jornalismo, decepções, greve, cólera, eticétera
estudei dois anos de jornalismo e acabei me formando veterinária. me decepcionei muito cedo com o métier. mas percebi d'onde só depois. além do gosto pela escrita e leitura, o que não é crachá suficiente, eu queria o que eu imaginava que fosse. não o que é. claro, dá pra fazer coisas legais, mas eu perdi o tesão e piquei a mula.
o que eu imaginava que fosse era o tempo em que redações e jornais eram lugar de jornalistas, e não é uma questão de diploma. foram os livros que eu li... antes de entrar pra faculdade. que eu me lembro de pronto: opinião x censura (j.a. pinheiro machado, 1978); minha razão de viver (samuel wainer, 1988), chatô (fernando morais, 1994) - sim, verifiquei as datas de publicação e não encontrei links decentes.
bom, ainda adoro ler jornal. por ruim que seja, acho interessante. quando é bom, fico leitora.
ler o le monde é um prazer. apesar dos 15% de propriedade do grupo lagardère (investimentos em mídias, aeronaves, satélites e outros sortimentos) é um jornal bem pautado e muito bem escrito. e posicionado politicamente. à esquerda.
pois. hoje o monde, fundado em 1944, pela primeira vez na sua história não circula. motivo: greve. protesto pela supressão de postos de trabalho. 25% da redação deverá ser demitida.
como no mundo inteiro, o jornal de papel está em crise na frança. sintomático num jornal com o seu perfil: a editoria de esportes aumenta seu espaço em 100%. (!?!) de 2 para 4 páginas. o marido, no primeiro dia da enxurra esportiva no periódico, me conta sobre o dines rememorando a celeuma de quando o monde anunciou que passaria a publicar fotos...
nos estados unidos, segundo pesquisa do professor scott reinardy (ball state university): 31% dos jovens jornalistas (34 anos ou menos) desejam largar a profissão.
kiyoshi martinez, dentre os 'em crise', criou o muro das lamentações. de 10 de fevereiro até esse momento 3.970 comentários anônimos no angryjournalist. o 3.970: "I am angry at myself for not quitting sooner". muitos reclamam da baixa qualidade e rigor decrescente, pressões, autocensura (a questão dos anunciantes, always), sensacionalismo.
daí que o happyjournalist existe também. 100 comentários. literalmente e sem trocadilho.
guy debord já havia mais ou menos previsto. mas, esse, eu fui ler bem depois.
ps. o jornal mais vendido na frança é o l'équipe. atualidades esportivas.
pps. sim, frustrei um sonho (natimorto) da minha mãe: me ver na tv, como apresentadora de telejornal. sem chance.

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