agosto 2008 Arquivos
É uma lista altamente parcial (no sentido de "incompleta", não de "tendenciosa"), já que eu não fico caçando lançamentos do ano pra ouvir. Tanto que meu vício mais recente tem sido "Heaven or Las Vegas", disco do Cocteau Twins lançado em 1990. Além do mais faltam links e imagens das capas dos discos porque a maldita internet desse maldito hotel dessa maldita cidade está, mais uma vez, me deixando na mão.
Mas chega de disclaimer, vamulá:
Girl Talk - Feed The Animals
É o último trabalho de Greg Gillis, o mestre do mashup pop/rock/rap/Billboard top 100. Infelizmente, "Feed The Animals" repete EXATAMENTE a mesma fórmula do disco anterior, o "Night Ripper", validando a afirmativa de que Girl Talk é um mágico de um truque só.
Só que o truque dele é MUITO divertido!
Vampire Weekend
É a melhor coisa que ouvi em 2008. O som dos caras - que por alguma estranha razão anda sendo chamado de afro-pop - é muito amistoso, as letras são espertas e a dinâmica das músicas passeia num espaço agradável entre o vigoroso e o tranquilo. Mexidas no andamento, nos instrumentos (um órgão retrô ali, uma flauta acolá, um bongô mais adiante) e até na "estética" do som (às vezes puxando pro punk, pro caribenho ou pro kitsch) mantém o interesse firme e forte ao longo do disco. E ainda tem os competentes vocais de Ezra Koenig - que é homem, apesar do nome.
É uma obra-prima cujo único problema é ter apenas 34 minutos.
E, sim, tem muito hype em cima dos caras, mas não se deixe levar por isso.
Portishead - Third
Yeah, yeah, terceiro e antecipadíssimo disco dos papas do trip-hop e tal. Normalmente expectativas elevadas geram uma decepção proporcional, que, felizmente, não aconteceu. Mesmo depois de um hiato de 10 anos, o Portishead entrega o que todos esperavam - e com muita classe.
O disco é denso e construído sob os velhos (e funcionais) pilares do trip-hop: arranjos espartanos, tocados lentamente e em performances fortemente emocionais. Puxa pra baixo o mesmo tanto que o Vampire Weekend puxa pra cima - o que, portanto, o torna des-recomendável pra quem não curte navegar em emoções tristes.
Fly Pan Am - Ceux Qui Inventent N'Ont Jamis Vecu (?)
Olha, apesar deste disco fazer parte desta lista eu confesso que não entendo direito o rock experimental dos franco-canadenses do Fly Pan Am.
As músicas não parecem ir à lugar algum: os caras constróem uma "cena sonora" repetindo acordes nas guitarras por longos minutos, depois misturam live recordings com ruído e vocais perdidos, depois passam longos minutos em hiatos semi-silenciosos, depois "estragam" de propósito trechos das músicas, fazendo-as soar como se fossem glitches de um CD riscado ou um MP3 mal "encodado", e assim por diante. Só que existe uma "moral da história" no meio dessa bagunça: uma construção abstrata mas palpável e, num nível muito estranho da mente, perfeitamente compreensível.
E é isso que, de alguma forma, os torna geniais.
Bonus Tracks: Comentários rápidos sobre outros lançamentos 2008itenses que ouvi.
Daedelus - Love To Make Music To é delicioso como todos os outros discos de Daedelus. Mas, diferentemente do "Daedelus Denies the Day's Demise", esse investe numa atmosfera mais neutra ao invés daquela "animação toda" de sempre e, portanto, demora um pouco mais pra "bater"
O "Með suð í eyrum við spilum endalaust" (também conhecido como "disco do Sigur Rós com os caras pelados na capa")... bem, esse aí é uma grande incógnita. Comprei, ouvi e ele ficou lá, encostado na prateleira virtual do meu iTunes. Não que o disco seja ruim, mas, sei lá, parece que foi apagado pela sombra do disco anterior (o absurdamente maravilhoso "Takk").
A faixa 4 de "The Midnight Organ Fight", do Frightened Rabbit, é tão boa que, sozinha, me fez comprar o disco na hora. Agora pergunta se eu tive tempo de ouvir o resto das músicas... :/
A eMusic inventou uma tal selo chamado "eMusic Selects" para promover bandas. Sim, é jabá, então fiquei olhando torto até que, de repente, apareceu "Keeper's", do Deastro...
E o Tape lançou "Luminarium" em 2008, disco atmosférico e rico de texturas que, infelizmente, não tive tempo de ouvir direito até agora.
"Bati 2300 artistas no Last.fm", disse um transeunte do meu timeline do Twitter. O mesmo que, alguns dias antes, disse também: "fico orgulhoso quando faço download de uma banda que não tem nada mencionado no last.fm". Ficou claro que esse aí investe na variedade e se orgulha disso.
Já eu às vezes sofro com meus 65 downloads mensais da eMusic. É que eles expiram se você não utilizá-los, e às vezes eu estou apenas começando a realmente aproveitar as compras do mês anterior quando me vejo obrigado a apressar a compra do mês atual. Além disso, às vezes eu curto ouvir bandas e discos já "velhos de guerra" (especialmente com fones de ouvido) e perceber detalhes, nuances e tudo aquilo que normalmente só se revela depois que o disco é revisitado.
São dois prazeres distintos. Um é horizontal: varrer o mundo buscando novidades - e como o mundão musical é bem amplo ouvem-se muitos discos poucas vezes. O outro é vertical, onde a idéia é aprofundar audições em um número pequeno de discos e bandas "eleitas". São poucos discos ouvidos muitas vezes.
Mas o que é melhor? Poucas bandas ouvidas com profundidade ou muitas bandas ouvidas superficialmente?
Pra piorar a escolha, alguns gêneros musicais parecem privilegiar uma ou outra abordagem. Discos esteticamente complexos, que investem mais em texturas e camadas, normalmente recompensam audições sucessivas. Isso é muito comum na música eletrônica, normalmente construída na base da "sobreposição" de sons. Já os álbuns que investem no clássico "verso-refrão-verso" e em conjuntos de timbres conhecidos (como o campeão "guitarra-baixo-bateria") não costumam guardar muitas surpresas sonoras na manga - mesmo se forem, como o velho e bom rock'n roll, uma delícia de se ouvir várias vezes.
Taí uma discussão sem fim - o que não é exatamente um problema. De qualquer forma aguardo para saber o que meus colegas de Impop (e você, meu querido telespectoleitor) tem a dizer...
às vezes uma banda impressiona pela capacidade de criar canções fascinantes, com certo requinte técnico, e ainda assim andar muito próxima da popularidade mainstream. o THE GATHERING trilhou esse caminho, embora não tenha estourado. por falta de uma estrutura mais sólida e de um cocheiro com maior presença a conduzi-los, arrisco.
surgida na cidade de Oss, interior da Holanda, em seus dois primeiros discos praticou doom/death tradicional - voltando-se mais tarde para um rock-às-vezes-brevemente-metálico. tocando sempre mid-tempo ou lento, e com ênfase crescente no clima; evoluindo lentamente atmosferas que seriam progressivas, não fossem despretensiosas. há também um componente gótico na mistura, revelada por uma certa melancolia, pela preferência às melodias belas e tristes.
embora bons instrumentistas, os integrantes do The Gathering empalidecem diante da presença de Anneke von Giersbergen. a garota com voz de soprano e timbre inesquecível juntou-se à banda em 1994, e seu primeiro disco foi o terceiro do grupo. sua presença garantiu um contrato imediato com a Century Media, e os anos seguintes seriam de consagração e boas turnês pela Europa e EUA. Mandylion (95), Nighttime Birds (97), How to Measure a Planet (98) e if_then_else (00) venderam 400 mil cópias.
perdendo integrantes, cansados da rotina de escrever na estrada e pressionados pela gravadora, o The Gathering foi murchando aos poucos; tornando-se esparso, menos inspirado, mais isolado dentro de seu próprio selo (o Psychonaut, que durou muito pouco). seus últimos dois álbuns passaram praticamente despercebidos. no ano passado Anneke pediu as contas e foi batalhar em seu AGUA DE ANNIQUE - um projeto de soft-rock que vem recebendo atenção e (merecidas) boas críticas.
o The Gathering continua vivo, embora sem sua garota a comandar o microfone, preveja-se um futuro difícil. Anneke, ao contrário, parece recomeçar - e com gosto - aos 35 anos. continua com a voz perfeitamente afinada, e o feeling está mais eficiente (ao contrário do começo, quando a emocionalidade ficava escondida sob técnica impecável). aí embaixo você confere "The May Song", faixa de Nighttime Birds, extraída do dvd In Motion, de 2002. se não conhece, prepare-se para derreter aos agudos carinhosos de Anneke.
• site oficial • agua de annique • encyclopaedia metallum • wiki
jóias da família: Sabbath em compacto duplo de 1975. é do meu padrinho - o cara que me ensinou que havia música lá fora - e hoje está sob custódia de um primo. essa bolachinha traz o single - a faixa-título - e a instrumental Fluff, além de Paranoid e outra instrumental, Rat Salad.
Sabbath Bloody Sabbath é um disco que por pouco não existiu. depois de uma temporada frustrada na Record Plant de Los Angeles (com o abuso de drogas e álcool, não conseguiam terminar qualquer música), o quarteto voltou à Inglaterra e se instalou no castelo de Clearwall, em Gloucestershire - condado mais conhecido pelas competições de cheese rolling. à procura de inspiração, a banda resolveu compor e ensaiar nas masmorras do castelo. lá surgiram então os primeiros acordes da faixa título, seu riff, ela mesma completa, e então todo o disco - um dos mais importantes momentos da história do hard rock e do metal. e também o apogeu do Black Sabbath - depois disso, sua trajetória seria oscilante.
esse marco da música está próximo de completar 25 anos: foi lançado em 1° de dezembro de 1973. como acontece com obras de alto calibre, os riffs continuam atuais e de genialidade incomparada. o baixo segue ímpar em seu terreno, Ward demonstrava farto crescimento técnico e Ozzy vivia o auge da loucura - o que, em se tratando de Ozzy, é excelente.
abaixo, vocês ouvem Sabbath Bloody Sabbath - "o riff que salvou a banda", nas palavras de Tony Iommi. as imagens são da época.
Nobody will ever let you know
When you ask the reasons why
They just tell you that youre on your own
Fill your head all full of lies
Das cinco faixas de Kind of Blue, "Freddie Freeloader" é a menos melancólia. Homenagem ao barman-pedinte que acompanhava (sem ser chamado) a banda pra todo lado em NY, é nesta forma blues que Wynton Kelly assume o piano do sexteto e faz sua participação única no disco, evidenciando, assim, o minimalismo de Evans nas faixas restantes.
Freddie Freeloader (apenas o áudio)
Ashley Kahn, em seu livro sobre o disco**, comenta sobre a repercussão da obra-prima do jazz e traz informações interessantes: embora os dados de empresas e editoras de música não sejam muito precisos, já foram gravados cerca de 150 covers de "So What" e "All Blues", uns 100 de "Blue in Green", mas apenas 7 de "Freddie Freeloader" e 5 de "Flamenco Sketches" -- ok, os números desta última não surpreendem.
Há um player aqui, pessoal do feed (via.)
Dentre tantos covers, talvez um dos mais curiosos seja este aí em cima, de "Freddie Freeloader", que também é mencionado no livro de Kahn:
O mais impressionante tratamento vocal do material de Kind of Blue já gravado provavelmente seja o auge da vocalização organizada por Jon Hendricks para "Freddie Freeloader". Em 1989, ele, Bobby McFerrin, Al Jarreau e George Benson vocalizaram respectivamente os solos originais de Coltrane, Kelly, Miles e Adderley. Os cantores são excepcionalmente precisos em suas versões dessas improvisações eternas, e a letra divertida evoca conversa de bar e balbúrdia de rua: "Freddie, Freddie / Bebiba na faixa, blues na faixa, dívidas na faixa".
* * *
E já que estamos por aqui, um bônus: em 2 de abril de 1959, no intervalo de seis semanas entre as duas sessões de gravação de Kind of Blue, foi ao ar um programa de 30 minutos chamado The Sound of Miles Davis, que contou com a primeira execução publica do tema mais conhecido do disco, "So What". Esta é a única gravação em vídeo que mantém grande semelhança com o original, ainda que um pouco mais rápida. Foi ao ar somente no ano seguinte, mas obteve grande audiência e serviu como mais um belo empurrão na carreira de Miles.
The Sound of Miles Davis (1959)
No entanto, a formação banda não era a mesma do sexteto-mais-um: logo no começo vê-se Cobb, Chambers e Kelly; à frente, Miles e Coltrane. Adderley, mesmo sendo creditado no fim do programa, se ausentou por conta de uma enxaqueca e foi substituído por três trombonistas, o que deu mais peso ao tema de abertura -- e Miles volta para solar no lugar de Cannonball.
Um belo registro.
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** Há uma excelente resenha sobre o livro aqui, um breve comentário meu aqui e, também, uma resenha do disco aqui no impop.

