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não da forma de "horror" que você pode estar pensando; não há monstros ou fantasia ou zumbis. o que há, sim, é uma atmosfera tão pesada, tão densa, que transcende o próprio peso sonoro. comparação fácil à parte - nunca ouvi nada tão próximo a um pesadelo. e eu, que posso ser ninado com Morbid Angel numa boa, penso duas vezes antes de escutar esse disco - porque eu sei que ele vai interferir diretamente no meu humor e na maneira como me sinto e me percebo no mundo.
o BATTLE OF MICE é a reunião de Josh Graham (Neurosis, ex-Red Sparrowes) e Julie Christmas (do fantástico Made Out of Babies). num show no SXSW, cada um com sua banda, conheceram-se e imediatamente se odiaram. colegas de Neurot Recordings, numa turnê sucessiva repensaram a postura e descobriram amor e sexo. pode parecer uma informação cretina, mas é importante para entender o disco: no final das sessões de A Day of Nights, os dois não se aturavam - ao ponto de se recusarem a gravar juntos. tanta tensão, ódio e uísque resultaram numa obra perturbadora, e incrivelmente bem-sucedida musicalmente.
By the time the sixth song, "Cave of Spleen", was recorded, Julie and Josh couldn't bear to be in the same room together. As such, the guitars and vocals were completed on different days; the vocals in one take, with no pre-written lyrics. (...) The sonic philosophy of the band reflects a huge, primal range of emotion: Love, lust, jealousy, whiskey, and blind rage, Julie explains. And while it might be pointed out that whiskey is not necessarily a clinically-recognized human emotion, it is unlikely that anyone will misunderstand the implications of its inclusion after hearing Battle of Mice. battleofmice.com
O disco, lançado em 2006, foi considerado o segundo melhor do ano pela Decibel Magazine - logo atrás de Blood Mountain, do Mastodon. definitivamente metálico, rotulado como post-metal da mesma forma em que criaram o post-hardcore: é mais do que sua base, mas ainda sem um nome específico. sem dúvida sludge - riffs lentos, graves, sujos e ultradistorcidos - mas escapa da fácil classificação pelo vocal maníaco de Julie. em momentos com a aura infantil de Björk, noutros como um gárgula vicioso berrando os pulmões pra fora, ela domina a cena. o envoltório de guitarras lhe cai bem e é inspirado, mas muito difícil não relegá-lo a moldura. como em sua banda de origem, Julie não canta, nem interpreta; se automutila nas letras enigmáticas. fascinante e visceral são adjetivos instantâneos.
hipnótico, A Day of Nights é um disco suicida - um relacionamento onde os dois enforcam-se para produzir "o melhor trabalho das suas vidas", nas palavras da vocalista. faixa a faixa, se morre e mata pela sua voz em atmosferas distintas: "The Lamb and the Labrador" é soturna em suas pausas cortantes, ameaçadora nos riffs. a aterradora "Bones in the Water" é o que considero um dos momentos mais pesados do metal, numa sucessão opressora de tons que vão se elevando para romper a barreira da sanidade. "Sleep and Dream" é uma quase-pausa em lento 4 por 4, ritmo de contador de histórias narrando um cão-besta ameaça iminente, para um final simplesmente épico várias oitavas acima na garganta de Julie. "Salt Bridge" e "Wrapped in Plain" seguem cadenciadas, e vão tornando-se mais sombrias e tristes; num ponto em que as guitarras parecem ir cansando da batalha. o retorno da demência vem logo no início de "At the Base of the Giant's Throat", de batida vigorosa e alternância de vocal limpo e guinchos; no seu final, uma gravação para o 911 faz do ouvinte voyeur de alguma desgraça. (eu escutei a primeira, talvez a segunda vez; agora, sempre passo adiante quando chega nesse ponto.) A última faixa, "Cave of Spleen", surge lenta e deprimida do sample anterior, para dar lugar a mais riffs tensos e vocais esquizóides. o peso, aqui como em todo o disco, vem no timbre e nos riffs menores, nas pausas agoniadas, na claustrofobia da voz de Julie enterrada no lodaçal criado por Josh Graham. são 45 minutos marcantes, pegajosos, e que não permitem ao ouvinte sair ileso. diferente de um disco de metal extremo, que exige tímpanos e músculos, A Day of Nights exaure psiquicamente.
se na indústria da música tudo é mercadoria, Battle of Mice entrega até mais honestidade do que deveria. e é exatamente por isso que é um disco tão marcante.
"I will not attack Josh's character in print, but I can't say anything nice at the moment either," says Christmas. "I can only tell you what a fucked-up and vicious irony it is to be doing some of the best work of your life with someone who is [so] far different from you or anything you ever want to be or be around. (...) Just about the only thing that we do agree on is how important the project is. Doing everything possible to make sure it gets off the ground and continues to be productive musically, is of the utmost importance. I think we both know what's ahead of us. Being in a band means spending time together and we'll figure it out one way or the other to keep going with Battle of Mice." decibelmag
a banda encontra-se em hiato, mas em seu site, promete novos álbuns para o futuro. em entrevista para o Brooklyn Vegan (?!), Graham afirma que neste ano deve sair um split com Jarboe, duas novas músicas. seu público aguarda, ansiado e temeroso como um adolescente dos anos 80 ao alugar um novo Faces da Morte.
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Semana passada eu ia lendo meus blogs e feeds quando topei com um post, favoritado pelo grande chapa Tiagón, sobre "Kind of Blue", o megaboga disco de Miles Davis. O post dizia que era "o disco mais vendido da história do jazz", "um dos mais importantes e influenciais de toda a música" e tal. Aí encasquetei que, naquela semana mesmo, ouviria "Kind of Blue" pela primeira vez.
O que me motivou foi o fato de que eu não sei nada de jazz. De fato, eu só tenho UM disco de jazz ("Giant Steps", de John Coltrane) e li algumas coisas muito picadas sobre como é que os músicos fazem jazz. Então resolvi me usar de cobaia para ver qual o efeito que "Kind of blue", erigido ao status de master-obra-prima-música-dos-deuses por quem entende da coisa, teria em meus ouvidos de neófito, despreparados para receber tais divindades.
Decidi ouvir o disco na sexta-feira, enquanto voava de Brasília para São Paulo - era o momento mais agradável do fim da semana de trabalho e ainda me dava a garantia de que eu não seria interrompido por ninguém durante uma hora e meia.
A primeira faixa, "So what", abriu, cuidadosamente, os trabalhos. A primeira sensação foi de conforto por perceber que os músicos estavam seguindo o "padrão jazz" que eu já conhecia: apresentar um setting - tipo um tema musical - e depois improvisar por cima. O tema me pareceu simples, duas notinhas, uma longa e uma curta - que até parecem mesmo dizer: "so what?". No entanto as progressões harmônicas eram bastante agradáveis - e desafiantes. Atualmente eu já ouvi o disco umas três vezes mas ainda não consegui me localizar totalmente nas mexidas de tom que os caras dão, especialmente em "Freddie Freeloader", a segunda faixa, que de repente descamba para um tom diminuto que, sei lá, eu não queria ser o cara que ia improvisar em cima daquilo.
Falando em improvisos, eles eram bem do jeito que eu havia lido: o esquema não era exibir técnica e velocidade, e sim trabalhar o lado melódico da coisa - coisa que, pelo que percebi, nosso amigo Miles faz tomando um cuidado todo especial não somente com a melodia, mas com a dinâmica e a expressão. E se considerarmos a melodia como o storytelling da música, a experiência de ver a história do disco sendo "escrita" em tempo real fez os quase 20 minutos das duas primeiras faixas passarem voando.
"Blue in green", a terceira faixa, reduziu a marcha do disco ainda mais, o que deixou bastante espaço para os instrumentos ficarem ainda mais expressivos. Eu acho isso bastante interessante, essa coisa de dizer mais com menos, de colocar intensidade no meio de discrição (até comentei disso no meu blog "normal" outro dia), mas eu ainda não sabia que o melhor estava guardado para o final. Prosseguindo, em "All Blues", a faixa seguinte, reparei que até então os músicos praticamente não haviam caído em nenhum daqueles "clichês melódicos" - sabe, aquelas sequências manjadas que você vê espalhadas por aí, desde o fim das frases na música clássica (seeempre voltando pro tom básico e resolvendo a tensão construída anteriormente) até nas melodias pop de rádio. E aí eu pensava na base de "All Blues" e aquilo parecia induzir as progressões mais óbvias. Mas é como eu disse antes, não entendo nada de jazz - talvez não seja nada disso, mas pra mim o aparente esforço dos músicos em andar por um caminho genuinamente criativo deixava tudo ainda mais interessante.
E aí veio "Flamenco Sketches" - "esboços de flamenco", numa tradução livre. Meu amigo, minha amiga, eu lhes digo que "Flamenco Sketches" me propiciou uma experiência que tem que ser descrita no detalhe:
Nos primeiros 30 segundos, apoiado pelo piano e pelo contrabaixo, Miles expõe a primeira parte do tema no seu trompete. Melodicamente aquilo não tinha nada de mais, mas eram notas tão bem escolhidas, tocadas de um jeito tão bonito... era um daqueles casos onde o músico pega um punhado de notas simples, descompromissadas, e na hora de junta tudo acaba nascendo uma frase inesquecível - como as notas do tema de Star Wars ou da introdução de Come As You Are, do Nirvana.
Aí, na sequência, a base do piano/contrabaixo faz uma curva de, sei lá, um tom e meio e, para minha surpresa, vai parar num acorde ainda mais bonito. E Miles entra com uma nota - uma única nota - longa, alta e pungente em seu trumpete. Precisamente nesse instante me passaram algumas centenas de coisas na cabeça: a primeira foi "Uou!"; a segunda foi "ah, então é ISSO que aquelas cantoras ficam tentando fazer quando dão aqueles agudos chatérrimos e que todo mundo acha lindo e fica aplaudindo". É que no caso das cantoras elas até acertam a nota, dão a entonação certinha, botam um vibrato pra dar "um plus a mais" mas ainda assim sempre faltava alguma coisa... precisamente a coisa que estava, de alguma forma, contida naquele agudo pungente do trumpete de Miles Davis. Daquele instante em diante a fama de obra-prima de "Kind of Blue" estava plenamente justificada pra mim.
Só na terceira (ou quarta parte, sei lá) do tema, quando o piano toca aquela sequência realmente típica de flamenco (sabe a música do Vega, do Street Fighter? Mais ou menos aquilo ali) é que a música explica seu nome. E Miles vai acompanhando e, de uma forma que eu nunca vi antes, colocando música em todo e qualquer movimento do seu trumpete - inclusive na hora de silenciar as notas ou de tocar, bem en passant, um semitom. É mais ou menos como se o cara produzisse beleza musical até quando está parando de tocar, revestindo tudo de uma expressividade com a qual eu, definitivamente, não estava acostumado.
Fechando o disco veio um take diferente da mesma "Flamenco Sketches", também muito bom mas que não teve muita graça por causa do meu nível de fascínio com o take anterior. E aí o disco acabou e eu fiquei ali, perdido em algum ponto do céu do interior de São Paulo, sem saber que disco eu teria condições psicológicas de ouvir na sequência.
O veredito, portanto, é esse: eu posso não entender muito da coisa, mas achei o "Kind of Blue" fenomenal.
a wikipedia diz que é post-rock; a pitchfork prefere modern chamber music with an indie rock sensibility. tem quem goste de post-classical, o que é meio grandiloqüente. RACHEL's flutua por esses lugares todos, e ainda coloca um pouco de field recordings e experimenta, ou seja, cabe como uma luva em nosso tão querido avant-garde.
a escalação dos instrumentos vem assim:
Jason Noble - guitar, bass, and sampler
Rachel Grimes - piano, harpsichord, organ
Christian Frederickson - viola and laptop
Edward Grimes - drums, vibraphone, sampler
Greg King - films and keyboards
Eve Miller - cello
e não raro, tocam com mais cordas e instrumentos orquestrais. projeto um-dia paralelo e logo depois solo de Jason Noble, do RODAN, já fizeram shows em museus, bibliotecas e inferninhos. com suas muitas camadas de texturas, em certos momentos provocam curiosidade; em outros, é simplemente belo. há alternância de sonoridades entre canções (e entre discos); embora gostem de criar avalanches de notas rápidas, também trabalham muito com tempos quase parando, ambient, rarefeitos. e sempre com riqueza: um trabalho minimalista de composição acaba sutil diante do resultado.
apesar disso, as canções de Rachel's não são brancas, ou mera trilha sonora. elas são provocantes e muitas vezes despertam inquietude. geralmente trabalhando conceitualmente seus álbuns, trazem temas como as grandes cidades e a vida moderna (quase sempre de forma instrumental - raras são faixas com vocal). cada música tem grande evolução própria, que acaba costurando-se no todo do disco - principalmente em Selenography e Systems/Layers, os mais notáveis entre os seis (mais um split com o MATMOS) lançados entre 1995 e 2005.
atualmente, a banda está em hiato, e seus integrantes dedicam-se a outros projetos.

se eu fosse um produtor falaria muitas merdas pras bandas que gravasse, entre elas eu diria que você tem que ter um certo cuidado ao montar uma banda desse tal de post-rock que caminhe pelas mesmas trilhas que Explosions in The Sky, Mogwai e Pelican caminharam em dado momento de suas carreiras. Essas três bandas foram desbravadoras de novas sonoridades que estavam esperando para serem descobertas e abusadas. Quando você quer tocar tão alto e letargicamente quando o Pelican tem de ter cuidado.
com o quê, perguntaria um jovem sentado no lobby do estúdio trocando as faixas no seu iPod. tem de ter cuidado pra não tocar a mesma coisa que já foi tocada antes, com a mesma emoção, progressão e experimentação. Isso é foda, esse tipo de música ainda não encontrou uma banda que consiga subvertê-la a ponto de virar uma coisa nova. Faz anos que as bandas tocam praticamente a mesma coisa. Os detalhes é que fazem uma ter um disco superior a outra, um som mais cativante, mais pesado, mais urgente e ligeiramente inovador.
detalhes tão bestas que variam de ouvinte pra ouvinte de forma assustadora. Enquanto eu fico achando que aquela faixa do Russian Circles é a melhor coisa do ano um conhecido meu nem conseguiu escutar até o final. E o que o Three Steps To The Ocean tem de interessante que valha a recomendação? um toque de eletrônico nas suas três canções do EP de estréia self-titled seria uma boa. A temática, digamos assim, oceânica (o nome da banda acabou por ser deveras apropriado) seria outra.
prefiro ficar com essa coisa do oceano. as três faixas são como um tema para quem já ficou de madrugada olhando o mar batendo forte na praia enquanto divagava em pensamentos intranquilos. isso é o que faz o Three Steps To The Ocean uma banda pra ouvir alto e prestar atenção na bateria ditatorial de Davide e nas linhas melódicas que se repetem várias vezes até encontrar algo novo. Esses caras devem ser muito bons ao vivo.
aí o cara sentado no lobby do estúdio não ia entender nada.
(vou aproveitar um texto antigo meu sobre o Pelican pois tal banda deve constar nos autos do impop e também porque assisti hoje esse vídeo aqui)

fica meio complicado falar sobre o Pelican sem escrever que eles tocam uma espécie de metal instrumental - post-metal, talvez? Complicado porque para muitos a palavra Metal passa longe de algo que se deva manter no player junto com o hype da semana. Como sou um ouvinte ocasional de velhos discos de metal sempre de olho em algo mais novo aqui e ali do estilo não tive esse preconceito contra o Pelican na ocasião do lançamento do primeiro EP. Chapei com as camadas sonoras e o peso descomunal de duas guitarras, baixo e uma bateria tão pesada que parece trincar os fones durante uma virada.
o disco fenomenal veio em 2005 com The Fire In Our Throats Will Beckon the Thaw onde o peso aliou-se à uma atmosfera contemplativa e orgânica (por mais que não goste de usar "orgânico" ao falar de música) de beleza melancólica, canções longas com um pé no progressivo - mas bem de leve - e o peso arrebatador que não permitia respiros ocasionais fora do momento certo, dá pra dizer que o disco ditava o ritmo do seu jeito. Foi com esse disco que o Pelican saiu das publicações especializadas e até apareceu em círculos de metal "moderno" como uma possível next big thing. Mas desde o primeiro EP a identidade sonora única da banda estava definida e era uma questão de tempo até sair um disco tão bom quanto esse - ou então caísse na mesmice que permeia o estilo.
em junho de 2006 saiu City Of Echoes, que vinha sendo cunhado em shows há um bom tempo e para os fãs já tinha material conhecido. A mudança de atmosfera é logo perceptível: as canções não são tão longas, não há mais tanto espaço para trabalhar as melodias até o peso ensurdecedor cair de uma vez. Mas isso não significa que eles estejam tocando mais rápido ou coisa assim. O espaço para contemplação deu vez ao baque seco dos andamentos menos progressivos e mais focados em riffs altos. Um bom exemplo é a incrível Lost in the Headlights onde a bateria começa barulhenta até ser amparada por riffs oldschool tocados com um quê stoner pra fazer a cabeça balançar sem perceber.
a cozinha é um espetáculo à parte. O baixo possui um tom estranho um pouco agudo e distorcido fácil de identificar e sempre preenche os (poucos) espaços deixados pelas guitarras sem deixar a sensação de "massa sonora" desaparecer. A bateria continua densa e com um ritmo pulsante - quando o bumbo duplo começa a atordoar não tem jeito, é melhor prestar atenção e deixa-se levar pelo peso. City Of Echoes não chega a ser tão belo e completo quanto o disco anterior porém mostra que o poder de fogo do Pelican não está perto do fim e entrosamento perfeito de seus instrumentos ainda é das coisas mais singulares na música atual, é como escutar algo de Josh Homme - dá pra reconhecer na primeira parte de riff.
ok, o background rápido: uma vez houve uma banda chamada Prisão de Ventre, que era ou foi ser quase uma pré-Graforréia Xilarmônica. e depois as coisas não fecharam muito e Marcelo Birck deixou a banda aos auspícios de Frank Jorge, enquanto estudava e explorava música no Aristóteles de Ananias Jr., Os Atonais e, finalmente solo.
Ié-Ié-Ié do Oiapoque ao Chuí
quem já ouviu a Graforréia, sabe: jovem guarda, bailão, nonsense, regionalismo, noise dodecafônico; mistura que fez dela a banda mais importante do RS na década de 90. Birck, compositor, puxava o trem do experimentalismo. nos projetos pós-GX, deixou isso bem claro - até culminar na obra-prima homônima lançada em 2000, um disco onde psicodelia e colagens desafiaram tudo o que havia feito até então. em Marcelo Birck, o rock sessentista ultrapassou o limite do experimental para tornar-se desafiador. disco que vai ser escavado daqui a uns anos e apontado importante como algum dos Mutantes, genial explorador perdido da música brasileira, não sei como é que esse cara não ficou rico no Japão ainda etc.
depois de oito anos entre shows, participações em convescotes graforréicos, gravações e provavelmente outras coisas, Birck lançou em março Timbres Não Mentem Jamais. como se poderia esperar, é uma continuação domesticada e mais polida do primeiro. na produção e mixagem, notadamente; as composições seguem lisérgicas, mas ganharam um outro fiel da balança na dose de experimentalismo. se o primeiro é marcado por um tom garageiro e agressivo, este é mais macio e amistoso; porém sem abandonar o espírito anti-pasteurizante de complicar e inverter singelos acordes. uma das técnicas recorrentes são as sobreposições desencontradas de trechos da música - usadas magistralmente neste disco. faixas como "Ouça esta Canção" e "Fluidez Borbulhante" (principalmente) são bons exemplos: temas simples e melódicos que vão emaranhando-se em harmonias trançadas e hipnóticas - colocando psych-heads como Jupiter Maçã num lugar bem mais modesto. há também temas velozes e dissonantes, e as vinhetas cibernéticas de praxe. o som de Marcelo Birck é um banquete de rock cerebral. uma jornada arriscada e gratificante.
e que faz todo o rock brasileiro se orgulhar, e enrubescer.
Tricicloscópio
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Comprei na eMusic. Sim, babo ovo mesmo.
Fennesz & Sakamoto - Sala Santa Cecilia
As paredes de barulho sonoro que o austríaco Christian Fennesz constrói com sua guitarra e seu Mac não são exatamente "acessíveis". Tanto que a comunidade dele no Orkut, por exemplo, tem minguados 37 membros.
"Sala Santa Cecília" é uma parceria de Fennesz e Ryuichi Sakamoto, gravada ao vivo na Itália para o festival Romaeuropa. Sakamoto contribuiu com pitadas eletrônicas, Fennesz entrou com sua sempre competente guitarra "ambient", e o resultado são 19 minutos* de uma sintonia ímpar - e olha que não é exatamente simples "sintonizar" barulho de guitarra hiperprocessado com pops/clicks/glitches aparentemente aleatórios. (Myspace - Site oficial)
* - DICA QUENTE: Músicas longas são o melhor custo benefício da eMusic, já que você paga por faixa. Neste disco você leva 19 minutos de música por US$ 0,26 (sim, vinte e seis CENTAVOS de dólar).
OOIOO - Kila Kila Kila
É meu terceiro disco do OOIOO. Nesse ritmo eu vou completar minha coleção rapidinho...
"Kila Kila Kila" segue a receita básica do OOIOO, ou seja, loucura psicodélica total, guitarras e batidas semi-tribais se repetindo por longas faixas, vocais meio "mantra" meio "coisas que o xamã da sua tribo cantaria". E é por isso que eu aprecio esse pessoal, pois há uma linha muito, muuuuito tênue entre o nonsense puro e simples e a música extraída do meio do nonsense - habilidade esta que eles esbanjam e que me fascina. (Myspace - Site oficial)
Tape - Opera
Opera é uma espécie de joguinho entre texturas "analógicas" e "digitais": acordeons misturados com glitches, violões e gaitas mesclados com ruído rosa e por aí vai.
A abordagem do trio de multi-instrumentistas suecos responsáveis por este disco é bem evidente logo na primeira audição. Os instrumentos não são usados do jeito convencional - ao invés de tocar músicas (sequências de notas) eles emprestam texturas, timbres e cores para as faixas. A "moral da história" de cada faixa não está na sequência das notas que são tocadas, e sim em como estas texturas se misturam e se alternam. Se bobear, o título do disco (Opera) deve até ser uma piadinha com este jeito convencional de compor... (Myspace - Site oficial)

quando primeiro escutei escutei essa "Haper Lewis" (velha conhecida de quem acompanha shows da banda, mas algo totalmente novo pra mim) do Russian Circles, presente no disco que vai ser lançado em Maio chamado Station nos meus fones castigados (porém um tanto potentes ainda) falei lá no twitter que os sete minutos de maestria melódica e pesada da faixa ganhariam um post aqui na casa dos sons pouco populares. hora de cumprir o dito.
vale logo dizer que o disco inteiro é muito bom, já conta como a grande porrada sônica de post-rock do ano aqui em casa. e olha que não sou muito de ficar logo anunciando que os discos são os melhores quando o ano ainda tem muito pra terminar, mas vale o exagero. a banda - que na verdade é um duo guitarra-bateria - conta com Brian Cook, na foto cima, do These Arms Are Snakes no baixo da faixa citada (e acredito, evidentemente, nas outras do disco), fazendo a linha densa para a bateria de Dave Turncrantz que começa mostrando serviço incrivelmente. sou é meio suspeito pra falar de canções com entradas de baterias solo, acabo gostando de todas que são assim, é o fraco que tenho pelo surramento inicial de um kit bem dado antes das guitarras caírem matando.
o guitarrista Mike Sullivan segura ao extremo a vontade de descer a mão por quase três minutos na faixa, fica tecendo linhas melódicas pra acompanhar o combo potente que a bateria e o baixo estão fazendo até chegar num momento que não dá mais e desce com gosto a mão num riff que faz instantâneamente tu balançares a cabeça sem perdão. vê nesse vídeo de uma apresnetação ao vivo como o negócio funcionar, quem tá ali perto da caixa de som balança sem saber a cabeça.
sacanagem essa banda ao vivo, por sinal. olha que a garvação é de baixa qualidade e não dá pra sentir o poderio total da banda em sua completa plenitude sonora, porém já garante o tapa sonoro bem dado. Harper Lewis, senhoras e senhores.

tava aqui escutando no trampo a faixa de abertura chamada "Sounds Like Thunder" do disco homônimo do Grayceon de 2007 que tem uma cacetada de progessões animais de baterias e um cello fazendo a linhas melódica como quem acha que pode competir com guitarra e bumbo pulsante (e consegue) quando o pessoal começou a perguntar que negócio é esse que horas soa como um clássico prog rock setentista, horas como se o apocalyptica resolvesse tocar post-rock e ainda consegue fazer barulho sem perder a pose. o negócio é estranho assim.
uma grata surpresa esse disco, são três faixas longas e uma de três minutos que parece um pouco deslocada entre torrentes progressivas e solos de cello. talvez o prog não seja tão diferente do post-rock, talvez o lisergismo de um seja compensando pelo peso do outro. talvez isso não tenha importância enquanto "Sounds Like Thunder" está tocando nos falantes e trafegando tão bem entre vários estilos. seria um tanto reducionista taxar a banda assim.
vale um tanto aumentar o bass das caxas de som e deixar o disco tocar como numa session de uma banda de metal experimentando outras sonoridades. a banda me ganhou no cello, confesso. o instrumento é tão bem tocado que consegue preencher lacunas de bateria e guitarra como poucas vezes escutei.
(um adendo: lendo os posts dos meus companheiros de blog vejo que diferimos nas concepções de peso de som. e isso é bom, são várias concepções e interpretações do que é um som pesado e destruidor que irão aparecer por aqui, fica pra você, leitor corajoso, caminhar entre elas)
gosto de black metal, mas não é um estilo que eu escute com freqüência. como em todo gênero, existem discos marcantes e eu também tenho meus preferidos - e este Autumn Aurora, lançado em 2004 pelos ucranianos do DRUDKH ("madeira", em sânscrito) é uma belíssima obra do metal.
já há algum tempo afastado do estilo, vim a conhecer pela curiosidade do rótulo: atmospheric/folk black metal. o que acabou se traduzindo em progressão de riffs, melodias, e um mix marcante onde todos os instrumentos tem o mesmo peso, incluindo a voz. o atmospheric vai fazer contraponto a raw, onde a agressão e a distorção comandam; é melódico e muitas vezes desapressado. também a formação, com dois teclados (o trio em estúdio faz g/b, v/k e d/k), propicia as atmosferas do nome; não pronunciados, mas compondo o cenário.
o resultado é uma música que se espalha como horizontes, paisagens; um metal que não corta, mas acompanha. álbum curto, 40 minutos em seis faixas, inicia com paisagens geladas, bateria a trote, e se ouve tanto fuzz na guitarra que ela se confunde com a paisagem que cria. o folk fica aparente no violão de Glare of Autumn e no riff épico de Sunwheel. as duas últimas faixas, passando dos nove minutos, mostram primeiro técnica instrumental, e depois lentidão e tristeza associada aos estilos que levam a etiqueta 'funeral'.
gelado e depressivo por vezes, Autumn Aurora desafia, ampliando, todo o gênero do black metal. apontado por alguns como renascimento do estilo, cumpre magistralmente a missão de marcar a chegada do inverno.
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um disco de post-rock que não tem baixo e bateria, apóia-se em frágeis linhas melódicas e utiliza de elementos que parecem simplistas para criar texturas musicais belas. Seria assim que eu definiria o álbum self titled de 2007 do Balmorhea, se fosse pra ser conciso e um pouco vago, é bem verdade. Tem muito mais nas nove faixas do disco do que algumas simples linhas conseguem descrever, lembrando aquela coisa de que writing about music is like dancing about architecture. Teimoso como sou, costumo escrever sobre música porque acredito que em algum lugar está dançando sobre arquitetura. Ou algo assim. Você entendeu.
as bandas que tocam esse tal de post-rock possuem um domínio de pedais de distorção notável assim como uma bateria não raro devastadora, basta escutar algo do Jesu ou do Explosions In The Sky pra sentir isso - o barulho e peso é parte fundamental do som deles. Porém no caso do Balmorhea a dirtorção nem chega perto de suas melodias, muito menos levadas de bateria pesadas. Há uma ausência de barulho tão grande que para o ouvinte desatento parece um disco de ambient.
o instrumental calcado em violões e pianos faz do Balmorhea uma banda daquelas de deserto - explico - um som vasto e delicado que evoca aquele sentimento de solidão incontrolável e infindável que só um deserto consegue exemplificar em imagem. Vai escutando "If Only You Knew the Rain" pra ver se eu estou exagerando na definição romântica da coisa.
é difícil passar batido por uma atmosfera desse tipo. Na improvável combinação de máquina de escrever e piano em "In The Rowan", o velho tic tac da máquina acompanha (e por vezes sucede) a melodia do piano de forma orgânica e natural. Como se fosse a função da máquina de escrever tocar música.
o Balmorhea é como um antigo quarteto de jazz que aprendeu a utilizar todos os pequenos elementos para fazer sua música após anos em estúdio - do silêncio ao acorde fragmentado as canções são um apanhado de sensibilidade melódica incrível e vontade de tocar algo diferente, mesmo que as limitações técnicas e criativas sejam um tanto opressoras para alguns caras do Texas. No entanto ninguém pode culpá-los por tentar, não quando o resultado é algo como esse disco.
instrumentos e métricas de composição from Japan, metal do ocidente. guitarra e voz, dois baixos (um deles fretless, e o outro tocado por uma garota), bateria, e percussão japonesa - a serviço do pântano sludge. descrevendo assim, tem como ficar melhor? e na hora de conferir, não há decepção. com a mistura sem-vergonha, o BIRUSHANAH lançou Akai Yami, um dos melhores discos de 2007 - e que chegou semana passada nos EUA.
sludge? sim, mas não apenas; algumas linhas de guitarra são cativantes como no doom metal, e em certos momentos os baixos trabalham para criar drones imersos na lenta progressão das faixas. que são apenas três: Jyodo, uma abertura de dois minutos, Akai Yami, que passa dos 20', e Kairai, que fecha em 17'40.
a sonoridade japonesa é bastante pronunciada; é impossível esquecer a origem do que se está ouvindo, e isso cria uma identidade instantânea para a banda. as escalas utilizadas são pouco usuais, e a percussão contrasta muito bem com o vocal agressivo e gritado - bem à escola metálica nipônica - e os riffs mais cadenciados. não chega a ser groove, mas é tribal.
no vídeo abaixo, uma amostra da banda - tocando ano passado, na Austrália. dá pra ter uma idéia da piração dos caras. pelos comentários no youtube, os caras são barulhentos à beça no palco.
martelaço no latão, alguém? (tem outro clipe - nesse dá até pra escutar o som dos baixos - aqui)
no horizonte, uma grande banda surgindo com criatividade e bom senso ao usar novos elementos. escutando em looping nos últimos dias, viajo com trilha japonesa. altamente recomendado para fãs de Isis, Corrupted, Sunn O))) e OM.
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