a geografia criativa de kulechov
nos anos 1920 e algo, lev kulechov, um dos teóricos da linguagem do cinema, dizia que cinema é montagem. que não são as imagens, mas, a edição que provoca a aparição de uma idéia.
a experiência da sopa, do cadáver e da mulher é a mais famosa. mas tem a geografia criativa. por exemplo, ele juntaria o plano de um homem caminhando ostensivamente em manhattan - ostensivamente = com a estátua da liberdade ao fundo; de uma mulher caminhando ostensivamente em paris, ao encontro desse homem; e de ambos encontrando-se, ostensivamente, em roma. seguindo o itinerário padrão, eles se encontrariam, com boa vontade, nas profundezas do atlântico, jamais em roma - malgrado a megalomania do império, nem todos os caminhos levam ao coliseu. a geografia, entretanto e nesse caso, é criativa.
lembrei, porque uma amiga, francesa, me recomendou não assistir paris. entre outros, porque "não dá, se tu quer chegar no hospital saint antoine, tu não desce do táxi na bastilha". é verdade. pegando o faubourg saint antoine (chez nous em paris) dá uns mínimos 15 minutos até o hospital, a uma boa vitesse. mais oui. mas a bastilha é mais fotogênica que a rua do faubourg.
aí, me lembrei daquela minissérie sobre as mulheres do bento gonçalves. as marchas de caçapava à uruguaiana, ou de viamão até piratini, passavam sempre pelos aparados da serra. pros xirus-rs, não dá. só se o cara estiver com o norte da bússola invertido, não? mais oui. mas os aparados da serra são mais fotogênicos que lavouras de arroz.
eu sou a favor - o problema é que demole com a suspensão da realidade dos autóctones.
p.s. pras questões de saudade, realmente, a cartografia de kulechov é a ideal.

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