recentes do tiagón
sim, o inverno está próximo; mas na verdade, "Autumn Leaves" não se trata do outono que vai nos deixando. apesar do possível trocadilho na tradução, o standard do jazz tem uma carreira anterior -- como chanson. "Les Feuilles Mortes" surgiu da adaptação de um poema do surrealista Jacques Prévert, feita por ele mesmo para um filme noir em 1946. a temática da película (e também recorrente do autor) é a Paris pós-Segunda Guerra.
Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux oů nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brűlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.
se observamos esta interpretação de Yves Montand, é clara a tristeza na melodia; canção que evoca saudades, lamento, um tango europeu. nesse clima foi cantada por Johnny Mercer (e mais tarde Nat King Cole (et alii)), que levou a faixa para os EUA em 1949 e a traduziu para o inglês -- suavizando as folhas mortas do título como apenas outonais.
essa foi apenas a primeira das mutações; à medida em que outras leituras foram surgindo, o intuito original começou a se desprender. em 1955, o pianista Roger Williams vendeu um milhão de cópias com sua grandiloquente versão instrumental/orquestrada (preview), popularizando a música com o topo das paradas. começou a ser ouvida durante as jam sessions nos pubs de jazz; em 58, Miles Davis foi sideman de luxo na gravação de um arranjo de Cannonball Adderley -- que embora inclua uma introdução cheia de groove (e grandes solos de sopro, claro), não fez mais do que dar algum swing à mesma linha melódica.
a desconstrução nuclear, e final solidificação no songbook do jazz, aconteceu em dezembro do ano seguinte, com a gravação quase avant-garde de Bill Evans.
no vídeo que abre este post, o que ouvimos não é apenas um bop veloz, alegre; em certos momentos é quase outra música -- responsabilidade do estilo "cheio de notas" de Evans, que, francamente, comia jazz com cereal no café da manhã. nas gravações de Portrait in Jazz, Scott LaFaro; na apresentação acima, já dos anos 60, o porto-riquenho Eddie Gomez é quem debulha o contrabaixo com seus solos demolidores (provavelmente contrariando a crença de alguns colegas por aí). mais tarde essa se tornaria a leitura mais repetida do standard; upbeat and swingin'.
que o diga a versão de Stanley Jordan para duas guitarras simultâneas, 387bpm e ombreira tripla. (embora Charnett Moffett não faça um solo de contrabaixo tão doentio como o de Gomez, não duvidar; a precisão e velocidade são de derrubar o queixo ouvido.)
folhas mortas caem, o outono vai nos deixando, chansons d'amour tornam-se improvisos tocados à heroína, o ciclo continua etc. outro inverno chega e, entre as coisas a aproveitar, é que entramos na melhor estação para se ouvir jazz.
clique play antes de ler. senão é arroz sem feijão. nem bife. quiçá fritas.
(e se você no feed não vê um player aí em cima, bom motivo pra visitar o blog ^^)
de uma trança feita em canção
Yib-iab-bapapa-baba-bou-ba-bara
Baraba-bapa-na-nu-da-dee-da-lade-la
Estou sentado. No sofá da minha sala. Olhando para o nada. As pernas abertas, os antebraços apoiados nas coxas. As costas no sofá; não inclinadas para a frente, como fosse mover-me; mas jogado. Inerte. O cérebro ocupado demais em seu vácuo repleto de eletricidade. Dentes cerrados. Nos ouvidos, zumbido, enquanto ouço Ella Fitzgerald cantar Blue Skies.
Blue skies
Smiling at me
Nothing but blue skies
Do I see
Se os fatos simplesmente são, e porque são já foram, não posso evitar obcecar-me pelo instante em que o fio se rompe. O momento exato do abandono. Primeiro o quando em que ela decidiu deixar-me. E depois o quando em que ela colocou o plano em prática. O instante em que perpendiculares retomam sua sina de paralelas. Cabos soltos, sem tensão, sem energia. Como o varal que arrebentei ontem ao pendurar as roupas. A corda de náilon trançada que foi ficando puída no aro atarraxado à parede e de final de semana em final de semana teve um milímetro desgastado e assim com o passar do tempo fibra por fibra vai soltando e cortando até que resta apenas uma linha fina azul onde eu pendurei o lençol de malha também azul também puída pela última vez e então tudo ao chão e eu como que compreendendo a ironia da metáfora deixei tudo jogado no piso imundo. Se é pra romper-se, que seja sujo e derrotado; a lama se lava. Não há maneira honrada de levar-se um soco no rim.
Dab-dun-de-rum-de-roo-de-raw
Bee-dabadadu-dararoo-da-bee-doo
Fios negros. Há fios negros por todos os lados. Smiling at me. Querendo fundir-se ao carpete. No piso da cozinha. Caminho pela casa contando quantos vejo. São dezenas. No banheiro. Na pia. No ralo do chuveiro. Na cama. Nos travesseiros. São centenas. Nas minhas roupas jogadas pelo chão. No meu pescoço. Na meu abdômen. No meu peito. São milhares. Nas panelas, nas colheres e no saleiro. Entre as páginas do jornal não-lido de hoje. Nas frestas das janelas. Subindo pelas paredes, crescendo do teto, amalgamando-se às teias de aranha. Na minha boca e nos meus dentes. Fios negros encaracolados por dentro do meu corpo. Entre os dedos dos meus pés. Brigando por lugar com minhas sobrancelhas.
Num post-it amarelo que serviu como único veículo da despedida: "...de recordação, os meus cabelos espalhados pela casa".
Never saw the sun
Shinin' so bright
Never saw things
Goin' so right
Os cabelos dela. Espalhados pela casa. Ella canta alegre a partida. Ela deve estar sorrindo. Blue skies smiling at her. Deve ter ido embora feliz. Deixando-me aqui com a roupa suja e seus cabelos negros. Ella cantarola em escárnio. De-doo-dee-doo-de-roo-de-doo-de-daw. O destaque de capa do jornal não-lido de hoje que repousa inerme sobre a mesa comemora algo sobre o Dia da Mulher. Quão adequado. Um por um - recolho os fios numa caixa. Tão frágeis e tão firmes. Pinicando minhas mãos. Aquieto-me trançando-os. Coloco Blue Skies para tocar outra vez.
Blue days
All of them gone
Blue days, all them to come.
~.~
texto de 2005 para um projeto (naufragado) de historiografia ficcional do jazz.
dentro deste conceito, não deixe de conhecer o mojo books

SHAMBLING BANDS foi o termo utilizado pelo mestre John Peel. "To shamble", andar arrastando os pés, como uma criança com o roupão da mãe andando sonolenta pela casa - é cena infantil como eram as letras destas bandas do início dos 80, prosaica (e por isso cativante) como suas melodias.
Anos mais tarde, o rótulo evoluiria para TWEE - já declaradamente apossado de elementos folk e levando a sério a proposta de candura e simplicidade. São características que associam-se de forma invariável ao imaginário hippie flower-power make-love-not-war - e se estivermos tratando de um grupo com ONZE integrantes, a imagem fica bastante adequada.
Não, o HOTEL SANTA CLARA não viaja pelo Brasil numa Kombi 72 fazendo shows em descampados por um prato de comida; as semelhanças terminam aí. Com embrião em novembro de 2007, a banda foi evoluindo até adotar a estética "bee our guest": não apenas literalmente abrir espaço para novas sonoridades/integrantes/instrumentos como já também escancarar a proposta cute (assista a este clipe e compreenda). Tanta receptividade resultou na atual formação: Laura, Bêra, Pablo e Rapha, vocais; Ricardo e Rodrigo, guitarras; Achutti, baixo; Ressel, teclado; Gautier, trompete; Felipe, bateria; Pato, violino. O primeiro EP deve sair ainda em 2009 - mas já se pode escutar quatro faixas no myspace do HSC - ou até arriscar um backyard collection honesto (e de apropriado clima jam session).
Com chicletes de ouvido de alta aderência entre as composições (livre-se de "Witty Song") e comparada pelo jornal Zero Hora à Belle & Sebastian, as canções do Hotel Santa Clara foram colocadas à prova por quatro convidados de Impop:
Thiago Aldurin, professor e folk freak
Sons como o do Hotel Santa Clara podem ser efetivos na tentativa de descomplicar o mundo. As melodias leves, mesmo quando acompanhadas de letras fortes, cativam e tiram um pouco de visgo dos problemas do dia-a-dia. A banda não exagera nas semelhanças com suas referências de indie rock-com-muita-gente, como Belle & Sebastian e I'm From Barcelona. As músicas incluem a vontade de bater palmas e as letras, que têm o gancho para se inspirarem em temáticas comuns, sintonizam a "tradição" desse tipo de indie rock. Aliás, é preciso ressaltar que os meninos acertam em cheio na escolha do nome - sem descambar para a ironia insossa de algumas bandas que se pretendem "descoladinhas". Aqui temos, certamente, uma banda a ser acompanhada.Gustavo Brigatti, jornalista de cultura e ouvinte compulsivo
A música do Hotel Santa Clara é o que se convencionou chamar de "música fofa". E, bom, é isso mesmo. Melodiosa e cantando em inglês, a banda lembra muito o finado quinteto paulistano Maybees (hoje conhecido por Ludov) - incluindo aí o vocal feminino na medida para lullabies. Que são a base das composições do grupo, diga-se de passagem.
Mas acredito não caberem aqui comparações. Tampouco discorrer sobre influências, veio daqui, vai pra lá, essas coisas. Isso pelo simples fato de que a sensação de déjà vu é tão dominante que melhor mesmo é apenas botar os fones de ouvido, relaxar e aproveitar. E, olha - tá de bom tamanho.Olivia Maia, escritora e twee girl
Se Belle & Sebastian é influência da banda Hotel Santa Clara, me parece influência superada. Ainda a graça de se contar histórias, mas as músicas são um pouco mais variadas em estilo, assim, de música pra música. Talvez porque seja o de se esperar, em banda com tanto integrante (ou). Mas é ponto pra eles. Vá ouvir Fitting Silhouettes e Witty Song. Não que a banda seja algo de novo genial original e revolucionário. Não é. De olhar as tags da banda no last.fm a gente já sabe o que esperar: "indie pop" com "folk" e "twee", e é isso mesmo que você leva, com músicas mais ou menos saltitantes, mais ou menos pop. Em uma ou outra música eles dão umas escapadas, e dá pra imaginar o grupo enorme achando graça em variar as influências e as misturas e tentar qualquer coisa mais inesperada. E no final das contas a música é boa. Boa de ouvir e prestar atenção nas letras pra pegar os detalhes e o inevitável sotaque. Pra jogar no iPod e abstrair o trânsito maldito de São Paulo (por essa eles não esperavam).
Daniela Hinerasky, jornalista e insider
Thank you Sorocaba*
Não sou isenta pra falar da HSC porque sou amiga de parte do pessoal jovem da banda. Também sou suspeita porque gosto do estilo "indie-folk" deles. Pra mim o mais bacana é a música bem-humorada e despretensiosa com claras - e declaradas - referências de grupos consagrados dos quais são fãs, como Belle & Sebastian. "Uma delicinha" de som, eu diria - me apropriando do jeito todo mimoso da Laura estilosa Madalosso, a voz feminina da banda, que nos shows arrebata a platéia com o sorriso tímido e a voz girlie.
Nada é pouco para o HSC - são 11 integrantes, diferentes instrumentos, vários vocalistas, inspirações e experimentos. Mas não chegam nem perto do over porque este é o conceito: entre (e hospede-se) se quiser, "just for fun".
"Feel free to 'bee our guest'!", sorriem. Então, sinta-se à vontade no Myspace, ou no Trama Virtual, onde dá pra baixar todas as composições deles e ouça tu mesmo. O convite é nosso!*um agradecimento em tom de brincadeira que o vocalista (Bera) faz na demo "Samba do Desavisado", como se estivessem fazendo show em Sorocaba. HSC ainda vai hospedar o Brasil inteiro.

5+1 PERGUNTAS PARA HOTEL SANTA CLARA
Contatada para uma breve entrevista por e-mail, a vocalista Laura não fugiu ao conceito e encaminhou as respostas avisando: "São onze criaturas discutindo, dando pitacos, e taí o compilado de tudo. Sendo assim, definitivamente é a entidade coletiva em peso".
1. Como fica o processo de composição, com tantos integrantes na banda - e ainda por cima em um estilo onde a introspecção é uma característica? Pergunta de Gustavo Brigatti
Cada um é livre pra escrever e compôr à sua medida, sem pressa, sem pressão, sem molde neste ou naquele estilo. Há um certo consenso não-planejado sobre letras, composições e arranjos. E, à medida que eles vão sendo criados, vão sendo trazidos à tona para audição dos outros. Ninguém veta nada. Apenas escolhemos dentro desse consenso o que será lapidado até chegar a ser gravado ou tocado em show; essa etapa é mais coletiva. Também, nem todos escrevem ou compõem, e cada música tem um pouco - ou muito - de quem a fez. É ótimo.
2. No myspace, vocês falam em "have fun", em receber novos músicos na banda, sempre com um tom descontraído. Em que ponto o HSC passou de diversão pra ser uma empreitada mais séria, profissional?
Nunca deixou ou deixará de ser diversão. Esse é o mote principal. Quando um não puder olhar mais pra cara do outro, falar uma merda bem grande e rirmos disso, não vai ter mais tesão. Mas acho que foi quando do nosso segundo show, final do ano passado, que nos rendeu uma tirinha no jornal local (Zero Hora) e pessoas fora do nosso círculo de amigos começaram a prestar atenção no que fazíamos. Ainda estamos muito dentro desse processo, amadurecendo, aprendendo, errando, construindo nossa sonoridade, nossa imagem, nosso espaço dentro da ebulição musical à nossa volta.
3. Vocês são comparados a Belle & Sebastian, mas moram no país da Malu Magalhães. País tropical (outra estética), jovem menina sendo referência nacional pro estilo - é bom ou ruim? E ainda: vocês percebem uma cena indie/folk no Brasil, ou apenas iniciativas (bandas/músicos) raras e isoladas?
Nosso estilo não é folk por essência. Temos alguma coisa, em algumas composições, mas não dá pra dizer que esse é nosso referencial. A Mallu em si não incomoda muito. O que chateia é a enorme projeção de alguns poucos músicos e bandas enquanto centenas de outros artistas que fazem tão bem quanto - ou melhor - não têm o menos incentivo dos meios pesados e das majors. Mesmo sem esse incentivo as coisas acontecem, muito pela acessibilidade da internet; rolam sim movimentos de estilos - inclusive indie/folk - pipocando com qualidade em alguns cantos do Brasil. E, de novo, a internet - muito através das redes sociais - trata de minimizar os isolamentos geográficos, trazendo tudo pra esfera do ambiente virtual. Sem isso, vocês aí do blog provavelmente não teriam chegado a nós.
4. Tem um EP chegando. É independente? Vocês tem planos de fazer alguma tour, e nesse caso... já compraram um ônibus (de dois andares?) Como fica a parte de planejar uma banda com um grupo tão numeroso de integrantes?
1. Sim, é independende. Além disso, caseiro.
2. Temos planos de divulgar o trabalho em outras cidades e estados, claro. Não sabemos ainda se em forma de tour ou em shows isolados. Tocamos em São Paulo em março e surgiu convite pra voltarmos no meio do ano. Além de Sampa, queremos muito fazer show em Curitiba, onde temos bandas parecidas com a Hotel, e interior do RS. Mas, por hora, vamos dar um tempinho com os shows até terminarmos o EP. Todos temos compromissos externos à banda, e tudo junto não funciona. Por isso, por partes, a gente vai fazendo nossa história dar certo.
3. Essa é uma parte bem complicada. Exige muita logística pelo que falei acima: cada um tem suas atividades pessoais. Uns têm mais tempo flexível que outros, mas rola muito respeito nesse aspecto; se um não pode ir ao ensaio, beleza. Dá-se um jeito sempre. Somos 11, mas cada um é tão importante quanto o outro. Por isso, show, se um não puder, preferimos não fazer.
Saírmos pra tour de 1 mês tocando direto não acontecerá nunca, provavelmente. O que pode rolar é uma mini-tour de um feriado.
5. Ainda sobre o grande grupo. Tem alguma sonoridade ainda faltando no HSC? Que no ensaio alguém diga "pô, podia ter um vibrafone ou uma zabumba aí"?
Isso acontece direto - xilofones, ukeleles, trombones, flautas, casiotones e outros instrumentos legais seriam todos bem-vindos! Não que esteja fazendo falta, mas estamos sempre brincando com sonoridades novas.
+ Bônus: numa mixtape com o clima "a cor e o som do HSC", quais seriam as onze faixas escolhidas?
01 Belle & Sebastian - Like Dylan in the Movies (Bêra)
02 The Beatles - Here Comes the Sun (Rodrigo)
03 Tilly and the Wall - I Always Knew (Rapha)
04 I'm from Barcelona - Treehouse (Achutti)
05 Iron & Wine - Cinder and Smoke (Pablo)
06 Soko - Dandy Cowboys (Laura)
07 Radiohead - Paranoid Android (Ressel)
08 Acid House Kings - Say Yes if You Love Me (Gauti)
09 Of Montreal - When You're Loved Like You Are (Ricardo)
10 The Smiths - Cemetery Gates (Pato)
11 Wilco - Impossible Germany (Felipe)
Veredito Impop: confira antes e acompanhe de perto a trajetória. Para ser banda "promissora", hoje em dia, basta ser competente; mas junte a isso um raro carisma musical coletivo, e você tem uma banda para curtir e torcer.
• Hotel Santa Clara //myspace • //tramavirtual • //twitter •
tem uma banda incipiente e arrisca tomar pedrada no review? escreva para blogs arr ^ oba verbeat.org com um endereço de internet que contenha arquivos mp3. o critério para o que é ou não "impop" pode ser altamente subjetivo e sujeito a rejeição sumária dos autores. fora isso, arrisque!
Eu não entendo de música. Faço minhas viagens musicais, apenas, e são ultra-pessoais. Mas fui inspirada a escrever sobre. O que me inspirou para tal crime ao impop foi este texto compartilhado pelo Tiagón no seu GReader. Vindo do PQP Bach, falava da fase de música orquestral de Frank Zappa; mais exatamente, do célebre London Symphony Orchestra (que eu adoro, diga-se de passagem).
Impossível falar em Frank Zappa sem citar sua ironia e crítica a absolutamente tudo que passava por sua vida - e algumas vezes tenho a impressão de que essa era a forma que ele achava de mostrar algo de valor às pessoas: ironizando. Das músicas do início de sua carreira, com Mothers of Invention - que culminaram no delicioso We're only in it for the money, de 1968, uma crítica clara ao flower-power álbum de 1967 Sargent Pepper's, dos Beatles; ao The Yellow Shark, último disco de composições dele lançado em 1993, meses antes de sua morte em dezembro - lembro de ler no obituário da Veja sobre o fato.
The Yellow Shark é uma compilação de músicas da sua carreira tocadas pela orquestra alemã Ensemble Modern, na época uma das poucas a valorizar o experimentalismo zappônico. Mas para entender o impacto musical de Yellow Shark, é necessário relembrar Jazz from Hell (1986), ou pelo menos uma faixa do disco: "G-spot tornado".
Jazz from Hell é o ápice do experimentalismo de Zappa com o synclavier, um sintetizador onde ele gerava composições as mais tresloucadas sem uso de nenhum instrumento e as executava ao belprazer. Era o "instrumento" perfeito para o seu cérebro super-criativo e fervilhante de ideias. Jazz from Hell é o jazz livre feito por uma máquina - o modo Zappa de criticar o free jazz, talvez.
"G-spot tornado", com sua levada frenética, fecha o disco e deixa o ouvinte meio que ao fim de uma luta quase sexual com o som: a música termina em pleno clímax. De acordo com o próprio Zappa, "G-spot tornado" era impossível de ser tocada por um ser humano. E foi por causa dessa afirmação que The Yellow Shark virou uma obra singular.
O festival de Frankfurt decidiu homenagear Frank Zappa em suas apresentações de 1992. Para tal, a orquestra Ensemble Modern escolheu, junto à Zappa, as músicas a serem tocadas - cuja apresentação em Frankfurt, uma das poucas que Zappa pôde participar, finaliza com "G-spot tornado" conduzida pelo próprio Zappa. Um clássico para fãs. Para as apresentações de The Yellow Shark pela Ensemble Modern, Zappa exigiu que os instrumentos da orquestra tivessem amplificação como uma banda de rock, o que torna a sonoridade muito peculiar. É o que dá amplitude magnífica a "Outrage at Valdez", por exemplo. Cabe ainda destacar "Welcome to United States", cuja letra nada mais é que o antigo formulário da imigração americana para pedido de vistos, interpretado da maneira Zappa de ser. :D
Mas é um Zappa nitidamente emocionado, num senso de êxtase calmo, a imagem que fica do The Yellow Shark (e por isso a capa é simbólica ao extremo): sua música "intocável" havia sido tocada por um bando de humanos. Suas composições haviam passado finalmente de devaneios da sua cabeça mirabolante para a História da música. Zappa podia descansar em paz.
P.S.: Se eu tivesse que escolher 3 discos pra levar pra uma ilha deserta, Yellow Shark seria um deles.
P.S.2: Agradeço ao grande Gabriel por atiçar meu interesse inicial pela música de Zappa, e pelas incansáveis horas de som zappônico que me forneceu ao longo da vida.
@luciamalla me chamou no twitter, "vamos fazer uma resenha conjunta do yellow shark do frank zappa?" e eu antes de dizer que não sei nada de shark zappa já tô topando e dizendo que claro!
Zappa rock eu já ouvi suficiente pra saber dos humores e do gênio, mas ao perceber que Yellow Shark era uma obra sinfônica, pensei: FUTZ. porque nunca havia imaginado Zappa com orquestra e é dessa ordem dos bloqueios que surgem para preservar a sanidade. fui honesto e: Lucia, teu texto está incrível, eu não tenho o que fazer nesse post. "crime ao impop" ela disse ali em cima - que bobagem, falando com tanta propriedade da peça, Zappa-maníaca quase se desculpando - e por quê? mas insistiu e eu combinei que ia ficar de mão com ela durante o passeio pelo impop, então,
consideração sobre o avant-garde de frank zappa interpretado por orquestra:
FRITEX, baby. fritex.
veja você que eu sei do que Zappa é capaz em estúdio. mas em orquestra é diferente. é, provavelmente, o avant-garde do avant-garde do avant-garde. e eu me pego hipnotizado por faixas como "Dog Breath Variations" ou "Outrage At Valdez", e depois perturbado por "The Girl In The Magnesium Dress" e "Times Beach III". eu sei que fãs e ouvidos mais eruditos podem tirar universos de composições como essas, mas aqui é onde eu digo: BICHO, me perdi.
todo mundo tem suas limitações.
eu chego no prog metal e no math rock de andamentos MAIS quebrados; mas botou uma orquestra - ainda mais sob comando ZAPPA - e sou eu quem tô quebrado.
ouvi o disco na primeira vez com esforço, vivendo dualidade: tendo grande satisfação em certos momentos, noutros inquietação extrema e desejo urgente de pular a faixa. como em "Get Whitey", por exemplo; aparentemente serena e melódica, mas permeada de instrumentos e notas foras de lugar, ameaçadores. na segunda vez, mais confortável, mas ainda assim com grande vontade de "editar" o disco. é esse o momento em que o fã pula da cadeira e sai gritando impropérios, e calma aí que possivelmente te dê razão; não vou julgar por técnica ou forma, mas por linguagem. a ironia vanguardista de zappa é um inegável legado da música moderna, o que não significa que nós nos comuniquemos bem. nosso tradutor ainda não calibrou por completo.
não há dúvida sobre o que Zappa criou. só não sei bem como (e se) vou chegar lá.
enquanto isso, coleciono algumas músicas. e cultivo um desafio.
• site oficial •
é o JAPÃO.
o amigo headbanger sabe:
conhecer uma garota que goste de metal E seja bonita é uma bênção.
conhecer uma garota que goste de metal extremo E seja bonita é tipo MEGASSENA.
e uma garota bonita fazendo metal extremo era uma espécie jamais identificada nesse miasma de torpor fétido a que chamamos Terra.
ATÉ AGORA.
sim, você suspirou por Anneke von Giersbergen. aguentou o metal simplezinho de Cristina Scabbia (até ela virar -core e fazer dueto vergonhoso com Mustaine). quis achar Angela Gossow gata, suspirou (comigo) por Julie Xmas - mas é outra praia metálica. você pode até falar em The Donnas ou - bah! - L7.
mas BABES no metal extremo - death, grindcore, GROWL, e com tanta competência - ainda não tinha pintado.
e é exatamente por isso que há JOIO e JÚBILO ao descobrir Galmet e FID. respectivamente
a primeira pro lado do death, rolando um groove meio post-thrash; a segunda no grindcore sanguíneo. ambas fazendo uma barulheira fenomenal E eficiente.
além de apuro ESTÉTICO.

e ainda por cima de CINCO cordas. marry me Sawa!!!111
perversões à parte, é excelente ver mulheres entrando na cena de metal extremo. já há muito presentes no gueto gótico-metálico, porém ARISCAS a iniciativas mais agressivas. o Japão, outra vez, é a única maneira de romper um paradigma (com uma britadeira). e proporcionar magricelas tendo momentos de cookie monster tão eficientes como um jovem Barney Greenway.
fizessem um hardcorezinho meia-boca e esse post não haveria. mas demolindo TUDO - como vocês puderam notar -, impop só tem a celebrar o trabalho pioneiro destas garotas.
LONGA VIDA. longa vida ao underground. e em especial às baixistas de metal.
obrigado a Truk por FID. imagens de Galmet: thanks metaladies.com
• galmet @myspace • galmet @metaladies • mais vídeos de galmet @youtube • FID official • FID @msypace •
roubando da categoria @oprimo de "coisas excelentes demais para não ganharem um post"
três velhinhos nonagenários tomando café da manhã e comentando duas faixas - uma do Beirut e outra do Sepultura.
Ann, além de chata, não entende picas. já os caras são ótimos. certamente tomaria uma ou DOZE cervejas com eles.
velhinhos no metal VENCEM.
a fim de evitar o uso infame demonstrado no título acima, llamamos IMPOP SESSIONS a mistura de podcast e mixtape que - tiagón y rênmero - criamos.
A VOS.
com o intuito de compartilhar não apenas nossas escavações preferidas como também o papinho brabo entre elas. mas se não formos nós a fazer esse trabalho, quem o fará? ok, talvez nem seja necessário mas - rolou porque era a pilha, e ficou bacana, e vai ter mais.
a não ser que vocês nos IMPEÇAM.
pero aí já terão escutado, e o nosso objetivo, finalmente atingido.
neste impop sessions #01, gravado ontem à noite via skype e editado no mesmo turno pelo camarada renmero, nosso podmix tapecast teve como modus operandi um super-trunfo musical: eu lançava uma carta contendo uma canção, renmero respondia com outra. assim montamos um playlist com 10 faixas, que embora bastante variadas entre si, acabam tendo diversos pontos conectores. slide guitar é um deles. guitarras crocantes é outro. um certo sotaque sulista (às vezes meio picareta). outra recorrência é o ritmo de contraataque: menos do que montar uma lista consistente e homogênea, a tônica era sacanear a escolha anterior - com estilo, claro. pra deixar bem variado. bem 'seu programa semanal de descobertas' e tudo o mais. entremeados às músicas, nossos comentários e até um tantinho de informação. em ritmo de botecagem.
donde, por favor, por aqui:
clique para baixar.
e se não quiser baixar, ok;
clique aqui para ouvir em streaming.
quer tracklist? tem tracklist também. mas fica ali nos comentários pra quem for entrar na brincadeira e não gosta de SPOILER. os bravos.
comentários, feedbacks e sugestões serão o OXIGÊNIO da próxima combustão. sonora. aguardamos.
uma lista pessoal e cronológica de "álbuns que mudaram a maneira como ouvia música por terem sido a porta de entrada para um novo mundo" poderia ser, aproximadamente,
• Pink Floyd: Meddle
• Black Sabbath: Vol. 4
• Sepultura: Arise
• Alice in Chains: Dirt
• Paradise Lost: Icon
• Obituary: World Demise
• Morbid Angel: Dominate
• Sambaloco Spiritual Drum 'n' Bass vol. 1
• Duofel: Atenciosamente
• Gorguts: Obscura
• John Coltrane: My Favorite Things
• Pan American: 360 Business/360 Bypass
• The Mercury Program: All the Suits Began to Fall Off
• Isis: Oceanic
• Loscil: Submers
veja aí que é uma seleção que cobre uns 20 anos de pesquisa curiosidade em 15 discos. Icon, do PARADISE LOST (music for nations, 1994), é um dos itens mais marcantes da lista. era o começo dos anos 90 e eu escutava basicamente thrash (sepultura, slayer, megadeth, biohazard, metallica, kreator, todos eles), grunge e guns 'n' roses (todos fomos jovens). em 94 as perspectivas não eram nada boas; a qualidade das bandas citadas acima vinha decaindo em velocidades diferentes, ou até se despedaçando, caso da cena de seattle.
aí que meu grande amigo e mentor metálico Uilson apareceu com o Icon. "é doom/death, tem umas melodias bala pra caralho. difícil de definir mas uma das minhas bandas preferidas". tirei o encarte da caixinha, as letras num fundo verde-musgo, arte caprichada, essas imagens que estão logo acima. cousa muito refinada. botei pra tocar. a abertura é CRUNCHER.
os ingleses do Paradise Lost nunca lançaram um disco igual ao outro. de Lost Paradise (1990) até sei-lá que merda andam fazendo, foram do death grosseirão ao synthpop sem se repetirem. seu passado segue cultuado e o ápice de sua produção é objeto de polêmica entre defensores dos quatro primeiros (excelentes) discos, sendo que, para bereteando, o ponto é este Icon. foi quando realmente forjaram uma das pedras fundamentais, se não a maior, do doom/death: músicas vibrantes, muitas de clima quase épico contrastando com a temática e sonoridade depressiva que marca o estilo. (não por coincidência, são apontados como inventores do metal gótico com o disco Gothic, de 92). as linhas de guitarra são quase totalmente melódicas; geralmente simples, mas muito inspiradas. harmonias que ficam na cabeça e chamam a atenção não por tecnicalidades, mas pela beleza. Gregor Mackintosh, guitarrista/compositor, apresenta uma faixa memorável atrás da outra. e também Nick Holmes tem seu melhor registro: apesar de ter sido um grande growler, os vocais de Icon, apenas levemente crocantes, mostram-se perfeitamente adequados às canções.
é um disco que exige uma certa tendência à introspecção, ou um mood meio bluesy. repleto de harmonias menores, é triste sem deixar de ser enérgico, é verdadeiramente emotivo - sem jamais abandonar a pegada na bateria, e inclusive em andamentos mais velozes. "Weeping Words", abaixo, é um exemplo perfeito. o riff de guitarra é sensacional.
a faixa de Icon que se tornou clássica, é a de número dez. "True Belief", o doom-goth-blues que jogou a banda na direção do rock mainstream. nela se pode colocar um 'centro' na banda; é possível saber exatamente de onde ela veio, e para onde estava indo. em odes à melancolia.
Icon é um disco brilhante, uniforme, que mostra beleza inclusive de forma mais crua (incluindo mixagem) - não tão polido como Draconian Times (96), uma quase-parte-2 menos agressiva, embora também notável. e não apenas isso; é um disco que demonstra as credenciais do death e muitas características do doom metal, em um formato de assimilação mais fácil - tornando o álbum uma excelente porta de entrada para quem vem de fora do metal. eu, que naquele momento da trajetória procurava por linhas de guitarra marcantes como em Soundgarden, tive uma verdadeira EPIFANIA. nessas canções eu escutava Sabbath, mas também coisas boas de Megadeth - só que com uma dose de sensibilidade a mais; mais inteligência. o disco fazia sentido, como naquelas descobertas de 'eureka!', e eu sabia que aquele seria um momento cada vez mais raro por sua própria natureza. saí dele para me deleitar em sessões de Anathema, At the Gates e My Dying Bride, e mais tarde, ser jogado pelas necessidades exploratórias dos meus ouvidos nos reinos do death metal. foi a ponte perfeita para o metal extremo, e à Icon e suas intenções de "soar como uma catedral", eu agradeço de forma veemente.
• paradise lost • reviews de Icon na encyclopaedia metallum •
para a porção bereteando deste impop, no caso. publique-se. os melhores discos de um GRANDE ano para a musga.
01: Zozobra - Bird of Prey (sludge)
o melhor disco de 2008 foi também aquele que eu mais ouvi. parece óbvio, mas nem sempre é; e muitas vezes tantas audições acabam mostrando os pontos fracos do álbum, ou simplesmente o desgastando. não é o caso. esperava "Bird of Prey" com alguma curiosidade, já que o primeiro disco do Zozobra era tão bom quanto irregular; e aqui, essa crítica desaparece. um álbum linear, bem composto, curto como um soco no rim. resenha aqui, anterior. saw it coming.
melhor faixa: laser eyes
02: Earth - The Bees Made Honey In The Lion's Skull (doom)
a recente mutação do Earth - de deep drone crushers a atmospheric doom masters -, até onde pude ler por aí, não desagradou ninguém. mesmo sendo quase post-rock. é raro: banda mudando de direção sempre carrega ódio e rancor. mas o álbum de título tão poético só pode incomodar a fãs inveterados de speed metal. porque é l e n t o. é um dos discos mais lentos que já ouvi; suas faixas fazem imaginar um baterista sem sangue nas veias. existem espaços de até QUATRO segundos antes do próximo beat. sirva junto a linhas de guitarra melódicas, toques de psicodelia (como drones geniais de cítara na faixa título) e doses generosas de well-being reflexivo. o Earth fez um disco maiúsculo e de companhia muito presente. se você não gosta de metal, mas de alguma forma se sente atraído, é uma ótima porta de entrada.
melhor faixa: the bees made honey in the lion's skull
03 The Faceless - Planetary Duality (technical death metal)
não foi o ano do technical death metal; no lado brutal, tivemos "Strychnine 213" do Aborted, que é bastante bom mas não marcante; no lado heavy, o novo do Arsis, que, lamento, mostrou-se limitado e com grande tendência à farofa (mesmo tendo agradado aos fãs). quem salvou 2008, no apagar das luzes (com um disco de novembro) foram os maníacos do The Faceless. "Planetary Duality" é quase um EP; poucas faixas, vinhetas inclusas. mas antes menos do que fillers, e o festival de linhas de guitarra cativantes, melodias memoráveis e brutalidade na medida está garantido. mais ainda: pelas composições. quando falo em "marcante", é porque técnica apenas não basta; se não guardar na memória, cantar junto e ter saudades e vontade de voltar à faixa, é só show-off, ou música pobre. esse é o grande valor do tech death. e deste disco.
melhor faixa: legion of the serpent
04 Gojira - The Way of All Flesh (prog death metal)
se os outros álbuns do Gojira não funcionaram comigo, esse deu na pinha. um disco de riffs circulares, repetitivos, graves, cheios de tremolo: as variações estendem-se de forma mais lenta, como os andamentos. é um disco bastante pesado sem ser brutal. precisei de um tempo pra me acostumar - não totalmente, ainda - com o vocal dobrado, meio coro, durante todo o tempo; em certos momentos se fica esperando alguém ali berrar os pulmões pra fora, mas nada. mas de certa forma o approach escolhido funciona. ou as composições são tão boas que isso fica de fundo. pequenas alterações de tempo durante os riffs prendem a atenção e movem o disco adiante, levando o ouvinte em histórias de ecologismos e nature defense. num ano em que o prog/death esperava muito do Textures, quem deu aula foi o monstro.
melhor faixa: the art of dying
05 Soilent Green - Inevitable Collapse In The Presence Of Conviction (death/grind/sludge)
06 Korpiklaani - Korven Kuningas (folk metal)
dois discos que já havia micro-resenhado quando listei os melhores do primeiro semestre do ano. ambos mantiveram-se bem nas seguidas audições: criativos e visceralmente enérgicos. Soilent Green pelo liquidificador de estilos, pelas melodias escondidas em meio riff ou mini-seções (evocando Crowbar e todo o southern sludge); Korpiklaani pela diversão. E percussões.
melhores faixas: Lovesick (Soilent Green) e Kipumylly (Korpiklaani)
07 Windy & Carl - Songs for the Broken Hearted (ambient/drone/shoegaze)
nunca vi outro grupo fazer o que Windy & Carl fazem, e isso é excelente. em certos momentos é uma voz feminina doce e atonal sobre frases repetitivas de guitarra e synth lo-fi. noutros é uma tempestade de fuzz e sobreposições de camadas. ambient + shoegaze de novo, um crescer da sensibilidade que afeta o eixo dos ruídos, do espaço criado pela melodia que poderia ser banal. "Songs for the Broken Hearted" roda nos ouvidos e se não estiver prestando atenção, passa num tapa. e foi o disco que mais me levou longe neste ano.
melhor faixa: La Doleur
08 Aidan Baker & Tim Hecker - Fantasma Parastasie (ambient)
09 Marcelo Birck - Timbres Não Mentem Jamais (rock/psych/experimental)
10 Grails - Doomsdayer's Holiday (post-rock)
11 The Monolith Deathcult - Trivmvirate (brutal death)
12 Made Out of Babies - Ruiner (post-hardcore)
13 Kingdom of Sorrow - ST (sludge/hardcore)
14 Torche - Meanderthal (doom/rock)
15 Remember Remember - ST (electronica)
16 Hour of Penance - The Vile Conception (brutal death)
17 Aborted - Strychnine.213 (death metal)
18 The Haunted - Versus (thrash)
19 On a Pale Horse - A Generation of Vipers (stoner)
20 Macaco Bong - Artista Igual Pedreiro (rock/post-rock)
um 2009 ainda melhor?
APOSTO.
aguardando as listas de outros autores impop.
é pensando no seu melhor, e no do planeta, que eu desejo: um ano que vem muito impop.

lançado em novembro, limitado a 1000 cópias, por ocasião de tour conjunta pela Inglaterra, Infernal Procession.. And Then Everything Dies é disparado o MELHOR split que já ouvi em todos os tempos. melhor. fico imaginando como não funciona no inverno do hemisfério oposto, janelas batendo com o vento gelado.
não que seja um disco frio; duas das três faixas aqui apresentadas, aliás, tem tanta cobertura fuzz que, fosse outros tempos, a válvulas do amplificador e os (verdadeiros) magnetos nas caixas causariam efetivamente um aquecimento do local. mas suas composições longas e contemplativas evocam, simplesmente, solidão.
Tracks:
1. Nadja, Time is our Disease 13'25
2. Atavist, Certitude 13'42
3. Satori, Abyss 9'28
o Nadja você conhece desse perfil do impop sobre metade da dupla, o canadense Aidan Baker. "Time is our Disease" não apenas traz a obrigatória dose de drones; apresenta-se participante dessa nova movimentação do shoegaze em direção ao ambient e ao doom metal. ou seja, você navega em terras obscuras - mas na companhia de uma melodia simples, de tom maior e que evoca redenções, e vocal não-agressivo. nesse caso, inclusive, é sussurado, e apenas sobe à superfície em certos momentos. superfície de um verdadeiro mar de fuzz realimentado, num trabalho de mix tão brilhante que os fones, vez em quando, mostram ilhas de puro ruído branco nos cantinhos.
além das guitarras sobrepostas e processadas, o sintático baixo de Leah Buckareff e uma bateria (programada), lenta e bastante básica. que é responsável por outro toque shoegaze: diferente de outros trabalhos do Nadja, aqui há uma batida. reconhecível, marcável, simples, compelling, e que torna irresistível um momento headbanger - principalmente lá pelos nove minutos, em que os solos se arriscam a cruzar de um ouvido ao outro.
na faixa de épico comprimento (praxe), é interessante notar que as estruturas utilizadas não fogem muito a uma jam com distorções saturadas. existem riffs reconhecíveis, trechos melódicos marcantes e a já citada bateria, imprescindível para que a faixa alcance todo seu potencial. o Nadja mostra mais motor e menos fumaça; está atingindo um nível acima de si mesmo e dos outros, ainda que a comparação não seja exatamente simples.
senão, tomemos por exemplo "Certitude", participação dos doom heads do Atavist, de Manchester. são artistas que já colaboraram antes (com mais ruído e experimentação), ou seja, notados como análogos na cena. mas já na abertura da segunda faixa deste split fica clara a diferença: uma introdução limpa (e cativante) de guitarra/baixo/bateria nos leva mais ao território de "banda", mesmo, com seus compassos e marcações. dura 1'30 até que o céu desabe sobre sua cabeça e uma serpente negra se levante de dentro de um vulcão e tudo vire sobreviventes meio à fuligem. mas não esqueçamos o toque shoegaze: o riff das guitarras é belíssimo, intercala-se a passagens limpas, há pausas. mas no resto, lembra o sludge/post-metal impiedoso de bandas agressivas como Mare ou Baroness. donde, de voz, ouvimos growl rasgado e enterrado no meio do mix, com backing vocal ainda mais baixo e grave. e a progressão de riffs harmônicos em direção ao apocalipse eterno, traço que agrada a qualquer fã de sludge e modernidades metálicas.
terminado o segundo terço do split, a sensação é de ter tomado uma surra - mas, ao invés de dolorido, deixa o ouvinte mais leve. a sublimação promovida pelo metal, se sabe, é inequívoca.
fecha a bolacha uma faixa sintética: puro dark ambient/power electronics do Satori, projeto irregular de Justin Mitchell que se arrasta desde 1984. atmosferas opressivas, tape delay, samples cavernosos, vento, ruído. não é um final desolador porque split, se sabe, não tem começo ou fim, é apenas colagem; mas escutado na íntegra, provoca um efeito surpreendente. "Abyss" começa limpa e vai crescendo até fazer o ouvinte perder a referência do que está escutando. e aqui, não há nada que sirva como alento; é tudo frio e opressor. mas também o dark ambient promove catarse como o metal, e, no apanhado do disco, tem-se uma obra simplesmente revigorante, e purificadora.
disco lançado para turnê conjunta, lembram? cavem o disco, e lamentem comigo.
Title: Re: NADJA / ATAVIST / SATORI - *TONIGHT* @ the croft.. TIX available on doorPost by: Beerman on November 24, 2008, 01:04:21 PM
Lovely gig, soft and gentle doom from the combined bands of Atavist and Nadja and followed on in the same vein with a soft and gentle Nadja set. I was struck bythe influence Aidan had on the Atavist lads, without their drummer to keep them mean and on track, who I think they left abandoned in a van on a motorway somewhere, they slipped easily into Nadja mode.
Big mention for the opener band though, Satori. Wasn't expecting much from two guys with laptops, but it was a complete audio visual experience. The film they had showing behind them had been put together espeicially for the music and quite frankly the music became a soundtrack to the film. It reminded me a lot of the feeling I got when I watched Hellraiser for the first time. My only criticism was the band positioned themselves betwen the film and the audience, which was a bit like a director standing up in front of the screen all through the premier showing of his latest creation. I found myself straining to look past the guy staring motionless into his laptop. But getting over that, I thought they were great.
• cold spring rec • nadja • atavist • satori •
a carreira do canadense Aidan Baker é daquelas tão prolíficas que deixa a gente até meio perdido. sob o próprio nome, com o ARC e no (cada vez mais aclamado) Nadja, a produção em ritmo vulcânico denota não apenas a necessidade da vazão criativa - traz também todas as nuances das mutações e desenvolvimentos de seu trabalho, que abrem-se como lentos e profundos brainstorms sobre pequenos conceitos.
não apenas como figura de linguagem. seu trabalho é altamente improvisacional, seja ao vivo ou em gravações. este "altamente" transforma-se em "completamente" em diversos casos - e é, inclusive, uma das explicações para os mais de 150 itens na discografia - em cerca de apenas seis anos.
como se nota pela foto, trata-se de um guitarrista. filho de músicos, aula de piano desde cedo, quinze anos estudando flauta, multiinstrumentista. também poeta, três livros lançados. não leva as palavras para a música. escreve no computador, mas não o usa para compor: gravadores multipista, pedais de loop, processamentos, algum auxílio de electronica nas atmosferas - pads timbrados pelo fabricante do synth, beats ocasionais. quando em Nadja, utiliza a estrutura do metal à serviço do doom/drone, um Sunn O))) tão dark porém menos opressivo. no projeto que leva seu nome, ambient ambient, de idéias longas, temas lineares, tape loop studies, músicas-álbuns, viagens particulares compartilhadas. a guitarra extrapola os caminhos de um Justin Broadrick: processamento e experimentalismo e muitas vezes nem se pode perceber que foi ela o instrumento gerador.
isso é, evidentemente, apenas um detalhe.
With improvised material sound IS composition: sound determines the shape and movement and progression of the song just as much (if not exclusively) as scales or modes or whatever. Sound still plays a large part when I'm writing, of course, but I suppose it's balanced with other aspects of composition. >terrorverlag
apenas recentemente Baker passou a utilizar o computador de forma criativa, especialmente para picotar e descaracterizar as estruturas que cria na guitarra. considerando-se, ele mesmo, primariamente um guitarist/looper, a adição é notada nos discos a partir de 2005, e com ganhos substanciais na expansão de suas imagens sonoras. num outro trecho da entrevista acima, Baker diz que considera bem-sucedidos os shows onde é capaz de fazer o público 'perder-se' na música; o efeito também é notado em estúdio, com álbuns como "I Will Always And Forever Hold You In My Heart And Mind" (2007) - uma grande viagem quase-conceitual onde cada faixa tem o nome de uma das palavras que formam o título. a influência da etapa "desktop" de composição fica ainda mais evidente quando comparado aos trabalhos mais antigos, como "Métamorphose (En Sept Etages)" (2002), de um dark ambient quase industrial, bem menos amistoso e rarefeito.
quando não corta - apenas para efeito didático, parece - uma única longa música para compor um álbum, suas faixas costumam bater nos 10 minutos, e pra cima. se as variações são minimalistas, o mesmo não se diz da sonoridade; o ambient de Baker ocupa espaço, traduz-se menos textura e mais composição - abstrata -, desenha de forma mais nítida suas paisagens. ele trabalha com espaços, mas principalmente os neurais. nota-se clara a intenção, da música, de carregar o público consigo. objetivo que é plenamente satisfeito.
trata-se, evidentemente, de um artista tão rico quanto seu ouvinte pode ser. e que lembra, mais uma vez, que a música não precisa - e nem deve - ser uma questão fechada. pode, sim, servir como uma camada a mais de (sub?)consciência, somando. e prova mais uma vez que o ambient e a eletroacústica são os caminhos exploratórios mais interessantes, inteligentes e promissores do ínicio deste século para a música.
aidan baker • myspace • ARC • nadja •
essa coisa toda de halloween não me chama a atenção - mas esta parece uma hora tão boa como qualquer outra para ver um pouco de SANGRE. portanto se você vai sair para trick or treats ou fazer uma maratona de Jogos Mortais, pode começar por aqui. agora.
Bestial Devastation - The Sublime Art of Devastation
Unearthed Corpse - Human Disembowelment
Feroxfecal - Bubble Butts
Bowel Stew - Splatterhouse
pelo line-up, é 1978 mesmo, ou no máximo começo de 1979.
Rainbow é uma banda mágica, usando um clichê multilateral - já que se trata de um encontro entre Ritchie Blackmore e Dio.
que Blackmore é um dos três gênios da guitarra dos últimos 40 anos, você já sabe.
e sobre Dio, se tem alguma dúvida, sugiro audição CUIDADOSA ao que faz o então jovem duende no vídeo acima. que até posso testemunhar, de próprio ouvido ao vivo já duas vezes e a última há três anos, que Ronald Padavona faz pensar em BOTOX VOCÁLICO.
sobre o disco, do link acima:
Long Live Rock n Roll was the last Dio era Rainbow album recorded. By this time, Blackmore and Dio had different visions musically. Blackmore wanted to sell out and start playing radio friendly love songs like the bands Foreigner and Boston were doing at the time. Ronnie wanted to keep playing his style of music, which was about dragons, wizards, kings, and all of that good stuff. Despite Blackmore's adamant objections to this musical direction of the band, Long Live Rock n Roll turned out to be an outstanding album. Song highlights include Gates of Babylon, Long Live Rock n Roll, Lady of the Lake, and the lightning-fast Kill the King. There is only one love song on the album, and it's called Rainbow Eyes. This song was probably Blackmore's idea. Rainbow Eyes is the only love song that Ronnie has sung since 1978. He sings about women sometimes, but not like a lovesick teenager.
com propriedade, não? sim, Lady of the Lake é fantástica, mas a melhor do álbum - solo de 1'10 e a melhor linha de baixo do hard rock - é The Shed.
vida curta: os três primeiros discos, foi o que durou a parceria.
talvez o suficiente, como tudo que Blackmore e Dio fazem.
mas quem está reclamando?
Rainbow '75-78: MAIOR registro da verdadeira e grandiosa alma do hard rock.
é o suficiente.

Da clarabóia de pé-direito alto caía um sol ameno de fim de tarde, ressaltando tons de madeira nos instrumentos do palco. No centro dele, uma jovem de compleição frágil e pés descalços mantinha uma platéia de duzentas pessoas estática. As harmônicas da viola de gamba literalmente enchendo o átrio do Santander Cultural; às vezes na forma de sobreposições, noutras no simples reverb da nota entrando em repouso. A apresentação de Cécile Schott, codinome COLLEEN, domingo passado, foi quase solene.
"Show" talvez não seja a palavra mais apropriada; melhor apresentação. O modus operandi de Cécile - sampling totalmente ao vivo, em pedais - acentua uma característica de recriação, antes de reprodução. Cécile dedilha uma frase no violão, ou uma linha de clarinete, ou mesmo uma única nota da viola de gamba, e grava. Passa para a frase seguinte, grava. Assim segue a progressão das músicas, e se em certos momentos há improviso, muitas vezes os reencontramos numa frase ali adiante, misturando-se à base, que cresce de forma avassaladora e plena - quem fecha os olhos, quase pode se imaginar no meio de uma orquestra fazendo jam de post-rock. A técnica foi desenvolvida durante a sua primeira turnê, quando preferiu fazer sampling ao vivo a utilizar um notebook, e logo se tornou a tônica principal do trabalho. (No disco de estréia, Cécile usou samples de vinil, altamente modificados.)
O set, de uma hora, foi todo baseado no seu último disco, Les Ondes Silencieuses (2007) - incluindo "Serpentine", faixa que consta apenas na edição japonesa do álbum. Nos ouvidos, música difícil de categorizar, que tem no rótulo "electronica" apenas um breve recurso técnico (além do processo em si, apenas outro pedal de delay), que se aproxima do ambient pela criação de atmosferas, e que é evidentemente experimental. Talvez seja o caso de lembrar que chamamos aqueles que fazem o que Cécile faz de artistas; e ela faça simplesmente arte, arte musical abstrata. Músicos que trabalham no mesmo estilo, como Pan American ou Loscil, são mais sintéticos; e mesmo os que usam cordas na gênese, como Aidan Baker ou Marsen Jules, não têm um trabalho de pesquisa com esse refinamento. De toda forma, se você seguiu o texto até aqui e não conhece o som de Collen, o mais indicado é ir até o site, escutar seus discos em streaming e torcer que o raio caia no lugar duas vezes e ela volte ao Brasil.
Cécile falou pouco; apresentou sua viola de gamba (um 'mini'-cello de sete cordas, com trastes) e até pediu licença à platéia para assoar o nariz - culpa do clima na passagem por São Paulo, ela justificou. No palco, parecia mais tímida do que no contato depois da apresentação; sorria e meneava a cabeça, gestos pequenos, já arrumando os pedais e começando a próxima música sob a torrente de aplausos. Ao voltar para a faixa de 12 minutos do bis, parecia até surpresa. Na breve conversa que tive com ela, contou que não conseguiu perceber se a platéia estava realmente gostando do que ouvia, e que tinha estranhado tocar na presença do sol - porque sente a sua música como mais noturna. De fato, aquela hora de melodias de leve melancolia, com ápices tão poderosos, sente-se em casa durante a noite. Mas as harmonias desse leitora de Proust, que em sua temática e sensibilidade evocam a passagem do tempo, combinaram perfeitamente com o pôr-do-sol, as notas graves do arco lentas, tornando-se rarefeitas, dissipando-se.
fotos: Rene Cabrales/Divulgação • leia também esta resenha de Marcelo Firpo •
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