PhD
eu tô pela metade de um capítulo. o último da tese, que eu comecei a escrever por primeiro. duvido que interesse os detalhes sórdidos, grosso modo, tem um linha, uma idéia, que costura tudo, mas cada capítulo é quase independente do outro. quer dizer, é uma revisão bibliográfica, uma metodologia, conceitos analíticos diferentes. e eu comecei pelo último porque era o assunto mais estranho aos meus conhecimentos adquiridos. seria o capítulo mais difícil.
é um pequeno sofrimento intelectual, mental, tomar pé de algo desconhecido sozinha. nas primeiras leituras tu não tem nem parâmetro pra saber se um artigo presta ou não - afora alguma lógica interna. se as refêrencias são boas. e se o que ele propõe é pertinente pra área. menos ainda, dá pra saber se é novidade.
aqui na frança, ao contrário do brasil, tu não tem aula durante o doutorado. e o meu orientador eu vejo a cada mês e meio, que é muito tempo pra esperar e pedir alguma explicação - se ele tiver uma pra dar, antes de tocar adiante o trabalho. o processo é solitário.
muita leitura depois, dá pra identificar o que é bom, razoável, o que tem a ver com o que tu tá fazendo e o que pode ser usado na tua discussão. muito fosfato queimado depois, tu encontra os pontos de diálogo e uma forma de utilizar as refêrencias agenciando-as numa discussão nova, a tua.
meu método de trabalho é começar a escrever de manhã, até meio ou fim de tarde. mas a cada hora e meia, eu preciso olhar pela janela e ruminar um pouco, lavar uma louça que tá pela pia, guardar um sapato, um casaco, tomar um suco de laranja - acabou minha erva-mate, não deixa de ser uma pequena tragédia...
no fim de tarde eu leio coisas novas, ou releio - porque, quando não se conhece quase nada do assunto, não se tem as 'chaves de interpretação', é preciso reler pra encontrar o que tu precisa, nem que seja pra contradizer o autor.
à noite, olhar o jornal das 20h, ver um filme, ler o monde, um livro de literatura, e deixar o cérebro no automático. porque, nesse momento é que ele faz relações novas. em geral, a matéria pra escrita do dia seguinte, porque o cérebro faz o link, mas o processo cognitivo prescinde de palavras - já dizia wittgenstein, e é preciso o discurso pra ligar lancaster, terroir, simon, montanha, ... numa discussão que se sustente ao longo de todo um capítulo.
se eu fosse o nash, eu derivava uma fórmula de trinta páginas - a tese dele... eu não sou o nash e não compreendo números...
o trabalho é lento. a casa é uma balbúrdia de livros e teses de outros, abertos ou fechados, recheados de papeizinhos ou lápis dentro, marcando coisas importantes - às vezes bem inúteis quando relidas, e pilhas de papers pelo sofá e inutizando a mesa da sala.
mas é bom sentir que tu te 'mexe' já razoavelmente numa discussão que te era quase estranha quarenta dias atrás.
(e que agora é só tocar adiante) x ( + 3 capítulos...).

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