recentes na categoria reviews

...como se sabe, é o Japão --

mas isso não significa que o espaço para garotas à frente de bandas extremas não siga crescendo. COM GUSTO.

para sua sexta-feira, impop traz mais eye candy gutural. cheio de doçura.


1. GRACE PERRY, Landmine Marathon - grindcore/EUA


tr00 grindcore. morena de cara limpa botando os pulmões pra fora. é uma pena que a banda seja pouco criativa, porque ela manda bastante bem. insana como Julie Christmas. a exemplo de Anneke, me casaria instantaneamente com ela.


landmine marathon@myspace


2. ALISSA WHITE-GLUZ, The Agonist - metalcore/Canadá


pra quem gosta de um pouco de BRILHO -- aqui temos metalcore, postura 100% poser, etc. mas antes ela que Jonathan Davis ou Fred Durst, né? o som vai na linha do chaoscore sinfônico à uneXpect, com tecladinhos (e sessões de fotos) à Nightwish. prevejo dvd solo e duetos com Dave Mustaine dentro de 20 minutos.


the agonist @myspace


3. ANDREIA DUARTE, Reaching Hand - hardcore/Portugal


Andreia tem o exato timbre e biotipo pra uma banda de hardcore. magriça, pequena, e cantando gritado no 4x4 a 180bpm. pena que seja straight edge de mão tatuada e tudo.


reaching hand @myspace


4. KRYSTA CAMERON, Iwrestledabearonce - metalcore/EUA


as entrevistas que vi não deixaram dúvida: que mina CHATA. o som é meio floreado demais e atrai ódio instantâneo de legiões de headbangers. mas além de um gutural impressionante, ela fez um clipe berrando de óculos -- e se isso não vale pontos, a gente vai ter que começar tudo de novo.


• iwrestledabearonce @myspace


bonus track:
5. Vivian Slaughter, Mika Penetrator, Risa Reaper, GALLHAMMER - doom/black metal/Japão


imperdoavelmente ficou de fora do round oriental. trio feminino, excelente banda; pioneira, eficiente e bem sucedida. porradaria sem perdão. sem concessões.


gallhammer @myspace

por Lucia Malla, convidada especial


Eu não entendo de música. Faço minhas viagens musicais, apenas, e são ultra-pessoais. Mas fui inspirada a escrever sobre. O que me inspirou para tal crime ao impop foi este texto compartilhado pelo Tiagón no seu GReader. Vindo do PQP Bach, falava da fase de música orquestral de Frank Zappa; mais exatamente, do célebre London Symphony Orchestra (que eu adoro, diga-se de passagem).

Impossível falar em Frank Zappa sem citar sua ironia e crítica a absolutamente tudo que passava por sua vida - e algumas vezes tenho a impressão de que essa era a forma que ele achava de mostrar algo de valor às pessoas: ironizando. Das músicas do início de sua carreira, com Mothers of Invention - que culminaram no delicioso We're only in it for the money, de 1968, uma crítica clara ao flower-power álbum de 1967 Sargent Pepper's, dos Beatles; ao The Yellow Shark, último disco de composições dele lançado em 1993, meses antes de sua morte em dezembro - lembro de ler no obituário da Veja sobre o fato.

The Yellow Shark é uma compilação de músicas da sua carreira tocadas pela orquestra alemã Ensemble Modern, na época uma das poucas a valorizar o experimentalismo zappônico. Mas para entender o impacto musical de Yellow Shark, é necessário relembrar Jazz from Hell (1986), ou pelo menos uma faixa do disco: "G-spot tornado".



Jazz from Hell é o ápice do experimentalismo de Zappa com o synclavier, um sintetizador onde ele gerava composições as mais tresloucadas sem uso de nenhum instrumento e as executava ao belprazer. Era o "instrumento" perfeito para o seu cérebro super-criativo e fervilhante de ideias. Jazz from Hell é o jazz livre feito por uma máquina - o modo Zappa de criticar o free jazz, talvez.

"G-spot tornado", com sua levada frenética, fecha o disco e deixa o ouvinte meio que ao fim de uma luta quase sexual com o som: a música termina em pleno clímax. De acordo com o próprio Zappa, "G-spot tornado" era impossível de ser tocada por um ser humano. E foi por causa dessa afirmação que The Yellow Shark virou uma obra singular.

O festival de Frankfurt decidiu homenagear Frank Zappa em suas apresentações de 1992. Para tal, a orquestra Ensemble Modern escolheu, junto à Zappa, as músicas a serem tocadas - cuja apresentação em Frankfurt, uma das poucas que Zappa pôde participar, finaliza com "G-spot tornado" conduzida pelo próprio Zappa. Um clássico para fãs. Para as apresentações de The Yellow Shark pela Ensemble Modern, Zappa exigiu que os instrumentos da orquestra tivessem amplificação como uma banda de rock, o que torna a sonoridade muito peculiar. É o que dá amplitude magnífica a "Outrage at Valdez", por exemplo. Cabe ainda destacar "Welcome to United States", cuja letra nada mais é que o antigo formulário da imigração americana para pedido de vistos, interpretado da maneira Zappa de ser. :D

Mas é um Zappa nitidamente emocionado, num senso de êxtase calmo, a imagem que fica do The Yellow Shark (e por isso a capa é simbólica ao extremo): sua música "intocável" havia sido tocada por um bando de humanos. Suas composições haviam passado finalmente de devaneios da sua cabeça mirabolante para a História da música. Zappa podia descansar em paz.


P.S.: Se eu tivesse que escolher 3 discos pra levar pra uma ilha deserta, Yellow Shark seria um deles.

P.S.2: Agradeço ao grande Gabriel por atiçar meu interesse inicial pela música de Zappa, e pelas incansáveis horas de som zappônico que me forneceu ao longo da vida.


~.~


por el tiagón


@luciamalla me chamou no twitter, "vamos fazer uma resenha conjunta do yellow shark do frank zappa?" e eu antes de dizer que não sei nada de shark zappa já tô topando e dizendo que claro!

Zappa rock eu já ouvi suficiente pra saber dos humores e do gênio, mas ao perceber que Yellow Shark era uma obra sinfônica, pensei: FUTZ. porque nunca havia imaginado Zappa com orquestra e é dessa ordem dos bloqueios que surgem para preservar a sanidade. fui honesto e: Lucia, teu texto está incrível, eu não tenho o que fazer nesse post. "crime ao impop" ela disse ali em cima - que bobagem, falando com tanta propriedade da peça, Zappa-maníaca quase se desculpando - e por quê? mas insistiu e eu combinei que ia ficar de mão com ela durante o passeio pelo impop, então,


consideração sobre o avant-garde de frank zappa interpretado por orquestra:


FRITEX, baby. fritex.



veja você que eu sei do que Zappa é capaz em estúdio. mas em orquestra é diferente. é, provavelmente, o avant-garde do avant-garde do avant-garde. e eu me pego hipnotizado por faixas como "Dog Breath Variations" ou "Outrage At Valdez", e depois perturbado por "The Girl In The Magnesium Dress" e "Times Beach III". eu sei que fãs e ouvidos mais eruditos podem tirar universos de composições como essas, mas aqui é onde eu digo: BICHO, me perdi.


todo mundo tem suas limitações.

eu chego no prog metal e no math rock de andamentos MAIS quebrados; mas botou uma orquestra - ainda mais sob comando ZAPPA - e sou eu quem tô quebrado.


ouvi o disco na primeira vez com esforço, vivendo dualidade: tendo grande satisfação em certos momentos, noutros inquietação extrema e desejo urgente de pular a faixa. como em "Get Whitey", por exemplo; aparentemente serena e melódica, mas permeada de instrumentos e notas foras de lugar, ameaçadores. na segunda vez, mais confortável, mas ainda assim com grande vontade de "editar" o disco. é esse o momento em que o fã pula da cadeira e sai gritando impropérios, e calma aí que possivelmente te dê razão; não vou julgar por técnica ou forma, mas por linguagem. a ironia vanguardista de zappa é um inegável legado da música moderna, o que não significa que nós nos comuniquemos bem. nosso tradutor ainda não calibrou por completo.


não há dúvida sobre o que Zappa criou. só não sei bem como (e se) vou chegar lá.
enquanto isso, coleciono algumas músicas. e cultivo um desafio.





site oficial



por Renmero Rodriguez


faz nem quarenta e oito horas que botei meus ouvidos numa cópia de Crack The Skye do Mastodon e aqui estou outra vez começando algo que fiz repetidas vezes: clico em Oblivion, aumento o volume um pouco nos botões do teclado e na parte que Brent Hinds canta

falling from grace
cause i've been away too long
leaving you behind with my lonesome song
now i'm lost in oblivion

ameaço fazer coro, e de vez em quando acabo fazendo mesmo. É quase irresistível, num misto de melancolia benevolente e agressão sonora de riffs aburdos há um sentimento de se jogar de um penhasco em direção ao mar, de fechar os olhos quando a bicicleta chega no final da rampa.

é o começo de um grande disco, uma abertura devastadora tanto melodicamente quando esteticamente que define os riffs e progressões que serão ampliadas à exaustão durante o resto do disco. Se em Blood Mountain o tema geral era terra, assim como Leviathan era água e Remission era fogo temos em Crak the Skye o ar em sua forma musical na concepção do Mastodon. E puta merda, eles conseguem.

a forma mais evidente como esse tema aparece no disco está no claro apuro melódico que os [quatro] vocalistas da banda empregam em sua voz: dá pra ouvir claramente tudo, as letras deslizam em frente a bateria incansável como se buscassem encontrar uma harmonia impossível de ser alcançada na teoria. Uma escolha que causa estranheza a princípio [até hoje lembro muito bem o impacto que sofri com Blood And Thunder abrindo Leviathan, pela sua massa sonora definida e seu vocal potente e sem fim nos berros] mas que faz todo sentido quando The Czar, a quarta faixa e uma éspécie de ópera, são quatro atos não muito bem definidos que compõem os dez minutos da faixa.

dá pra se dizer que em The Czar que reside a real potência de Crack The Skye, nela há todas as experimentações sonoras que a banda atravessa em todo o disco. A letra é um épico por si só, com trechos como

spiraling up through the crack in the sky
leaving material world behind
i see your face in constellations
the martyr is ending his life for mine

quando os vocais começam a brigar pra ver quem consegue encaixar melhor cada frase começa uma confusão mental íncrivel, há guitarras brigando por solos cada vez mais longos e etéreos, o baixo pulsando e galgando à frente da bateria e esta por sua vez incansavelmente prevendo quebras de ritmo e ditando rumos e andamentos. É o Mastodon sem limites, criando uma obra maior. É das coisas que tu escutas e entende como o heavy metal pode salvar vidas.

não é porque os vocais são menos guturais que Crack The Skye é um disco mais leve ou acessível, pelo contrário, o jogo melódico utilizado pela banda em suas sete canções exige uma atenção maior do ouvinte. Nisso o Mastodon demonstra a sua veia progressiva, na utilização de andamentos peculiares em vários pontos do disco, da sua busca pelo equilíbrio entre riffs pesados e rápidos e dedilhados.

Quando The Last Baron termina, após passar pela tortuosa e esmerilhante faixa título, a sensação que sem tem é que é necessário mais uma audição, num volume mais alto, prestando mais atenção para não perder nada. Porque há algo nesse disco que minhas parcas capacidades de resenhista ocasional não consegue descrever. Há.

I was standing staring at the world
And I can't see it

obrigado existência por me permitir escutar esse disco.
obrigado.









por el_tiagón



Mastodon me surpreende por alguns motivos, sendo o mais importante deles o efeito-surpresa -- de onde essa banda tirou tanta popularidade? não fazendo juízo de valor, apenas sobrancelhando que uma banda de metal que não é -core (de caderninho) possa chamar tanta atenção em grande público ("efeito Guitar Hero" incluído). e inclusive abrir as portas do estilo para seres totalmente não-metálicos, como constatei.

fico ainda mais curioso.

e exatamente por isso estava esperando por Crack the Skye. outra oportunidade de audição cuidadosa e reavaliação da banda, que até então nunca me foi memorável - disso de lembrar da faixa, voltar no disco, curtir etc.

de cara: Oblivion, a abertura, me gerou vários momentos -- WOAH! -- :

1. esse dedilhado da intro me lembra Metallica-black-album-enter-sandman.
2. a guitarra-metallica troca de andamento e escala. a dissonância quase atonal que é trademark (delícia) da banda.
3. ué, vocal limpo? DE CARA? vocoder dobrando no fundinho, tipo GOJIRA?
4. pré-refrão hostil como em Leviathan ou Blood Mountain, álbuns anteriores?
5. refrão grudento OH-SO-PROG metal como fosse Textures?


disso tudo ainda não conclua: Oblivion é uma GRANDE faixa. grudenta, cativante, com timbres e pontuados de guitarra que não deixam dúvida de que ouvimos Mastodon. mas se não fosse isso, poderia ser Foo Fighters (das antigas e com esteróides).

nesse momento lembrei do último disco do Dillinger Escape Plan: eram trademark do mathcore chaos, e então, como se tivessem cansado de brutalismos, resolvem dar uma respirada. na onda prog metal, faixas mais atmosféricas, o extremo? não interessa mais. de novo, aguarde para concluir: isso não é nem bom nem ruim; apenas vai exigir uma nova configuração - da banda, das composições, dos ouvintes.

o caso do lançamento do Mastodon?


desapontador.


Crack the Skye é um disco do Mastodon: a guitarra é um ponto forte, criativo, e de grande técnica. composições baseiam-se em conceitos épicos. a mixagem enterra baixo e a (chatíssima) bateria. a produção abusa da compressão.

mas aqui temos novos, maus, elementos; nenhum peso nas guitarras, abandono quase total do growl, nada de sludge, o estranho vocal dobrado melo-Ozzy-Cornell. e excesso de referências - os comparativos que usei (e você pode ter outros equivalentes) surgem facilmente. e se lembramos que o produtor é Brendan O'Brien, cujas credencias incluem uma pá de álbuns de Pearl Jam, Stone Temple Pilots e Incubus, faz sentido que o gosto seja de comida pasteurizada. volto a ressaltar a inventividade dos guitarristas Hinds e Kelliher: com suas afinações pouco usuais, outra vez deixam a impressão de uma banda que poderia ser excelente, mas peca por composições pouco inspiradas.

Oblivion é uma grande abertura, e isso também é característica do Mastodon - começar muito bem. mas o restante do disco fica entre passável, requentado ou simplesmente fast-food. ok, minto: Ghost of Karelia tem breakdowns e começão de escala exemplares, grandiosos. The Last Baron também é interessante, apesar de evocar demais... Yes??!?


para este ouvinte, os encantos que Mastodon (genuinamente) causam por aí seguem grande mistério. não condeno os caras; mesmo tendo perdido - diria reformulado, pura boa vontade - a identidade em tantas mudanças, Mastodon PODE ser uma grande banda. eles precisam de boa produção, de peso, e de pegada. dou-lhes novo prazo, provavelmente 2011, o próximo disco: ou eles realmente encontram seu caminho e fazem um grande disco - seja de prog ou sludge [-core], ou saint anger magnetic de vez.




site oficial






é o JAPÃO.


~.~


o amigo headbanger sabe:
conhecer uma garota que goste de metal E seja bonita é uma bênção.
conhecer uma garota que goste de metal extremo E seja bonita é tipo MEGASSENA.
e uma garota bonita fazendo metal extremo era uma espécie jamais identificada nesse miasma de torpor fétido a que chamamos Terra.


ATÉ AGORA.


sim, você suspirou por Anneke von Giersbergen. aguentou o metal simplezinho de Cristina Scabbia (até ela virar -core e fazer dueto vergonhoso com Mustaine). quis achar Angela Gossow gata, suspirou (comigo) por Julie Xmas - mas é outra praia metálica. você pode até falar em The Donnas ou - bah! - L7.


mas BABES no metal extremo - death, grindcore, GROWL, e com tanta competência - ainda não tinha pintado.


e é exatamente por isso que há JOIO e JÚBILO ao descobrir Galmet e FID. respectivamente



a primeira pro lado do death, rolando um groove meio post-thrash; a segunda no grindcore sanguíneo. ambas fazendo uma barulheira fenomenal E eficiente.

além de apuro ESTÉTICO.



e ainda por cima de CINCO cordas. marry me Sawa!!!111


perversões à parte, é excelente ver mulheres entrando na cena de metal extremo. já há muito presentes no gueto gótico-metálico, porém ARISCAS a iniciativas mais agressivas. o Japão, outra vez, é a única maneira de romper um paradigma (com uma britadeira). e proporcionar magricelas tendo momentos de cookie monster tão eficientes como um jovem Barney Greenway.


fizessem um hardcorezinho meia-boca e esse post não haveria. mas demolindo TUDO - como vocês puderam notar -, impop só tem a celebrar o trabalho pioneiro destas garotas.


LONGA VIDA. longa vida ao underground. e em especial às baixistas de metal.







obrigado a Truk por FID. imagens de Galmet: thanks metaladies.com

galmet @myspacegalmet @metaladiesmais vídeos de galmet @youtubeFID officialFID @msypace

roubando da categoria @oprimo de "coisas excelentes demais para não ganharem um post"


três velhinhos nonagenários tomando café da manhã e comentando duas faixas - uma do Beirut e outra do Sepultura.

Ann, além de chata, não entende picas. já os caras são ótimos. certamente tomaria uma ou DOZE cervejas com eles.



velhinhos no metal VENCEM.


O jazz pode, de fato, parecer um gênero musical bastante sisudo. Num primeiro pensamento o que me vem é aquela cara "John Coltrane-like", hermeticamente fechado em seu saxofone, tocando no cantinho de um bar escuro e mareado de fumaça, com todo mundo ouvindo em silêncio quase ecumênico.

Mas e se eu te disser que esse pessoal aí embaixo está tocando jazz?

"M-mas tem uma TUBA!!", você deve estar se perguntando. Repare que tem também um órgão daqueles de igreja protestante, e que o saxofonista (o tal John Ellis) está de calça jeans e usando um chapéu estilo Zeca Baleiro (deusquimilivre). E que a música toca chama-se "Three Legged Tango in Jackson Square".

Eis aí a genialidade de John Ellis e seus companheiros. Em "Dance Like There's No Tomorrow", disco de 2008, a primeira faixa soa como a bandinha do parquinho de diversões. A segunda soa como James Brown fazendo funk. A terceira parece a trilha sonora de um número do Cirque du Soleil, e por aí vai. E aí você não sabe se deixa o queixo cair por causa do mundo de timbres e influências completamente disparatados ou pela segurança e assertividade - e deliciosa musicalidade - com a qual os músicos criam por cima de tudo isso.

Pra mim a beleza do jazz é isso. Não se trata de um estilo, e sim de uma forma de extrair música, espontaneamente, de dentro da própria música.

"Dance Like There's No Tomorrow" para comprar na eMusic - MySpace


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uma lista pessoal e cronológica de "álbuns que mudaram a maneira como ouvia música por terem sido a porta de entrada para um novo mundo" poderia ser, aproximadamente,

• Pink Floyd: Meddle
• Black Sabbath: Vol. 4
• Sepultura: Arise
• Alice in Chains: Dirt
• Paradise Lost: Icon
• Obituary: World Demise
• Morbid Angel: Dominate
• Sambaloco Spiritual Drum 'n' Bass vol. 1
• Duofel: Atenciosamente
• Gorguts: Obscura
• John Coltrane: My Favorite Things
• Pan American: 360 Business/360 Bypass
• The Mercury Program: All the Suits Began to Fall Off
• Isis: Oceanic
• Loscil: Submers


veja aí que é uma seleção que cobre uns 20 anos de pesquisa curiosidade em 15 discos. Icon, do PARADISE LOST (music for nations, 1994), é um dos itens mais marcantes da lista. era o começo dos anos 90 e eu escutava basicamente thrash (sepultura, slayer, megadeth, biohazard, metallica, kreator, todos eles), grunge e guns 'n' roses (todos fomos jovens). em 94 as perspectivas não eram nada boas; a qualidade das bandas citadas acima vinha decaindo em velocidades diferentes, ou até se despedaçando, caso da cena de seattle.

aí que meu grande amigo e mentor metálico Uilson apareceu com o Icon. "é doom/death, tem umas melodias bala pra caralho. difícil de definir mas uma das minhas bandas preferidas". tirei o encarte da caixinha, as letras num fundo verde-musgo, arte caprichada, essas imagens que estão logo acima. cousa muito refinada. botei pra tocar. a abertura é CRUNCHER.



os ingleses do Paradise Lost nunca lançaram um disco igual ao outro. de Lost Paradise (1990) até sei-lá que merda andam fazendo, foram do death grosseirão ao synthpop sem se repetirem. seu passado segue cultuado e o ápice de sua produção é objeto de polêmica entre defensores dos quatro primeiros (excelentes) discos, sendo que, para bereteando, o ponto é este Icon. foi quando realmente forjaram uma das pedras fundamentais, se não a maior, do doom/death: músicas vibrantes, muitas de clima quase épico contrastando com a temática e sonoridade depressiva que marca o estilo. (não por coincidência, são apontados como inventores do metal gótico com o disco Gothic, de 92). as linhas de guitarra são quase totalmente melódicas; geralmente simples, mas muito inspiradas. harmonias que ficam na cabeça e chamam a atenção não por tecnicalidades, mas pela beleza. Gregor Mackintosh, guitarrista/compositor, apresenta uma faixa memorável atrás da outra. e também Nick Holmes tem seu melhor registro: apesar de ter sido um grande growler, os vocais de Icon, apenas levemente crocantes, mostram-se perfeitamente adequados às canções.

é um disco que exige uma certa tendência à introspecção, ou um mood meio bluesy. repleto de harmonias menores, é triste sem deixar de ser enérgico, é verdadeiramente emotivo - sem jamais abandonar a pegada na bateria, e inclusive em andamentos mais velozes. "Weeping Words", abaixo, é um exemplo perfeito. o riff de guitarra é sensacional.



a faixa de Icon que se tornou clássica, é a de número dez. "True Belief", o doom-goth-blues que jogou a banda na direção do rock mainstream. nela se pode colocar um 'centro' na banda; é possível saber exatamente de onde ela veio, e para onde estava indo. em odes à melancolia.



Icon é um disco brilhante, uniforme, que mostra beleza inclusive de forma mais crua (incluindo mixagem) - não tão polido como Draconian Times (96), uma quase-parte-2 menos agressiva, embora também notável. e não apenas isso; é um disco que demonstra as credenciais do death e muitas características do doom metal, em um formato de assimilação mais fácil - tornando o álbum uma excelente porta de entrada para quem vem de fora do metal. eu, que naquele momento da trajetória procurava por linhas de guitarra marcantes como em Soundgarden, tive uma verdadeira EPIFANIA. nessas canções eu escutava Sabbath, mas também coisas boas de Megadeth - só que com uma dose de sensibilidade a mais; mais inteligência. o disco fazia sentido, como naquelas descobertas de 'eureka!', e eu sabia que aquele seria um momento cada vez mais raro por sua própria natureza. saí dele para me deleitar em sessões de Anathema, At the Gates e My Dying Bride, e mais tarde, ser jogado pelas necessidades exploratórias dos meus ouvidos nos reinos do death metal. foi a ponte perfeita para o metal extremo, e à Icon e suas intenções de "soar como uma catedral", eu agradeço de forma veemente.






*post a convite de black dog, que levou este disco pro musica320




paradise lostreviews de Icon na encyclopaedia metallum

[polar bear]

lembro que encontrei esse disco numa lista de post-rock e baixei junto com outros tantos, da forma que gostava de chamar de "pack do mês" - onde baixava um punhado de discos no começo do mês apenas seguindo recomendações de todo lugar. Parei de fazer isso hoje em dia, os tempos são outros. Baixo um disco muito mais rápido e não tenho que me preocupar com recomendações, pelo contrário, tenho que ignorá-las.

[o começo com "I Was Dreaming You Called You Dissapeared I Slept" é calmo, quase romântico, uma bateria sussurrada, pequenos efeitos eletrônicos enriquecem a melodia e te jogam na faixa seguinte "Beartown" quase sem perceber - esta já tem uma linha melódica mais compassada e pesada, pra dançar mesmo, se é que ainda pode fazer isso hoje em dia com jazz. O crescendo nesta faixa é delicioso, chega em tal ponto que começa um diálogo mais afoito entre um trumpete e um sax tenor e lá atrás a bateria em ritmo quase marcial vai montando a festa. É uma alegria só]

ele ficou um bom tempo no hd até escutá-lo. Num desses dias que se precisa de Coltrane pra poder seguir adiante com as horas longas resolvi colocar ele pra tocar, ver o que era, tinha lido que era a melhor banda de jazz desde o Medeski, Martin & Wood e até classificavam como um tal de post-jazz. Ou seria muito chato ou eu iria apaixonar.

[na faixa-título temos um tum-rum-tum-dum meio bossa, meio tango bem grave, deixando os sopros em primeiro plano, se divertindo bem na frente. Faz parte dos melhores momentos do disco lá pelos 03:40 quando a melodia começa a entrar num ritmo mais leve, abandonando o teor grave do começo e o trumpete namora com o baixo. E o baixo desse disco é fenomenal, só entra nos momentos mais sacanas, fechando as melodias e os diálogos com leveza e elegância. Logo depois dessa faixa em "Argumentative" temos um bop clássico, daqueles bem urgentes que lembram Kerouac pilhado escrevendo]

o mais divertido desse disco não é a sua suposta complexidade jazzística que se lê por aí, com esses termos estranhos e tal, mas sim a forma como as canções são facilmente assimiladas pelo ouvinte, goste ou não de coisas refinadas. A diversão aqui está em todos os instrumentos, pois ao assumir o formato banda temos vários deles conversando, elaborando teias melódicas diferentes e entregando momentos mais gostosos de se ouvir do que aquele solo anfetamínico de Davis que todo mundo diz que é bom e eu só acho anfetamínico. Acontece nas canções um encontro, um duelo, uma guerra particular entre os instrumentos para ver quem consegue reverenciar melhor a melodia, quem consegue inovar mais, preencher melhor aquele espaço deixado pelo outro. Uma putaria.

[no final do disco, após uma festa imensa, tem o vocal calmo de "Life That Ends Soon", fechando de forma melancólica e romântica a festa, quase da mesma forma como foi iniciada. volte para o início]

esse é o tipo de disco que demora pra gastar, quiçá nunca.

Infernal Procession... And Then Everything Dies


lançado em novembro, limitado a 1000 cópias, por ocasião de tour conjunta pela Inglaterra, Infernal Procession.. And Then Everything Dies é disparado o MELHOR split que já ouvi em todos os tempos. melhor. fico imaginando como não funciona no inverno do hemisfério oposto, janelas batendo com o vento gelado.

não que seja um disco frio; duas das três faixas aqui apresentadas, aliás, tem tanta cobertura fuzz que, fosse outros tempos, a válvulas do amplificador e os (verdadeiros) magnetos nas caixas causariam efetivamente um aquecimento do local. mas suas composições longas e contemplativas evocam, simplesmente, solidão.

Tracks:
1. Nadja, Time is our Disease 13'25
2. Atavist, Certitude 13'42
3. Satori, Abyss 9'28


o Nadja você conhece desse perfil do impop sobre metade da dupla, o canadense Aidan Baker. "Time is our Disease" não apenas traz a obrigatória dose de drones; apresenta-se participante dessa nova movimentação do shoegaze em direção ao ambient e ao doom metal. ou seja, você navega em terras obscuras - mas na companhia de uma melodia simples, de tom maior e que evoca redenções, e vocal não-agressivo. nesse caso, inclusive, é sussurado, e apenas sobe à superfície em certos momentos. superfície de um verdadeiro mar de fuzz realimentado, num trabalho de mix tão brilhante que os fones, vez em quando, mostram ilhas de puro ruído branco nos cantinhos.

além das guitarras sobrepostas e processadas, o sintático baixo de Leah Buckareff e uma bateria (programada), lenta e bastante básica. que é responsável por outro toque shoegaze: diferente de outros trabalhos do Nadja, aqui há uma batida. reconhecível, marcável, simples, compelling, e que torna irresistível um momento headbanger - principalmente lá pelos nove minutos, em que os solos se arriscam a cruzar de um ouvido ao outro.

na faixa de épico comprimento (praxe), é interessante notar que as estruturas utilizadas não fogem muito a uma jam com distorções saturadas. existem riffs reconhecíveis, trechos melódicos marcantes e a já citada bateria, imprescindível para que a faixa alcance todo seu potencial. o Nadja mostra mais motor e menos fumaça; está atingindo um nível acima de si mesmo e dos outros, ainda que a comparação não seja exatamente simples.

senão, tomemos por exemplo "Certitude", participação dos doom heads do Atavist, de Manchester. são artistas que já colaboraram antes (com mais ruído e experimentação), ou seja, notados como análogos na cena. mas já na abertura da segunda faixa deste split fica clara a diferença: uma introdução limpa (e cativante) de guitarra/baixo/bateria nos leva mais ao território de "banda", mesmo, com seus compassos e marcações. dura 1'30 até que o céu desabe sobre sua cabeça e uma serpente negra se levante de dentro de um vulcão e tudo vire sobreviventes meio à fuligem. mas não esqueçamos o toque shoegaze: o riff das guitarras é belíssimo, intercala-se a passagens limpas, há pausas. mas no resto, lembra o sludge/post-metal impiedoso de bandas agressivas como Mare ou Baroness. donde, de voz, ouvimos growl rasgado e enterrado no meio do mix, com backing vocal ainda mais baixo e grave. e a progressão de riffs harmônicos em direção ao apocalipse eterno, traço que agrada a qualquer fã de sludge e modernidades metálicas.

terminado o segundo terço do split, a sensação é de ter tomado uma surra - mas, ao invés de dolorido, deixa o ouvinte mais leve. a sublimação promovida pelo metal, se sabe, é inequívoca.

fecha a bolacha uma faixa sintética: puro dark ambient/power electronics do Satori, projeto irregular de Justin Mitchell que se arrasta desde 1984. atmosferas opressivas, tape delay, samples cavernosos, vento, ruído. não é um final desolador porque split, se sabe, não tem começo ou fim, é apenas colagem; mas escutado na íntegra, provoca um efeito surpreendente. "Abyss" começa limpa e vai crescendo até fazer o ouvinte perder a referência do que está escutando. e aqui, não há nada que sirva como alento; é tudo frio e opressor. mas também o dark ambient promove catarse como o metal, e, no apanhado do disco, tem-se uma obra simplesmente revigorante, e purificadora.


disco lançado para turnê conjunta, lembram? cavem o disco, e lamentem comigo.


Title: Re: NADJA / ATAVIST / SATORI - *TONIGHT* @ the croft.. TIX available on door

Post by: Beerman on November 24, 2008, 01:04:21 PM

Lovely gig, soft and gentle doom from the combined bands of Atavist and Nadja and followed on in the same vein with a soft and gentle Nadja set. I was struck bythe influence Aidan had on the Atavist lads, without their drummer to keep them mean and on track, who I think they left abandoned in a van on a motorway somewhere, they slipped easily into Nadja mode.

Big mention for the opener band though, Satori. Wasn't expecting much from two guys with laptops, but it was a complete audio visual experience. The film they had showing behind them had been put together espeicially for the music and quite frankly the music became a soundtrack to the film. It reminded me a lot of the feeling I got when I watched Hellraiser for the first time. My only criticism was the band positioned themselves betwen the film and the audience, which was a bit like a director standing up in front of the screen all through the premier showing of his latest creation. I found myself straining to look past the guy staring motionless into his laptop. But getting over that, I thought they were great.


cold spring recnadjaatavistsatori

"Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e ouvindo, não ouvem nem entendem." - Jesus Cristo (Mt, 13:13)

Então outro dia eu estava com os fones de ouvido numa estrada qualquer, olhando pela janela, e pensando no quanto a música é uma experiência que existe num nível diferente, separado da realidade, e que por isso é difícil de descrever em palavras. "Escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura", disse Elvis Costello, em frase relembrada aqui no Impop pelo Renmero. Então veio a idéia maluca: "E se pudéssemos escrever sobre música sem falar de música?"

Este post é uma tentativa de implementação desta idéia, em oito mini-reviews de discos que tenho ouvido recentemente.

As diretrizes para os mini-reviews são simples: não posso comentar sobre a música nem sobre nada relacionado à sua sonoridade. Não vale, por exemplo, citar bandas parecidas nem usar adjetivos que se refiram ao tipo do som. Mas posso fazer analogias com qualquer outra coisa, citar experiências similares, etc. Vale tudo para falar da música - menos falar de música.

Então vamos lá. (P.s.: Os links apontam para algum lugar onde você possa ouvir alguma coisa do disco, caso queira).

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Qua - Painting Monsters on Clouds: É como um livro de colorir, que pertence a uma criança bastante hiperativa. Nele ela inventa aquelas histórias fantásticas e cheias de reviravoltas, que nem sempre tem a continuidade de uma narrativa adulta mas que deixam transparecer, nas suas "entrelinhas", a maturidade do futuro adulto escondido ali.

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Steve Roach - Darkest before dawn: Uma hora e vinte minutos olhando o planeta Terra da janela da Estação Espacial Internacional, enquanto ela orbita lentamente. A cada volta você vê o planeta exatamente do mesmo jeito; as variações são mínimas e, de tão lentas, são quase imperceptíveis (uma nuvem que saiu do lugar, o sol batendo diferente numa montanha, etc.), mas a paisagem em si é absolutamente fascinante e, de uma maneira misteriosa, absorve toda a sua atenção.

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Dabrye - One/Three: É um ciborgue ao contrário. Pense bem: o ciborgue tem a aparência humana e, por dentro, é uma máquina. Neste caso nós temos algo que cospe digital por todas as suas interfaces de saída mas que, por dentro, não somente é um ser humano como é um negão de sunga, passeando sorridente por Miami Beach.

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Flying Lotus - 1983: Um Ford conversível, daqueles largos e achatados, modelo 1975, cruzando nem rápida nem lentamente pelas ruas sujas do Brooklin novaiorquino. E o negão-ciborgue do review do disco do Dabrye está dirigindo.

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Deadmau5 - Get Scraped: Um moleque norte-americano, até gente boa, que trabalha no Wal Mart, mora com os pais e vai pro trabalho ouvindo sempre a mesma rádio FM no carro.

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Lindstrom - It's a feedelity affair: É a porta de uma casa noturna da Rua Augusta num sábado, por volta da meia-noite.

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Nightmares on Wax - Thought so... : Aquela festa na praia está começando a desacelerar. Todos os seus amigos estão lá, se divertindo horrores. O dia foi excelente. Você adorou cada momento e, levemente bêbado, se senta na areia, olha o sol se pondo e pensa no quanto a vida é boa.

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Rovo - MON : Deus, criando o universo.

aidan baker - live in halifax 2008 no2


a carreira do canadense Aidan Baker é daquelas tão prolíficas que deixa a gente até meio perdido. sob o próprio nome, com o ARC e no (cada vez mais aclamado) Nadja, a produção em ritmo vulcânico denota não apenas a necessidade da vazão criativa - traz também todas as nuances das mutações e desenvolvimentos de seu trabalho, que abrem-se como lentos e profundos brainstorms sobre pequenos conceitos.

não apenas como figura de linguagem. seu trabalho é altamente improvisacional, seja ao vivo ou em gravações. este "altamente" transforma-se em "completamente" em diversos casos - e é, inclusive, uma das explicações para os mais de 150 itens na discografia - em cerca de apenas seis anos.

como se nota pela foto, trata-se de um guitarrista. filho de músicos, aula de piano desde cedo, quinze anos estudando flauta, multiinstrumentista. também poeta, três livros lançados. não leva as palavras para a música. escreve no computador, mas não o usa para compor: gravadores multipista, pedais de loop, processamentos, algum auxílio de electronica nas atmosferas - pads timbrados pelo fabricante do synth, beats ocasionais. quando em Nadja, utiliza a estrutura do metal à serviço do doom/drone, um Sunn O))) tão dark porém menos opressivo. no projeto que leva seu nome, ambient ambient, de idéias longas, temas lineares, tape loop studies, músicas-álbuns, viagens particulares compartilhadas. a guitarra extrapola os caminhos de um Justin Broadrick: processamento e experimentalismo e muitas vezes nem se pode perceber que foi ela o instrumento gerador.

isso é, evidentemente, apenas um detalhe.


nadja3_airleth_aodhfin


With improvised material sound IS composition: sound determines the shape and movement and progression of the song just as much (if not exclusively) as scales or modes or whatever. Sound still plays a large part when I'm writing, of course, but I suppose it's balanced with other aspects of composition. >terrorverlag


apenas recentemente Baker passou a utilizar o computador de forma criativa, especialmente para picotar e descaracterizar as estruturas que cria na guitarra. considerando-se, ele mesmo, primariamente um guitarist/looper, a adição é notada nos discos a partir de 2005, e com ganhos substanciais na expansão de suas imagens sonoras. num outro trecho da entrevista acima, Baker diz que considera bem-sucedidos os shows onde é capaz de fazer o público 'perder-se' na música; o efeito também é notado em estúdio, com álbuns como "I Will Always And Forever Hold You In My Heart And Mind" (2007) - uma grande viagem quase-conceitual onde cada faixa tem o nome de uma das palavras que formam o título. a influência da etapa "desktop" de composição fica ainda mais evidente quando comparado aos trabalhos mais antigos, como "Métamorphose (En Sept Etages)" (2002), de um dark ambient quase industrial, bem menos amistoso e rarefeito.

quando não corta - apenas para efeito didático, parece - uma única longa música para compor um álbum, suas faixas costumam bater nos 10 minutos, e pra cima. se as variações são minimalistas, o mesmo não se diz da sonoridade; o ambient de Baker ocupa espaço, traduz-se menos textura e mais composição - abstrata -, desenha de forma mais nítida suas paisagens. ele trabalha com espaços, mas principalmente os neurais. nota-se clara a intenção, da música, de carregar o público consigo. objetivo que é plenamente satisfeito.


trata-se, evidentemente, de um artista tão rico quanto seu ouvinte pode ser. e que lembra, mais uma vez, que a música não precisa - e nem deve - ser uma questão fechada. pode, sim, servir como uma camada a mais de (sub?)consciência, somando. e prova mais uma vez que o ambient e a eletroacústica são os caminhos exploratórios mais interessantes, inteligentes e promissores do ínicio deste século para a música.


aidan bakermyspaceARCnadja

zbp.jpgna curta e criativa discografia do Cave In -- com exceção de Antenna --, uma marca registrada são as misturas entre rock alternativo/garage e sludge/hardcore numa mesma faixa (como em "Trepanning"). pelo que se vê nos projetos paralelos à banda, fica claro que Steve Brodsky é o responsável pelas passagens mais emocore, e Caleb Scofield, quem puxa pro lado mais pesado. e pelos resultados, fica evidente quem tem mais força para vencer no páreo dos novos frontes.

não apenas isso; o ZOZOBRA é uma das melhores bandas que surgiram no cenário ultimamente. nem bem é uma banda; Caleb toca baixo e todas as muitas guitarras em camadas. teve Santos Montano na bateria em Harmonic Tremors, o primeiro disco; e neste Bird of Prey, traz Aaron Harris, do Isis -- que também faz a mixagem, com excelente resultado. dois anos, dois álbuns esmagadores, repletos de fuzz e de afinações baixas, peso nas cordas e o melhor: riffs memoráveis. Caleb, que nunca teve espaço para suas próprias músicas no Cave In ou no Old Man Gloom (o pretensioso supergrupo de post-metal de Aaron Turner, frontman do Isis e da gravadora cult Hydra Head), se consolida como um grande riffmaster, calcado obviamente no doom de Iommi e seguindo a linha que se ouve em bandas como Cathedral e Crowbar. ou seja: groove e certas melodias que parecem ter vindo dos anos 60.

os 30 minutos de Bird of Prey são encaixotados num tijolo. a proposta é simples: verso sludgecore com o baixo proeminente, distorção por todos os lados. nos refrões e nas arestas, um riff pontuado fascinante, talvez uma segunda voz (também de Caleb) limpa por trás do berro rouco de ordem. como no sludge e no post-metal, é pesado, mas não demais; geralmente no sentido do hardcore, e não do death metal. faz-se denso também pela equalização quase toda grave e média -- o pantâno do sludge: os poucos picos do medidor para os agudos ficam para algumas linhas de segunda guitarra, solinhos ou mesmo finais de acordes no meio da parede de guitarras. faixas como "Heavy with Shadows" são assim. coloque os fones e vá contando as cordas. acchilles last stand amordaçado em estática de fuzz. é o mesmo com "Emanate", o petardo demolidor de abertura, e "In Jet Streams" - com direito a um puta riff fantástico no pre-chorus. há faixas mais cadenciadas, caso de "Treacherous", em 3/4 e com trabalho de guitarra simples e viciante, e a épica "Sharks that Circle" - provavelmente a melhor do disco. também pelo efeito após "Big Needles", a intro que a precede: uma nuvem de distorção, feedback e buzz sortidos que acabam por culminar numa estrondosa torrente de baixo galopante, riffs muito graves e refrão grudento. as músicas mais lentas são "Hearless Enemy" e "Laser Eyes", outra viagem de noise introdutório seguido por riff épico. depois de meia hora, a sensação é de ter comido um xis. tijolo. compacto, sem firula, muita crocância e maionese. refeição completa.

se no primeiro disco havia maior variação de andamentos e temas, Bird of Prey traz uma grande boa nova: identidade. este Zozobra continua os melhores momentos do primeiro disco -- "Kill and Crush", "The Vast Expanse", "Caldera" --, os melhora, dá coesão e energia. talvez se pudesse dizer que Caleb percebeu o potencial que tinha; parou de pensar "num projeto paralelo aí" e decidiu dar o melhor de si nas composições. ao mesmo tempo, já li review dizendo que o disco não é de todo memorável. ou seja, exatamente o oposto do que eu penso. mas depois de 40 audições, eu continuo tendo certeza que esse é um dos discos que eu vou levar de 2008 comigo.


stream do disco completomyspacewiki

É uma lista altamente parcial (no sentido de "incompleta", não de "tendenciosa"), já que eu não fico caçando lançamentos do ano pra ouvir. Tanto que meu vício mais recente tem sido "Heaven or Las Vegas", disco do Cocteau Twins lançado em 1990. Além do mais faltam links e imagens das capas dos discos porque a maldita internet desse maldito hotel dessa maldita cidade está, mais uma vez, me deixando na mão.

Mas chega de disclaimer, vamulá:

Girl Talk - Feed The Animals

É o último trabalho de Greg Gillis, o mestre do mashup pop/rock/rap/Billboard top 100. Infelizmente, "Feed The Animals" repete EXATAMENTE a mesma fórmula do disco anterior, o "Night Ripper", validando a afirmativa de que Girl Talk é um mágico de um truque só.

Só que o truque dele é MUITO divertido!

Vampire Weekend

É a melhor coisa que ouvi em 2008. O som dos caras - que por alguma estranha razão anda sendo chamado de afro-pop - é muito amistoso, as letras são espertas e a dinâmica das músicas passeia num espaço agradável entre o vigoroso e o tranquilo. Mexidas no andamento, nos instrumentos (um órgão retrô ali, uma flauta acolá, um bongô mais adiante) e até na "estética" do som (às vezes puxando pro punk, pro caribenho ou pro kitsch) mantém o interesse firme e forte ao longo do disco. E ainda tem os competentes vocais de Ezra Koenig - que é homem, apesar do nome.

É uma obra-prima cujo único problema é ter apenas 34 minutos.

E, sim, tem muito hype em cima dos caras, mas não se deixe levar por isso.

Portishead - Third

Yeah, yeah, terceiro e antecipadíssimo disco dos papas do trip-hop e tal. Normalmente expectativas elevadas geram uma decepção proporcional, que, felizmente, não aconteceu. Mesmo depois de um hiato de 10 anos, o Portishead entrega o que todos esperavam - e com muita classe.

O disco é denso e construído sob os velhos (e funcionais) pilares do trip-hop: arranjos espartanos, tocados lentamente e em performances fortemente emocionais. Puxa pra baixo o mesmo tanto que o Vampire Weekend puxa pra cima - o que, portanto, o torna des-recomendável pra quem não curte navegar em emoções tristes.

Fly Pan Am - Ceux Qui Inventent N'Ont Jamis Vecu (?)

Olha, apesar deste disco fazer parte desta lista eu confesso que não entendo direito o rock experimental dos franco-canadenses do Fly Pan Am.

As músicas não parecem ir à lugar algum: os caras constróem uma "cena sonora" repetindo acordes nas guitarras por longos minutos, depois misturam live recordings com ruído e vocais perdidos, depois passam longos minutos em hiatos semi-silenciosos, depois "estragam" de propósito trechos das músicas, fazendo-as soar como se fossem glitches de um CD riscado ou um MP3 mal "encodado", e assim por diante. Só que existe uma "moral da história" no meio dessa bagunça: uma construção abstrata mas palpável e, num nível muito estranho da mente, perfeitamente compreensível.

E é isso que, de alguma forma, os torna geniais.

Bonus Tracks: Comentários rápidos sobre outros lançamentos 2008itenses que ouvi.

Daedelus - Love To Make Music To é delicioso como todos os outros discos de Daedelus. Mas, diferentemente do "Daedelus Denies the Day's Demise", esse investe numa atmosfera mais neutra ao invés daquela "animação toda" de sempre e, portanto, demora um pouco mais pra "bater"

O "Með suð í eyrum við spilum endalaust" (também conhecido como "disco do Sigur Rós com os caras pelados na capa")... bem, esse aí é uma grande incógnita. Comprei, ouvi e ele ficou lá, encostado na prateleira virtual do meu iTunes. Não que o disco seja ruim, mas, sei lá, parece que foi apagado pela sombra do disco anterior (o absurdamente maravilhoso "Takk").

A faixa 4 de "The Midnight Organ Fight", do Frightened Rabbit, é tão boa que, sozinha, me fez comprar o disco na hora. Agora pergunta se eu tive tempo de ouvir o resto das músicas... :/

A eMusic inventou uma tal selo chamado "eMusic Selects" para promover bandas. Sim, é jabá, então fiquei olhando torto até que, de repente, apareceu "Keeper's", do Deastro...

E o Tape lançou "Luminarium" em 2008, disco atmosférico e rico de texturas que, infelizmente, não tive tempo de ouvir direito até agora.

Das cinco faixas de Kind of Blue, "Freddie Freeloader" é a menos melancólia. Homenagem ao barman-pedinte que acompanhava (sem ser chamado) a banda pra todo lado em NY, é nesta forma blues que Wynton Kelly assume o piano do sexteto e faz sua participação única no disco, evidenciando, assim, o minimalismo de Evans nas faixas restantes.

Freddie Freeloader (apenas o áudio)

Ashley Kahn, em seu livro sobre o disco**, comenta sobre a repercussão da obra-prima do jazz e traz informações interessantes: embora os dados de empresas e editoras de música não sejam muito precisos, já foram gravados cerca de 150 covers de "So What" e "All Blues", uns 100 de "Blue in Green", mas apenas 7 de "Freddie Freeloader" e 5 de "Flamenco Sketches" -- ok, os números desta última não surpreendem.

Há um player aqui, pessoal do feed (via.)

Dentre tantos covers, talvez um dos mais curiosos seja este aí em cima, de "Freddie Freeloader", que também é mencionado no livro de Kahn:

O mais impressionante tratamento vocal do material de Kind of Blue já gravado provavelmente seja o auge da vocalização organizada por Jon Hendricks para "Freddie Freeloader". Em 1989, ele, Bobby McFerrin, Al Jarreau e George Benson vocalizaram respectivamente os solos originais de Coltrane, Kelly, Miles e Adderley. Os cantores são excepcionalmente precisos em suas versões dessas improvisações eternas, e a letra divertida evoca conversa de bar e balbúrdia de rua: "Freddie, Freddie / Bebiba na faixa, blues na faixa, dívidas na faixa".

* * *

E já que estamos por aqui, um bônus: em 2 de abril de 1959, no intervalo de seis semanas entre as duas sessões de gravação de Kind of Blue, foi ao ar um programa de 30 minutos chamado The Sound of Miles Davis, que contou com a primeira execução publica do tema mais conhecido do disco, "So What". Esta é a única gravação em vídeo que mantém grande semelhança com o original, ainda que um pouco mais rápida. Foi ao ar somente no ano seguinte, mas obteve grande audiência e serviu como mais um belo empurrão na carreira de Miles.

The Sound of Miles Davis (1959)

No entanto, a formação banda não era a mesma do sexteto-mais-um: logo no começo vê-se Cobb, Chambers e Kelly; à frente, Miles e Coltrane. Adderley, mesmo sendo creditado no fim do programa, se ausentou por conta de uma enxaqueca e foi substituído por três trombonistas, o que deu mais peso ao tema de abertura -- e Miles volta para solar no lugar de Cannonball.

Um belo registro.

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** Há uma excelente resenha sobre o livro aqui, um breve comentário meu aqui e, também, uma resenha do disco aqui no impop.

não da forma de "horror" que você pode estar pensando; não há monstros ou fantasia ou zumbis. o que há, sim, é uma atmosfera tão pesada, tão densa, que transcende o próprio peso sonoro. comparação fácil à parte - nunca ouvi nada tão próximo a um pesadelo. e eu, que posso ser ninado com Morbid Angel numa boa, penso duas vezes antes de escutar esse disco - porque eu sei que ele vai interferir diretamente no meu humor e na maneira como me sinto e me percebo no mundo.



imagem: divulgação/decibel magazine

o BATTLE OF MICE é a reunião de Josh Graham (Neurosis, ex-Red Sparrowes) e Julie Christmas (do fantástico Made Out of Babies). num show no SXSW, cada um com sua banda, conheceram-se e imediatamente se odiaram. colegas de Neurot Recordings, numa turnê sucessiva repensaram a postura e descobriram amor e sexo. pode parecer uma informação cretina, mas é importante para entender o disco: no final das sessões de A Day of Nights, os dois não se aturavam - ao ponto de se recusarem a gravar juntos. tanta tensão, ódio e uísque resultaram numa obra perturbadora, e incrivelmente bem-sucedida musicalmente.


By the time the sixth song, "Cave of Spleen", was recorded, Julie and Josh couldn't bear to be in the same room together. As such, the guitars and vocals were completed on different days; the vocals in one take, with no pre-written lyrics. (...) The sonic philosophy of the band reflects a huge, primal range of emotion: Love, lust, jealousy, whiskey, and blind rage, Julie explains. And while it might be pointed out that whiskey is not necessarily a clinically-recognized human emotion, it is unlikely that anyone will misunderstand the implications of its inclusion after hearing Battle of Mice. battleofmice.com

O disco, lançado em 2006, foi considerado o segundo melhor do ano pela Decibel Magazine - logo atrás de Blood Mountain, do Mastodon. definitivamente metálico, rotulado como post-metal da mesma forma em que criaram o post-hardcore: é mais do que sua base, mas ainda sem um nome específico. sem dúvida sludge - riffs lentos, graves, sujos e ultradistorcidos - mas escapa da fácil classificação pelo vocal maníaco de Julie. em momentos com a aura infantil de Björk, noutros como um gárgula vicioso berrando os pulmões pra fora, ela domina a cena. o envoltório de guitarras lhe cai bem e é inspirado, mas muito difícil não relegá-lo a moldura. como em sua banda de origem, Julie não canta, nem interpreta; se automutila nas letras enigmáticas. fascinante e visceral são adjetivos instantâneos.

hipnótico, A Day of Nights é um disco suicida - um relacionamento onde os dois enforcam-se para produzir "o melhor trabalho das suas vidas", nas palavras da vocalista. faixa a faixa, se morre e mata pela sua voz em atmosferas distintas: "The Lamb and the Labrador" é soturna em suas pausas cortantes, ameaçadora nos riffs. a aterradora "Bones in the Water" é o que considero um dos momentos mais pesados do metal, numa sucessão opressora de tons que vão se elevando para romper a barreira da sanidade. "Sleep and Dream" é uma quase-pausa em lento 4 por 4, ritmo de contador de histórias narrando um cão-besta ameaça iminente, para um final simplesmente épico várias oitavas acima na garganta de Julie. "Salt Bridge" e "Wrapped in Plain" seguem cadenciadas, e vão tornando-se mais sombrias e tristes; num ponto em que as guitarras parecem ir cansando da batalha. o retorno da demência vem logo no início de "At the Base of the Giant's Throat", de batida vigorosa e alternância de vocal limpo e guinchos; no seu final, uma gravação para o 911 faz do ouvinte voyeur de alguma desgraça. (eu escutei a primeira, talvez a segunda vez; agora, sempre passo adiante quando chega nesse ponto.) A última faixa, "Cave of Spleen", surge lenta e deprimida do sample anterior, para dar lugar a mais riffs tensos e vocais esquizóides. o peso, aqui como em todo o disco, vem no timbre e nos riffs menores, nas pausas agoniadas, na claustrofobia da voz de Julie enterrada no lodaçal criado por Josh Graham. são 45 minutos marcantes, pegajosos, e que não permitem ao ouvinte sair ileso. diferente de um disco de metal extremo, que exige tímpanos e músculos, A Day of Nights exaure psiquicamente.

se na indústria da música tudo é mercadoria, Battle of Mice entrega até mais honestidade do que deveria. e é exatamente por isso que é um disco tão marcante.

"I will not attack Josh's character in print, but I can't say anything nice at the moment either," says Christmas. "I can only tell you what a fucked-up and vicious irony it is to be doing some of the best work of your life with someone who is [so] far different from you or anything you ever want to be or be around. (...) Just about the only thing that we do agree on is how important the project is. Doing everything possible to make sure it gets off the ground and continues to be productive musically, is of the utmost importance. I think we both know what's ahead of us. Being in a band means spending time together and we'll figure it out one way or the other to keep going with Battle of Mice." decibelmag

a banda encontra-se em hiato, mas em seu site, promete novos álbuns para o futuro. em entrevista para o Brooklyn Vegan (?!), Graham afirma que neste ano deve sair um split com Jarboe, duas novas músicas. seu público aguarda, ansiado e temeroso como um adolescente dos anos 80 ao alugar um novo Faces da Morte.



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