January 2008 Archives

ok, livro pra circular, e o meme é pra praticar o desapego. meus livrinhos...

a brincadeira saiu do tiagón, que recebeu do flavio prada. e a proposta é a que segue... deixar um livro em lugar público, divulgar no blog, escrever uma mensagem no livro pedindo para que ele seja "passado adiante", deixando o contato, e sugerindo adesões. 

deixei o meu ex-livro domingo, no jardin lecoq, uma praça-parque-jardim, onde costumo ler e fazer fotossíntese e me misturar com os autóctones. foi um exemplar de l'auberge rouge, do balzac. o segundo livro que li em francês, desde que cheguei pra morar, e o primeiro que comprei aqui em clermont.

foi escolhido porque eu já li, seria fácil e pas cher adquiri-lo novamente, se o caso for de, e porque a outra opção era uma tradução francesa de gogol. o que é sempre duvidoso. todos os outros têm laços afetivos ou ainda não foram lidos... - todos é uma figura de linguagem hiperbólica no meu caso francês.

bueno, deixei o recado no livro, nos conformes, e o contato dessa. pra mó de qualquer coisa.

não tem registro visual, pena. uso máquina fotográfica com película, daquelas em que tem que passar o filme manualmente, mas posso trocar as lentes, e é divertido ficar cinco minutos regulando a luz antes de registrar o fotograma - às vezes as pessoas retratadas não curtem. celular? j'ai pas non plus... mas foi feito!

pra fazer circular....  voilà, repasso o meme pro roger jones, rafael kasperandré gonçalvesed, andré soares, pro elygilmar, pra ana mangeon e pra quem vier, ler e achar bacana e quiser fazer e contar, e a gente sempre se pensar benditos, semeando livros, o que é jóia, além de louvável, e como diz o tiagón: é bem mais bacana do que parece! 

ler é um tesão!  passe adiante! 

o negócio pode ser tão velho quanto a instituição. mas fiquei perplexa com o nível de exposição e organização. não sei qual seria o procedimento legal. uso o meio que disponho...

recebi, pelo orkut, mensagem de uma tal carla janson, entre ontem e hoje. propaganda, nada de novo - isso contamina todas as formas imagináveis de contato, mas vejam o serviço, candidamente, oferecido:

"ACESSORIA E ELABORAÇÃO... MONOGRAFIA, TCC, TESE, DISSERTAÇÃO, ETC...."

e a publicidade vem completa, com email, site na internet e número de telefone. eles têm cnpj e trabalham com mastercard. elaboram desde apresentações em power point, monografias de graduação, pós, e, até, dissertações de mestrado e teses de doutorado - fico imaginando como seria a banca de um de seus clientes. 

a promoção: "LAUDAS A PARTIR DE R$12,00"

minha dissertação custaria a bagatela de de R$ 2.342,00, anexos inclusos. entretanto, eles se responsabilizam apenas pela "pesquisa doutrinária acerca do tema", ao idiota contratante caberá "a pesquisa científica que comprovará o evento e suas respectivas conclusões", ou seja a parte empírica, o trabalho de campo. ainda, "considerações e comentários acerca dos resultados é (sic) de inteira responsabilidade do contratante."

a meta dessa "equipe de mestres e doutores" é "auxiliar aos alunos no cumprimento das exigências curriculares, de forma que lhe sobre tempo para realizar as demais atividades solicitadas pela instituição de ensino, bem como de seu trabalho e de sua família".

salvo equívoco, a instituição de ensino não obriga matrícula de ninguém, e, como um parâmetro mínimo de avaliação do processo de aprendizado, por arbritrário que seja, é obrigada a solicitar ao incauto um esforço da prática intelectual condizente com o conteúdo abordado ou título requerido. demais? injusto?

no fim podem me dizer que o assunto não é relevante. que concerne apenas à igrejinha da academia. é um argumento.

eu, que passei a vida inteira estudando, estou iniciando meu doutorado, enfrentando todas as agruras e venturas inerentes à empreitada, que defendi minha dissertação de mestrado há um ano, depois dos dois anos em que mais estudei na vida, e que foram largamente compensadores no plano pessoal e acadêmico, acho isso o fim da picada. e pergunto, o que se faz com essa gente??? 

parece que eu sou uma pessoa afável, complacente, que aprecia a companhia de seus pares, os seres humanos, essas criaturas adoráveis que possuem a capacidade, imaginem vocês, revolucionária de refletir, ah, essa faculdade magnifíca que nos catapulta, não apenas ao topo da cadeia alimentar, mas à soberania desse lindo planetinha azulado. e não paramos por aqui, além disso, olha só, que cadeaux dos deuses, esses bípedes simpáticos ainda dominam* as artes da comunicação. quanto requinte favorecendo o convívio fraterno, a socialização de experiências, a troca de gentilezas, e, por quê não, ... sei lá.

mas não é. sou azedíssima hoje. nasci de tristeza miúda essa manhã. uma tpm assim de leve e inofensiva, que me deixa mais sentimental que o de costume. só. but, como de resto, e igual a maioria dos viventes, creio, não aprecio o convívio mais do que social - o limite da sanidade, com pessoas pentelhas. meus amigos, a tolerância é um erro.

eis que gritam comigo! e sem razão! eu, que odeio gritaria, não levanto a voz nem pra loira do tcham (porque, francamente, depois de tudo que fizeram as mulheres do nosso saudoso século passado, considero uma vergonha, um acinte e uma falta de noção absoluta, esses modelos que saem de fábrica com miolos aptos e, por completo e constante desuso e, après, faible e displicentíssima manutenção, os inutilizam, incapacitando-os mesmo da mais elementar sinapse. (ficar velho, diz o mestre assis, é abrir parênteses. ando abrindo exponencialmente. (e também perdi a vontade de falar do assunto lá do início))).

com licença, vou fumar charutos... um calvados, s'il vous plaît.        

* ok, "domina" pode ser encarado como uma forçação de barra em um grande número de casos. em outros tantos, seria um serviço à espécie se viessem com a tecla SAP, os leríamos em legendas, e pouparíamos os ouvidos.

.. ou... não seria uma desculpa que eu arquiteto em mim mesma pra ludibriar a mim própria e permitir à minha pessoa tomar uma dosesinha de calvados (cachaça nessa terra custa a bagatela de 30 euros a garrafa (e é a pitú... sem chance.)), e sair dos meus seis únicos e máximos cigarrinhos diários, como forma de afogar, assim, maldita e masculinamente os "problemas"? (e isso me lembra quando briguei com um amor, entrei dentro do copo, empesteando e nicotinando os carpetes e as cortinas inexistentes do meu querido apartamento do menino deus e revendo cidadão kane. me senti macho. depois casei com o cabra. ...)  

tem umas coisas que só acontecem por aqui. ontem, depois do jornal zapeei um pouco pela tv. e não é que às 21h tenho o prazer de uma exibição de jules et jim? no canal canal 7, arte, emissora pública: película no formato original - tarjas pretas pra mostrar o que o diretor quis mostrar e zero intervalos comerciais.

em português, o filme ganhou um subtítulo meio assim terrivel, "uma mulher para dois". tosco, pois não se trata disso. absolutamente. é bem mais sutil que dona flor entre um bom esposo e um performático amante - e jorge amado nunca foi minha praia.

“jules e jim é um sonho: todos nós sofremos diante do aspecto provisório de nossos amores e esse filme nos leva justamente a sonhar com amores definitivos”, eis o leitmotiv pelo diretor, que constrói uma rede delicada, passando longe e perto de clichês amorosos. 

a narração em off me lembra um clima nouveau roman francês. fatos são fatos. mesmo se o narrador for a primeira pessoa, ele guarda distanciamento emocional a serviço da sutileza. e eu chorei, pois isso costuma me emocionar. 

disse truffaut, que a canção le tourbillon de la vie “marca o tom para o filme e é a sua chave”. jeanne moureau a interpreta numa cena do filme:

 

 

 

dia desses, prá-cima-e-prá-baixo, chego fatiguée no hotel em lyon. o que vejo na arte?

aboutdesouffle_02.jpg

  

a bout de souffle, do jean-luc godard, com argumento do mesmo françois truffaut, que foi filmado à toute vitesse, depois do roteiro ter sido escrito na mesma velocidade por godard. 

 e isso que ele filmava quando tinha inspiração, parfois 2 horas de trabalho apenas durante o dia, e costumava entregar as 'falas' das cenas para jean-paul belmondo, que talvez por isso passe o filme inteiro fumando (!), e jean seberg no dia mesmo da filmagem - pra diversão dele e desespero da jovem atriz americana, largada no meio da champs-elysées, sem cordão de isolamento, luz, nenhuma maquiagem (pode ser parte do folclore francês, mas diz que.... no fim, ela curtiu).  

  ... tenho pensado muito em passar a tesoura nos cachos, uma radicalização à la jean seberg.

não, não é sobre o livro do faoro. é mais umas das palhaçadas do judiciário brasileiro. leiam no biscoito.

aqui, apenas adiantando o circo, e ajudando a tornar sem efeito, a já absurda medida do juíz joaquim domingos de almeida neto, do 9 juizado especial criminal do rio, que proibiu a divulgação do nome dos seguintes acusados: fernando mattos roiz jr., 19 anos, e luciano filgueiras monteiro, 21.

seu crime: no dia 4 de novembro de 2007, fernando mattos roiz jr., luciano filgueiras monteiro, e outro jovem, menor de idade, "agrediram, usando um extintor de incêndio, um grupo de prostitutas na barra da tijuca".  

segundo o pai de fernando mattos roiz, "nada demais, uma brincadeira de criança". como atear fogo em índios, imagino.

essa é 'nossa' elite econômica, que tem sido e é também 'nossa' elite política e, não raro, se ensaia como (pseudo)cultural, vide a beleza dos esquemas de concessão dos meios de comunicação (se é que isso pode se chamar cultura, enfim).

é o país da piada pronta. piada de mau-gosto.

p.s. as aspas e informações vêm do idelber, o cara do biscoito fino.

à tarde, mostrei porto alegre através do códice:

no olhar da platéia (visivelmente decepcionada): quero meu dinheiro de volta.

resposta (um tanto enfarada): sinto muito, não é selva. nem andamos com araras multicolores no ombro.

réplica (bem inocente): mas é tão... europeu.

tréplica (bem realista): não dá pra se fiar, também…

retomada (por outro ângulo): mas vocês cantam, dançam…

resposta (nula): chegando daqui uma semana em salvador, sim! todo o tempo. sans arrêt!

eu, que além de retinas, leio pensamentos (onde estão as praias, as mulatas e os jogadores de futebol?), não deixei a peteca cair e contra-ataquei na mesma hora: mas porto alegre é legal! tem churrasco, tem mate, tem o brique da redenção, tem gre-nal, ó, ó o futebol!

acabei o domingo sentada numa bela poltrona, minha casa estava aquecida e vazia, o sol era poente, na mão direita, uma taça de chá de pêssego; na esquerda, 'música perdida', do assis brasil. pra contrastar meu momento lady: pata de efefante na vitrola. economia de palavras no texto e nos cômodos. deleite. sim, todos os caminhos me levaram à porto alegre ontem. esqueci uma parada obrigatória, porém, no guichê da 'air france'. merde.

p.s. antes tarde que jamais, o quartier verbeatnik recebe dois chatôs particulares, flavio diário e brigatti, e uma mansão auto-sustentável, faça a sua parte. 

nils udo

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é o nome do alemão que fez isso:

 

nilsudo08.jpg

 

ele integra o land art , movimento artístico nascido em 1968 (mais um aniversário pra lista do idelber) nos estados unidos. o mote era sair dos museus e interagir com a natureza, em lugar de captá-la através de cavaletes, apenas. ligar a arte à vida, uma coisa meio 'ripongagem', mas além dela, aussi. 

 

a obra é fugaz, e a natureza intervém numa (re)criação sucessiva e constante da obra. um conceito de arte numa espiral dialética, digamos. nils udo costuma fotografar a ação do tempo sobre suas criações.

(bem, é verdade que as intervençõe de christo - também parte do movimento, não seguem exatamente esse princípio.)

 

o talento é compor, mas também captar a cor, o contraste. se a obra é efêmera, sua captação a pereniza e a encerra em museus e galerias, sim-senhor. não fossem os registros, dificilmente eu conheceria a obra. eu e 9/12 avos do planeta, porque elas costumam ser feitas em lugares ermos. desertos ainda são lugares ermos..

 

descobri que os ninhos são emblemáticos do artista. mas tem coisas delicadas, como essa, que é muito mais bonita ao vivo:

 Nils-Udo_3.jpg

 

e entrando na espiral capitalista, um vídeo, dele, feito vender perfume francês, mas que é uma pintura:

 

  

merci ao meu lord, edu ernesto, que me apresentou o trabalho de udo e a land art e que me faz tão apaixonada que penso em arruinar minha reputação na universidade e gritar pela janela: te amo! umas vinte e cinco vezes por dia...  

570186_street_musicians_.jpgou seja: always.

paris é um clichesaço e nem precisa ser a datilografa mais charmosa e hepburn do mundo pra saber. tudo, românticos, boêmios, loucos, artistas, vagabundos. estar em paris é promessa  de felicidade. cafés, brasseries, bailarinhas de cancan, croissants, declarações de amor, o rio sena, acordeons pela rua.

um vez la, é quase automatico. mas abriga sutilezas além das evidências. eu e o marido ainda alucinamos toda vez - alucinação de quem tem 30, não mais 20 anos, claro, e muito além das evidências.

me despedi do homem, esse que eu chamo de meu, no charles de gaulle. sai chorando manso pelo aeroporto infinito, mas orgulhosa - a saudade com prazo de validade marcado é incomparavelmente mais estética e facil de suportar. e, como a passagem de volta esta marcada pra janeiro mesmo, logo... !!!

o que não impede de observar, no trem de volta à paris, aqueles que chegam. um casal inglês, de uns 50 anos, verificando mapa, guia da cidade, atentos ao par de malas, cuidando o itinerario do trem e se prometendo, sabe-se la quantos, bordeaux, cafés e lençois parisienses arruinados. ... caminhei pelo sena e pelo marais. paris ficou lotada do meu cavaleiro. ...

vou pra casa escutar "let it be", que ele me deu.