chegando na área: HOTEL SANTA CLARA

SHAMBLING BANDS foi o termo utilizado pelo mestre John Peel. "To shamble", andar arrastando os pés, como uma criança com o roupão da mãe andando sonolenta pela casa - é cena infantil como eram as letras destas bandas do início dos 80, prosaica (e por isso cativante) como suas melodias.
Anos mais tarde, o rótulo evoluiria para TWEE - já declaradamente apossado de elementos folk e levando a sério a proposta de candura e simplicidade. São características que associam-se de forma invariável ao imaginário hippie flower-power make-love-not-war - e se estivermos tratando de um grupo com ONZE integrantes, a imagem fica bastante adequada.
Não, o HOTEL SANTA CLARA não viaja pelo Brasil numa Kombi 72 fazendo shows em descampados por um prato de comida; as semelhanças terminam aí. Com embrião em novembro de 2007, a banda foi evoluindo até adotar a estética "bee our guest": não apenas literalmente abrir espaço para novas sonoridades/integrantes/instrumentos como já também escancarar a proposta cute (assista a este clipe e compreenda). Tanta receptividade resultou na atual formação: Laura, Bêra, Pablo e Rapha, vocais; Ricardo e Rodrigo, guitarras; Achutti, baixo; Ressel, teclado; Gautier, trompete; Felipe, bateria; Pato, violino. O primeiro EP deve sair ainda em 2009 - mas já se pode escutar quatro faixas no myspace do HSC - ou até arriscar um backyard collection honesto (e de apropriado clima jam session).
Com chicletes de ouvido de alta aderência entre as composições (livre-se de "Witty Song") e comparada pelo jornal Zero Hora à Belle & Sebastian, as canções do Hotel Santa Clara foram colocadas à prova por quatro convidados de Impop:
Thiago Aldurin, professor e folk freak
Sons como o do Hotel Santa Clara podem ser efetivos na tentativa de descomplicar o mundo. As melodias leves, mesmo quando acompanhadas de letras fortes, cativam e tiram um pouco de visgo dos problemas do dia-a-dia. A banda não exagera nas semelhanças com suas referências de indie rock-com-muita-gente, como Belle & Sebastian e I'm From Barcelona. As músicas incluem a vontade de bater palmas e as letras, que têm o gancho para se inspirarem em temáticas comuns, sintonizam a "tradição" desse tipo de indie rock. Aliás, é preciso ressaltar que os meninos acertam em cheio na escolha do nome - sem descambar para a ironia insossa de algumas bandas que se pretendem "descoladinhas". Aqui temos, certamente, uma banda a ser acompanhada.Gustavo Brigatti, jornalista de cultura e ouvinte compulsivo
A música do Hotel Santa Clara é o que se convencionou chamar de "música fofa". E, bom, é isso mesmo. Melodiosa e cantando em inglês, a banda lembra muito o finado quinteto paulistano Maybees (hoje conhecido por Ludov) - incluindo aí o vocal feminino na medida para lullabies. Que são a base das composições do grupo, diga-se de passagem.
Mas acredito não caberem aqui comparações. Tampouco discorrer sobre influências, veio daqui, vai pra lá, essas coisas. Isso pelo simples fato de que a sensação de déjà vu é tão dominante que melhor mesmo é apenas botar os fones de ouvido, relaxar e aproveitar. E, olha - tá de bom tamanho.Olivia Maia, escritora e twee girl
Se Belle & Sebastian é influência da banda Hotel Santa Clara, me parece influência superada. Ainda a graça de se contar histórias, mas as músicas são um pouco mais variadas em estilo, assim, de música pra música. Talvez porque seja o de se esperar, em banda com tanto integrante (ou). Mas é ponto pra eles. Vá ouvir Fitting Silhouettes e Witty Song. Não que a banda seja algo de novo genial original e revolucionário. Não é. De olhar as tags da banda no last.fm a gente já sabe o que esperar: "indie pop" com "folk" e "twee", e é isso mesmo que você leva, com músicas mais ou menos saltitantes, mais ou menos pop. Em uma ou outra música eles dão umas escapadas, e dá pra imaginar o grupo enorme achando graça em variar as influências e as misturas e tentar qualquer coisa mais inesperada. E no final das contas a música é boa. Boa de ouvir e prestar atenção nas letras pra pegar os detalhes e o inevitável sotaque. Pra jogar no iPod e abstrair o trânsito maldito de São Paulo (por essa eles não esperavam).
Daniela Hinerasky, jornalista e insider
Thank you Sorocaba*
Não sou isenta pra falar da HSC porque sou amiga de parte do pessoal jovem da banda. Também sou suspeita porque gosto do estilo "indie-folk" deles. Pra mim o mais bacana é a música bem-humorada e despretensiosa com claras - e declaradas - referências de grupos consagrados dos quais são fãs, como Belle & Sebastian. "Uma delicinha" de som, eu diria - me apropriando do jeito todo mimoso da Laura estilosa Madalosso, a voz feminina da banda, que nos shows arrebata a platéia com o sorriso tímido e a voz girlie.
Nada é pouco para o HSC - são 11 integrantes, diferentes instrumentos, vários vocalistas, inspirações e experimentos. Mas não chegam nem perto do over porque este é o conceito: entre (e hospede-se) se quiser, "just for fun".
"Feel free to 'bee our guest'!", sorriem. Então, sinta-se à vontade no Myspace, ou no Trama Virtual, onde dá pra baixar todas as composições deles e ouça tu mesmo. O convite é nosso!*um agradecimento em tom de brincadeira que o vocalista (Bera) faz na demo "Samba do Desavisado", como se estivessem fazendo show em Sorocaba. HSC ainda vai hospedar o Brasil inteiro.

5+1 PERGUNTAS PARA HOTEL SANTA CLARA
Contatada para uma breve entrevista por e-mail, a vocalista Laura não fugiu ao conceito e encaminhou as respostas avisando: "São onze criaturas discutindo, dando pitacos, e taí o compilado de tudo. Sendo assim, definitivamente é a entidade coletiva em peso".
1. Como fica o processo de composição, com tantos integrantes na banda - e ainda por cima em um estilo onde a introspecção é uma característica? Pergunta de Gustavo Brigatti
Cada um é livre pra escrever e compôr à sua medida, sem pressa, sem pressão, sem molde neste ou naquele estilo. Há um certo consenso não-planejado sobre letras, composições e arranjos. E, à medida que eles vão sendo criados, vão sendo trazidos à tona para audição dos outros. Ninguém veta nada. Apenas escolhemos dentro desse consenso o que será lapidado até chegar a ser gravado ou tocado em show; essa etapa é mais coletiva. Também, nem todos escrevem ou compõem, e cada música tem um pouco - ou muito - de quem a fez. É ótimo.
2. No myspace, vocês falam em "have fun", em receber novos músicos na banda, sempre com um tom descontraído. Em que ponto o HSC passou de diversão pra ser uma empreitada mais séria, profissional?
Nunca deixou ou deixará de ser diversão. Esse é o mote principal. Quando um não puder olhar mais pra cara do outro, falar uma merda bem grande e rirmos disso, não vai ter mais tesão. Mas acho que foi quando do nosso segundo show, final do ano passado, que nos rendeu uma tirinha no jornal local (Zero Hora) e pessoas fora do nosso círculo de amigos começaram a prestar atenção no que fazíamos. Ainda estamos muito dentro desse processo, amadurecendo, aprendendo, errando, construindo nossa sonoridade, nossa imagem, nosso espaço dentro da ebulição musical à nossa volta.
3. Vocês são comparados a Belle & Sebastian, mas moram no país da Malu Magalhães. País tropical (outra estética), jovem menina sendo referência nacional pro estilo - é bom ou ruim? E ainda: vocês percebem uma cena indie/folk no Brasil, ou apenas iniciativas (bandas/músicos) raras e isoladas?
Nosso estilo não é folk por essência. Temos alguma coisa, em algumas composições, mas não dá pra dizer que esse é nosso referencial. A Mallu em si não incomoda muito. O que chateia é a enorme projeção de alguns poucos músicos e bandas enquanto centenas de outros artistas que fazem tão bem quanto - ou melhor - não têm o menos incentivo dos meios pesados e das majors. Mesmo sem esse incentivo as coisas acontecem, muito pela acessibilidade da internet; rolam sim movimentos de estilos - inclusive indie/folk - pipocando com qualidade em alguns cantos do Brasil. E, de novo, a internet - muito através das redes sociais - trata de minimizar os isolamentos geográficos, trazendo tudo pra esfera do ambiente virtual. Sem isso, vocês aí do blog provavelmente não teriam chegado a nós.
4. Tem um EP chegando. É independente? Vocês tem planos de fazer alguma tour, e nesse caso... já compraram um ônibus (de dois andares?) Como fica a parte de planejar uma banda com um grupo tão numeroso de integrantes?
1. Sim, é independende. Além disso, caseiro.
2. Temos planos de divulgar o trabalho em outras cidades e estados, claro. Não sabemos ainda se em forma de tour ou em shows isolados. Tocamos em São Paulo em março e surgiu convite pra voltarmos no meio do ano. Além de Sampa, queremos muito fazer show em Curitiba, onde temos bandas parecidas com a Hotel, e interior do RS. Mas, por hora, vamos dar um tempinho com os shows até terminarmos o EP. Todos temos compromissos externos à banda, e tudo junto não funciona. Por isso, por partes, a gente vai fazendo nossa história dar certo.
3. Essa é uma parte bem complicada. Exige muita logística pelo que falei acima: cada um tem suas atividades pessoais. Uns têm mais tempo flexível que outros, mas rola muito respeito nesse aspecto; se um não pode ir ao ensaio, beleza. Dá-se um jeito sempre. Somos 11, mas cada um é tão importante quanto o outro. Por isso, show, se um não puder, preferimos não fazer.
Saírmos pra tour de 1 mês tocando direto não acontecerá nunca, provavelmente. O que pode rolar é uma mini-tour de um feriado.
5. Ainda sobre o grande grupo. Tem alguma sonoridade ainda faltando no HSC? Que no ensaio alguém diga "pô, podia ter um vibrafone ou uma zabumba aí"?
Isso acontece direto - xilofones, ukeleles, trombones, flautas, casiotones e outros instrumentos legais seriam todos bem-vindos! Não que esteja fazendo falta, mas estamos sempre brincando com sonoridades novas.
+ Bônus: numa mixtape com o clima "a cor e o som do HSC", quais seriam as onze faixas escolhidas?
01 Belle & Sebastian - Like Dylan in the Movies (Bêra)
02 The Beatles - Here Comes the Sun (Rodrigo)
03 Tilly and the Wall - I Always Knew (Rapha)
04 I'm from Barcelona - Treehouse (Achutti)
05 Iron & Wine - Cinder and Smoke (Pablo)
06 Soko - Dandy Cowboys (Laura)
07 Radiohead - Paranoid Android (Ressel)
08 Acid House Kings - Say Yes if You Love Me (Gauti)
09 Of Montreal - When You're Loved Like You Are (Ricardo)
10 The Smiths - Cemetery Gates (Pato)
11 Wilco - Impossible Germany (Felipe)
Veredito Impop: confira antes e acompanhe de perto a trajetória. Para ser banda "promissora", hoje em dia, basta ser competente; mas junte a isso um raro carisma musical coletivo, e você tem uma banda para curtir e torcer.
• Hotel Santa Clara //myspace • //tramavirtual • //twitter •
tem uma banda incipiente e arrisca tomar pedrada no review? escreva para blogs arr ^ oba verbeat.org com um endereço de internet que contenha arquivos mp3. o critério para o que é ou não "impop" pode ser altamente subjetivo e sujeito a rejeição sumária dos autores. fora isso, arrisque!
Agradecendo por aqui em nome de toda banda!
Ficamos muito felizes com o resultado do trabalho, e super super orgulhosos!
Gostaríamos de convidá-los to bee our guests no próximo show, no Cultura Rock Club (confirmo a data em breve)
Um grande upa a todos que fizeram parte disso.
;)
caraca, nem ouvi e acho que já GOSTEI.
;>)
Quando o Jojó [volantes] me apresentou Belle & Sebastian estampado em uma camiseta amarela e quando, 2 anos depois, o Diogo York [sem banda], me apresentou de fato Belle & Sebastian, eu não poderia imaginar que ia dar nisso.
Dormir nos bancos do Hyde Park, nos intervalos entre um subemprego e outro, ouvindo esse pessoal, me fez querer voltar logo e ter uma banda simples e despretensiosamente bonita.
E tem dado certo desde então. Encontrar 10 pessoas que tivessem a mesma vontade de fazer algo "nesse estilo" foi uma das coisas mais geniais que me aconteceu desde então.
E sou grato aos dois supracitados, aos 10 abaixo-citados e a pessoas como vocês do Impop que têm feito das nossas músicas inspiração para continuarmos musicando. Ainda que sem muito conhecimento musical.
o/
Confirmado o shô no Cultura Rock Clube dia 10.05
Todos convidadíssimos!
;D
(PARA TODAS AS BANDAS NACIONAIS QUE IMPORTAM A LÍNGUA INGLESA)
Pena ser em Inglês, total desvalorização de nossa língua. Se renegarmos a nossa identidade, importando línguas para nossa cultura musical, comos vamos ser respeitados? Certo que o English é uma lingua melodiosa, bonita de escutar. Mas podemos com certeza fazer coisas mito interessantes com a nossa lingua. Está ai Chico Buarque, com suas letras, Elis regina com sua interpretação e voz, Zeca baleiro e por ai vai. VALORIZEM O BRASIL, se não fizermos quem vai fazer! Abraço a todos