Eu tinha algo entre 15 e 20 anos, nunca vou me lembrar corretamente e, de fato, datas não importam muito. Mas graças à boa-vontade de Luiz, meu primo, eu ouvia o Daydream Nation do Sonic Youth, numa fita cassete. É, uma fita cassete, cara.

E o Sonic Youth ia entregando obra-prima atrás de obra-prima. "Teenage riot" abria o disco como o hino nacional abre um jogo de copa do mundo, depois vinha "Silver Rocket" se fazendo de punk-rock, depois emendava com "The Sprawl" e "Cross the breeze" e as guitarras seguiam resolutas, naquele timbre lindo que só o Sonic youth sabe fazer e que ninguém mais fará igual.

Até que chega "Providence", a oitava faixa. Tudo muda. O vigor das guitarras dá lugar a uma atmosfera escura e solene, pontuada pelo zumbido grave de um amplificador estourado e pelo lamento triste de um piano mal gravado.

E então, a letra. Falada e entregue por ninguém menos do que duas gravações de secretária eletrônica:

Watt here, I'm downstairs in this window.. yr uh, punk phone booth..

*beep*

Thurston, Watt.. Thurston.. I think it's 10:30.. we're callin' from Providence, Rhode Island. Did you find your shit? You gotta watch the mota, Thurston.. Yr fuckin memory just goes out the window. We couldn't find it in the van at all, we were wondering if you looked in that trash can.. when we threw out that trash, man.. with the bag in yr hand, did you dump it? Call later, bye.

Por alguma razão a faixa 8 caiu exatamente no finalzinho do lado A, então depois de "Providence" a fita parou e eu fui entregue a um silêncio levemente desconfortável. E no meio desse silêncio e em algum nível muito obscuro da minha cabeça, eu entendi a coisa toda, como que numa epifania.

Até hoje "Providence" continua sendo uma das melhores músicas que já ouvi.

Felizmente hoje temos Wikipedia pra enriquecer meu entendimento "formal" sobre a música:

Distante da maioria das sensibilidades roqueiras do álbum está a peça de musique concrete "Providence", mostrando algumas das tendências mais experimentais da banda. A música consiste de um solo de piano tocado por Thurston Moore e gravado com um walkman na casa de sua mãe, o som de um amplificador superaquecido e duas mensagens telefônicas mixadas, deixadas por Mike Watt, que ligou para Moore de um telefone público em Providence, Rhode Island. A música foi inusitadamente lançada como single e recebeu até um vídeoclipe de uma tomada só.

O clipe é esse aqui, meio tosquinho e com os palavrões censurados, mas vá lá. Fuçando mais os tubos da internet ainda descobri que a "letra" da música é por conta de uma sacola com cabos de guitarra e fitas cassete que Thurston havia comprado na noite anterior, quando a banda tocou em NY, e que havia sumido. Mike Watt estava ligando de Providence por conta de um show do Firehose que seria feito lá. A "Mota" que ele se refere é o apelido deles para maconha, que aparentemente andava lesando com a memória de Thurston.

Colleen no átrio do Santander Cultural, Porto Alegre - Foto Rene Cabrales/Divulgação

Da clarabóia de pé-direito alto caía um sol ameno de fim de tarde, ressaltando tons de madeira nos instrumentos do palco. No centro dele, uma jovem de compleição frágil e pés descalços mantinha uma platéia de duzentas pessoas estática. As harmônicas da viola de gamba literalmente enchendo o átrio do Santander Cultural; às vezes na forma de sobreposições, noutras no simples reverb da nota entrando em repouso. A apresentação de Cécile Schott, codinome COLLEEN, domingo passado, foi quase solene.

"Show" talvez não seja a palavra mais apropriada; melhor apresentação. O modus operandi de Cécile - sampling totalmente ao vivo, em pedais - acentua uma característica de recriação, antes de reprodução. Cécile dedilha uma frase no violão, ou uma linha de clarinete, ou mesmo uma única nota da viola de gamba, e grava. Passa para a frase seguinte, grava. Assim segue a progressão das músicas, e se em certos momentos há improviso, muitas vezes os reencontramos numa frase ali adiante, misturando-se à base, que cresce de forma avassaladora e plena - quem fecha os olhos, quase pode se imaginar no meio de uma orquestra fazendo jam de post-rock. A técnica foi desenvolvida durante a sua primeira turnê, quando preferiu fazer sampling ao vivo a utilizar um notebook, e logo se tornou a tônica principal do trabalho. (No disco de estréia, Cécile usou samples de vinil, altamente modificados.)

Colleen no átrio do Santander Cultural, Porto Alegre - Foto Rene Cabrales/DivulgaçãoO set, de uma hora, foi todo baseado no seu último disco, Les Ondes Silencieuses (2007) - incluindo "Serpentine", faixa que consta apenas na edição japonesa do álbum. Nos ouvidos, música difícil de categorizar, que tem no rótulo "electronica" apenas um breve recurso técnico (além do processo em si, apenas outro pedal de delay), que se aproxima do ambient pela criação de atmosferas, e que é evidentemente experimental. Talvez seja o caso de lembrar que chamamos aqueles que fazem o que Cécile faz de artistas; e ela faça simplesmente arte, arte musical abstrata. Músicos que trabalham no mesmo estilo, como Pan American ou Loscil, são mais sintéticos; e mesmo os que usam cordas na gênese, como Aidan Baker ou Marsen Jules, não têm um trabalho de pesquisa com esse refinamento. De toda forma, se você seguiu o texto até aqui e não conhece o som de Collen, o mais indicado é ir até o site, escutar seus discos em streaming e torcer que o raio caia no lugar duas vezes e ela volte ao Brasil.

Cécile falou pouco; apresentou sua viola de gamba (um 'mini'-cello de sete cordas, com trastes) e até pediu licença à platéia para assoar o nariz - culpa do clima na passagem por São Paulo, ela justificou. No palco, parecia mais tímida do que no contato depois da apresentação; sorria e meneava a cabeça, gestos pequenos, já arrumando os pedais e começando a próxima música sob a torrente de aplausos. Ao voltar para a faixa de 12 minutos do bis, parecia até surpresa. Na breve conversa que tive com ela, contou que não conseguiu perceber se a platéia estava realmente gostando do que ouvia, e que tinha estranhado tocar na presença do sol - porque sente a sua música como mais noturna. De fato, aquela hora de melodias de leve melancolia, com ápices tão poderosos, sente-se em casa durante a noite. Mas as harmonias desse leitora de Proust, que em sua temática e sensibilidade evocam a passagem do tempo, combinaram perfeitamente com o pôr-do-sol, as notas graves do arco lentas, tornando-se rarefeitas, dissipando-se.




fotos: Rene Cabrales/Divulgação • leia também esta resenha de Marcelo Firpo
wikisite oficialmyspacemomento fã

zbp.jpgna curta e criativa discografia do Cave In -- com exceção de Antenna --, uma marca registrada são as misturas entre rock alternativo/garage e sludge/hardcore numa mesma faixa (como em "Trepanning"). pelo que se vê nos projetos paralelos à banda, fica claro que Steve Brodsky é o responsável pelas passagens mais emocore, e Caleb Scofield, quem puxa pro lado mais pesado. e pelos resultados, fica evidente quem tem mais força para vencer no páreo dos novos frontes.

não apenas isso; o ZOZOBRA é uma das melhores bandas que surgiram no cenário ultimamente. nem bem é uma banda; Caleb toca baixo e todas as muitas guitarras em camadas. teve Santos Montano na bateria em Harmonic Tremors, o primeiro disco; e neste Bird of Prey, traz Aaron Harris, do Isis -- que também faz a mixagem, com excelente resultado. dois anos, dois álbuns esmagadores, repletos de fuzz e de afinações baixas, peso nas cordas e o melhor: riffs memoráveis. Caleb, que nunca teve espaço para suas próprias músicas no Cave In ou no Old Man Gloom (o pretensioso supergrupo de post-metal de Aaron Turner, frontman do Isis e da gravadora cult Hydra Head), se consolida como um grande riffmaster, calcado obviamente no doom de Iommi e seguindo a linha que se ouve em bandas como Cathedral e Crowbar. ou seja: groove e certas melodias que parecem ter vindo dos anos 60.

os 30 minutos de Bird of Prey são encaixotados num tijolo. a proposta é simples: verso sludgecore com o baixo proeminente, distorção por todos os lados. nos refrões e nas arestas, um riff pontuado fascinante, talvez uma segunda voz (também de Caleb) limpa por trás do berro rouco de ordem. como no sludge e no post-metal, é pesado, mas não demais; geralmente no sentido do hardcore, e não do death metal. faz-se denso também pela equalização quase toda grave e média -- o pantâno do sludge: os poucos picos do medidor para os agudos ficam para algumas linhas de segunda guitarra, solinhos ou mesmo finais de acordes no meio da parede de guitarras. faixas como "Heavy with Shadows" são assim. coloque os fones e vá contando as cordas. acchilles last stand amordaçado em estática de fuzz. é o mesmo com "Emanate", o petardo demolidor de abertura, e "In Jet Streams" - com direito a um puta riff fantástico no pre-chorus. há faixas mais cadenciadas, caso de "Treacherous", em 3/4 e com trabalho de guitarra simples e viciante, e a épica "Sharks that Circle" - provavelmente a melhor do disco. também pelo efeito após "Big Needles", a intro que a precede: uma nuvem de distorção, feedback e buzz sortidos que acabam por culminar numa estrondosa torrente de baixo galopante, riffs muito graves e refrão grudento. as músicas mais lentas são "Hearless Enemy" e "Laser Eyes", outra viagem de noise introdutório seguido por riff épico. depois de meia hora, a sensação é de ter comido um xis. tijolo. compacto, sem firula, muita crocância e maionese. refeição completa.

se no primeiro disco havia maior variação de andamentos e temas, Bird of Prey traz uma grande boa nova: identidade. este Zozobra continua os melhores momentos do primeiro disco -- "Kill and Crush", "The Vast Expanse", "Caldera" --, os melhora, dá coesão e energia. talvez se pudesse dizer que Caleb percebeu o potencial que tinha; parou de pensar "num projeto paralelo aí" e decidiu dar o melhor de si nas composições. ao mesmo tempo, já li review dizendo que o disco não é de todo memorável. ou seja, exatamente o oposto do que eu penso. mas depois de 40 audições, eu continuo tendo certeza que esse é um dos discos que eu vou levar de 2008 comigo.


stream do disco completomyspacewiki

É uma lista altamente parcial (no sentido de "incompleta", não de "tendenciosa"), já que eu não fico caçando lançamentos do ano pra ouvir. Tanto que meu vício mais recente tem sido "Heaven or Las Vegas", disco do Cocteau Twins lançado em 1990. Além do mais faltam links e imagens das capas dos discos porque a maldita internet desse maldito hotel dessa maldita cidade está, mais uma vez, me deixando na mão.

Mas chega de disclaimer, vamulá:

Girl Talk - Feed The Animals

É o último trabalho de Greg Gillis, o mestre do mashup pop/rock/rap/Billboard top 100. Infelizmente, "Feed The Animals" repete EXATAMENTE a mesma fórmula do disco anterior, o "Night Ripper", validando a afirmativa de que Girl Talk é um mágico de um truque só.

Só que o truque dele é MUITO divertido!

Vampire Weekend

É a melhor coisa que ouvi em 2008. O som dos caras - que por alguma estranha razão anda sendo chamado de afro-pop - é muito amistoso, as letras são espertas e a dinâmica das músicas passeia num espaço agradável entre o vigoroso e o tranquilo. Mexidas no andamento, nos instrumentos (um órgão retrô ali, uma flauta acolá, um bongô mais adiante) e até na "estética" do som (às vezes puxando pro punk, pro caribenho ou pro kitsch) mantém o interesse firme e forte ao longo do disco. E ainda tem os competentes vocais de Ezra Koenig - que é homem, apesar do nome.

É uma obra-prima cujo único problema é ter apenas 34 minutos.

E, sim, tem muito hype em cima dos caras, mas não se deixe levar por isso.

Portishead - Third

Yeah, yeah, terceiro e antecipadíssimo disco dos papas do trip-hop e tal. Normalmente expectativas elevadas geram uma decepção proporcional, que, felizmente, não aconteceu. Mesmo depois de um hiato de 10 anos, o Portishead entrega o que todos esperavam - e com muita classe.

O disco é denso e construído sob os velhos (e funcionais) pilares do trip-hop: arranjos espartanos, tocados lentamente e em performances fortemente emocionais. Puxa pra baixo o mesmo tanto que o Vampire Weekend puxa pra cima - o que, portanto, o torna des-recomendável pra quem não curte navegar em emoções tristes.

Fly Pan Am - Ceux Qui Inventent N'Ont Jamis Vecu (?)

Olha, apesar deste disco fazer parte desta lista eu confesso que não entendo direito o rock experimental dos franco-canadenses do Fly Pan Am.

As músicas não parecem ir à lugar algum: os caras constróem uma "cena sonora" repetindo acordes nas guitarras por longos minutos, depois misturam live recordings com ruído e vocais perdidos, depois passam longos minutos em hiatos semi-silenciosos, depois "estragam" de propósito trechos das músicas, fazendo-as soar como se fossem glitches de um CD riscado ou um MP3 mal "encodado", e assim por diante. Só que existe uma "moral da história" no meio dessa bagunça: uma construção abstrata mas palpável e, num nível muito estranho da mente, perfeitamente compreensível.

E é isso que, de alguma forma, os torna geniais.

Bonus Tracks: Comentários rápidos sobre outros lançamentos 2008itenses que ouvi.

Daedelus - Love To Make Music To é delicioso como todos os outros discos de Daedelus. Mas, diferentemente do "Daedelus Denies the Day's Demise", esse investe numa atmosfera mais neutra ao invés daquela "animação toda" de sempre e, portanto, demora um pouco mais pra "bater"

O "Með suð í eyrum við spilum endalaust" (também conhecido como "disco do Sigur Rós com os caras pelados na capa")... bem, esse aí é uma grande incógnita. Comprei, ouvi e ele ficou lá, encostado na prateleira virtual do meu iTunes. Não que o disco seja ruim, mas, sei lá, parece que foi apagado pela sombra do disco anterior (o absurdamente maravilhoso "Takk").

A faixa 4 de "The Midnight Organ Fight", do Frightened Rabbit, é tão boa que, sozinha, me fez comprar o disco na hora. Agora pergunta se eu tive tempo de ouvir o resto das músicas... :/

A eMusic inventou uma tal selo chamado "eMusic Selects" para promover bandas. Sim, é jabá, então fiquei olhando torto até que, de repente, apareceu "Keeper's", do Deastro...

E o Tape lançou "Luminarium" em 2008, disco atmosférico e rico de texturas que, infelizmente, não tive tempo de ouvir direito até agora.

"Bati 2300 artistas no Last.fm", disse um transeunte do meu timeline do Twitter. O mesmo que, alguns dias antes, disse também: "fico orgulhoso quando faço download de uma banda que não tem nada mencionado no last.fm". Ficou claro que esse aí investe na variedade e se orgulha disso.

Já eu às vezes sofro com meus 65 downloads mensais da eMusic. É que eles expiram se você não utilizá-los, e às vezes eu estou apenas começando a realmente aproveitar as compras do mês anterior quando me vejo obrigado a apressar a compra do mês atual. Além disso, às vezes eu curto ouvir bandas e discos já "velhos de guerra" (especialmente com fones de ouvido) e perceber detalhes, nuances e tudo aquilo que normalmente só se revela depois que o disco é revisitado.

São dois prazeres distintos. Um é horizontal: varrer o mundo buscando novidades - e como o mundão musical é bem amplo ouvem-se muitos discos poucas vezes. O outro é vertical, onde a idéia é aprofundar audições em um número pequeno de discos e bandas "eleitas". São poucos discos ouvidos muitas vezes.

Mas o que é melhor? Poucas bandas ouvidas com profundidade ou muitas bandas ouvidas superficialmente?

Pra piorar a escolha, alguns gêneros musicais parecem privilegiar uma ou outra abordagem. Discos esteticamente complexos, que investem mais em texturas e camadas, normalmente recompensam audições sucessivas. Isso é muito comum na música eletrônica, normalmente construída na base da "sobreposição" de sons. Já os álbuns que investem no clássico "verso-refrão-verso" e em conjuntos de timbres conhecidos (como o campeão "guitarra-baixo-bateria") não costumam guardar muitas surpresas sonoras na manga - mesmo se forem, como o velho e bom rock'n roll, uma delícia de se ouvir várias vezes.

Taí uma discussão sem fim - o que não é exatamente um problema. De qualquer forma aguardo para saber o que meus colegas de Impop (e você, meu querido telespectoleitor) tem a dizer...

às vezes uma banda impressiona pela capacidade de criar canções fascinantes, com certo requinte técnico, e ainda assim andar muito próxima da popularidade mainstream. o THE GATHERING trilhou esse caminho, embora não tenha estourado. por falta de uma estrutura mais sólida e de um cocheiro com maior presença a conduzi-los, arrisco.

surgida na cidade de Oss, interior da Holanda, em seus dois primeiros discos praticou doom/death tradicional - voltando-se mais tarde para um rock-às-vezes-brevemente-metálico. tocando sempre mid-tempo ou lento, e com ênfase crescente no clima; evoluindo lentamente atmosferas que seriam progressivas, não fossem despretensiosas. há também um componente gótico na mistura, revelada por uma certa melancolia, pela preferência às melodias belas e tristes.

embora bons instrumentistas, os integrantes do The Gathering empalidecem diante da presença de Anneke von Giersbergen. a garota com voz de soprano e timbre inesquecível juntou-se à banda em 1994, e seu primeiro disco foi o terceiro do grupo. sua presença garantiu um contrato imediato com a Century Media, e os anos seguintes seriam de consagração e boas turnês pela Europa e EUA. Mandylion (95), Nighttime Birds (97), How to Measure a Planet (98) e if_then_else (00) venderam 400 mil cópias.

perdendo integrantes, cansados da rotina de escrever na estrada e pressionados pela gravadora, o The Gathering foi murchando aos poucos; tornando-se esparso, menos inspirado, mais isolado dentro de seu próprio selo (o Psychonaut, que durou muito pouco). seus últimos dois álbuns passaram praticamente despercebidos. no ano passado Anneke pediu as contas e foi batalhar em seu AGUA DE ANNIQUE - um projeto de soft-rock que vem recebendo atenção e (merecidas) boas críticas.

o The Gathering continua vivo, embora sem sua garota a comandar o microfone, preveja-se um futuro difícil. Anneke, ao contrário, parece recomeçar - e com gosto - aos 35 anos. continua com a voz perfeitamente afinada, e o feeling está mais eficiente (ao contrário do começo, quando a emocionalidade ficava escondida sob técnica impecável). aí embaixo você confere "The May Song", faixa de Nighttime Birds, extraída do dvd In Motion, de 2002. se não conhece, prepare-se para derreter aos agudos carinhosos de Anneke.


site oficialagua de anniqueencyclopaedia metallumwiki

jóias da família: Sabbath em compacto duplo de 1975. é do meu padrinho - o cara que me ensinou que havia música lá fora - e hoje está sob custódia de um primo. essa bolachinha traz o single - a faixa-título - e a instrumental Fluff, além de Paranoid e outra instrumental, Rat Salad.

frente
verso


Sabbath Bloody Sabbath é um disco que por pouco não existiu. depois de uma temporada frustrada na Record Plant de Los Angeles (com o abuso de drogas e álcool, não conseguiam terminar qualquer música), o quarteto voltou à Inglaterra e se instalou no castelo de Clearwall, em Gloucestershire - condado mais conhecido pelas competições de cheese rolling. à procura de inspiração, a banda resolveu compor e ensaiar nas masmorras do castelo. lá surgiram então os primeiros acordes da faixa título, seu riff, ela mesma completa, e então todo o disco - um dos mais importantes momentos da história do hard rock e do metal. e também o apogeu do Black Sabbath - depois disso, sua trajetória seria oscilante.

esse marco da música está próximo de completar 25 anos: foi lançado em 1° de dezembro de 1973. como acontece com obras de alto calibre, os riffs continuam atuais e de genialidade incomparada. o baixo segue ímpar em seu terreno, Ward demonstrava farto crescimento técnico e Ozzy vivia o auge da loucura - o que, em se tratando de Ozzy, é excelente.

abaixo, vocês ouvem Sabbath Bloody Sabbath - "o riff que salvou a banda", nas palavras de Tony Iommi. as imagens são da época.


Nobody will ever let you know
When you ask the reasons why
They just tell you that youre on your own
Fill your head all full of lies

Das cinco faixas de Kind of Blue, "Freddie Freeloader" é a menos melancólia. Homenagem ao barman-pedinte que acompanhava (sem ser chamado) a banda pra todo lado em NY, é nesta forma blues que Wynton Kelly assume o piano do sexteto e faz sua participação única no disco, evidenciando, assim, o minimalismo de Evans nas faixas restantes.

Freddie Freeloader (apenas o áudio)

Ashley Kahn, em seu livro sobre o disco**, comenta sobre a repercussão da obra-prima do jazz e traz informações interessantes: embora os dados de empresas e editoras de música não sejam muito precisos, já foram gravados cerca de 150 covers de "So What" e "All Blues", uns 100 de "Blue in Green", mas apenas 7 de "Freddie Freeloader" e 5 de "Flamenco Sketches" -- ok, os números desta última não surpreendem.

Há um player aqui, pessoal do feed (via.)

Dentre tantos covers, talvez um dos mais curiosos seja este aí em cima, de "Freddie Freeloader", que também é mencionado no livro de Kahn:

O mais impressionante tratamento vocal do material de Kind of Blue já gravado provavelmente seja o auge da vocalização organizada por Jon Hendricks para "Freddie Freeloader". Em 1989, ele, Bobby McFerrin, Al Jarreau e George Benson vocalizaram respectivamente os solos originais de Coltrane, Kelly, Miles e Adderley. Os cantores são excepcionalmente precisos em suas versões dessas improvisações eternas, e a letra divertida evoca conversa de bar e balbúrdia de rua: "Freddie, Freddie / Bebiba na faixa, blues na faixa, dívidas na faixa".

* * *

E já que estamos por aqui, um bônus: em 2 de abril de 1959, no intervalo de seis semanas entre as duas sessões de gravação de Kind of Blue, foi ao ar um programa de 30 minutos chamado The Sound of Miles Davis, que contou com a primeira execução publica do tema mais conhecido do disco, "So What". Esta é a única gravação em vídeo que mantém grande semelhança com o original, ainda que um pouco mais rápida. Foi ao ar somente no ano seguinte, mas obteve grande audiência e serviu como mais um belo empurrão na carreira de Miles.

The Sound of Miles Davis (1959)

No entanto, a formação banda não era a mesma do sexteto-mais-um: logo no começo vê-se Cobb, Chambers e Kelly; à frente, Miles e Coltrane. Adderley, mesmo sendo creditado no fim do programa, se ausentou por conta de uma enxaqueca e foi substituído por três trombonistas, o que deu mais peso ao tema de abertura -- e Miles volta para solar no lugar de Cannonball.

Um belo registro.

___

** Há uma excelente resenha sobre o livro aqui, um breve comentário meu aqui e, também, uma resenha do disco aqui no impop.

Catarse. É umas das coisas que espero daqueles que têm coragem de empunhar um microfone diante de uma platéia. E por mais performática que seja a apresentação, uma coisa não exclui a outra: pode-se representar de forma INTENSA e sincera. Com vontade -- e também pode-se fingir, claro, mas nem sempre é fácil CONVENCER.

"Enter Entrepreneur". NSFW. But play it anyway.

Karen Finley faz parte desse seleto grupo de artistas que te recebem com uma porrada na boca do estômago e que não param de bater. Que te deixam perplexo e que te ROUBAM a atenção até o fim, tanto pela expressão artística quanto pelo conteúdo do trabalho.

Porque ao dar o play em The Truth is Hard to Swallow (nome oportuno), primeiro disco (1987) da Karen, não se engane com a levada eletrônica, fácil, dos primeiros segundos de Sushi Party, porque "sushi sushi sushi / open up your legs girl" e aí, sem rodeios, ela te arremessa numa orgia escatológica, fetichista, HARDCORE e essencialmente violenta que será o principal cenário de todo o disco e, de um modo geral, de boa parte do seu trabalho, que não se restringe apenas à música.

O que a interessa são os tabus de qualquer sorte, principalmente os mais chocantes, e não é nenhuma surpresa que Tables of Taboo -- um ODE à perversão -- venha a ser uma de suas faixas mais conhecidas e representativas. E há quem diga que em fins da década de 80, era impossível adentrar numa boate e não ouvir esse remix.

E embora as temáticas sexuais sejam o assunto dominante, Enter Enterpreneur (vídeo acima) se desenvolve na incursão revoltosa numa faceta "politizada" e pessoal: "I have no more money for drugs and sex ; so I decided to take too many sleeping pills baby ; and nothing happened ; so I put a gun to my head and nothing happened ; so I put my head in the oven and nothing happened ; so I fucked you all night long and nothing happened." E aí você percebe que a coisa é pra valer.

The lady herself. 80's.

No mais, se o trip-hop é também chamado de fuck music, pode-se dizer que o que Karen Finley faz é o correspondente musical mais próximo do... rough sex.

No mínimo.

seguindo a trilha de Renmero Rodriguez e Bruno Cardoso, tomo o Impop de assalto (convocando o Tinoco) pra cometer a listinha de destaques dos primeiros seis meses do ano.

ano que tem sido GENEROSO, como há muito não se via. pelo menos às minhas esferas auditivas.

donde, sem classificação, seguem-se dez:


soilent• SOILENT GREEN, Inevitable Collapse In The Presence Of Conviction
New Orleans é um capítulo à parte no metal, e esses caras ficam cada vez melhores. é o som peculiar de praxe, com a criatividade de composições de sempre: a efetiva e marcante mistura de sludge, death, grind e melodias/levadinhas doom metal, generoso nas mudanças de andamento. e o cheiro da origem, claro. vocalista novo é bom mas falta um pouco de entrosamento, no entanto.

nortt• NORTT, Galgenfriest
eta resvalão no clichê, mas que disco GELADO esse - do obscuro dinamarquês conhecido como Nortt. no rótulo vem descrição, que é soma: depressive funeral atmospheric doom metal. valia um drone aí no meio. tipo Sun O))) que é primo do Drudkh. as músicas são absurdamente lentas e chegam a dark ambient num piscar de olhos.

animal• ANIMAL STYLE, Gameboy Madrigals
madrigal, wiki: a type of secular vocal music composition, written during the Renaissance and early Baroque eras. Throughout most of its history it was polyphonic and unaccompanied by instruments, with the number of voices varying from two to eight, but most frequently three to six. The earliest examples of the genre date from Italy in the 1520s, and while the center of madrigal production remained in Italy, madrigals were also written in England and Germany, especially late in the 16th and early in the 17th centuries.
agora mistura com chiptunes - música criada em videogames de baixa geração.
é. e o artista oferece.

korpi• KORPIKLAANI, Korven Kuningas
não gosto dos outros discos dos finlandeses do Korpiklaani. nem gosto muito de folk metal, pra falar a verdade. mas esse Korven Kuningas é genial. não é apenas viking folclórico, com seus instrumentos típicos, de pedir cerveja em taverna; é um trabalho muito acima da média em termos de composição. na simplicidade das canções, espaço para melodias e acompanhamentos quase big band. fora isso, eu sigo escutando Kipumylly viciosamente e esperando enjoar. tô no limiar da dúvida do fato. (Suden Joiku, que se segue no tracklist, é quase isso.)

abort• ABORTED, Strychnine.213
a crítica tem apontado como um posicionamento do Aborted direção ao público deathcore, do lado mainstream. eu, lendo purismo underground demais - afinal, segue sendo um disco de brutal/tech death metal -, acho ótimo. os outros discos dos belgas do Aborted são mais brutais, mas muito menos inspirados - e isso é o que conta. faixas memoráveis e um disco redondo e bem produzido. dobradinha The Chyme Congeries (melhor refrão do metal esse ano) e A Murmer in Decrepit Wits (com direito a sample intro à cybergrind) é absolutamente matadora.

• MARCELO BIRCK, Timbres Não Mentem Jamais
tem pra streaming no site oficial. oito anos de espera para o novo do bruxo avant-garde jovem-guasca portoalegrense - com valia. grande, psicodélico, experimental, inteligente, fundamental álbum do rock gaúcho. e grandes letras. (alô cidade, tem show no Ocidente quinta!)

ocoai• OCOAI, Breatherman
das recentes bandas do sludge/post-metal, é das mais promissoras. é lento, lembra por momentos Pelican e Isis, em outros evoca a aura do death/doom dos 90. as tintas de blues ficam pela raiz do Tennessee. raro e valoroso disco de estréia que mostra maturidade nas composições, controle técnico e produção de primeira linha.

moob• MADE OUT OF BABIES, The Ruiner
os anglo-saxões tem uma palavra boa, sem tradução decente em Português: "fresh". Made Out of Babies faz (e é) um tipo de metal que não se ouvia nem se ouve a não ser o dela mesma. 85% responsabilidade da vocalista e atriz principal, Julie Christmas. esse álbum, menos selvagem mas não menos agressivo, mostra um amadurecimento da banda - que ainda não sei se é de todo positivo (o disco é recente). mas ainda assim, um trabalho de personalidade e coragem ímpares. além de uma puta sonzeira, óbvio.

hop• HOUR OF PENANCE, The Vile Conception
escrevi assim, numa comunidade do last.fm: There's a point when brutal death becomes just *so beautiful*. This is one example. Has been sitting (along with Disgorge) on the top of my wake-up playlist. Track Absence of Truth is incredible. ouvindo, jamais se diz que os caras são italianos. nos ouvidos, machadada pra tudo quanto é lado.


Antlers• ANTLERS, S/T
caiu de pára-quedas semana passada. me conquistou imediatamente. não sabia que se fazia música assim ainda - math rock, post rock, delícias crocantes de guitarra. nenhuma informação a não ser no last.fm: a group of Richmond/DC musicians from bands such as Mass Movement of the Moth, Gregor Samsa, Resonance, and Olive Tree. The band plays melodic primarily instrumental mathy tunes that might remind you of bands like Don Cab, Ghost and Vodka, and June of 44.. bah, brilhante.

~.~

e olha, sobraram alguns discos aqui - como a estréia do Kingdom of Sorrow, o EP do Death of Her Money, os novos do Monolith Deathcult, Emeth e Textures, e outros. alguns daqui vão pra lista do fim do ano. e que ele siga gordo e repleto de vitórias.

tem uma lista parecida? deixa ela aí nos comentários!

não da forma de "horror" que você pode estar pensando; não há monstros ou fantasia ou zumbis. o que há, sim, é uma atmosfera tão pesada, tão densa, que transcende o próprio peso sonoro. comparação fácil à parte - nunca ouvi nada tão próximo a um pesadelo. e eu, que posso ser ninado com Morbid Angel numa boa, penso duas vezes antes de escutar esse disco - porque eu sei que ele vai interferir diretamente no meu humor e na maneira como me sinto e me percebo no mundo.



imagem: divulgação/decibel magazine

o BATTLE OF MICE é a reunião de Josh Graham (Neurosis, ex-Red Sparrowes) e Julie Christmas (do fantástico Made Out of Babies). num show no SXSW, cada um com sua banda, conheceram-se e imediatamente se odiaram. colegas de Neurot Recordings, numa turnê sucessiva repensaram a postura e descobriram amor e sexo. pode parecer uma informação cretina, mas é importante para entender o disco: no final das sessões de A Day of Nights, os dois não se aturavam - ao ponto de se recusarem a gravar juntos. tanta tensão, ódio e uísque resultaram numa obra perturbadora, e incrivelmente bem-sucedida musicalmente.


By the time the sixth song, "Cave of Spleen", was recorded, Julie and Josh couldn't bear to be in the same room together. As such, the guitars and vocals were completed on different days; the vocals in one take, with no pre-written lyrics. (...) The sonic philosophy of the band reflects a huge, primal range of emotion: Love, lust, jealousy, whiskey, and blind rage, Julie explains. And while it might be pointed out that whiskey is not necessarily a clinically-recognized human emotion, it is unlikely that anyone will misunderstand the implications of its inclusion after hearing Battle of Mice. battleofmice.com

O disco, lançado em 2006, foi considerado o segundo melhor do ano pela Decibel Magazine - logo atrás de Blood Mountain, do Mastodon. definitivamente metálico, rotulado como post-metal da mesma forma em que criaram o post-hardcore: é mais do que sua base, mas ainda sem um nome específico. sem dúvida sludge - riffs lentos, graves, sujos e ultradistorcidos - mas escapa da fácil classificação pelo vocal maníaco de Julie. em momentos com a aura infantil de Björk, noutros como um gárgula vicioso berrando os pulmões pra fora, ela domina a cena. o envoltório de guitarras lhe cai bem e é inspirado, mas muito difícil não relegá-lo a moldura. como em sua banda de origem, Julie não canta, nem interpreta; se automutila nas letras enigmáticas. fascinante e visceral são adjetivos instantâneos.

hipnótico, A Day of Nights é um disco suicida - um relacionamento onde os dois enforcam-se para produzir "o melhor trabalho das suas vidas", nas palavras da vocalista. faixa a faixa, se morre e mata pela sua voz em atmosferas distintas: "The Lamb and the Labrador" é soturna em suas pausas cortantes, ameaçadora nos riffs. a aterradora "Bones in the Water" é o que considero um dos momentos mais pesados do metal, numa sucessão opressora de tons que vão se elevando para romper a barreira da sanidade. "Sleep and Dream" é uma quase-pausa em lento 4 por 4, ritmo de contador de histórias narrando um cão-besta ameaça iminente, para um final simplesmente épico várias oitavas acima na garganta de Julie. "Salt Bridge" e "Wrapped in Plain" seguem cadenciadas, e vão tornando-se mais sombrias e tristes; num ponto em que as guitarras parecem ir cansando da batalha. o retorno da demência vem logo no início de "At the Base of the Giant's Throat", de batida vigorosa e alternância de vocal limpo e guinchos; no seu final, uma gravação para o 911 faz do ouvinte voyeur de alguma desgraça. (eu escutei a primeira, talvez a segunda vez; agora, sempre passo adiante quando chega nesse ponto.) A última faixa, "Cave of Spleen", surge lenta e deprimida do sample anterior, para dar lugar a mais riffs tensos e vocais esquizóides. o peso, aqui como em todo o disco, vem no timbre e nos riffs menores, nas pausas agoniadas, na claustrofobia da voz de Julie enterrada no lodaçal criado por Josh Graham. são 45 minutos marcantes, pegajosos, e que não permitem ao ouvinte sair ileso. diferente de um disco de metal extremo, que exige tímpanos e músculos, A Day of Nights exaure psiquicamente.

se na indústria da música tudo é mercadoria, Battle of Mice entrega até mais honestidade do que deveria. e é exatamente por isso que é um disco tão marcante.

"I will not attack Josh's character in print, but I can't say anything nice at the moment either," says Christmas. "I can only tell you what a fucked-up and vicious irony it is to be doing some of the best work of your life with someone who is [so] far different from you or anything you ever want to be or be around. (...) Just about the only thing that we do agree on is how important the project is. Doing everything possible to make sure it gets off the ground and continues to be productive musically, is of the utmost importance. I think we both know what's ahead of us. Being in a band means spending time together and we'll figure it out one way or the other to keep going with Battle of Mice." decibelmag

a banda encontra-se em hiato, mas em seu site, promete novos álbuns para o futuro. em entrevista para o Brooklyn Vegan (?!), Graham afirma que neste ano deve sair um split com Jarboe, duas novas músicas. seu público aguarda, ansiado e temeroso como um adolescente dos anos 80 ao alugar um novo Faces da Morte.



site oficialmyspaceneurot recordingswikimetal archives

Miles_Ahead.jpgSemana passada eu ia lendo meus blogs e feeds quando topei com um post, favoritado pelo grande chapa Tiagón, sobre "Kind of Blue", o megaboga disco de Miles Davis. O post dizia que era "o disco mais vendido da história do jazz", "um dos mais importantes e influenciais de toda a música" e tal. Aí encasquetei que, naquela semana mesmo, ouviria "Kind of Blue" pela primeira vez.

O que me motivou foi o fato de que eu não sei nada de jazz. De fato, eu só tenho UM disco de jazz ("Giant Steps", de John Coltrane) e li algumas coisas muito picadas sobre como é que os músicos fazem jazz. Então resolvi me usar de cobaia para ver qual o efeito que "Kind of blue", erigido ao status de master-obra-prima-música-dos-deuses por quem entende da coisa, teria em meus ouvidos de neófito, despreparados para receber tais divindades.

Decidi ouvir o disco na sexta-feira, enquanto voava de Brasília para São Paulo - era o momento mais agradável do fim da semana de trabalho e ainda me dava a garantia de que eu não seria interrompido por ninguém durante uma hora e meia.

A primeira faixa, "So what", abriu, cuidadosamente, os trabalhos. A primeira sensação foi de conforto por perceber que os músicos estavam seguindo o "padrão jazz" que eu já conhecia: apresentar um setting - tipo um tema musical - e depois improvisar por cima. O tema me pareceu simples, duas notinhas, uma longa e uma curta - que até parecem mesmo dizer: "so what?". No entanto as progressões harmônicas eram bastante agradáveis - e desafiantes. Atualmente eu já ouvi o disco umas três vezes mas ainda não consegui me localizar totalmente nas mexidas de tom que os caras dão, especialmente em "Freddie Freeloader", a segunda faixa, que de repente descamba para um tom diminuto que, sei lá, eu não queria ser o cara que ia improvisar em cima daquilo.

Falando em improvisos, eles eram bem do jeito que eu havia lido: o esquema não era exibir técnica e velocidade, e sim trabalhar o lado melódico da coisa - coisa que, pelo que percebi, nosso amigo Miles faz tomando um cuidado todo especial não somente com a melodia, mas com a dinâmica e a expressão. E se considerarmos a melodia como o storytelling da música, a experiência de ver a história do disco sendo "escrita" em tempo real fez os quase 20 minutos das duas primeiras faixas passarem voando.

"Blue in green", a terceira faixa, reduziu a marcha do disco ainda mais, o que deixou bastante espaço para os instrumentos ficarem ainda mais expressivos. Eu acho isso bastante interessante, essa coisa de dizer mais com menos, de colocar intensidade no meio de discrição (até comentei disso no meu blog "normal" outro dia), mas eu ainda não sabia que o melhor estava guardado para o final. Prosseguindo, em "All Blues", a faixa seguinte, reparei que até então os músicos praticamente não haviam caído em nenhum daqueles "clichês melódicos" - sabe, aquelas sequências manjadas que você vê espalhadas por aí, desde o fim das frases na música clássica (seeempre voltando pro tom básico e resolvendo a tensão construída anteriormente) até nas melodias pop de rádio. E aí eu pensava na base de "All Blues" e aquilo parecia induzir as progressões mais óbvias. Mas é como eu disse antes, não entendo nada de jazz - talvez não seja nada disso, mas pra mim o aparente esforço dos músicos em andar por um caminho genuinamente criativo deixava tudo ainda mais interessante.

E aí veio "Flamenco Sketches" - "esboços de flamenco", numa tradução livre. Meu amigo, minha amiga, eu lhes digo que "Flamenco Sketches" me propiciou uma experiência que tem que ser descrita no detalhe:

Nos primeiros 30 segundos, apoiado pelo piano e pelo contrabaixo, Miles expõe a primeira parte do tema no seu trompete. Melodicamente aquilo não tinha nada de mais, mas eram notas tão bem escolhidas, tocadas de um jeito tão bonito... era um daqueles casos onde o músico pega um punhado de notas simples, descompromissadas, e na hora de junta tudo acaba nascendo uma frase inesquecível - como as notas do tema de Star Wars ou da introdução de Come As You Are, do Nirvana.

Aí, na sequência, a base do piano/contrabaixo faz uma curva de, sei lá, um tom e meio e, para minha surpresa, vai parar num acorde ainda mais bonito. E Miles entra com uma nota - uma única nota - longa, alta e pungente em seu trumpete. Precisamente nesse instante me passaram algumas centenas de coisas na cabeça: a primeira foi "Uou!"; a segunda foi "ah, então é ISSO que aquelas cantoras ficam tentando fazer quando dão aqueles agudos chatérrimos e que todo mundo acha lindo e fica aplaudindo". É que no caso das cantoras elas até acertam a nota, dão a entonação certinha, botam um vibrato pra dar "um plus a mais" mas ainda assim sempre faltava alguma coisa... precisamente a coisa que estava, de alguma forma, contida naquele agudo pungente do trumpete de Miles Davis. Daquele instante em diante a fama de obra-prima de "Kind of Blue" estava plenamente justificada pra mim.

Só na terceira (ou quarta parte, sei lá) do tema, quando o piano toca aquela sequência realmente típica de flamenco (sabe a música do Vega, do Street Fighter? Mais ou menos aquilo ali) é que a música explica seu nome. E Miles vai acompanhando e, de uma forma que eu nunca vi antes, colocando música em todo e qualquer movimento do seu trumpete - inclusive na hora de silenciar as notas ou de tocar, bem en passant, um semitom. É mais ou menos como se o cara produzisse beleza musical até quando está parando de tocar, revestindo tudo de uma expressividade com a qual eu, definitivamente, não estava acostumado.

Fechando o disco veio um take diferente da mesma "Flamenco Sketches", também muito bom mas que não teve muita graça por causa do meu nível de fascínio com o take anterior. E aí o disco acabou e eu fiquei ali, perdido em algum ponto do céu do interior de São Paulo, sem saber que disco eu teria condições psicológicas de ouvir na sequência.

O veredito, portanto, é esse: eu posso não entender muito da coisa, mas achei o "Kind of Blue" fenomenal.

Tom Zé, lá em 1973, abriu seu disco "Todos os Olhos" cantando:

Todo compositor brasileiro é um complexado. Porque então esta mania danada, essa preocupação de falar tão sério, de parecer tão sério, de ser tão sério...

Eu, particularmente, adoro quando a música perde a compostura e vira piada, sarcasmo, nonsense ou coisa que o valha. E tem gente muito boa nisso, como por exemplo...

Kid Koala

Like Irregular Chickens - Kid Koala

O garoto coala canadense pode até ser absurdamente habilidoso nas turntables, mas o que eu mais gosto no seu trabalho é o senso de humor. Quem clicou no "play" ali em cima deve ter percebido que "Like Irregular Chickens" é feita com scratches de sons de galinhas (e de gente imitando galinha!). "Flu Season" segue o mesmo processo criativo, mas dessa vez com espirros, tosse e outras pneumopatias. E "Barhopper 2" é a primeira música da história a conter o som de um autêntico "silêncio desconfortável" em um encontro amoroso.

The Rip Off Artist

Sim, o nome do cara é "o artista da cópia descarada". Todos os seus discos copiam nomes de discos famosos, como o "Pump" do Aerosmith, o "In through the out door" do Led Zeppelin ou o "Pet Sounds" dos Beach Boys. E, ironicamente, o som é um IDM/Glitch cuidadosamente preparado e absolutamente original. E bem humorado, como a faixa abaixo deixa bem claro:

Vibrating Vegetable - The Rip Off Artist

O site dele continha um monte de biografias fantásticas - todas falsas. Atualmente elas foram substituídas por uma mensagem informando que o artista "se aposentou". Eu estou rezando pra que seja mais uma brincadeira...

Cex

Cex é, literalmente, um moleque. Seu primeiro lançamento foi em 1998, quando ele tinha 16 anos. Os discos da sua fase de IDM seriam um trabalho de altíssima seriedade... não fossem algumas faixas de gozação que sempre abrem, fecham ou entremeiam os seus discos: "High Scores", por exemplo, é uma pegadinha sonora envolvendo um casal de lésbicas e um Playstation (sério!). "Furcoat" abre com um casal de músicos falsos chegando no tapete vermelho do MTV Music Awards e confrontando um Cex versão gangsta, com facas e tudo.

Beastie Boys

Os caras já são naturalmente espirituosos, mas o lado "piadinhas" dos Beastie Boys sai mesmo do armário é na coletânea "Anthology - The Sounds of Science", cheia de faixas, digamos, "descompromissadas", como o inesperado country em "Railroad Blues" e "Country Mike's Theme", ou a hilária "Boomin' Granny" que versa sobre o amor pelas velhinhas, e que merece um trechinho da letra reproduzido aqui:

Because I saw you at the check-out line
You dropped your coupons, and you were looking fine
Sophisticated, and so mature
I couldn't really care if you're sixty or seventy-four
Because I want ya, and I need ya...

Mas a melhor é "Netty's Girl", uma baladinha dor-de-cotovelo cantada por um Mike D. e um Ad Rock que, ou estavam realmente bêbados, ou fizeram a melhor performance pseudo-etílica da história. Ouça você mesmo:

Nettys Girl - Beastie Boys

No MySpace do cara tá escrito assim:

DF Tram is one of the most respected chillout djs/producers in north america and also one of the brains behind the band jumpcut and the ambisonic collective.

Os sets dele são simplesmente geniais: faixas clássicas de ambient temperadas com samples obscuros, divertidos ou inusitados: jingles de comerciais dos anos 60, trechos de palestras sobre drogas, canções infantis, áudio de missões da NASA e o que mais der na telha. Acontece bem do jeitinho que o slogan da Rádio AmbiSonic diz: "tuning you in, chilling you out".

Uma boa iniciação ao trabalho de DF Tram são os sets da Chillits, pequena (e exclusiva) festa anual do gênero. Todos os sets de todos os DJs que tocaram na festa, desde o ano 2000, estão disponíveis para download. Os de 2005 e 2007 eu garanto.


(escute e compreenda enquanto lê)

a wikipedia diz que é post-rock; a pitchfork prefere modern chamber music with an indie rock sensibility. tem quem goste de post-classical, o que é meio grandiloqüente. RACHEL's flutua por esses lugares todos, e ainda coloca um pouco de field recordings e experimenta, ou seja, cabe como uma luva em nosso tão querido avant-garde.

a escalação dos instrumentos vem assim:

Jason Noble - guitar, bass, and sampler
Rachel Grimes - piano, harpsichord, organ
Christian Frederickson - viola and laptop
Edward Grimes - drums, vibraphone, sampler
Greg King - films and keyboards
Eve Miller - cello

e não raro, tocam com mais cordas e instrumentos orquestrais. projeto um-dia paralelo e logo depois solo de Jason Noble, do RODAN, já fizeram shows em museus, bibliotecas e inferninhos. com suas muitas camadas de texturas, em certos momentos provocam curiosidade; em outros, é simplemente belo. há alternância de sonoridades entre canções (e entre discos); embora gostem de criar avalanches de notas rápidas, também trabalham muito com tempos quase parando, ambient, rarefeitos. e sempre com riqueza: um trabalho minimalista de composição acaba sutil diante do resultado.

apesar disso, as canções de Rachel's não são brancas, ou mera trilha sonora. elas são provocantes e muitas vezes despertam inquietude. geralmente trabalhando conceitualmente seus álbuns, trazem temas como as grandes cidades e a vida moderna (quase sempre de forma instrumental - raras são faixas com vocal). cada música tem grande evolução própria, que acaba costurando-se no todo do disco - principalmente em Selenography e Systems/Layers, os mais notáveis entre os seis (mais um split com o MATMOS) lançados entre 1995 e 2005.

atualmente, a banda está em hiato, e seus integrantes dedicam-se a outros projetos.


(e esses embeds do imeem são mui lentos pra carregar)

site oficialpágina na touch and go

impop