December 2007 Archives

desejo um bom natal e um excelente 2008 pra quem por aqui passar.

bons ventos para todas as destinações e trajetos, mar, açude, riacho, fronteira seca ou imaginária. pois, como disse o filho de cipriano, "as ondas são rasas, mas não significam tristezas".

 

918181_african_children__1.jpg

me aventurei em impressões e representações sobre luiz antonio de assis brasil - o códice e o cinzel:

'douglas captou um elemento importante na obra do assis: o lugar. refiro-me ao sentimento de pertencimento. ao olhar, que, se não é determinado, é pontuado pela localização e pontua a des-localização geográfica. o lugar que tem uma memória, não necessariamente nossa, no sentido de vivenciada, mas que, de alguma maneira, nos (in)forma. (lembro da estética do frio, do vitor ramil, onde ele descreve o pampa com a mesma sensação, malgrado ele nunca ter habitado nesse espaço.)

talvez, porque douglas tenha o sertão em si, tenha captado o pampa do assis.

(...) e a câmera fica no nivel do olhar. não é um filme de plongé, ou contra-plongé - frequente nesses casos.
muito se fala, mas é um filme muito feito de silêncios, contido. revela mais do que mostra, ou conta.
e, a todo momento pensava, se... a mão do cineasta, ou o gênio do escritor. a conclusão é meio óbvia, me pareceu o encontro de duas sensibilidades e - por que, não?, estéticas semelhantes. entretanto isso não é suficiente para explicar o resultado. conclui pela curiosidade, encantamento, generosidade e sensibilidade mútuas.'
  

o cineasta recebeu as impressões entusiasticamente, fiquei contentíssima e agora acho que devo explicações mais elaborados sobre o que eu vi depois. é preciso dizer que ele é um cara encantador e merece laudas e laudas. mas, a pessoa aqui está saindo de férias, tentando deixar uma relativa ordem na universidade, em casa, fazendo mala, e escrevendo o provável penúltimo post do ano. para o amigo.

o negócio é o seguinte, por agora não escreverei sobre marcos vinicios vilaça - o artesão da palavra, nem sobre cipriano. mas preciso dizer que um corpo subterrâneo é do caralho.

brevemente para atirar sua atenção: um roadmovie no sertão do piauí, cujo mote é contar a história das pessoas a partir do seu registro civil de nascimento. mas a bela sacada do cineasta é fazer isso ao inverso. explico: o ponto de partida de cada cidade visitada é o cemitério e a lápide do último falecido. quem conta sua história é a própria família, que, depois, pega 'na câmera' e faz um registro para seu ente querido.

é um filme cheio de gente. de cenas comoventes, divertidas. a d o r e i !

douglas, agora manda h.dobal, um homem particular e o sertãomundo de suassuna, escrevo um livro pra ti!

ps. estarei em paris nos próximos dias. meu cavaleiro chega, e temos saudades oceânicas. fácil de supor, estarei outline no futuro breve.

meu pai, quando leu meus contos publicados: "minha filha, não entendi nada".

é um feedback...

soc_spet.jpg

só pra não perder a deixa. nesse ano faz exatos quarenta anos que o livro de guy debord foi publicado.

estou lendo uma edição pocket de 1996, cujo prefácio é de sua re-edição de 1992 - editora galimard, ou seja, 35 anos après. 

debord esclarece que nenhuma vírgula foi reparada na obra desde sua aparição (ao que eu saiba, ela foi editado pela buchet-chastel, 1967; champ libre, 1971; e pela gallimard, 1992, com inúmeras reedições). ele acrescenta: afinal "não sou alguém que se corrige*." e ainda avisa na contra-capa: "é preciso ler esse livro considerando que ele foi sabidamente escrito com a intenção de atingir (prejudicar) a sociedade o espetáculo. e ele nunca disse nada de escandaloso*."

o que mais impressiona é a capacidade preditiva de algo escrito há quarenta anos, quando os mass media estavam debutando. ok, talvez a euforia do pós-guerra, a efervescência dos trinta gloriosos e as maravilhas prometidas pelo american way of life** permitissem desenhar cenários... mesmo assim. 

 * o arremedo de tradução é meu.

** sobre isso, recomendo o filme "meu tio" (mon oncle), do jacques tati, um confronto sátiro da visão de modernidade francesa, em franca oposição à americana, à la jetsons. 

 

pata_novo_cd.jpg

um olho no fósforo, outro na fagulha é o novo cd da pata de efefante, que é daniel mossmann (guitarra e baixo), gabriel guedes (guitarra/baixo) e gustavo telles (bateria).

dizem por ai que ... "Sonoridade dos anos 60 e 70 como Jimi Hendrix, Cream, Beatles, Bob Dylan, The Who, The Band, Eric Clapton, The Ventures e por compositores de trilhas sonoras para filmes como Henri Mancini e Ênio Morricone". eu digo: é barulho bom, ça suffit!

o meu chega sexta, quentinho, via cavaleiro, e com petit mot do amigo prego, monsieur batera!

crémaillère

| | Comments (5)

o quartier é dos mais bem frequentados, o que deixa essa que vos fala pra lá honrada e toda prosa !

rebatizamos a maison. o projeto, a execução e o transporte da carga, devo ao síndico tiagón, pra quem, agora, eu preciso enviar uma réplica do zeppelin em tamanho natural à título de agradecimento...!

o bazar ainda está um tanto bazar, os gatos ainda nem encontraram seus cantos, mas já estamos recendo as visitas. sintam-se à vontade. façam como chez vous ! ah, os vizinhos são amistosos e recebem muitímo bem.

pormenores

| | Comments (2)
me assalta uma necessidade de falar de calcinhas.
o primeiro e mais abundante tipo, aqui na frança, é a calcinha-latifúndio.
latifúndio é calcinha de vó. e, a julgar pela oferta no comércio, o uso não se restringe às senhôuras em idade mais avançada que já superaram as fraquezas da carne. francamente, não dá...

depois, tem aquilo que, segundo meu marido, não se chama de calcinha, de jeito nehum, é sem-vergonhice. essas costumam ser bem bonitas, mas o tamanho me intriga. em geral, são pequeníssimas derrière, mas muito bem comportadas na chegada. ou seja, o modelo, a cor, o tecido são pra sedução, é, invariavelmente, um fio-dental, mas, na frente, um negócio gigantesco, enfim, pouco condizente.


essa, da foto, é uma calcinha de alta costura que custa apenasmente 295 euros; certamente não estaria na minha cesta de compras.

é o que se encontra correntemente. claro, é possivel encontrar sem-vergonhices-absolutamente-micrométricas, mais conhecidas como coisas-do-demo. mas, tem que bem procurar. bem recompensado, você será!

o problema é que eu não vejo por aqui nossas clássicas calcinhas-tanguinhas. naquele tamanhinho exato pro consumo interno e mega-versátil. 1.) não faz feio se você “precisar” se despir. 2.) e, ainda, é de um tamanho compatível para o detestável período das regras e seus adereços, mais detestáveis ainda.

ainda... elaboro, mas creio, possível e provavelmente, tenha a ver com hábitos em relação à cabeleira pubiana. a depilação francesa mais ousada se chama maillot brésillien. fui conferir: "mas no que consiste, exatamente? mas peraí, eu venho do brasil!" as francesas só riam... enquanto eu morria de saudade da irene - minha santa depiladora.
no fim, a interpretaçao do "brasileiro" é variada, e o serviço custa la peau des fesses - a pele da bunda.

próxima pauta: os absorventes franceses, que não são os mesmos do tempo em que incomodada ficava a sua vó, apenas porque são descartáveis. inveja do tico.

depois de três anos com aquele template azulão básico do blogger, fiz uma reforma na casa. e foi aquele artesanato bárbaro, porque sei tanto de programação quanto de tricô e crochê.
e ela ficou bem bonitinha.

aí, o tiagón, cabeça pensante nessa rede e tal, que me ensinou a assinar o feed (!), e a cada visita chez lui, me faz pensar que a blogosfera é um cidade aprazível, me convidou pra morar no condomínio verbeat!

e eu fiquei toda contente e toda prosa, que a vizinhança é lôca de boa, e quanta honra e tudo mais.
estarei deixando a casa em breve...!

a rosa

| | Comments (0)
acabei de ler "primeiras estórias", do guimarães rosa.

duas coisas.
a primeira e óbvia: fico imaginando as tentativas de assassinato sofridas pelo estilo sertanejo-húngaro-em-latim-oral-impresso, por parte de seus revisores.
segundamente, não nego que me alivia a corrente desnecessidade de re-inventar a prosa.

e junto uma terceira metida coisa: o artesanato do verbo é latente, a leitura exige. mas, o que faz diferença, é um risco-fadiga-meritório.

| | Comments (2)
“Officiellement mon cher Pimenta, tu n’as rien vu”, disse-me Agache após ter feito passar ante meus olhos todos os desenhos, projectos, perspectivas e maquettes, de cujo emmaranhado surge, pouco a pouco, a visão maravilhosa do Rio de Janeiro de amanhã.

Indubitavelmente o plano geral de transformação e desenvolvimento de nossa cidade (...) constituirá um forte e nobre élo entre a geração de hoje e as gerações vindouras, encadeando os sentimentos da nacionalidade, desenvolvendo a consciencia social do povo, fortalecendo enfim a alma brasileira.
Indiscutivel, (...) facil e prever o alento novo que aqui receberá a raça e as fortes e elevadas affirmações de valor que aqui ella dará.

A confiança que o povo brasileiro tem no porvir não nasce portanto da fantasia ou do sentimentalismo senão que se alicerça na razão, nos factos, nos ensinamentos da Historia, na analyse do passado.


um único e solitário neurônio dá conta. algo não saiu conforme o planejado. com o rio de janeiro e com o alento novo, alicerçado na razão, no ensinamento dos fatos e da história e na análise do passado.

essa é a edição do dia 10 de novembro de 1928 da revista, que revolucionou o conceito de revista no brasil, capiteaneada pelo enlouquecido, visionário e tirano: assis chateubriand.
fora o português sáurico que já é um achado (porvir, por exemplo, é uma palavra morta, o que é uma pena, porque é muito útil; já emmaranhado com dois 'emes' é uma tranqueira), no mesmo número, a Éra das Forças Hydraulicas é uma crônica de onde estaríamos nos anos 2000. ler 80 anos retrospectivamente não deixa de ser interessante. especulações sobre a matriz energética, e alguns respingos na organização social. desigual ainda, mas a fome teria sido extinta nos anos 2000.

eu tinha certeza de que viveríamos como os jetsons. pille, exatamente na virada. claro, passar roupa seria atirar camisas dentro de uma máquina... mas isso é do tempo que um aparelho de fac-símilie era do tamanho de uma geladeira e a humanidade era otimista.
algo deu errado, não resisto à idéia de que viemos parar dentro dum filme de jacques tati. mon oncle, claro.
suba até a igreja do nosso senhor do bom fim, ou todas as escadarias da sacre coeur pra ver se não. claro que é premeditado. domingo fiz como reza a cartilha, subi até o monte fourvière, pra ver a basílica de notre damme, no alto da cidade de lyon.

subi as escadarias estreitas da velha lyon, o caminho íngreme até os jardins, e a trilha em zigue-zague ascendente rumo ao céu. a princípio, pensei, pagaria os pecados, se os tivesse. no meio do caminho me assaltou a dúvida, se comer a 8 euros, receber 12 da faculdade, e embolsar 4 euros, se constituiria um pecado...

antes de concluir, cheguei no alto. a igreja é uma falsa construção bizantina – essa colei do meu guia, bem impressionante mesmo. mesmo, as igrejas são feitas pra impressionar. mas depois de córdoba e toledo, o parâmetro fica meio ridículo, mesmo. os padres se superaram lá. a primeira, pela violência, uma catedral com colunas árabes, adeus à maior mesquita construída no sul da espanha, uma aberração arquitetônica emblemática. a segunda, pela beleza gótica, assombrada por gárgulas e torres infinitas.

a vantagem da basílica de fourvière: os telhados de lyon a seus pés e a vista da cidade inteira guardada, ao fundo, pelos alpes, requinte de crueldade: nevados.
pior, a vizinhança: dois anfiteatros romanos, um deles o mais antigo contruído na frança, no ano 15.000 a.c.

pelo sim, pelo não, como estava sem mapa, só rezei pra não me perder nos traboulles – passagens secretas que atravessam quarteirões, e saem... só deus sabe onde.