Um pouco de muitos ou muito de poucos?
"Bati 2300 artistas no Last.fm", disse um transeunte do meu timeline do Twitter. O mesmo que, alguns dias antes, disse também: "fico orgulhoso quando faço download de uma banda que não tem nada mencionado no last.fm". Ficou claro que esse aí investe na variedade e se orgulha disso.
Já eu às vezes sofro com meus 65 downloads mensais da eMusic. É que eles expiram se você não utilizá-los, e às vezes eu estou apenas começando a realmente aproveitar as compras do mês anterior quando me vejo obrigado a apressar a compra do mês atual. Além disso, às vezes eu curto ouvir bandas e discos já "velhos de guerra" (especialmente com fones de ouvido) e perceber detalhes, nuances e tudo aquilo que normalmente só se revela depois que o disco é revisitado.
São dois prazeres distintos. Um é horizontal: varrer o mundo buscando novidades - e como o mundão musical é bem amplo ouvem-se muitos discos poucas vezes. O outro é vertical, onde a idéia é aprofundar audições em um número pequeno de discos e bandas "eleitas". São poucos discos ouvidos muitas vezes.
Mas o que é melhor? Poucas bandas ouvidas com profundidade ou muitas bandas ouvidas superficialmente?
Pra piorar a escolha, alguns gêneros musicais parecem privilegiar uma ou outra abordagem. Discos esteticamente complexos, que investem mais em texturas e camadas, normalmente recompensam audições sucessivas. Isso é muito comum na música eletrônica, normalmente construída na base da "sobreposição" de sons. Já os álbuns que investem no clássico "verso-refrão-verso" e em conjuntos de timbres conhecidos (como o campeão "guitarra-baixo-bateria") não costumam guardar muitas surpresas sonoras na manga - mesmo se forem, como o velho e bom rock'n roll, uma delícia de se ouvir várias vezes.
Taí uma discussão sem fim - o que não é exatamente um problema. De qualquer forma aguardo para saber o que meus colegas de Impop (e você, meu querido telespectoleitor) tem a dizer...
ah, esse é um paradoxo dessa modernidade líquida nossa de cada dia. a oferta é inimaginável, mas e a profundidade?
eu fico assoberbado com a quantidade de discos que me é jogada na cara diariamente (principalmente via rss). é tanta coisa que a) tenho que sortear algumas, e torcer pra não estar deixando passar o "disco perfeito" e b) torna-se cada vez mais difícil gerenciar as descobertas. que minha pasta "neue", de discos recém baixados, ultimamente virou a única executada.
o saldo? como escrevi no berê dia desses, é positivo, porque quem passou pelos tempos em que cd era quase objeto de fetiche sabe o quão árduo era. mas é preciso desenvolver novas técnicas de assimilação. eu passei a fazer garimpagem durante o dia, e trazer só o altamente relevante pra casa, pra dar mais cuidado e atenção.
e no fim das contas, o que pega no ouvido acaba obnubilando todo o resto, então "aquele" disco vai ficar contigo por mais tempo, ou mesmo muito tempo, naturalmente. some-se a isso o envelhecimento natural do álbum, e a nossa própria evolução nos gostos e desejos, e acho que a média de artistas preferidos, e discos preferidos, tende a subir ao longo do tempo.
ou seja - absorver tanta oferta é exigente, mas se for uma tarefa levada a sério, é altamente gratificante. eu, que apenas ficava sonhando curioso com sonoridades descritas nas Rock Brigade (e Bizz, vá), tento honrar tanta fartura.
claro que ter como objetico atingir x mil bandas ou status parecidos no last.fm é outra coisa. nada contra quem priorize quantidade - e nem sei se é o caso da pessoa citada. mas é melhor quando é consequencia do que causa, acho. e sobre obscuro, existe essa tendência de se diferenciar pelos ouvidos, que é tão válida quanto se diferenciar por qualquer outro motivo. de novo, equilibrio - não dá pra achar que por ter mais de 10 mil execuções no last.fm tem que ser defenestrado, e ao mesmo tempo quem cava sabe que tem muita pepita de ouro escondida por aí.
enfim - pensamentos, nada conclusivo também (que bom). o assunto é ótimo e tende a se manter em pauta durante longo tempo :D