julho 2008 Arquivos
Catarse. É umas das coisas que espero daqueles que têm coragem de empunhar um microfone diante de uma platéia. E por mais performática que seja a apresentação, uma coisa não exclui a outra: pode-se representar de forma INTENSA e sincera. Com vontade -- e também pode-se fingir, claro, mas nem sempre é fácil CONVENCER.
"Enter Entrepreneur". NSFW. But play it anyway.
Karen Finley faz parte desse seleto grupo de artistas que te recebem com uma porrada na boca do estômago e que não param de bater. Que te deixam perplexo e que te ROUBAM a atenção até o fim, tanto pela expressão artística quanto pelo conteúdo do trabalho.
Porque ao dar o play em The Truth is Hard to Swallow (nome oportuno), primeiro disco (1987) da Karen, não se engane com a levada eletrônica, fácil, dos primeiros segundos de Sushi Party, porque "sushi sushi sushi / open up your legs girl" e aí, sem rodeios, ela te arremessa numa orgia escatológica, fetichista, HARDCORE e essencialmente violenta que será o principal cenário de todo o disco e, de um modo geral, de boa parte do seu trabalho, que não se restringe apenas à música.
O que a interessa são os tabus de qualquer sorte, principalmente os mais chocantes, e não é nenhuma surpresa que Tables of Taboo -- um ODE à perversão -- venha a ser uma de suas faixas mais conhecidas e representativas. E há quem diga que em fins da década de 80, era impossível adentrar numa boate e não ouvir esse remix.
E embora as temáticas sexuais sejam o assunto dominante, Enter Enterpreneur (vídeo acima) se desenvolve na incursão revoltosa numa faceta "politizada" e pessoal: "I have no more money for drugs and sex ; so I decided to take too many sleeping pills baby ; and nothing happened ; so I put a gun to my head and nothing happened ; so I put my head in the oven and nothing happened ; so I fucked you all night long and nothing happened." E aí você percebe que a coisa é pra valer.
The lady herself. 80's.
No mais, se o trip-hop é também chamado de fuck music, pode-se dizer que o que Karen Finley faz é o correspondente musical mais próximo do... rough sex.
No mínimo.
seguindo a trilha de Renmero Rodriguez e Bruno Cardoso, tomo o Impop de assalto (convocando o Tinoco) pra cometer a listinha de destaques dos primeiros seis meses do ano.
ano que tem sido GENEROSO, como há muito não se via. pelo menos às minhas esferas auditivas.
donde, sem classificação, seguem-se dez:
• SOILENT GREEN, Inevitable Collapse In The Presence Of Conviction
New Orleans é um capítulo à parte no metal, e esses caras ficam cada vez melhores. é o som peculiar de praxe, com a criatividade de composições de sempre: a efetiva e marcante mistura de sludge, death, grind e melodias/levadinhas doom metal, generoso nas mudanças de andamento. e o cheiro da origem, claro. vocalista novo é bom mas falta um pouco de entrosamento, no entanto.
• NORTT, Galgenfriest
eta resvalão no clichê, mas que disco GELADO esse - do obscuro dinamarquês conhecido como Nortt. no rótulo vem descrição, que é soma: depressive funeral atmospheric doom metal. valia um drone aí no meio. tipo Sun O))) que é primo do Drudkh. as músicas são absurdamente lentas e chegam a dark ambient num piscar de olhos.
• ANIMAL STYLE, Gameboy Madrigals
madrigal, wiki: a type of secular vocal music composition, written during the Renaissance and early Baroque eras. Throughout most of its history it was polyphonic and unaccompanied by instruments, with the number of voices varying from two to eight, but most frequently three to six. The earliest examples of the genre date from Italy in the 1520s, and while the center of madrigal production remained in Italy, madrigals were also written in England and Germany, especially late in the 16th and early in the 17th centuries.
agora mistura com chiptunes - música criada em videogames de baixa geração.
é. e o artista oferece.
• KORPIKLAANI, Korven Kuningas
não gosto dos outros discos dos finlandeses do Korpiklaani. nem gosto muito de folk metal, pra falar a verdade. mas esse Korven Kuningas é genial. não é apenas viking folclórico, com seus instrumentos típicos, de pedir cerveja em taverna; é um trabalho muito acima da média em termos de composição. na simplicidade das canções, espaço para melodias e acompanhamentos quase big band. fora isso, eu sigo escutando Kipumylly viciosamente e esperando enjoar. tô no limiar da dúvida do fato. (Suden Joiku, que se segue no tracklist, é quase isso.)
• ABORTED, Strychnine.213
a crítica tem apontado como um posicionamento do Aborted direção ao público deathcore, do lado mainstream. eu, lendo purismo underground demais - afinal, segue sendo um disco de brutal/tech death metal -, acho ótimo. os outros discos dos belgas do Aborted são mais brutais, mas muito menos inspirados - e isso é o que conta. faixas memoráveis e um disco redondo e bem produzido. dobradinha The Chyme Congeries (melhor refrão do metal esse ano) e A Murmer in Decrepit Wits (com direito a sample intro à cybergrind) é absolutamente matadora.
• MARCELO BIRCK, Timbres Não Mentem Jamais
tem pra streaming no site oficial. oito anos de espera para o novo do bruxo avant-garde jovem-guasca portoalegrense - com valia. grande, psicodélico, experimental, inteligente, fundamental álbum do rock gaúcho. e grandes letras. (alô cidade, tem show no Ocidente quinta!)
• OCOAI, Breatherman
das recentes bandas do sludge/post-metal, é das mais promissoras. é lento, lembra por momentos Pelican e Isis, em outros evoca a aura do death/doom dos 90. as tintas de blues ficam pela raiz do Tennessee. raro e valoroso disco de estréia que mostra maturidade nas composições, controle técnico e produção de primeira linha.
• MADE OUT OF BABIES, The Ruiner
os anglo-saxões tem uma palavra boa, sem tradução decente em Português: "fresh". Made Out of Babies faz (e é) um tipo de metal que não se ouvia nem se ouve a não ser o dela mesma. 85% responsabilidade da vocalista e atriz principal, Julie Christmas. esse álbum, menos selvagem mas não menos agressivo, mostra um amadurecimento da banda - que ainda não sei se é de todo positivo (o disco é recente). mas ainda assim, um trabalho de personalidade e coragem ímpares. além de uma puta sonzeira, óbvio.
• HOUR OF PENANCE, The Vile Conception
escrevi assim, numa comunidade do last.fm: There's a point when brutal death becomes just *so beautiful*. This is one example. Has been sitting (along with Disgorge) on the top of my wake-up playlist. Track Absence of Truth is incredible. ouvindo, jamais se diz que os caras são italianos. nos ouvidos, machadada pra tudo quanto é lado.
• ANTLERS, S/T
caiu de pára-quedas semana passada. me conquistou imediatamente. não sabia que se fazia música assim ainda - math rock, post rock, delícias crocantes de guitarra. nenhuma informação a não ser no last.fm: a group of Richmond/DC musicians from bands such as Mass Movement of the Moth, Gregor Samsa, Resonance, and Olive Tree. The band plays melodic primarily instrumental mathy tunes that might remind you of bands like Don Cab, Ghost and Vodka, and June of 44.. bah, brilhante.
e olha, sobraram alguns discos aqui - como a estréia do Kingdom of Sorrow, o EP do Death of Her Money, os novos do Monolith Deathcult, Emeth e Textures, e outros. alguns daqui vão pra lista do fim do ano. e que ele siga gordo e repleto de vitórias.
tem uma lista parecida? deixa ela aí nos comentários!