recentes do bcardoso
Das cinco faixas de Kind of Blue, "Freddie Freeloader" é a menos melancólia. Homenagem ao barman-pedinte que acompanhava (sem ser chamado) a banda pra todo lado em NY, é nesta forma blues que Wynton Kelly assume o piano do sexteto e faz sua participação única no disco, evidenciando, assim, o minimalismo de Evans nas faixas restantes.
Freddie Freeloader (apenas o áudio)
Ashley Kahn, em seu livro sobre o disco**, comenta sobre a repercussão da obra-prima do jazz e traz informações interessantes: embora os dados de empresas e editoras de música não sejam muito precisos, já foram gravados cerca de 150 covers de "So What" e "All Blues", uns 100 de "Blue in Green", mas apenas 7 de "Freddie Freeloader" e 5 de "Flamenco Sketches" -- ok, os números desta última não surpreendem.
Há um player aqui, pessoal do feed (via.)
Dentre tantos covers, talvez um dos mais curiosos seja este aí em cima, de "Freddie Freeloader", que também é mencionado no livro de Kahn:
O mais impressionante tratamento vocal do material de Kind of Blue já gravado provavelmente seja o auge da vocalização organizada por Jon Hendricks para "Freddie Freeloader". Em 1989, ele, Bobby McFerrin, Al Jarreau e George Benson vocalizaram respectivamente os solos originais de Coltrane, Kelly, Miles e Adderley. Os cantores são excepcionalmente precisos em suas versões dessas improvisações eternas, e a letra divertida evoca conversa de bar e balbúrdia de rua: "Freddie, Freddie / Bebiba na faixa, blues na faixa, dívidas na faixa".
* * *
E já que estamos por aqui, um bônus: em 2 de abril de 1959, no intervalo de seis semanas entre as duas sessões de gravação de Kind of Blue, foi ao ar um programa de 30 minutos chamado The Sound of Miles Davis, que contou com a primeira execução publica do tema mais conhecido do disco, "So What". Esta é a única gravação em vídeo que mantém grande semelhança com o original, ainda que um pouco mais rápida. Foi ao ar somente no ano seguinte, mas obteve grande audiência e serviu como mais um belo empurrão na carreira de Miles.
The Sound of Miles Davis (1959)
No entanto, a formação banda não era a mesma do sexteto-mais-um: logo no começo vê-se Cobb, Chambers e Kelly; à frente, Miles e Coltrane. Adderley, mesmo sendo creditado no fim do programa, se ausentou por conta de uma enxaqueca e foi substituído por três trombonistas, o que deu mais peso ao tema de abertura -- e Miles volta para solar no lugar de Cannonball.
Um belo registro.
___
** Há uma excelente resenha sobre o livro aqui, um breve comentário meu aqui e, também, uma resenha do disco aqui no impop.
Catarse. É umas das coisas que espero daqueles que têm coragem de empunhar um microfone diante de uma platéia. E por mais performática que seja a apresentação, uma coisa não exclui a outra: pode-se representar de forma INTENSA e sincera. Com vontade -- e também pode-se fingir, claro, mas nem sempre é fácil CONVENCER.
"Enter Entrepreneur". NSFW. But play it anyway.
Karen Finley faz parte desse seleto grupo de artistas que te recebem com uma porrada na boca do estômago e que não param de bater. Que te deixam perplexo e que te ROUBAM a atenção até o fim, tanto pela expressão artística quanto pelo conteúdo do trabalho.
Porque ao dar o play em The Truth is Hard to Swallow (nome oportuno), primeiro disco (1987) da Karen, não se engane com a levada eletrônica, fácil, dos primeiros segundos de Sushi Party, porque "sushi sushi sushi / open up your legs girl" e aí, sem rodeios, ela te arremessa numa orgia escatológica, fetichista, HARDCORE e essencialmente violenta que será o principal cenário de todo o disco e, de um modo geral, de boa parte do seu trabalho, que não se restringe apenas à música.
O que a interessa são os tabus de qualquer sorte, principalmente os mais chocantes, e não é nenhuma surpresa que Tables of Taboo -- um ODE à perversão -- venha a ser uma de suas faixas mais conhecidas e representativas. E há quem diga que em fins da década de 80, era impossível adentrar numa boate e não ouvir esse remix.
E embora as temáticas sexuais sejam o assunto dominante, Enter Enterpreneur (vídeo acima) se desenvolve na incursão revoltosa numa faceta "politizada" e pessoal: "I have no more money for drugs and sex ; so I decided to take too many sleeping pills baby ; and nothing happened ; so I put a gun to my head and nothing happened ; so I put my head in the oven and nothing happened ; so I fucked you all night long and nothing happened." E aí você percebe que a coisa é pra valer.
The lady herself. 80's.
No mais, se o trip-hop é também chamado de fuck music, pode-se dizer que o que Karen Finley faz é o correspondente musical mais próximo do... rough sex.
No mínimo.