recentes do tiagón
pelo line-up, é 1978 mesmo, ou no máximo começo de 1979.
Rainbow é uma banda mágica, usando um clichê multilateral - já que se trata de um encontro entre Ritchie Blackmore e Dio.
que Blackmore é um dos três gênios da guitarra dos últimos 40 anos, você já sabe.
e sobre Dio, se tem alguma dúvida, sugiro audição CUIDADOSA ao que faz o então jovem duende no vídeo acima. que até posso testemunhar, de próprio ouvido ao vivo já duas vezes e a última há três anos, que Ronald Padavona faz pensar em BOTOX VOCÁLICO.
sobre o disco, do link acima:
Long Live Rock n Roll was the last Dio era Rainbow album recorded. By this time, Blackmore and Dio had different visions musically. Blackmore wanted to sell out and start playing radio friendly love songs like the bands Foreigner and Boston were doing at the time. Ronnie wanted to keep playing his style of music, which was about dragons, wizards, kings, and all of that good stuff. Despite Blackmore's adamant objections to this musical direction of the band, Long Live Rock n Roll turned out to be an outstanding album. Song highlights include Gates of Babylon, Long Live Rock n Roll, Lady of the Lake, and the lightning-fast Kill the King. There is only one love song on the album, and it's called Rainbow Eyes. This song was probably Blackmore's idea. Rainbow Eyes is the only love song that Ronnie has sung since 1978. He sings about women sometimes, but not like a lovesick teenager.
com propriedade, não? sim, Lady of the Lake é fantástica, mas a melhor do álbum - solo de 1'10 e a melhor linha de baixo do hard rock - é The Shed.
vida curta: os três primeiros discos, foi o que durou a parceria.
talvez o suficiente, como tudo que Blackmore e Dio fazem.
mas quem está reclamando?
Rainbow '75-78: MAIOR registro da verdadeira e grandiosa alma do hard rock.
é o suficiente.

Da clarabóia de pé-direito alto caía um sol ameno de fim de tarde, ressaltando tons de madeira nos instrumentos do palco. No centro dele, uma jovem de compleição frágil e pés descalços mantinha uma platéia de duzentas pessoas estática. As harmônicas da viola de gamba literalmente enchendo o átrio do Santander Cultural; às vezes na forma de sobreposições, noutras no simples reverb da nota entrando em repouso. A apresentação de Cécile Schott, codinome COLLEEN, domingo passado, foi quase solene.
"Show" talvez não seja a palavra mais apropriada; melhor apresentação. O modus operandi de Cécile - sampling totalmente ao vivo, em pedais - acentua uma característica de recriação, antes de reprodução. Cécile dedilha uma frase no violão, ou uma linha de clarinete, ou mesmo uma única nota da viola de gamba, e grava. Passa para a frase seguinte, grava. Assim segue a progressão das músicas, e se em certos momentos há improviso, muitas vezes os reencontramos numa frase ali adiante, misturando-se à base, que cresce de forma avassaladora e plena - quem fecha os olhos, quase pode se imaginar no meio de uma orquestra fazendo jam de post-rock. A técnica foi desenvolvida durante a sua primeira turnê, quando preferiu fazer sampling ao vivo a utilizar um notebook, e logo se tornou a tônica principal do trabalho. (No disco de estréia, Cécile usou samples de vinil, altamente modificados.)
O set, de uma hora, foi todo baseado no seu último disco, Les Ondes Silencieuses (2007) - incluindo "Serpentine", faixa que consta apenas na edição japonesa do álbum. Nos ouvidos, música difícil de categorizar, que tem no rótulo "electronica" apenas um breve recurso técnico (além do processo em si, apenas outro pedal de delay), que se aproxima do ambient pela criação de atmosferas, e que é evidentemente experimental. Talvez seja o caso de lembrar que chamamos aqueles que fazem o que Cécile faz de artistas; e ela faça simplesmente arte, arte musical abstrata. Músicos que trabalham no mesmo estilo, como Pan American ou Loscil, são mais sintéticos; e mesmo os que usam cordas na gênese, como Aidan Baker ou Marsen Jules, não têm um trabalho de pesquisa com esse refinamento. De toda forma, se você seguiu o texto até aqui e não conhece o som de Collen, o mais indicado é ir até o site, escutar seus discos em streaming e torcer que o raio caia no lugar duas vezes e ela volte ao Brasil.
Cécile falou pouco; apresentou sua viola de gamba (um 'mini'-cello de sete cordas, com trastes) e até pediu licença à platéia para assoar o nariz - culpa do clima na passagem por São Paulo, ela justificou. No palco, parecia mais tímida do que no contato depois da apresentação; sorria e meneava a cabeça, gestos pequenos, já arrumando os pedais e começando a próxima música sob a torrente de aplausos. Ao voltar para a faixa de 12 minutos do bis, parecia até surpresa. Na breve conversa que tive com ela, contou que não conseguiu perceber se a platéia estava realmente gostando do que ouvia, e que tinha estranhado tocar na presença do sol - porque sente a sua música como mais noturna. De fato, aquela hora de melodias de leve melancolia, com ápices tão poderosos, sente-se em casa durante a noite. Mas as harmonias desse leitora de Proust, que em sua temática e sensibilidade evocam a passagem do tempo, combinaram perfeitamente com o pôr-do-sol, as notas graves do arco lentas, tornando-se rarefeitas, dissipando-se.
fotos: Rene Cabrales/Divulgação • leia também esta resenha de Marcelo Firpo •
• wiki • site oficial • myspace • momento fã •
na curta e criativa discografia do Cave In -- com exceção de Antenna --, uma marca registrada são as misturas entre rock alternativo/garage e sludge/hardcore numa mesma faixa (como em "Trepanning"). pelo que se vê nos projetos paralelos à banda, fica claro que Steve Brodsky é o responsável pelas passagens mais emocore, e Caleb Scofield, quem puxa pro lado mais pesado. e pelos resultados, fica evidente quem tem mais força para vencer no páreo dos novos frontes.
não apenas isso; o ZOZOBRA é uma das melhores bandas que surgiram no cenário ultimamente. nem bem é uma banda; Caleb toca baixo e todas as muitas guitarras em camadas. teve Santos Montano na bateria em Harmonic Tremors, o primeiro disco; e neste Bird of Prey, traz Aaron Harris, do Isis -- que também faz a mixagem, com excelente resultado. dois anos, dois álbuns esmagadores, repletos de fuzz e de afinações baixas, peso nas cordas e o melhor: riffs memoráveis. Caleb, que nunca teve espaço para suas próprias músicas no Cave In ou no Old Man Gloom (o pretensioso supergrupo de post-metal de Aaron Turner, frontman do Isis e da gravadora cult Hydra Head), se consolida como um grande riffmaster, calcado obviamente no doom de Iommi e seguindo a linha que se ouve em bandas como Cathedral e Crowbar. ou seja: groove e certas melodias que parecem ter vindo dos anos 60.
os 30 minutos de Bird of Prey são encaixotados num tijolo. a proposta é simples: verso sludgecore com o baixo proeminente, distorção por todos os lados. nos refrões e nas arestas, um riff pontuado fascinante, talvez uma segunda voz (também de Caleb) limpa por trás do berro rouco de ordem. como no sludge e no post-metal, é pesado, mas não demais; geralmente no sentido do hardcore, e não do death metal. faz-se denso também pela equalização quase toda grave e média -- o pantâno do sludge: os poucos picos do medidor para os agudos ficam para algumas linhas de segunda guitarra, solinhos ou mesmo finais de acordes no meio da parede de guitarras. faixas como "Heavy with Shadows" são assim. coloque os fones e vá contando as cordas. acchilles last stand amordaçado em estática de fuzz. é o mesmo com "Emanate", o petardo demolidor de abertura, e "In Jet Streams" - com direito a um puta riff fantástico no pre-chorus. há faixas mais cadenciadas, caso de "Treacherous", em 3/4 e com trabalho de guitarra simples e viciante, e a épica "Sharks that Circle" - provavelmente a melhor do disco. também pelo efeito após "Big Needles", a intro que a precede: uma nuvem de distorção, feedback e buzz sortidos que acabam por culminar numa estrondosa torrente de baixo galopante, riffs muito graves e refrão grudento. as músicas mais lentas são "Hearless Enemy" e "Laser Eyes", outra viagem de noise introdutório seguido por riff épico. depois de meia hora, a sensação é de ter comido um xis. tijolo. compacto, sem firula, muita crocância e maionese. refeição completa.
se no primeiro disco havia maior variação de andamentos e temas, Bird of Prey traz uma grande boa nova: identidade. este Zozobra continua os melhores momentos do primeiro disco -- "Kill and Crush", "The Vast Expanse", "Caldera" --, os melhora, dá coesão e energia. talvez se pudesse dizer que Caleb percebeu o potencial que tinha; parou de pensar "num projeto paralelo aí" e decidiu dar o melhor de si nas composições. ao mesmo tempo, já li review dizendo que o disco não é de todo memorável. ou seja, exatamente o oposto do que eu penso. mas depois de 40 audições, eu continuo tendo certeza que esse é um dos discos que eu vou levar de 2008 comigo.
• stream do disco completo • myspace • wiki •
às vezes uma banda impressiona pela capacidade de criar canções fascinantes, com certo requinte técnico, e ainda assim andar muito próxima da popularidade mainstream. o THE GATHERING trilhou esse caminho, embora não tenha estourado. por falta de uma estrutura mais sólida e de um cocheiro com maior presença a conduzi-los, arrisco.
surgida na cidade de Oss, interior da Holanda, em seus dois primeiros discos praticou doom/death tradicional - voltando-se mais tarde para um rock-às-vezes-brevemente-metálico. tocando sempre mid-tempo ou lento, e com ênfase crescente no clima; evoluindo lentamente atmosferas que seriam progressivas, não fossem despretensiosas. há também um componente gótico na mistura, revelada por uma certa melancolia, pela preferência às melodias belas e tristes.
embora bons instrumentistas, os integrantes do The Gathering empalidecem diante da presença de Anneke von Giersbergen. a garota com voz de soprano e timbre inesquecível juntou-se à banda em 1994, e seu primeiro disco foi o terceiro do grupo. sua presença garantiu um contrato imediato com a Century Media, e os anos seguintes seriam de consagração e boas turnês pela Europa e EUA. Mandylion (95), Nighttime Birds (97), How to Measure a Planet (98) e if_then_else (00) venderam 400 mil cópias.
perdendo integrantes, cansados da rotina de escrever na estrada e pressionados pela gravadora, o The Gathering foi murchando aos poucos; tornando-se esparso, menos inspirado, mais isolado dentro de seu próprio selo (o Psychonaut, que durou muito pouco). seus últimos dois álbuns passaram praticamente despercebidos. no ano passado Anneke pediu as contas e foi batalhar em seu AGUA DE ANNIQUE - um projeto de soft-rock que vem recebendo atenção e (merecidas) boas críticas.
o The Gathering continua vivo, embora sem sua garota a comandar o microfone, preveja-se um futuro difícil. Anneke, ao contrário, parece recomeçar - e com gosto - aos 35 anos. continua com a voz perfeitamente afinada, e o feeling está mais eficiente (ao contrário do começo, quando a emocionalidade ficava escondida sob técnica impecável). aí embaixo você confere "The May Song", faixa de Nighttime Birds, extraída do dvd In Motion, de 2002. se não conhece, prepare-se para derreter aos agudos carinhosos de Anneke.
• site oficial • agua de annique • encyclopaedia metallum • wiki
jóias da família: Sabbath em compacto duplo de 1975. é do meu padrinho - o cara que me ensinou que havia música lá fora - e hoje está sob custódia de um primo. essa bolachinha traz o single - a faixa-título - e a instrumental Fluff, além de Paranoid e outra instrumental, Rat Salad.
Sabbath Bloody Sabbath é um disco que por pouco não existiu. depois de uma temporada frustrada na Record Plant de Los Angeles (com o abuso de drogas e álcool, não conseguiam terminar qualquer música), o quarteto voltou à Inglaterra e se instalou no castelo de Clearwall, em Gloucestershire - condado mais conhecido pelas competições de cheese rolling. à procura de inspiração, a banda resolveu compor e ensaiar nas masmorras do castelo. lá surgiram então os primeiros acordes da faixa título, seu riff, ela mesma completa, e então todo o disco - um dos mais importantes momentos da história do hard rock e do metal. e também o apogeu do Black Sabbath - depois disso, sua trajetória seria oscilante.
esse marco da música está próximo de completar 25 anos: foi lançado em 1° de dezembro de 1973. como acontece com obras de alto calibre, os riffs continuam atuais e de genialidade incomparada. o baixo segue ímpar em seu terreno, Ward demonstrava farto crescimento técnico e Ozzy vivia o auge da loucura - o que, em se tratando de Ozzy, é excelente.
abaixo, vocês ouvem Sabbath Bloody Sabbath - "o riff que salvou a banda", nas palavras de Tony Iommi. as imagens são da época.
Nobody will ever let you know
When you ask the reasons why
They just tell you that youre on your own
Fill your head all full of lies
seguindo a trilha de Renmero Rodriguez e Bruno Cardoso, tomo o Impop de assalto (convocando o Tinoco) pra cometer a listinha de destaques dos primeiros seis meses do ano.
ano que tem sido GENEROSO, como há muito não se via. pelo menos às minhas esferas auditivas.
donde, sem classificação, seguem-se dez:
• SOILENT GREEN, Inevitable Collapse In The Presence Of Conviction
New Orleans é um capítulo à parte no metal, e esses caras ficam cada vez melhores. é o som peculiar de praxe, com a criatividade de composições de sempre: a efetiva e marcante mistura de sludge, death, grind e melodias/levadinhas doom metal, generoso nas mudanças de andamento. e o cheiro da origem, claro. vocalista novo é bom mas falta um pouco de entrosamento, no entanto.
• NORTT, Galgenfriest
eta resvalão no clichê, mas que disco GELADO esse - do obscuro dinamarquês conhecido como Nortt. no rótulo vem descrição, que é soma: depressive funeral atmospheric doom metal. valia um drone aí no meio. tipo Sun O))) que é primo do Drudkh. as músicas são absurdamente lentas e chegam a dark ambient num piscar de olhos.
• ANIMAL STYLE, Gameboy Madrigals
madrigal, wiki: a type of secular vocal music composition, written during the Renaissance and early Baroque eras. Throughout most of its history it was polyphonic and unaccompanied by instruments, with the number of voices varying from two to eight, but most frequently three to six. The earliest examples of the genre date from Italy in the 1520s, and while the center of madrigal production remained in Italy, madrigals were also written in England and Germany, especially late in the 16th and early in the 17th centuries.
agora mistura com chiptunes - música criada em videogames de baixa geração.
é. e o artista oferece.
• KORPIKLAANI, Korven Kuningas
não gosto dos outros discos dos finlandeses do Korpiklaani. nem gosto muito de folk metal, pra falar a verdade. mas esse Korven Kuningas é genial. não é apenas viking folclórico, com seus instrumentos típicos, de pedir cerveja em taverna; é um trabalho muito acima da média em termos de composição. na simplicidade das canções, espaço para melodias e acompanhamentos quase big band. fora isso, eu sigo escutando Kipumylly viciosamente e esperando enjoar. tô no limiar da dúvida do fato. (Suden Joiku, que se segue no tracklist, é quase isso.)
• ABORTED, Strychnine.213
a crítica tem apontado como um posicionamento do Aborted direção ao público deathcore, do lado mainstream. eu, lendo purismo underground demais - afinal, segue sendo um disco de brutal/tech death metal -, acho ótimo. os outros discos dos belgas do Aborted são mais brutais, mas muito menos inspirados - e isso é o que conta. faixas memoráveis e um disco redondo e bem produzido. dobradinha The Chyme Congeries (melhor refrão do metal esse ano) e A Murmer in Decrepit Wits (com direito a sample intro à cybergrind) é absolutamente matadora.
• MARCELO BIRCK, Timbres Não Mentem Jamais
tem pra streaming no site oficial. oito anos de espera para o novo do bruxo avant-garde jovem-guasca portoalegrense - com valia. grande, psicodélico, experimental, inteligente, fundamental álbum do rock gaúcho. e grandes letras. (alô cidade, tem show no Ocidente quinta!)
• OCOAI, Breatherman
das recentes bandas do sludge/post-metal, é das mais promissoras. é lento, lembra por momentos Pelican e Isis, em outros evoca a aura do death/doom dos 90. as tintas de blues ficam pela raiz do Tennessee. raro e valoroso disco de estréia que mostra maturidade nas composições, controle técnico e produção de primeira linha.
• MADE OUT OF BABIES, The Ruiner
os anglo-saxões tem uma palavra boa, sem tradução decente em Português: "fresh". Made Out of Babies faz (e é) um tipo de metal que não se ouvia nem se ouve a não ser o dela mesma. 85% responsabilidade da vocalista e atriz principal, Julie Christmas. esse álbum, menos selvagem mas não menos agressivo, mostra um amadurecimento da banda - que ainda não sei se é de todo positivo (o disco é recente). mas ainda assim, um trabalho de personalidade e coragem ímpares. além de uma puta sonzeira, óbvio.
• HOUR OF PENANCE, The Vile Conception
escrevi assim, numa comunidade do last.fm: There's a point when brutal death becomes just *so beautiful*. This is one example. Has been sitting (along with Disgorge) on the top of my wake-up playlist. Track Absence of Truth is incredible. ouvindo, jamais se diz que os caras são italianos. nos ouvidos, machadada pra tudo quanto é lado.
• ANTLERS, S/T
caiu de pára-quedas semana passada. me conquistou imediatamente. não sabia que se fazia música assim ainda - math rock, post rock, delícias crocantes de guitarra. nenhuma informação a não ser no last.fm: a group of Richmond/DC musicians from bands such as Mass Movement of the Moth, Gregor Samsa, Resonance, and Olive Tree. The band plays melodic primarily instrumental mathy tunes that might remind you of bands like Don Cab, Ghost and Vodka, and June of 44.. bah, brilhante.
e olha, sobraram alguns discos aqui - como a estréia do Kingdom of Sorrow, o EP do Death of Her Money, os novos do Monolith Deathcult, Emeth e Textures, e outros. alguns daqui vão pra lista do fim do ano. e que ele siga gordo e repleto de vitórias.
tem uma lista parecida? deixa ela aí nos comentários!
não da forma de "horror" que você pode estar pensando; não há monstros ou fantasia ou zumbis. o que há, sim, é uma atmosfera tão pesada, tão densa, que transcende o próprio peso sonoro. comparação fácil à parte - nunca ouvi nada tão próximo a um pesadelo. e eu, que posso ser ninado com Morbid Angel numa boa, penso duas vezes antes de escutar esse disco - porque eu sei que ele vai interferir diretamente no meu humor e na maneira como me sinto e me percebo no mundo.
o BATTLE OF MICE é a reunião de Josh Graham (Neurosis, ex-Red Sparrowes) e Julie Christmas (do fantástico Made Out of Babies). num show no SXSW, cada um com sua banda, conheceram-se e imediatamente se odiaram. colegas de Neurot Recordings, numa turnê sucessiva repensaram a postura e descobriram amor e sexo. pode parecer uma informação cretina, mas é importante para entender o disco: no final das sessões de A Day of Nights, os dois não se aturavam - ao ponto de se recusarem a gravar juntos. tanta tensão, ódio e uísque resultaram numa obra perturbadora, e incrivelmente bem-sucedida musicalmente.
By the time the sixth song, "Cave of Spleen", was recorded, Julie and Josh couldn't bear to be in the same room together. As such, the guitars and vocals were completed on different days; the vocals in one take, with no pre-written lyrics. (...) The sonic philosophy of the band reflects a huge, primal range of emotion: Love, lust, jealousy, whiskey, and blind rage, Julie explains. And while it might be pointed out that whiskey is not necessarily a clinically-recognized human emotion, it is unlikely that anyone will misunderstand the implications of its inclusion after hearing Battle of Mice. battleofmice.com
O disco, lançado em 2006, foi considerado o segundo melhor do ano pela Decibel Magazine - logo atrás de Blood Mountain, do Mastodon. definitivamente metálico, rotulado como post-metal da mesma forma em que criaram o post-hardcore: é mais do que sua base, mas ainda sem um nome específico. sem dúvida sludge - riffs lentos, graves, sujos e ultradistorcidos - mas escapa da fácil classificação pelo vocal maníaco de Julie. em momentos com a aura infantil de Björk, noutros como um gárgula vicioso berrando os pulmões pra fora, ela domina a cena. o envoltório de guitarras lhe cai bem e é inspirado, mas muito difícil não relegá-lo a moldura. como em sua banda de origem, Julie não canta, nem interpreta; se automutila nas letras enigmáticas. fascinante e visceral são adjetivos instantâneos.
hipnótico, A Day of Nights é um disco suicida - um relacionamento onde os dois enforcam-se para produzir "o melhor trabalho das suas vidas", nas palavras da vocalista. faixa a faixa, se morre e mata pela sua voz em atmosferas distintas: "The Lamb and the Labrador" é soturna em suas pausas cortantes, ameaçadora nos riffs. a aterradora "Bones in the Water" é o que considero um dos momentos mais pesados do metal, numa sucessão opressora de tons que vão se elevando para romper a barreira da sanidade. "Sleep and Dream" é uma quase-pausa em lento 4 por 4, ritmo de contador de histórias narrando um cão-besta ameaça iminente, para um final simplesmente épico várias oitavas acima na garganta de Julie. "Salt Bridge" e "Wrapped in Plain" seguem cadenciadas, e vão tornando-se mais sombrias e tristes; num ponto em que as guitarras parecem ir cansando da batalha. o retorno da demência vem logo no início de "At the Base of the Giant's Throat", de batida vigorosa e alternância de vocal limpo e guinchos; no seu final, uma gravação para o 911 faz do ouvinte voyeur de alguma desgraça. (eu escutei a primeira, talvez a segunda vez; agora, sempre passo adiante quando chega nesse ponto.) A última faixa, "Cave of Spleen", surge lenta e deprimida do sample anterior, para dar lugar a mais riffs tensos e vocais esquizóides. o peso, aqui como em todo o disco, vem no timbre e nos riffs menores, nas pausas agoniadas, na claustrofobia da voz de Julie enterrada no lodaçal criado por Josh Graham. são 45 minutos marcantes, pegajosos, e que não permitem ao ouvinte sair ileso. diferente de um disco de metal extremo, que exige tímpanos e músculos, A Day of Nights exaure psiquicamente.
se na indústria da música tudo é mercadoria, Battle of Mice entrega até mais honestidade do que deveria. e é exatamente por isso que é um disco tão marcante.
"I will not attack Josh's character in print, but I can't say anything nice at the moment either," says Christmas. "I can only tell you what a fucked-up and vicious irony it is to be doing some of the best work of your life with someone who is [so] far different from you or anything you ever want to be or be around. (...) Just about the only thing that we do agree on is how important the project is. Doing everything possible to make sure it gets off the ground and continues to be productive musically, is of the utmost importance. I think we both know what's ahead of us. Being in a band means spending time together and we'll figure it out one way or the other to keep going with Battle of Mice." decibelmag
a banda encontra-se em hiato, mas em seu site, promete novos álbuns para o futuro. em entrevista para o Brooklyn Vegan (?!), Graham afirma que neste ano deve sair um split com Jarboe, duas novas músicas. seu público aguarda, ansiado e temeroso como um adolescente dos anos 80 ao alugar um novo Faces da Morte.
site oficial • myspace • neurot recordings • wiki • metal archives •
a wikipedia diz que é post-rock; a pitchfork prefere modern chamber music with an indie rock sensibility. tem quem goste de post-classical, o que é meio grandiloqüente. RACHEL's flutua por esses lugares todos, e ainda coloca um pouco de field recordings e experimenta, ou seja, cabe como uma luva em nosso tão querido avant-garde.
a escalação dos instrumentos vem assim:
Jason Noble - guitar, bass, and sampler
Rachel Grimes - piano, harpsichord, organ
Christian Frederickson - viola and laptop
Edward Grimes - drums, vibraphone, sampler
Greg King - films and keyboards
Eve Miller - cello
e não raro, tocam com mais cordas e instrumentos orquestrais. projeto um-dia paralelo e logo depois solo de Jason Noble, do RODAN, já fizeram shows em museus, bibliotecas e inferninhos. com suas muitas camadas de texturas, em certos momentos provocam curiosidade; em outros, é simplemente belo. há alternância de sonoridades entre canções (e entre discos); embora gostem de criar avalanches de notas rápidas, também trabalham muito com tempos quase parando, ambient, rarefeitos. e sempre com riqueza: um trabalho minimalista de composição acaba sutil diante do resultado.
apesar disso, as canções de Rachel's não são brancas, ou mera trilha sonora. elas são provocantes e muitas vezes despertam inquietude. geralmente trabalhando conceitualmente seus álbuns, trazem temas como as grandes cidades e a vida moderna (quase sempre de forma instrumental - raras são faixas com vocal). cada música tem grande evolução própria, que acaba costurando-se no todo do disco - principalmente em Selenography e Systems/Layers, os mais notáveis entre os seis (mais um split com o MATMOS) lançados entre 1995 e 2005.
atualmente, a banda está em hiato, e seus integrantes dedicam-se a outros projetos.
num extremo, se tem o ultraeconômico kit de bateria do rock - bumbo, caixa, chimbal, surdo, dois tom-tons e dois pratos - se muito. se for punk, tira dois itens, e o resto está em péssimo estado.
no outro - o do metal progressivo, existem verdadeiros TAJ MAHAL de latinhas cromadas como este HUMILDE drum kit de Mike Portnoy, baterista do Dream Theater.
na primeira olhada, dá vontade de vomitar. é um exagero desnecessário, como um cachorro cravejado de diamantes ou acender charutos usando pequenas civilizações como fogo.
mas aí vai ver o cara tocar, né.
e aí? show off ou caprichos de quem tem técnica - e grana?
pra mim, é o meia que fica sambando com a bola minuto e meio na frente do marcador, dá um balãozinho e sai fazendo o drible da foca - aos 43 minutos do segundo tempo de uma partida sendo vencida por seis a zero, com a torcida gritando olé. toca muito, mas ficou desnecessário. e ao contrário de um grande jogada de futebol - brega.
mas então se descobre que isso é só metade do caminho.
se Terry Bozzio não fosse o músico histórico (cof *Frank Zappa* cof) que é, ia dizer que era impotente.
CINCO bumbos?
post de sexta-feira baixando a mão do peso em favor de riffs garageiros e inteligentes.
indie rock? meu problema com as tags "indie" [e, em certa medida, "emo"] não são de caráter preconceituoso. o que eu não não gosto é de atitude blasé com a música. deixo a (terrível) estética de lado, porque essa conexão eu não faço, escuto com os ouvidos, e se não me vale, descarto o derredor. mas se tu quer que eu ouça a tua banda, bicho, é melhor botar vontade nisso aí que tu tá fazendo.
é o que se chama, no futebol gaúcho, de "pegada". time tem que ter pegada, e banda de rock também. é evidente que só isso não basta; os rótulos acima são abrangentes e neles cabem desde acefalia 4x4 a distorções e experimentalismos à alt/noise/math.
resumo da ópera? escute com o pisca-alerta ligado e cuide quando usam a palavra "folk". e ao encontrar uma banda boa o suficiente, se na dúvida, chame de POST-HARDCORE. que foi a forma (absolutamente impopular) encontrada pelos nerds musicais de plantão para diferenciar indie, emo e screamo de pop rock mainstream.

mais introdução que conteúdo, mas finalmente chegando ao objeto de culto: durou apenas um ano, a trajetória do grande KID KILOWATT. chamado de supergrupo - mas também, hoje em dia tudo que é projeto paralelo misturando duas ou mais bandas é supergrupo -, fato é que reuniram-se metade do CAVE IN (Stephen Brodsky e Adam McGrath), um pedaço do CONVERGE (Kurt Ballou), Aaron Stewart do PIEBALD e mais um batera local. conte aí três guitarras e um baixo. isso era 1996, o Cave In era sludge metal, o Converge puro math/hardcore, e este projeto paralelo, uma elegia à GIANT'S CHAIR - ou, nas palavras de Brodsky, "our little softie rock outlet from the metal of Cave In". resenha no scenepointblank faz uma boa relação com At the Drive-In - embora o Kid seja bem menos performático, e mais amistoso.
poucos shows e gravações esparsas, a banda foi aposentada em 1997. no ano seguinte, os integrantes resolveram gravar todo o material que tinham, e aproveitaram pra compor mais três faixas. e em 2004 (!) a Hydra Head lançou Guitar Method, disco-debut-compilação-póstuma da banda.
resultado: mais culto, mais reverências, e um grande, belo, instigante álbum de indie rock. daqueles que fazem o rótulo brilhar, enquanto gente maquiada se preocupa mais com a roupa do show do que com os riffs. o vocal descolado e limpo de Brodsky não deixa dúvida de que estamos em terreno melódico, e as linhas de guitarra, como é de se esperar, dominam as composições. dissonâncias e toques de noise completam o cardápio e o resultado é tão cativante quanto raro.
raro bem à feição da cena alternativa gringa da segunda metade dos 90, onde músicos trocavam de banda e colaboravam entre si como quem pega mais uma cerveja, lançando projetos corajosos, de vanguarda e efêmeros, destinados a permanecerem locais e durarem alguns soluços.
até que houve a internet, claro.
mp3: the scope • bicycle song
wiki • @cave-in.net • resenha @tufts observer
é [quase] sempre engraçado quando o metal extremo sai do underground e dá um passeio pelo mainstream.
um comercial de tevê britânico para o disco novo do Deicide, então, é pérola.
será que vende?
e por que não venderia, né?
ok, o background rápido: uma vez houve uma banda chamada Prisão de Ventre, que era ou foi ser quase uma pré-Graforréia Xilarmônica. e depois as coisas não fecharam muito e Marcelo Birck deixou a banda aos auspícios de Frank Jorge, enquanto estudava e explorava música no Aristóteles de Ananias Jr., Os Atonais e, finalmente solo.
Ié-Ié-Ié do Oiapoque ao Chuí
quem já ouviu a Graforréia, sabe: jovem guarda, bailão, nonsense, regionalismo, noise dodecafônico; mistura que fez dela a banda mais importante do RS na década de 90. Birck, compositor, puxava o trem do experimentalismo. nos projetos pós-GX, deixou isso bem claro - até culminar na obra-prima homônima lançada em 2000, um disco onde psicodelia e colagens desafiaram tudo o que havia feito até então. em Marcelo Birck, o rock sessentista ultrapassou o limite do experimental para tornar-se desafiador. disco que vai ser escavado daqui a uns anos e apontado importante como algum dos Mutantes, genial explorador perdido da música brasileira, não sei como é que esse cara não ficou rico no Japão ainda etc.
depois de oito anos entre shows, participações em convescotes graforréicos, gravações e provavelmente outras coisas, Birck lançou em março Timbres Não Mentem Jamais. como se poderia esperar, é uma continuação domesticada e mais polida do primeiro. na produção e mixagem, notadamente; as composições seguem lisérgicas, mas ganharam um outro fiel da balança na dose de experimentalismo. se o primeiro é marcado por um tom garageiro e agressivo, este é mais macio e amistoso; porém sem abandonar o espírito anti-pasteurizante de complicar e inverter singelos acordes. uma das técnicas recorrentes são as sobreposições desencontradas de trechos da música - usadas magistralmente neste disco. faixas como "Ouça esta Canção" e "Fluidez Borbulhante" (principalmente) são bons exemplos: temas simples e melódicos que vão emaranhando-se em harmonias trançadas e hipnóticas - colocando psych-heads como Jupiter Maçã num lugar bem mais modesto. há também temas velozes e dissonantes, e as vinhetas cibernéticas de praxe. o som de Marcelo Birck é um banquete de rock cerebral. uma jornada arriscada e gratificante.
e que faz todo o rock brasileiro se orgulhar, e enrubescer.
Tricicloscópio
• site oficial • myspace • blog •
se a pergunta é "o que surgiu de melhor no metal extremo até este momento do ano*",
a resposta é http://impop.muxtape.com/!
01 Ihsahn - Unhealer 6'18
O NOVO DISCO DO EX-VOCALISTA DO EMPEROR CONTA COM BAIXO E BATERIA DO VENERADO SPIRAL ARCHITECT. NESTA FAIXA, PARTICIPAÇÃO DE MIKAEL AKERFELDT, DO OPETH
02 Textures - Old Days Born Anew 5'36
TEM CHEIRO DE MESHUGGAH E COR DE MESHUGGAH, MAS É MAIS PROG E, ATUALMENTE, BEM MAIS INSPIRADO
03 Aborted - The Chyme Congeries 3'46
OS AÇOUGUEIROS BELGAS VÃO LANÇAR SEU MELHOR DISCO ESTE ANO, E SERÃO PROMOVIDOS AO PRIMEIRO TIME DO DEATH/GRIND. PRIMEIRO CANDIDATO A MELHOR DE 2008
04 Hour of Penance - Absence of Truth 3'09
RARA BANDA ITALIANA QUE NÃO FAZ METAL ÉPICO, PARA ALEGRIA DE TODOS OS POVOS. MASSA SONORA BRUTAL/TECHNICAL PERTURBADORA
05 Emeth - Anochi Kofer 4'02
OUTRA BANDA BELGA QUE VEM GANHANDO DESTAQUE NA CENA BRUTAL DEATH; TELESIS, O TERCEIRO, É O DISCO MELHOR PRODUZIDO E ESCRITO. NAS CERCANIAS DO SLAM DEATH E CHEIO DE PRETENSÕES
06 The Monolith Deathcult - Demigod 6'34
MISTURANDO DESTRUIÇÃO COMPLETA E PROFANAÇÕES A ELEMENTOS ATMOSFÉRICOS, OS HOLANDESES DO TMD BOTAM TUDO ABAIXO E MERECEM MAIOR DESTAQUE NO CENÁRIO A PARTIR DE TRIVMVIRATE
07 Abacinate - Negating the Omnipotence of your So Called Man in the Sky 4'14
EXCELENTE ESTRÉIA! MIXA TECH DEATH, THRASH, GRIND E HARDCORE, COM BOA DOSE DE GORE E SAMPLES DE FILMES OBSCUROS. INVENÇÃO DE MODA ONDE O RESULTADO NÃO DECEPCIONA
08 Arsis - My Oath to Madness 3'54
UM DOS MAIS AGUARDADOS DO ANO, WE ARE THE NIGHTMARE NÃO É O DISCO MAIS INSPIRADO DO ARSIS - MAS TUDO QUE SE ESPERA DA BANDA ESTÁ LÁ: MELODEATH À AT THE GATES COM VOCAL RASGADO E RIFFS NEOCLÁSSICOS
09 Hateform - As God As 5'00
DO DEATH/THRASH FINLANDÊS, OUTRA ESTRÉIA IMPRESSIONANTE! COMPOSIÇÕES FANTÁSTICAS, GUITARREIRA FUZILANTE E MIXAGEM OLD SCHOOL SÃO ELEMENTOS DE DOMINANCE, DISCO QUE NÃO DEVERIA ESTAR PASSANDO DESPERCEBIDO NA CENA
10 Asphyxia (AUS) - Defiled 2'31
DAS MUITAS COM ESSE NOME, ESTA É A ESTREANTE AUSTRALIANA. TECHNICAL DEATH CADENCIADO E GROOVY COM LINHAS DE BAIXO BRILHANTES E VOCAL VARIANDO ENTRE O RAW E O GROWL. BASTANTE PROMISSORA
11 Netherworld - Frozen Divinity 7'16
DRONE BÔNUS PARA SEUS OUVIDOS; FECHANDO COM O AMBIENT DO ONE-MAN PROJECT NETHERWORLD, MAIS CONHECIDO PELO SELO "GLACIAL MOVEMENTS" E QUE LANÇOU UM BELÍSSIMO SPLIT COLLAB COM O NADJA, MAGMA TO ICE
sem medo de errar: 2008 já é muito melhor para o metal do que o ano passado. escute a mixtape aqui. and rejoice.
____________________________
*contém leaks
nas noites em que eu não quero ouvir nada específico e o shuffle fica me sacaneando com porcaria (ou insistindo pateticamente em Alice in Chains ou Megadeth, que ele adora), um dos coringas dourados é Wes Montgomery.
se acontecer por aí também, quebre a vidraça com o vídeo abaixo. Full House não é só o meu tema preferido - é um dos riffs mais memoráveis do jazz.
do tipo, se isso não te cativar, cara - é melhor começar a se preocupar.
[e pra quem toca guitarra, bônus: quero ver tu fazer metade disso aí tudo com o DEDÃO que nem o gênio.]
muito esperado, e chegou há minutos no loadown, no death metal invasion e no lestat. faltam alguns dias pro lançamento oficial.
ouça. profane. vença.




