resenha: MASTODON, crack the skye // DOUBLE DARE edition
faz nem quarenta e oito horas que botei meus ouvidos numa cópia de Crack The Skye do Mastodon e aqui estou outra vez começando algo que fiz repetidas vezes: clico em Oblivion, aumento o volume um pouco nos botões do teclado e na parte que Brent Hinds canta
falling from grace
cause i've been away too long
leaving you behind with my lonesome song
now i'm lost in oblivion
ameaço fazer coro, e de vez em quando acabo fazendo mesmo. É quase irresistível, num misto de melancolia benevolente e agressão sonora de riffs aburdos há um sentimento de se jogar de um penhasco em direção ao mar, de fechar os olhos quando a bicicleta chega no final da rampa.
é o começo de um grande disco, uma abertura devastadora tanto melodicamente quando esteticamente que define os riffs e progressões que serão ampliadas à exaustão durante o resto do disco. Se em Blood Mountain o tema geral era terra, assim como Leviathan era água e Remission era fogo temos em Crak the Skye o ar em sua forma musical na concepção do Mastodon. E puta merda, eles conseguem.
a forma mais evidente como esse tema aparece no disco está no claro apuro melódico que os [quatro] vocalistas da banda empregam em sua voz: dá pra ouvir claramente tudo, as letras deslizam em frente a bateria incansável como se buscassem encontrar uma harmonia impossível de ser alcançada na teoria. Uma escolha que causa estranheza a princípio [até hoje lembro muito bem o impacto que sofri com Blood And Thunder abrindo Leviathan, pela sua massa sonora definida e seu vocal potente e sem fim nos berros] mas que faz todo sentido quando The Czar, a quarta faixa e uma éspécie de ópera, são quatro atos não muito bem definidos que compõem os dez minutos da faixa.
dá pra se dizer que em The Czar que reside a real potência de Crack The Skye, nela há todas as experimentações sonoras que a banda atravessa em todo o disco. A letra é um épico por si só, com trechos como
spiraling up through the crack in the sky
leaving material world behind
i see your face in constellations
the martyr is ending his life for mine
quando os vocais começam a brigar pra ver quem consegue encaixar melhor cada frase começa uma confusão mental íncrivel, há guitarras brigando por solos cada vez mais longos e etéreos, o baixo pulsando e galgando à frente da bateria e esta por sua vez incansavelmente prevendo quebras de ritmo e ditando rumos e andamentos. É o Mastodon sem limites, criando uma obra maior. É das coisas que tu escutas e entende como o heavy metal pode salvar vidas.
não é porque os vocais são menos guturais que Crack The Skye é um disco mais leve ou acessível, pelo contrário, o jogo melódico utilizado pela banda em suas sete canções exige uma atenção maior do ouvinte. Nisso o Mastodon demonstra a sua veia progressiva, na utilização de andamentos peculiares em vários pontos do disco, da sua busca pelo equilíbrio entre riffs pesados e rápidos e dedilhados.
Quando The Last Baron termina, após passar pela tortuosa e esmerilhante faixa título, a sensação que sem tem é que é necessário mais uma audição, num volume mais alto, prestando mais atenção para não perder nada. Porque há algo nesse disco que minhas parcas capacidades de resenhista ocasional não consegue descrever. Há.
I was standing staring at the world
And I can't see it
obrigado existência por me permitir escutar esse disco.
obrigado.

Mastodon me surpreende por alguns motivos, sendo o mais importante deles o efeito-surpresa -- de onde essa banda tirou tanta popularidade? não fazendo juízo de valor, apenas sobrancelhando que uma banda de metal que não é -core (de caderninho) possa chamar tanta atenção em grande público ("efeito Guitar Hero" incluído). e inclusive abrir as portas do estilo para seres totalmente não-metálicos, como constatei.
fico ainda mais curioso.
e exatamente por isso estava esperando por Crack the Skye. outra oportunidade de audição cuidadosa e reavaliação da banda, que até então nunca me foi memorável - disso de lembrar da faixa, voltar no disco, curtir etc.
de cara: Oblivion, a abertura, me gerou vários momentos -- WOAH! -- :
1. esse dedilhado da intro me lembra Metallica-black-album-enter-sandman.
2. a guitarra-metallica troca de andamento e escala. a dissonância quase atonal que é trademark (delícia) da banda.
3. ué, vocal limpo? DE CARA? vocoder dobrando no fundinho, tipo GOJIRA?
4. pré-refrão hostil como em Leviathan ou Blood Mountain, álbuns anteriores?
5. refrão grudento OH-SO-PROG metal como fosse Textures?
disso tudo ainda não conclua: Oblivion é uma GRANDE faixa. grudenta, cativante, com timbres e pontuados de guitarra que não deixam dúvida de que ouvimos Mastodon. mas se não fosse isso, poderia ser Foo Fighters (das antigas e com esteróides).
nesse momento lembrei do último disco do Dillinger Escape Plan: eram trademark do mathcore chaos, e então, como se tivessem cansado de brutalismos, resolvem dar uma respirada. na onda prog metal, faixas mais atmosféricas, o extremo? não interessa mais. de novo, aguarde para concluir: isso não é nem bom nem ruim; apenas vai exigir uma nova configuração - da banda, das composições, dos ouvintes.
o caso do lançamento do Mastodon?
desapontador.
Crack the Skye é um disco do Mastodon: a guitarra é um ponto forte, criativo, e de grande técnica. composições baseiam-se em conceitos épicos. a mixagem enterra baixo e a (chatíssima) bateria. a produção abusa da compressão.
mas aqui temos novos, maus, elementos; nenhum peso nas guitarras, abandono quase total do growl, nada de sludge, o estranho vocal dobrado melo-Ozzy-Cornell. e excesso de referências - os comparativos que usei (e você pode ter outros equivalentes) surgem facilmente. e se lembramos que o produtor é Brendan O'Brien, cujas credencias incluem uma pá de álbuns de Pearl Jam, Stone Temple Pilots e Incubus, faz sentido que o gosto seja de comida pasteurizada. volto a ressaltar a inventividade dos guitarristas Hinds e Kelliher: com suas afinações pouco usuais, outra vez deixam a impressão de uma banda que poderia ser excelente, mas peca por composições pouco inspiradas.
Oblivion é uma grande abertura, e isso também é característica do Mastodon - começar muito bem. mas o restante do disco fica entre passável, requentado ou simplesmente fast-food. ok, minto: Ghost of Karelia tem breakdowns e começão de escala exemplares, grandiosos. The Last Baron também é interessante, apesar de evocar demais... Yes??!?
para este ouvinte, os encantos que Mastodon (genuinamente) causam por aí seguem grande mistério. não condeno os caras; mesmo tendo perdido - diria reformulado, pura boa vontade - a identidade em tantas mudanças, Mastodon PODE ser uma grande banda. eles precisam de boa produção, de peso, e de pegada. dou-lhes novo prazo, provavelmente 2011, o próximo disco: ou eles realmente encontram seu caminho e fazem um grande disco - seja de prog ou sludge [-core], ou saint anger magnetic de vez.
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Um adora veementemente, outro chama de disco "fast food", tudo no mesmo post, e aposto que se a geografia permitisse, ambos ainda sentariam no boteco pra tomar uma como se nenhuma discordância tivesse acontecido.
É por isso que eu gosto desses caras.
eu qr ser duble...e meu sonho