#SPOILER

conheço quem putaria isso.

pra mim, james cameron mitchell continua sendo um dos poucos gênios tautistas.

pode baixar o filme aqui.

ooOoOoo

em notas relacionadas (cardoso feelings), venho comunicar que o 0800-6669 não se chama mais 0800-6669. daqui em diante e a ver:

não precisa dizer eu também

obrigado, ginger (oportuno: no feminino).

no prelo (quem sabe?), aguardando cronograma da editora.

ooOoOoo

malu, filha, o pai já chega.

romolo

de site novo.

você viu primeiro na baixocalão.

Algo sobre você

*

1. Sobre mim, posso dizer que não tenho amigos imaginários, mas uma irmã gêmea homônima.

2. Mostrei minha irmã gêmea a quem me conhecia e, ao vê-la, quiseram dividi-la em duas. Agi como um verbo oralizado que fugiu correndo (arrastando-a).

3. Ela é minha sombra, meu vinco entre as sombras por onde sombra entra.

Viveu sonhos que a ensinei sonhar enquanto fugia (dela).

4. Mostrei minha irmã gêmea a quem não me conhecia e nos confundiram com siamesas (ou não souberam ver-me ou não souberam vê-la).

.

Enquanto uma perdia seus pais (logo seu filho e mais tarde seu marido), a outra manteve seu amor em uma garrafa (logo a atirou no rio e depois comeu a ilha de Creta).

Foram apenas sonhos. Enquanto a outra comia a ilha de Creta, a primeira engolia uma faca.



**

Minha sombra sempre me persegue rastejando-se e há vezes em que eu queria poder

a) dividi-la em duas (em um poema, em uma leitura) ou dividi-la em três (em um poema, em uma leitura, em uma memória esquecida);

b) sem pensar, andar com cabelo solto e nua por cidades desconhecidas;

c) abandonar minha irmã gêmea nas mãos de familiares, sabendo que a estriparão a punhaladas usando o bom juízo da razão.


Mas me vejo no espelho e a minha sombra. Golpeio e não há nada do outro lado do espelho: é um oceano de vidro. Minha sombra se reflete na parede e na parede minha sombra me reflete. Ouço dizer. "Estou no espelho". Golpeio. Ninguém do outro lado do espelho.


(poema inédito de Amalia Gieschen, em tradução precária minha)

pedrinho e o lobo?

fechando os trabalhos da baixocalão depois de três anos (e pela terceira vez - terá volta?) em grande estilo, guilherme pilla e a exposição "christo não está a passeio".

nem à venda.

obrigado, senhoras e senhores.

pandora

sai da frente do computador
e vai prum puteiro, já
aproveita esse dia de sol

pára de mandar email
bisbilhotar no orkut
abrir arquivo pessoal

antes, sofrer era mais difícil

tinha de andar atrás dos álbuns
dava pra rasgar as fotografias
tinha de atravessar a cidade
pra saber da vida do outro

a gente guardava os poemas
tudo esquecido nas gavetas

hoje, todo crime é premeditado

qual desgraça vem primeiro
qual lembrança, qual impulso
trilha sonora de qual temporada

tudo num só lugar

nem precisa responder
orai e vigiai, mas não recai
não digita mais nada

põe aquela saia rodada que realça tua bunda
calça uma chinelinha rasteira, teu top e sai

(inda taí, sério?
mandando email?)

pelo menos, chora no banheiro
tem espelho; aproveita e lava essa cara

ou, então, vai chorar na cama
abraça o travesseiro e chora
mas chora tudo de uma vez

"eu to na cama"

(malditos portáteis)

onomatopéia

escarrado por um porco
chovinista mutante

(skipping choker pig
em tradução livre)

catarro escorrendo
da testa pelo nariz

boca com nojo do gosto

avulsos

#fail nada
feio mesmo

ooOoOoo

tico
ticoti
contá

ooOoOoo

não se doam mais
como se doíam antes

mercados.jpg

"Entramos aqui em 1933, ano em que abriu o Mercadão. O lanche tinha pouco recheio, visando o lucro, pequeno, já que os preços eram tabelados pela SUNAB. Antigamente, eram servidos sanduíches de salame e copa, na época em que isso era apenas centro de abastecimento e nossos fregueses eram os próprios quitandeiros do Mercado. Lanche rápido, pra servir na hora. Até que, na década de 50, veio a idéia do sanduíche de mortadela - mas ainda com pouco recheio. Em meados da década de 60, essa tabela caiu e, belo dia, um cliente se encostou ao balcão e reclamou da porção - aumenta o preço, mas não aumenta o sanduíche? De brincadeira, fizeram um enorme pra ele, bem adubado. O cliente do lado quis igual. Chamaram os amigos e, de boca em boca, nasceu a tradição".

Quem conta a história é Marco Antônio Loureiro, atual responsável pelo Bar do Mané, estabelecimento que deu origem àquele que é o símbolo-mor do Mercado Municipal de São Paulo e refeição obrigatória para todos que por lá passam pela primeira (segunda, terceira...) vez: o tradicional sanduíche de mortadela - com bastante recheio. Seu avô, Jeremias, veio ao Brasil nas primeiras décadas do Século XX, deixando a família em Portugal. Quando "as coisas estavam arrumadas" por aqui, Jeremias mandou trazer a esposa e os filhos de lá. Entre eles, com apenas oito anos, o pequeno Manuel. Mané, entre os seus. Pai de Marco: "Em 1952, houve o remanejamento dos permissionários dentro do mercado, que setorizou tudo. Foi quando pegamos esse ponto", relembra como se já tivesse então nascido.

As colossais mudanças até que o Mercadão chegasse a como o conhecemos hoje, no entanto, Marco conseguiu nascer a tempo de acompanhar bem de perto - e aprender a usar sua calculadora para computar os números que, passados oitenta e um anos desde o início das obras, em 1928, encheriam os olhos de qualquer imigrante que tenha se aventurado pela Cantareira na época da edificação eclética arquitetada por Ramos de Azevedo: 291 boxes dispostos em 12.600 m² divididos em ruas de A a K; fluxo diário de 350 toneladas de alimentos e 14 a 60 mil pessoas, entre 1600 funcionários; 15 toneladas de lixo coletado seletivamente; 1600 m² do subsolo com fraldário, sanitários e enfermagem, após a reforma. "Instalamos uma máquina de ozônio pra amenizar o cheiro do esgoto", explica Gabriela Vianna, Administradora do Complexo, escadas abaixo, frisando as medidas tomadas para erradicar pragas, ratos e pombos do recinto.

Desde a reforma em 2004 (trinta e um anos após seu tombamento como Patrimônio Histórico da Humanidade), os cuidados foram redobrados para que tudo funcionasse no mais perfeito equilíbrio dentro das entranhas do gigante que dorme apenas duas horas por dia: das 18h às 20h, quando o Mercadão reabre para o atacadão das frutas até o amanhecer, de segunda a segunda, abençoado por Ceres, Deusa da Agricultura, cuja imagem desponta acima dos portões de entrada em harmonia com as 55 obras do vitralista brasileiro de descendência alemã, Conrado Sorgenicht, que circundam e conferem ares de imponência à fachada modernista. Gabriela gosta do que faz. "Cinco dos vitrais são coloridos, sobre os meios de produção agropecuária", adianta-se ao escriba. Parte da rotina.

ABASTECE, TOMBA, TREME, IMPLODE - Antes da reforma, o Mercadão era central de abastecimento - conforme já sabemos por Marco. Dona Nancy Geraldi chegou ao mercado em 1959, com seus pais Giacomo e Adelaide. No começo, tinham uma banca de pão na Rua F. As prestações do atual ponto foram pagas em oito anos. "Ia de bonde pegar a massa fresca. Minha mãe fazia nhoque, canellonni e fusilli pra vender. Hoje, não sobra tempo, é tudo industrializado, os 50 tipos de massa fresca e pré-cozida. O mercado antes da reforma era mais bonito, mais tradicional. Hoje, é ponto turístico".

De lá para cá, mudou o foco. "A (Rua) 25 de Março é que movimenta. Quando está lotada, todos vêm pra comer. O estacionamento não dá pra quem quer". No tombado Complexo da Cantareira de Gabriela, agora, há praça de alimentação no mezanino com oito restaurantes que, em fins-de-semana, têm todos seus 2.000 m² ocupados por turistas e paulistanos da classe média/média-alta/alta, atrás de bacalhau e lichia em pratos sofisticados ou do bom e velho sanduíche de mortadela. Onde era o antigo salão de leilões, agora um salão de eventos. Área de descanso para funcionários que antes ficavam esparramados pelas escadarias. E o Mercado Gourmet, espaço reservado a palestras de gastronomia, com vistas dos altos para o famoso Treme-Treme - Edifício São Vito, "maior cortiço vertical do país", que dá para os fundos do mercado, área de carga e descarga da feira. Nada perto das pequenas infiltrações do lado de dentro, tristeza aos olhos de Gabriela: "Autorização pra fazer reforma em patrimônio tombado é complicado". Quanto ao Treme-Treme, será implodido. Faz-se o que pode.

E quem pode. Os pontos do Mercadão são hereditários, desde os primórdios, o que garantiria a tradição do local, segundo os permissionários das antigas. Quem quiser comprar um ponto, na teoria, apenas por meio de licitação pública. Mas Gabriela conta que "não há vagas, ninguém entrega, é muito lucrativo". Estima-se que o fluxo financeiro diário seja de R$ 12 milhões. É o metro quadrado comercial mais taxado de São Paulo: R$ 267,80 é por quanto sai o POA - Preço de Ocupação por Área, da Prefeitura. Os permissionários ainda pagam uma taxa a sua Associação RENOME, que garante limpeza, segurança e pequenas reparações. Outras tantas, porém, são mais complicadas. "Houve muita troca de dono e os novos estão preocupados somente em ganhar dinheiro. O máximo que se pode ter são duas barracas, mas três pessoas têm mais de trinta, tudo em nome de laranja", um deles revela em off.

mortadela.jpg
o cobiçado sanduíche de mortadela, em cartão postal de cyro josé

EU SOU VOCÊ AMANHÃ - O embate entre tradição e contemporaneidade parece, mesmo, ser o que mais se destaca no universo do Mercadão. Está enraizado em suas colunas, em suas paredes. Chegou com os primeiros aventureiros, os Manuéis de Portugal. Com Manuel da Costa Borges, de Trás-os-Montes, pintor artístico que veio ao Brasil para as obras do Teatro Municipal e acabou ficando. Para criar os filhos, passou a vender cereais e vinho que ele mesmo fazia no Parque Dom Pedro I, onde funcionava o mercado antes da "revolução". "Isso aqui era estoque de armamento", revela Manuel Neto, à frente da Casa Irmãos Borges, no ponto desde 1959. No Mercadão em si, a Família Borges entrou em 1946, quando um amigo do primeiro Manuel voltou para Portugal e lhe deu uma barraca de presente, "pequena, no canto". Hoje, são mais de 1600 itens em cada um dos dois estabelecimentos que toca com seu irmão Walter e o pai, Sebastião: "Estamos na quarta geração. Tradição se adquire com o tempo. Tem gente que não se preocupa em ter um cliente fiel, vendendo um legítimo Bacalhau do Porto, mas só em ganhar dinheiro. Se continuar do jeito que está, a família vai acabar".

Uma pequena correção: "Todo bacalhau vem da Noruega. Brasileiro que fala que é do Porto", retruca Manuela, que ao lado do irmão Marcelo, leva adiante o império construído pelo pai, Manuel Maia Nunes, eleito um dos Reis do Brasil em matéria do Fantástico. Veio de Braga em 1948 para trabalhar em um açougue. Em 1958, comprou a concessão para vender das mais diversas especiarias em seu empório, que fazem par com os 1500 tipos de vinho disponíveis na Adega Rei do Bacalhau.

E como não há, segundo a tradição, nada melhor para acompanhar um bom vinho português do que um bom queijo italiano... da Calabria, na Itália, veio Pedro Talarico, direto para Minas Gerais onde, em 1889, começou a fabricar seu próprio queijo "com o leite bom das montanhas", alerta Roque Bruno Tadeu Peta, cujo apelido de infância dá hoje nome ao estabelecimento de sua família desde 1933: Queijo Roni. De Pedro, passou para Rocco, que passou para Miguel, que pôs o apelido no filho para quem sonhava outro futuro. "Caí aqui pelas mãos do destino. Sou formado em Engenharia Civil. Mas meu pai faleceu em 1990, então tive que assumir", relembra Roni. A logística aprendida na Academia, no entanto, acabou sendo útil para os negócios e, atualmente, a fábrica da família produz "uma das melhores manteigas do país". A quem duvida, Roni convida para uma visita ao que chama de cozinha experimental com degustação, às quintas e sextas. "Não podemos deixar o Mercadão virar fastfood".

Há quem realmente se preocupe com a alimentação, afinal. Prova disto é o empório orgânico Família Mendonça, apesar de estar no Mercado Municipal há apenas um ano e meio. Tempo o suficiente para ter de reduzir os produtos orgânicos para 80% de seu estoque, segundo o proprietário Fábio Luiz: "Quem vem ao Mercado, quer comprar bacalhau, azeite. O lado bom é que, quem preza pelo orgânico e faz uma pesquisa na internet, sempre encontra a gente e vem aqui". Um excelente diferencial, um plus em tempos de hábitos alimentares saudáveis cada vez mais valorizados no mercado. Como disse Gabriela, "todo mundo aqui fornece para os grandes restaurantes".

DO JECA AO JUCA - Um tanto por conta disso, inclusive, devem-se os primeiros assanhamentos dos empresários da noite para os lados do Mercado Municipal. Entendida que só ela, Gabriela traz Adoniran Barbosa à memória, e seu eterno Trem das Onze, que saía das proximidades e então atraía os donos de restaurantes para o local. Outra faceta interessante do Mercadão, por sinal: os laços culturais para além da arquitetura e vitrais. Geraldo Vandré e Tinoco, por exemplo, são freqüentadores ilustres do Empório Cruzília, fundado em 1948, por José Moreira de Almeida, vindo da Serra de Ibitipoca. Na década de 90, os filhos abriram uma fábrica de queijos para abastecer a loja, na também mineira Cruzília. O sucesso nas paradas culinárias foi tamanho, que a indústria acabou crescendo mais do que o estabelecimento comercial, dando margem a projetos culturais como a idéia de um documentário sobre Mazzaropi, o mais brasileiro dos paulistanos, eterno Jeca Tatu.

O embate entre tradição e contemporaneidade, porém, entra em cena novamente aqui. Quase impossível encontrar alguém que não tenha ouvido falar na Barraca do Juca - cujo proprietário, na verdade, chama-se Pedro Pereira da Cruz. Juca era a personagem de Tony Ramos, dono fictício do ponto em "A Próxima Vítima", novela que deu fama a então anônima Frutícola 13 de Maio. "A televisão acabou trazendo sua audiência pra barraca. Até estrangeiro vem e tira foto pra levar pra fora", Pedro se permite a um sorriso, ainda marcado pelo tempo em que era empregado no Mercadão, puxando carrinhos e descarregando caminhões desde 1970, até ser dono da própria barraca. "A gente sofreu aqui. Ganhava pouco, não podia nem tomar café, não sobrava dinheiro".

O SORRISO É POR CONTA DA CASA - A alegria tardou, sim. Mas, no fim das contas, acabou chegando para todos. José Gaspar também começou no Mercadão como empregado, aos 13 anos. Corria o ano de 1979. Seu pai, Antônio, era açougueiro. Apostou nos suínos e abriu a Irmãos Gaspar. José, com o tempo, achou necessário investir em um leque maior de ofertas e abocanhou a concorrente, Porco Feliz, diversificando o cardápio da família. "Jacaré, capivara, cateto, queixada, avestruz, javali. É tudo legal", garante para terminar a conversa com uma confissão: o nome é uma homenagem ao Palmeiras, time de coração do antigo dono. José é corintiano. Mas não deixa de sorrir por causa disso.

Apesar de não sorrir tanto quanto Leonardo Chiappetta ao mostrar, orgulhoso, sua fotografia com o Rei da Dinamarca comendo bolinhos de bacalhau com frutas secas brasileiras no empório que leva o nome da família, registrada na passagem de Harald V por São Paulo, em 2003. Ou o lugar exato onde tudo começou ali no Mercadão, em 1933, logo atrás da registradora. Antes, o Empório Chiappetta ficava no Mercadinho São João, onde hoje é a Praça do Correio. Mais precisamente, desde 1908, quando Carlo, o avô de Leonardo, veio da Calabria, aos 19 anos. "C é de Chiappetta, aqui tem uma fortificação do Sul da Itália, peixes e as uvas do vinho", Leonardo faz questão de interpretar o brasão do estabelecimento, refazendo os primeiros passos da família. "Cento e um anos de Trabalho, Qualidade e Honra". O avô Carlo veio sozinho, mas voltou à Itália para casar com sua pretendida. Teve de retornar ao Brasil, deixando sua mulher grávida de um filho, Carmine, que só conheceu o pai em 1936, quando também veio para São Paulo com a mãe. "Meu pai era colega de classe do Mané, pai do Marco!", Leonardo se empolga, oferecendo uma dose de sorvete e sorrisos por conta da casa. Uma eterna criança em seu seio familiar. Mas respeitando os bons costumes, sempre: "Não pode fumar, desculpa. Hoje, é lei em qualquer prédio público", chama a atenção de um cliente, meio sem jeito. "Não queria falar nada, mas..." como que se justificando pelos tempos pós-modernos alheios.

(Gelson dos Santos, por exemplo, proprietário há 13 anos do único ponto que permanece em sua área original desde 1933, a Charutaria Bruno, também nada pôde dizer, uma vez que a ANVISA não permite propaganda de tabaco senão em publicações especializadas no assunto)

Tempos bem diferentes daqueles em que Manuel Loureiro, o Mané, ficou preso em cima do balcão de seu bar durante a enchente de 1964, esperando que os bombeiros o salvassem. Mané faleceu em 2005, ano seguinte à reforma do Mercadão. "Nosso maior orgulho é que a gente tem história pra contar", Marco encerra a entrevista puxando seu sobrinho para si, próxima geração.

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texto (sem cortes) encomendado, tão logo cheguei a são paulo, pro livro Mercados do Brasil, com fotografia de Cyro José e publicado pela editora Autêntica.