March 2009 Archives
-- preocupação penisular, filho - disse afonso [...]. - o português não pode ser um homem de ideias, por causa da paixão da forma. a mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. se for necessário falsear ideia, deixá-la incompleta, exagerá-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... vá-se pela água a baixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.
-- questão de temperamento - disse carlos. - há seres inferiores para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... eu sou desses monstros.
o sagaz eça de queiros em "os maias" (sic, ipsis literis, etc.). na minha translation ficaria:
-- c'est bien un souci de la péninsule, mon fils - a dit afonso [...]. - le portugais ne peut pas être un homme d'idées à cause de sa passion de la forme. la fureur est de faire des jolies phrases... oh... c'est une blague!
"ne croyez pas non plus que j'approuve les poètes d'éviter les termes exacts, parce qu'ils ne connaissent que leurs rêves; il y a beaucoup de vrai dans les rêves des poètes, mais ils ne sont pas toute la vie."
marguerite yourcenar em "alexis, ou le traité du vain combat". na minha translation ficaria:
"não pense também que eu aprove os poetas, que evitam os termos exatos porque conhecem apenas seus sonhos; há muito de verdade nos sonhos dos poetas, mas eles não são toda a vida."
um incauto entrou por aqui procurando uma assertiva em forma de negação: "veterinários não jogam truco".
adianto que faz parte da grade curricular, assim como sinuca, cirurgia, todos os manejos, todas as medicinas, churrasco... ficando o correto: veterinários JOGAM truco. aliás, no plantão do hospital é obrigatório.
outra incauta andava em busca do "endereço do chico buarque".
bem, dizem à boca pequena... voilà: place de vosges, marais, paris. seis meses ao ano. e bonne chance.
se em porto alegre, no tempo em que havia algum inverno, a redenção, aos primeiros domingos ensolarados, era um alarido de todos felizes portando suas malhas...
o clima é total oposto por aqui, e a primavera (antes da data) tem ar de benção. os solitários param a leitura pra admirar o sol à volta e os gramados, outrora alvos e silenciosos, transbordantes de gentes... ao longe, se acompanha, a cada dia, a mudança lenta de cor dos cumes nevados, à espera do próximo verão.
as árvores completamente nuas ainda não combinam com o evento, se bem que práticas, pois não são capazes de sombras. e tudo que não se quer é sombra.
essa grandeur des printemps que não conhece um país tropical.
só passando pelos intermináveis e glaciais invernos franceses (e esse ano foi infinito e siberiano) pra saber a redenção que é um dia de 16 graus centígrados sem uma nuvem no céu, num domingo.
... uma pequena felicidade.
voilà, os elevadores de lisboa que são velhos de 100 anos e ainda estão em circulação. porque funcionam. esse é o elevador da bica.
os bondes elétricos de madeira, construídos na inglaterra no início do século xx também circulam. a linha 28, que sai da graça, passando pela alfama, pela baixa, até chegar aos prazeres (!), num trajeto íngreme de ruas estreitinhas que a gente poderia alcançar o balcão e pegar uma ginginha (nosso drink de buteco em portugal), fosse o caso, é um programa em si. dá charme à cidade, os turistas adoram, e os autóctones USAM!
(d'ailleurs, como o velho metrô de buenos aires.)
ao lado, os modernos trainways, que também são elétricos, silenciosos e servem percursos novos. me lembro de ter visto em amsterdam, lyon, montpellier, bordeaux, clermont, bilbao, lisboa, em construção, em edimburgo...
nos trainways, só tem condutor. tu compra teu bilhete numa máquina no ponto de espera, ou, como lisboa, numa máquina dentro do train. não tem controlador. funciona na confiança. claro, se houver controle e tu não tiver bilhete, paga multa.
ele inventou o gehzeug, walkmobile, em 1975, para protestar, demonstrando o espaço que um pedestre tomaria nas ruas se fosse um motorista.

esse senhor que se serve apenas de 'transporte em comum' - realidade nada dolorida nessa europa, muito menos na áustria, é engenheiro e conseguiu banir os automóveis do centro histórico de viena.
enquanto isso na província-boi, é bem capaz da nossa burguesia charmante, daqui uns dias, querer comer 10 metros da redenção pra diminuir o engarrafamento na oswaldo. :(
gostei bastante d'o homem no escuro, do paul auster, me irritando em alguns momentos - intencional, evidente.
o último do mia couto, venenos de deus remédios do diabo, delícia de leitura. mas não gostei de como ele resolveu a história.
a brincadeira de gato e rato do vizinho jorge rocha: murder ballads, cujos substantivos fizeram jus à nick cave... me fez boa companhia numa noite solitária de inverno.
rio dos bons sinais, de outro moçambicano, nelson saúte, que eu não conhecia, é um livro de contos onde a ausência é o mote, "o enterro da bicicleta" e "o viúvo do guarda-chuva amarelo" são os mais legais.
o que acabei de ler ontem à noite é muito bom. o que não diz nada, eu sei. o livro ganhou o pulitzer em 2007. mas isso também é detalhe e não diz necessariamente muito mais.
a estrada, de cormac mccarthy é bem escrito, escrito de uma maneira que me agrada muito. o texto é simples - não simplório, direto, preciso, não tem palavras sobrando. e conta a história do 'homem' e do 'menino', seu filho, percorrendo uma estrada em busca...do quê? num mundo que é a desolação e a bárbarie, após ter sido acometido por um cataclisma de natureza que nunca descobrimos qual é, e onde subsiste o amor. de pai.
tem tudo pra descambar. e não descamba. não têm grandes elocubrações sentimentais, grandes lamentos, apesar da atmosfera ser a coisa mais opressora... o autor 'mostra'. os gestos falam por si.
é afiado. e comovente. e uma paulada também.
"um é para o outro o mundo inteiro."
ps. agora, aquisição na terinha, vou a eça de queiroz, de quem li apenas o crime do padre amaro. nem dá vontade de ficar escrevendo tese, porter, territorio, proximidade organizational, label montanha, lancaster e o diabo...
update: esqueci as pérolas dão azar, do chandler. datado, é claro, em tempos des 'ncis' et 'experts', a solução dos casos repousa na agudíssima perspicácia dos seus detetives. quand même, boa leitura nuns dias de casse-tête acadêmico. 2009 começou bem de bem. até literariamente.
quelle horreur..! e, claro, de tão ruim chega a ser OTIMO.
cortesia do marido... que, se não existisse, eu ia precisar inventar! ;)



