o fim do outono


sim, o inverno está próximo; mas na verdade, "Autumn Leaves" não se trata do outono que vai nos deixando. apesar do possível trocadilho na tradução, o standard do jazz tem uma carreira anterior -- como chanson. "Les Feuilles Mortes" surgiu da adaptação de um poema do surrealista Jacques Prévert, feita por ele mesmo para um filme noir em 1946. a temática da película (e também recorrente do autor) é a Paris pós-Segunda Guerra.


Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux oů nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brűlant qu'aujourd'hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.


se observamos esta interpretação de Yves Montand, é clara a tristeza na melodia; canção que evoca saudades, lamento, um tango europeu. nesse clima foi cantada por Johnny Mercer (e mais tarde Nat King Cole (et alii)), que levou a faixa para os EUA em 1949 e a traduziu para o inglês -- suavizando as folhas mortas do título como apenas outonais.

essa foi apenas a primeira das mutações; à medida em que outras leituras foram surgindo, o intuito original começou a se desprender. em 1955, o pianista Roger Williams vendeu um milhão de cópias com sua grandiloquente versão instrumental/orquestrada (preview), popularizando a música com o topo das paradas. começou a ser ouvida durante as jam sessions nos pubs de jazz; em 58, Miles Davis foi sideman de luxo na gravação de um arranjo de Cannonball Adderley -- que embora inclua uma introdução cheia de groove (e grandes solos de sopro, claro), não fez mais do que dar algum swing à mesma linha melódica.

a desconstrução nuclear, e final solidificação no songbook do jazz, aconteceu em dezembro do ano seguinte, com a gravação quase avant-garde de Bill Evans.

no vídeo que abre este post, o que ouvimos não é apenas um bop veloz, alegre; em certos momentos é quase outra música -- responsabilidade do estilo "cheio de notas" de Evans, que, francamente, comia jazz com cereal no café da manhã. nas gravações de Portrait in Jazz, Scott LaFaro; na apresentação acima, já dos anos 60, o porto-riquenho Eddie Gomez é quem debulha o contrabaixo com seus solos demolidores (provavelmente contrariando a crença de alguns colegas por aí). mais tarde essa se tornaria a leitura mais repetida do standard; upbeat and swingin'.


que o diga a versão de Stanley Jordan para duas guitarras simultâneas, 387bpm e ombreira tripla. (embora Charnett Moffett não faça um solo de contrabaixo tão doentio como o de Gomez, não duvidar; a precisão e velocidade são de derrubar o queixo ouvido.)





folhas mortas caem, o outono vai nos deixando, chansons d'amour tornam-se improvisos tocados à heroína, o ciclo continua etc. outro inverno chega e, entre as coisas a aproveitar, é que entramos na melhor estação para se ouvir jazz.




2 Comments

tiagón said:

porra, só agora vi que foram dois posts sucessivos sobre jazz. capoft.

anyway - tem uma outra versão, com vídeo melhor, do Evans Trio aqui. único ponto negativo é que ficam filmando a cara do Eddie Gomez ao invés das mãos durante o solo.

Brigatti said:

O Iggy Pop regravou "Les Feuilles Mortes" no seu último e do caralhíssimo disco Preliminaires. E gravou a original, em francês, porque a versão em inglês era cara demais.

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