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às vezes uma banda impressiona pela capacidade de criar canções fascinantes, com certo requinte técnico, e ainda assim andar muito próxima da popularidade mainstream. o THE GATHERING trilhou esse caminho, embora não tenha estourado. por falta de uma estrutura mais sólida e de um cocheiro com maior presença a conduzi-los, arrisco.
surgida na cidade de Oss, interior da Holanda, em seus dois primeiros discos praticou doom/death tradicional - voltando-se mais tarde para um rock-às-vezes-brevemente-metálico. tocando sempre mid-tempo ou lento, e com ênfase crescente no clima; evoluindo lentamente atmosferas que seriam progressivas, não fossem despretensiosas. há também um componente gótico na mistura, revelada por uma certa melancolia, pela preferência às melodias belas e tristes.
embora bons instrumentistas, os integrantes do The Gathering empalidecem diante da presença de Anneke von Giersbergen. a garota com voz de soprano e timbre inesquecível juntou-se à banda em 1994, e seu primeiro disco foi o terceiro do grupo. sua presença garantiu um contrato imediato com a Century Media, e os anos seguintes seriam de consagração e boas turnês pela Europa e EUA. Mandylion (95), Nighttime Birds (97), How to Measure a Planet (98) e if_then_else (00) venderam 400 mil cópias.
perdendo integrantes, cansados da rotina de escrever na estrada e pressionados pela gravadora, o The Gathering foi murchando aos poucos; tornando-se esparso, menos inspirado, mais isolado dentro de seu próprio selo (o Psychonaut, que durou muito pouco). seus últimos dois álbuns passaram praticamente despercebidos. no ano passado Anneke pediu as contas e foi batalhar em seu AGUA DE ANNIQUE - um projeto de soft-rock que vem recebendo atenção e (merecidas) boas críticas.
o The Gathering continua vivo, embora sem sua garota a comandar o microfone, preveja-se um futuro difícil. Anneke, ao contrário, parece recomeçar - e com gosto - aos 35 anos. continua com a voz perfeitamente afinada, e o feeling está mais eficiente (ao contrário do começo, quando a emocionalidade ficava escondida sob técnica impecável). aí embaixo você confere "The May Song", faixa de Nighttime Birds, extraída do dvd In Motion, de 2002. se não conhece, prepare-se para derreter aos agudos carinhosos de Anneke.
• site oficial • agua de annique • encyclopaedia metallum • wiki
Das cinco faixas de Kind of Blue, "Freddie Freeloader" é a menos melancólia. Homenagem ao barman-pedinte que acompanhava (sem ser chamado) a banda pra todo lado em NY, é nesta forma blues que Wynton Kelly assume o piano do sexteto e faz sua participação única no disco, evidenciando, assim, o minimalismo de Evans nas faixas restantes.
Freddie Freeloader (apenas o áudio)
Ashley Kahn, em seu livro sobre o disco**, comenta sobre a repercussão da obra-prima do jazz e traz informações interessantes: embora os dados de empresas e editoras de música não sejam muito precisos, já foram gravados cerca de 150 covers de "So What" e "All Blues", uns 100 de "Blue in Green", mas apenas 7 de "Freddie Freeloader" e 5 de "Flamenco Sketches" -- ok, os números desta última não surpreendem.
Há um player aqui, pessoal do feed (via.)
Dentre tantos covers, talvez um dos mais curiosos seja este aí em cima, de "Freddie Freeloader", que também é mencionado no livro de Kahn:
O mais impressionante tratamento vocal do material de Kind of Blue já gravado provavelmente seja o auge da vocalização organizada por Jon Hendricks para "Freddie Freeloader". Em 1989, ele, Bobby McFerrin, Al Jarreau e George Benson vocalizaram respectivamente os solos originais de Coltrane, Kelly, Miles e Adderley. Os cantores são excepcionalmente precisos em suas versões dessas improvisações eternas, e a letra divertida evoca conversa de bar e balbúrdia de rua: "Freddie, Freddie / Bebiba na faixa, blues na faixa, dívidas na faixa".
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E já que estamos por aqui, um bônus: em 2 de abril de 1959, no intervalo de seis semanas entre as duas sessões de gravação de Kind of Blue, foi ao ar um programa de 30 minutos chamado The Sound of Miles Davis, que contou com a primeira execução publica do tema mais conhecido do disco, "So What". Esta é a única gravação em vídeo que mantém grande semelhança com o original, ainda que um pouco mais rápida. Foi ao ar somente no ano seguinte, mas obteve grande audiência e serviu como mais um belo empurrão na carreira de Miles.
The Sound of Miles Davis (1959)
No entanto, a formação banda não era a mesma do sexteto-mais-um: logo no começo vê-se Cobb, Chambers e Kelly; à frente, Miles e Coltrane. Adderley, mesmo sendo creditado no fim do programa, se ausentou por conta de uma enxaqueca e foi substituído por três trombonistas, o que deu mais peso ao tema de abertura -- e Miles volta para solar no lugar de Cannonball.
Um belo registro.
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** Há uma excelente resenha sobre o livro aqui, um breve comentário meu aqui e, também, uma resenha do disco aqui no impop.
Catarse. É umas das coisas que espero daqueles que têm coragem de empunhar um microfone diante de uma platéia. E por mais performática que seja a apresentação, uma coisa não exclui a outra: pode-se representar de forma INTENSA e sincera. Com vontade -- e também pode-se fingir, claro, mas nem sempre é fácil CONVENCER.
"Enter Entrepreneur". NSFW. But play it anyway.
Karen Finley faz parte desse seleto grupo de artistas que te recebem com uma porrada na boca do estômago e que não param de bater. Que te deixam perplexo e que te ROUBAM a atenção até o fim, tanto pela expressão artística quanto pelo conteúdo do trabalho.
Porque ao dar o play em The Truth is Hard to Swallow (nome oportuno), primeiro disco (1987) da Karen, não se engane com a levada eletrônica, fácil, dos primeiros segundos de Sushi Party, porque "sushi sushi sushi / open up your legs girl" e aí, sem rodeios, ela te arremessa numa orgia escatológica, fetichista, HARDCORE e essencialmente violenta que será o principal cenário de todo o disco e, de um modo geral, de boa parte do seu trabalho, que não se restringe apenas à música.
O que a interessa são os tabus de qualquer sorte, principalmente os mais chocantes, e não é nenhuma surpresa que Tables of Taboo -- um ODE à perversão -- venha a ser uma de suas faixas mais conhecidas e representativas. E há quem diga que em fins da década de 80, era impossível adentrar numa boate e não ouvir esse remix.
E embora as temáticas sexuais sejam o assunto dominante, Enter Enterpreneur (vídeo acima) se desenvolve na incursão revoltosa numa faceta "politizada" e pessoal: "I have no more money for drugs and sex ; so I decided to take too many sleeping pills baby ; and nothing happened ; so I put a gun to my head and nothing happened ; so I put my head in the oven and nothing happened ; so I fucked you all night long and nothing happened." E aí você percebe que a coisa é pra valer.
The lady herself. 80's.
No mais, se o trip-hop é também chamado de fuck music, pode-se dizer que o que Karen Finley faz é o correspondente musical mais próximo do... rough sex.
No mínimo.
vale a pena: bem editado e com boa qualidade de som
antigamente rezava a lenda: procure metal na Alemanha, na Itália e na Polônia, mas fique longe da França. não mais! esta década tem sido prolífica em grandes bandas surgindo e firmando-se na cena - notadamente a do technical death metal. teremos um novo pólo do estilo, como no Canadá? ao lado de Gorod, Benighted, Trepalium e Symbyosis, o PITBULLS IN THE NURSERY é um dos nomes mais promissores dos últimos anos.
técnico, mas no sabor criativo, e não pela complexidade pura e simples; técnico pela música - e nesse ponto, lembrando Gorod. só que usando mais groove e tendo passagens que alguns dizem "jazzísticas" (na verdade, basta ser um solo num fundo de tempo mais lento e com menos distorção na base que já vira 'jazz'). o álbum de estréia, "Lunatic", foi lançado em 2006 pelo quinteto; como um Anata menos brutal e mais sincopado, são faixas que parecem conectar-se uma entre as outras; se coloca pra rodar e pode deixar no repeat por algumas vezes, que o disco chama a atenção em muitos momentos. principalmente nas linhas de baixo (afinado mais alto), nos stacattos de guitarra (muito solos fantásticos aqui), na bateria criativa - e no lugar certo; sem aparecer demais, saindo do blast beat pura e simplesmente. e tome pedaleira dupla e rolo em primeira frase de verso!
com boas composições, muito ensaio e uma dose sadia de criatividade e erudição, o Pitbulls in the Nursery não precisa de grande espaço para cativar: faz uma ponte inteligente entre o death e o extremo e conquista terreno com facilidade. fico aqui escutando uma vez por semana ao menos, e esperando o segundo álbum (assim como o novo do Gorod).
metal francês, por que não? cookie monsters não tem sotaque.
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segunda-feiras desesperançadas de frio e melancolia. muitas vezes a única coisa a fazer é esperar passar da melhor forma possível. a outra opção é bombardear o cérebro com algo bastante brutal, para anestesiá-lo ou despertar serotoninas; mas. tem horas que é preciso deixar arder pra ver se o nervo não necrosou ainda.
o vídeo acima é produção de fã para a música Senki Dala, que fecha "Rossz Csillag Allat Született" - magnum opus do VENETIAN SNARES. codinome do canadense Aaron Funk, que vem trabalhando com colagens e programação em andamentos absurdos a favor do jungle/breakcore, IDM, glitchcore e outras experimentações eletrônicas. para o disco mencionado, resultado de uma viagem à Hungria, samples de música clássica/de câmara (especialmente Bártok) fazem violinos e cellos combaterem ou aliarem-se a amens quebrados e por muitas vezes agressivos.
nada disso está na faixa apresentada, uma curta e tensa viagem de cordas à Colleen ou Marsen Jules. belíssima, triste e amaldiçoada. como tantas e tantas segundas-feiras.
• ouça Ketsarku Mozgalom, do mesmo disco •
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embora o "alternativo" do alt.rock possa ter uma série de significados, musicalmente ele vai se posicionar num oposto do indie. este segura uma ponta mais convencional e de pouca ou nenhuma ousadia, e aquele segue para terrenos mais arriscados e de vanguarda.
e se você for cruzando essa zona de risco para além do alt.rock, vai chegar a cacofonia e a no-wave. nessa escala entre alt e indie, o que varia é o fator noise. (momento didático: sabe quando Sonic Youth tem uma música que é singela e pelas tantas se transforma numa zoeira de guitarras? pois é. e donde, alt/noise rock.)
entre os desbravadores que avançaram até o atonalismo, uma das bandas mais assustadoras foi o ARAB ON RADAR.
tem um abobado ali na frente com a mão no ouvido!
textura e ruído em lugar de melodia, 4x4 punk na batera, e vocal num som onde não caberia. formada na metade dos anos 90 em Providence, os caras tocaram o horror em inferninhos dos EUA e Europa, em shows caóticos que muitas vezes terminavam com a banda pelada. mais para o final da banda, entre 2000 e 2003, eles partiram pra uma postura menos agressiva e mais variada, na veia do já citado Sonic Youth.
o frontman Eric Paul é um show à parte. convulsionando em palco e cantando em guinchos falsetos, imprime a tudo que faz um toque de bad trip mental permanente - como seu projeto desde a implosão do Arab, o THE CHINESE STARS.
SuperSweet Mag: "The Chinese Stars vow to reinvent what they have already invented". What's the plan?
Eric: Take lots of drugs, talk to a lot of dead people, spend lots of time in hospitals, never take showers, never pay bills, never listen to music, never read books, and in the middle of it all somehow squeeze together a few songs that have never been heard before.
três aqui: Arson Hotline, Hospital Fly e Panic in the Population
com dois álbuns e três eps lançados, mais um previsto para esse ano, o Chinese Stars começou de onde o Radar parou - mas jogando a direção pro dance-punk que tanto hypa o mundo afora. não é muito difícil e até parece natural, de certa forma; afinal muitos elementos são comuns, como o baixo pulsante, a bateria sincopada e mínima, o groove vindo do funk. é só controlar os guitarristas com metadona, e temos mais uma banda tentando escalar o hype também, ou me engano?
Girls of Las Vegas é a mais pedida
tenho minhas dúvidas. acho que o Eric Paul não vai permitir. é doentio demais.
SuperSweet: Your biography says that "mental illness is still your driving force". To what extent is that true?
Eric: Well, if I was healthy I certainly wouldn't be living this lifestyle... I would have good job, a big house, 7 cars, a wife, 17 healthy kids, life insurance, 401 k, a boat maybe...all that... I wouldn't be where I am now - broke, in and out of rehabs, hospitals, car washes, funeral homes and bowling alleys...living out of a van...on tour or at home...but yeah, at this point it is my driving force. The only way I can eat is to get on stage and act like an asshole for a bunch of idiots...What a life...SS: How would you describe the album?
Eric: Drug induced nonsense, shamefully confessional, lazy, heavenly, 911, and very very, very unhip.
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