que me explicaram que precisavam ler entre 200 e 300 blogs por dia. Uff! Acho que fui ficando com um certo complexo de inferioridade. Passei a visitar dois ou três... por semana! Ou quatro por mês...Ou nenhum!
E foi assim que eu fui me desligando dos blogs e dos seus assuntos.
Mas eu quero voltar. Quero continuar a escrever aqui, mesmo sabendo que meus amigos de carne-e-osso e irmãos não lêem. Que a maioria dos meus amigos-virtuais de antes não vem mais aqui, que os prováveis visitantes que lêem um ou outro post através de alguma busca do Google nunca comentam nem deixam pistas maiores que o registro do contador.
Não importa. Vou voltar por mim. Porque eu gosto de escrever, porque preciso pensar alto e quando escrevo aprendo mais sobre mim ou sobre o tema que escrevo.
Tenho a sorte de ter também uns leitores-amigos-virtuais que nunca desistem de mim e sempre estão bisbilhotando o Língua atrás de novos escritos.
Vou tentar trazer uns posts antigos do Cicatrizes da Mirada, pois este sim, de vez em quando ainda recebo e-mail pedindo-me cópias de antigas publicações.
Antes me dava um certo corte repetir posts antigos, mas agora, aproveitando a "penumbra" e os poucos que ainda estão por aqui eu vou trazê-los, se não se importam.
Marcia escreve assim:
"Cansado de mendigar amor, emudeceu. Aos poucos tornou-se transparente, diafano. Até que desapareceu. E ninguém, absolutamente ninguém, o percebeu."
Minha amiga me diz o mesmo. A linda, loira e alta criatura, desde seus maravilhosos 50 anos, depois de tudo o que já aprendeu na vida, dos belos quadros que pintou, dos três filhos que criou, do grande amor que compartilhou... repete baixinho para que só eu escute: "É que já ninguém me vê. Sou menos que um móvel da casa... estou ficando transparente..."
Às vezes me surpreendo demais com algumas coincidências.
Se você quer desaparecer por uns dias, esquecer o que lhe preocupa ou apenas viver um sonho dentro de um belo cenário medieval... vá à Praga.
Se um dia quiser estar sozinho com alguma nostalgia ou apenas viver uns poucos dias de solidão programada...vá à Praga.
Tá bom. Eu entendo. Não quer nem pensar em solidão e sequer passar perto da nostalgia? Então escolha muito bem a companhia... e vá a Praga.
Mas cuidado... eu disse que escolha muito bem a companhia. Não é uma cidade para se ir com gente que "dá por visto" o que se apresenta. Não é uma cidade para gente que não se impressiona com a beleza e menos para gente que acredita que por já ter visto muitos lugares bonitos este é apenas mais um.
Praga é mais que uma cidade bonita... é para ser vivida com toda a intensidade.
Ela respira história, cultura e é preciso deixar-se perder pelas ruas para ir descobrindo-a pouco a pouco. E a beleza está por toda parte, acredite.
Em cada esquina se desenha ao fundo uma torre escura, uma cúpula de igreja ou de palácio, um prédio cuja fachada está trabalhada com pinturas, brasões ou esculturas.
É preciso saber gastar um tempo razoável diante dessas coisas. Se possível ler algo antes sobre sua história, seus heróis, seus personagens... senão a gente corre o risco de não sentir nem escutar a pulsação desta fantástica cidade.
Há muito escrito por aí... ainda estou lendo, mesmo depois de já ter voltado. Decidi escrever assim, sem grandes detalhes... só pulsando... Pra-ga! Pra-ga! Tum-tum...Tum-tum!
Praga e música são quase sinônimos... Então aproveite para por em dia todos os seus sonhos de assistir espetáculos maravilhosos (a preços razoáveis) sem fazer fila meses antes para comprar os ingressos. Os concertos são oferecidos a cada dia pelas ruas. É só pegar o folheto distribuído aqui e ali e comprar as entradas no mesmo dia. Delícia!
Se numa igreja medieval há um concerto de música erudita, entre.
Se no Teatro Nacional há um ballet clássico, assista.
Se no Teatro Imperial há uma ópera e mais adiante uma apresentação do mais típico Teatro Negro de Praga... programe-se e vá a ambos.
E haverá! Há concertos todos as tardes e noites. Fica até difícil escolher entre tanta oferta.
Nas outras horas, deleite-se com apresentações de violinistas ou grupos de Jazz pelas ruas mesmo.
Agora... se tiver a sorte feliz de ver um velho (da foto do slideshow ) que canta com uma triste voz rouca enquanto toca um estranho e antiquíssimo instrumento musical de madeira... fique ali com ele por um tempo, imagine outra época, outra gente caminhando por aquelas ruas. Emocione-se com seu sorriso escuro, fixe-se em seus olhos úmidos... e por favor, não deixe de dar-lhe uma moeda. O momento que ele proporciona a gente não tem preço, mas a moeda será bem vinda...
Praga é assim... emoção por toda parte.
Tem mais... se num fim de tarde fria quiser sentar num dos cafés diante do relógio atronômico, o mais antigo do mundo em funcionamento para tomar um gostoso chocolate quente, enquanto observa os turistas se agrupando diante do mesmo à espera de que os apóstolos apareçam nas janelinhas e ouvir os sinos badalarem a hora em ponto, faça isso... e agradeça ao universo por estar aí neste momento...
Se já for noite, peça um vinho... tinto, é claro. E nem ligue para o gemido de decepção dos turistas diante da simplicidade do ritual do relógio... para mim é justo isso o que encanta do lugar.
Depois...não tenha pressa... caminhe mais e mais, cruze as pontes, namore com o rio, jante ao sons dos violinos ou coma salsichas com mostarda no meio da rua, entre numa livraria e compre algo de Kafka , algo de Dvorák... e prometa a si mesmo voltar.
Praga é lugar para se voltar...
Já prometi.
E eu tenho a melhor companhia...
É preciso transportar-se a uma antiga história para entender o que passa aqui nesta página.
...
- Existem caçadores em teu planeta?
- Não.
- E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito.
....
A raposa aqui animou-se toda quando soube que teria conexão rápida, finalmente, instalada em seu monte nas cercanias de Madrid. Imaginou que seria um jogo de crianças postar e que nunca mais deixaria abandonado o blog que ela tanto gosta.
Tóin. Errado!
O computador QUEBROU. Está difícil como nunca publicar qualquer coisa. Trava, desliga sozinho, ferve a paciência.
Acho que ele não aguendou a carreira... hihihi!
Estou em plena campanha por um novinho...
Please!
Ps: Este post precisou de mais de meia hora para ser publicado. A página está lista pero con errores. Inferno!