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CONSIDERAÇÕES SOBRE A DERROTA


Manhãs inaugurais de fuligem e névoa.
Já falta menos do que faltava.
Reduzida a ruínas a cidade acorda;
o que pulsátil vigorará
no centro danificado do dia? Chove.
Nesta hora exausta recolha a lança,
estreite a chama, reduzidíssima,
profundamente - aí tua casa.
Soubesse Ulisses dessa exuberância fóssil
amaria a cidade calcinada? Chove:


plúmbeo arco da derrota sob um céu sem
crenças. Mas feito o que sofre e é frágil,
dentro desse silêncio luminoso, resta-te,
por entre asfalto e nimbos, o vértice
da hora pura. Consolo? Um vulto se desloca.
Não há resgate, justeza, nem...
Nem toda orfandade é abandono. Erra, cego, um cão.
Contra o vácuo surdo, contra o verbo-
osso, contra o amor-desuso, assombradamente.
O que sobra é vazio sem bordas.


Nulo óbolo. Tens? Ouça... do perfil fantástico
da paisagem - centro - vêm rumores
cinzentos. Tudo é crise. Pó de pesadelos,
não sonhas, idênticos os dois
lados de ti mesmo. Sim, lembras-te da chama?
Morada. Porém, teus trapos são
mapas: altanaria oceânica, renúncia
de rotas; vê: o entorno é teu filho.
Ouça..., os ratos, delicadamente, aproximam-se
Já falta menos do que faltava.

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SOMBRA DE NUVEM


Lençóis alegres do teu corpo,
marfim maravilha, lasso;
primeira manhã de agosto,
claridade sem cansaço.

Agora ânimo-repouso,
serenidade sem posse;
dê-me tua mão, andemos,
pós-gozo, pois o ar é nosso.

Júbilo sem êxtase sob
este azul exato, teu
elemento luminoso:
calmo e incontestável fato.

Simples: és mais sendo parte.
No espaço presságio do Largo
entreluz teu rosto, não
louvo, entenda, Amor, afago.

Não é possível mais luz;
visível ao tato: tempo,
edifícios, incompletude,
fragilidade do evento,

mas o dia, assim, é templo,
profundidade sem fuga,
terrestre e substancioso,
realidade que se enruga

e aceita seu pó, seus ossos.
É aqui, aqui, o que entranhado
freme ao que passa, passou,
passará; a mão... voltemos,

tua face ficou no esboço,
melhor, solar e inconclusa,
é no chão tua poética,
sombra de nuvem, difusa.

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INTEIREZA


Absoluta Presença!
Respiro secreto
o explícito cerne.
Sol total, meio-dia,
setembro não cega,
elucida sem verbo,
mais que setembro, além
e fundura: Amor.
Árvore revelada
entre azul e raiz
para que dobre, corpo,
sua cinza potência.

Absoluta Presença!
Piedade para os cegos
que tocando desdenham;
vida mais arraigada
espessa de tão pura,
porém blindada e aberta,
porém tanta e tudo,
ordenando setembro
a resgatar-me, sem
palavratempo impressa
a colher o ato inteiro
num gesto só: Amor.

Absoluta Presença!
Inteireza diáfana,
grave alegria sem
a impureza das fugas.

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METADE QUE NÃO SE ENCONTRA
Para Dóris Araújo, em memória


E ronda, tarde e noite ronda
sem repouso ou cansaço seca a seiva
de cada nome que musica,
canção nociva que se expande e ronda,
mas multivária e sem presságios,
sabido sobressalto que se alonga
além de rito, indumentária,
harmonia incômoda. Se infiltra? Não,
não. Dentro e sob em rocha e planta,
deuses e pombas, nasce, frutifica;
e ronda, tarde e noite ronda,
seus presságios-ciranda em todo alísio
naquela última varanda,
que não sabia última, e assim
foi gozo e riso sendo nova
vianda; severíssima fulmina,
não há metade que se encontra,
enturvada de ausência a vida ronda.

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Redescobri o escritor Marques Rebelo, mormente o romancista d'O espelho partido, através do professor José Carlos Zamboni (link ao lado). Já tinha lido vários contos e o romance A estrela sobe. Catei o texto abaixo no site dele. Fui atrás dos três volumes do romance-rio, são eles: O trapicheiro, A mudança e A guerra está em nós. Relançados pela editora Nova Fronteira. O último volume terminado pelo autor ainda traz o iniciozinho do que seria o quarto volume, intitulado A paz não é branca, mas a Indesejada das Gentes carreou Rebelo antes de ele finalizar a sua sonhada e projetada obra. O texto do professor Zamboni é um tanto longo para as concepções bloguística, porém tecnologia foi feita para ganhar espaço e não para encurtá-lo. No site do professor Zamboni há outros excelentes textos sobre a obra e o homem Marques Rebelo. Além de uma reavaliação de outros romancistas "olvidados": Herberto Sales, Gastão Cruls, Otávio de Faria e mais. Vale muito a pena conferir.

HÁ CINQÜENTA ANOS PARTIA-SE O ESPELHO


José Carlos Zamboni

Comemora-se, em 2009, os cinqüenta anos de lançamento do primeiro tomo de O espelho partido, de Marques Rebelo. Romance-rio, à clef, O espelho partido está organizado na forma de diário, abrangendo os anos de 1936 a 1945, mantido por escritor carioca da primeira geração pós-modernista -- muito parecido com Rebelo. O ambiente é o Rio de Janeiro estado-novista, com rápidas incursões mineiras. Somam perto de mil e setecentas páginas, agrupadas em três volumes: O Trapicheiro (1959), A mudança (1963) e A guerra está em nós (1969).

Previsto inicialmente para sete tomos, O espelho partido não passou do terceiro. Foi uma monumental catástrofe, segundo o crítico Wilson Martins, que aliás gostava do romancista. A crítica, basicamente jornalística, diverge na sua avaliação. Mas o escritor Rebelo, incansável "arqueólogo noturno", amador de nuanças, lento artesão da palavra, está completo e inteiro em cada fragmento dessa obra -- obra narrativa concebida e realizada com o rigor, a sobriedade, a disciplina formal de que só foram capazes alguns poetas na literatura brasileira contemporânea.

Fico imaginando as inúmeras antologias, reais ou imaginárias, que se fariam dessa obra -- antologias curtas, mais adequadas ao espírito desse miniaturista perdido na vastidão do painel --, desentranhando o que ficou escondido nos escombros: cenas da vida literária, notas de crítica, crônicas do cotidiano, episódios da história nacional e internacional, poemas em prosa, pequenos contos, aforismos. Será uma das formas pela qual o futuro poderá salvar O espelho partido, uma obra que é muito maior que sua própria e inegável derrota.

Capítulo importante na história de uma obra literária é a maneira pela qual foi recebida pela época. Esse artigo, pequena homenagem aos cinqüenta anos de O espelho partido, mostra algumas reações da crítica diante do romance então recém lançado.
Em geral, os críticos gostaram. Escreveram sobre ela nomes como Otto Maria Carpeaux, Tristão de Athayde, Cavalcanti Proença, Wilson Martins, Francisco de Assis Barbosa, Mário da Silva Brito, Willy Lewin, Guilhermino César, Luís Martins, Antonio Houaiss, Fernando Góis, Paulo Francis, Menotti del Picchia -- paleta crítica de todos os matizes. Alguns colegas de ofício juntaram-se ao coro: Lúcio Cardoso, Otávio de Faria, Raquel de Queirós, José Cândido de Carvalho, Adonias Filho, Josué Montello, Eneida; os poetas Manuel Bandeira, Cassiano Ricardo, Augusto Frederico Schmidt, Ledo Ivo, João Cabral. Enfim, parte significativa da nossa "inteligência".

Foi, no entanto, um acontecimento mais literário do que editorial: vendeu pouco. Rebelo não criava para consumo imediato, embora fosse o contrário do escritor torre de marfim: sua prosa bem cuidada, combinando humor e algum sentimentalismo, passava longe da arrogância vanguardeira.

Quem primeiro escreveu sobre O espelho partido, porque teve acesso à obra antes da publicação, foi Antônio Houaiss, em 1957, nos cinqüenta anos de nascimento do romancista. Produto de maturidade literária, momento em que sua expressão se consolidava, o estilo rebeliano aqui aparece -- dizia Houaiss, bem à sua maneira -- com "claridade meridiana, de exatidão sem rebuços nem ambages, de concisão lapidar pois tanto há que dizer...". "Enorme diário íntimo em cuja intimidade está filtrado, pela vivência mental múltipla, todo um ciclo de nossa história, que vai do fim do império até os nossos dias", abriga uma variedade muito grande de personagens, de todas as classes sociais, de todos os matizes ideológicos, "sambistas e pintores, malandros e escritores, escultores e poetas, prostitutas de todas as cores e comerciantes de todos os lucros, com atrizes e jornalistas, com diplomatas e roceiros, com aproveitadores e coronéis, com macrôs e idealistas, com revolucionários e arrivistas", algumas vezes misturando personagens reais com inventados. Ziguezagueando entre o plano do indivíduo e o social, "sem trair nem um nem outro", O espelho partido teria brotado
da experiência vivida e da experiência transmitida, de ação coletiva ascendente e de íntima configuração individual, de documentação de um real além do imediatismo e de desgarrada transfiguração emocional, de convivência com o passado e o presente (e o futuro), mas de vivência instantânea, de crítica iconoclasta e de amor construtivo. (ANTONIO HOUAISS, 1960, p. 96-100)

O poeta Ledo Ivo é dos primeiros a escrever sobre o primeiro tomo de O espelho partido, O Trapicheiro, quando apareceu em 1959. Começa com algumas considerações sobre o valor simbólico do título -- Trapicheiro é um pequeno rio carioca, que acompanha a vida do narrador da infância à idade adulta. Destaca a quebra da linearidade narrativa que caracterizava a obra anterior do ficcionista; o aspecto transgenérico, misturando ficção, autobiografia, crítica de costumes, poemas em prosa; influência de Jules Renard no contraponto de dois planos: o objetivo e o subjetivo, e na criação do personagem Pinga-Fogo, que lembraria o protagonista do Poil de carotte, de Renard, "um dos mais castigados e martirizados personagens do elenco de humilhados e ofendidos criados por Marques Rebelo". Escritor que recusa as modas literárias, admirado pelos happy few, tem uma concepção quase monástica, flaubertiana, da arte literária, na sua procura de um "caminho escolhido por bem raros, silenciosos viajantes, um caminho que não atrapalha ninguém e que nos conduza a todas as partes" (citando o próprio Rebelo). Refere-se ao "estilo chispante de poesia, contido na altura que reclama o rigor, derramado no sítio que se habilita à deslumbrada licença e à irreprimível efusão". Enfim, Rebelo seria dono de um dos melhores estilos da ficção brasileira contemporânea. Ledo Ivo não é tão certeiro quando, face à forte presença da infância no livro, insinua ser a visão rebeliana da meninice "pura, fagueira, diáfana", em contraste com a "maturidade projetada num clima de competição e ferocidade, zombaria e ceticismo, rendição e amargura, apesar das aberturas de maravilhamento que pauseiam a narrativa". (LEDO IVO, 1960, p. 2)

Otto Maria Carpeaux, no mesmo ano, lê e comenta O Trapicheiro. Nega influência de John dos Passos, com suas montagens: em O espelho partido, os fatos são registrados "no mesmo plano", anotações que são de um "diário de escritor". E nem vê marca de Proust nesse rebeliano "mergulho no passado": "Nem todo mergulho no passado é proustiano (...) Nada de psicologia analítica", à maneira do autor de A la recherche du temps perdu. Nem proustiano é o estilo contido e elíptico do escritor carioca. É um livro "deliciosamente escrito", por escritor que "insiste pouco", "afirma pouco e não conclui", resolvendo-se num estilo que "revela atitude especificamente estética em face da vida". Sabe ir do "humorismo malicioso", da "sátira mais cruel", até o "lirismo comovido", a "emoção profunda", tornando a obra "imensamente divertida e profundamente comovida". Refletindo sobre a pouca penetração do escritor em certos setores da crítica, atribui-a a um motivo de todo externo: a maledicência de Rebelo, que sempre soube fazer inimigos à esquerda e à direita. Termina o artigo "jurando que O Trapicheiro é uma obra de valor extraordinário". (OTTO MARIA CARPEAUX, 1960, p. 262-266)

Manuel Bandeira, que desentranhou um terceto decassilábico da prosa de O Trapicheiro, salienta as virtudes líricas da obra que, pela forma de diário em que está escrita, "propiciou que a poesia aparecesse não mais apenas subentendida ou diluída na prosa de análise, como nos livros anteriores do escritor, mas sim formulada de maneira autônoma, ainda que em íntima ligação com o texto". (MANUEL BANDEIRA, 1975, p. 210-211)

Com Bandeira faz coro Cassiano Ricardo, acentuando "aquela extraordinária lucidez poética que caracteriza as anteriores criações de Marques Rebelo e que, ainda agora, me parece um recurso a mais em sua técnica de captação do real". Considera O Trapicheiro, "tanto pelo que ele é como pelo ciclo que anuncia, um autêntico marco na evolução do romance brasileiro". (CASSIANO RICARDO, 1975, p. 212)

Josué Montello chama a atenção para o "talento do miniaturista" e a adequação da forma do diário com aquela predisposição estilística (JOSUÉ MONTELLO, 1975, p. 212). Miniaturista capaz de compor as partes de sua obra com a mesma delicadeza de um Paul Klee, ainda que a estrutura geral de O espelho partido lembre a objetividade de um Bruegel -- diz o escritor Gastão de Holanda (GASTÃO DE HOLANDA, 1975, p. 184).
A crítica de O Trapicheiro é em geral apologética, venha de amigos ou até de alguns inimigos literários. Raquel de Queirós, do grupo dos romancistas do Nordeste (tão atacado por Rebelo), foi de grande isenção: "Panorama de uma época, retrato estilizado, terno ou cruel de uma sociedade e seus principais figurantes, O Trapicheiro representa realmente o que tínhamos o direito de esperar do grande escritor que é Marques Rebelo". (RAQUEL DE QUEIRÓS, 1963)

Do outro lado dos "socialistas" nordestinos, o carioca Tristão de Athayde -- que foi vítima do autor em O espelho partido, onde aparece pintado com "traços terrivelmente caricaturais"--, não hesita em chamá-lo de "grande mestre", "um dos maiores estilistas de nossa letra", sendo uma das "grandes honras" de sua vida ter sido personagem de O espelho partido, "obra maior desse escritor que reunia em si "duas personagens de Shakespeare, Caliban e Ariel. Portanto, ele era ao mesmo tempo um criador de personagens próprias e um animador de personagens alheias". (TRISTÃO DE ATHAYDE, 1975, p. 242-243)

Outro escritor que aparece sob forma pouco lisonjeira em O espelho partido é Lúcio Cardoso que, sem rancor, escrevendo sobre O Trapicheiro em 1960, afirma que as obras do autor são "marcos na história das minhas leituras, e alguns contos de Marques Rebelo, especialmente, têm o mais amplo e profundo significado para a minha sensibilidade de escritor"(10).

Claramente desfavoráveis são os críticos Assis Brasil e Renato Jobim, embora julgando a partir de posições diferentes. O primeiro, adepto das concepções vanguardistas dos anos cinqüenta -- entre elas, o nouveau roman e o concretismo --, condena a linguagem historicista de O Trapicheiro, que envereda pelo documento, pelo registro de fatos históricos que perturbariam a obra. Censura a mistura de ficção e realidade (um dos eixos básicos de O espelho partido), e se espanta diante da indefinição do gênero: "...acaba não sendo diário, nem memória, nem depoimento, nem ficção". Cita uma passagem do livro que não estaria bem escrita, ensinando depois a fazê-lo corretamente. (ASSIS BRASIL, 1982, p. 61-63)

Renato Jobim, também resenhando O Trapicheiro em 1960, é mais conservador. Negando qualidade de romance à obra, prefere vê-lo como esboço: tem "tratamento híbrido, confuso, diletante, superficial". Uma das falhas principais estaria no propósito de focalizar "a vida brasileira, nos seus aspectos políticos, sociais, econômicos, culturais", ficando na verdade longe de "refletir a multifária vida nacional". Condena com veemência o "diarista" pela sua preocupação com o cotidiano: "tudo insignificâncias que não permitem às idéias do diário atingirem um nível superior e condigno". Como arremate a um artigo predominantemente de malhação, termina por elogiar a inteligência do autor e o estilo, responsável por "páginas verdadeiramente insuperáveis". (RENATO JOBIM, 1960, p. 97-99)

O crítico que mais escreveu sobre O espelho partido, resenhando os três tomos quando de seu aparecimento, foi Wilson Martins, na sua coluna do "Suplemento literário" de O Estado de São Paulo. Lendo O Trapicheiro em 1960, alguns meses depois de lançado, já tocava nalguns fatores responsáveis pelo limbo crítico em que mergulharia a obra após a morte do autor. Livro de espírito cético, sem parti-pris ideológico, teria contra si toda uma corrente da opinião literária resistente diante "dessa história sem ilusões e não deixará de lamentar a indiferença do Sr. Marques Rebelo para com os deuses, quaisquer que eles sejam."

A vida literária, "rica de grotesco", "pródiga de ridículo", encontrava enfim o seu crítico perfeito, o pícaro indicado para registrar a aventura picaresca do carreirismo literário, num painel em que a história da vida intelectual do país em determinado período se misturava à história de um escritor, visto na sua dimensão humana, ao contrário do "ser descarnado que geralmente encontramos em livros dessa natureza".
Wilson Martins foi atento à estrutura da obra. Romance de chave, na linhagem proustiana e com influências de Manuel Antonio de Almeida, Machado de Assis e Jules Renard, jamais um título correspondeu tão bem a uma visão do mundo e a uma singularidade técnica (...) é realmente um espelho partido, reconstituído pelo leitor sem grandes concessões do romancista, livro confuso e complexo como a vida, pouco discursivo, nada didático, cheio de enigmas e de alusões obscuras, onde se penetra, como na vida, sem qualquer preparação prévia, sem o auxílio da cronologia e dos retratos, e cuja totalidade refaz-se pouco a pouco, recria-se inteiramente na proporção mesma das dificuldades, ainda que, segundo se pode presumir, ela só se venha a completar com o conhecimento do último volume.

A arquitetura narrativa de O Trapicheiro se compõe de uma "história de amor", cercada de outros "pedaços de espelho", refletindo os demais aspectos da vida de um escritor, "da banalidade cotidiana para a criação literária, das discussões de café para os acontecimentos internacionais", inaugurando-se na literatura brasileira "a ficção não municipal, vencendo os limites afinal restritos das existências dos personagens para incluí-las num circuito universal, para integrá-las nas suas dimensões próprias (ainda que inconscientes)".

O autor da História da inteligência brasileira toca num ponto fundamental: a concepção rebeliana da literatura e especificamente do romance, fundada "na vida do homem em sociedade e representada por um texto em que o estilo encarna o primeiro valor estético".

Esse o grande trunfo de O espelho partido: o estilo. Reaparece em O Trapicheiro o romancista urbano da primeira fase (dos contos e romances dos anos trinta) e, bem mais refinado, o "técnico da literatura", o "construtor de romances", "obra amadurecida de um escritor na plena posse de todo o seu talento (...) uma obra marcante (...) Da vida literária para a literatura, a biografia do Sr. Marques Rebelo terá sido uma história admirável de escritor. O espelho partido ficará como o seu documento privilegiado". (WILSON MARTINS, 1960, p. 3)

Sobre A mudança, segundo tomo do ciclo publicado em 1963, reafirma alguns pontos já levantados a propósito da obra anterior: trata-se de um "romance de intelectual", produto do amadurecimento da inteligência brasileira. Deslinda os três principais planos da estrutura narrativa: o romance da existência pessoal do narrador, o romance da vida literária, o romance de uma época. Destaca a forte presença da cidade do autor -- o Rio -- "num romance em que são, afinal de contas, quase inexistentes as notações urbanas." Insistindo nas "virtudes estilísticas" da obra, fala em renovação do romance brasileiro de trinta e quarenta, "inventando uma técnica de possibilidades praticamente infinitas e de grande força sugestiva". Arremata o crítico: com O espelho partido, entra decisiva e definitivamente o Sr. Marques Rebelo nos domínios raramente acessíveis da grandeza artística", acrescentando ao "romance brasileiro uma obra que não somente o reintegra nas grandes correntes universais, mas, ainda, sustenta, sem desvantagem, o cotejo inevitável com os títulos mais conhecidos da literatura romanesca". (WILSON MARTINS, 1963, p. 3)

A propósito do terceiro tomo de O espelho partido, A guerra está em nós (lançado em 1968), Wilson Martins afirma que com essa obra estaria Rebelo expandindo "de forma incontestável o território do romance brasileiro". Mas enquanto romance para romancistas ou críticos, correria o risco de se confinar na "prateleira nobre e pouco freqüentada" em que se situam essas obras. Desinteressante para o leitor tradicional do gênero, utiliza uma técnica que "sacrifica desde logo e de maneira irrecorrível um dos elementos fundamentais do romance que é a intriga (e a ação, seu anverso necessário)". Se a substituição da onisciência clássica pelo conhecimento fragmentário e incompleto afasta o leitor comum, atrai o degustador experiente para quem "o interesse aumenta e não se desfaz diante das dificuldades de leitura que resultam do processo". (WILSON MARTINS, 1969, p. 3)

Mário da Silva Brito, também escrevendo sobre A guerra está em nós, volta a insistir no escritor miniaturista que, paradoxalmente, tinha vocação para o mural, o largo painel. Lembra que antes de Rebelo já Oswald de Andrade tentara o romance fragmentário e cíclico, com ambições de painel social, falhando contudo. O escritor carioca retoma o gênero, dá-lhe a "consistência, organicidade e coerência interna" que falta a Marco Zero, estilhaçado em miríades de cenas por multidão de personagens, cenas e personagens que não se entrosam, raro se comunicam, quase sempre se perdem na urbe do romance, que perturbam como se fossem alumbrantes flashes a ferir a vista no seu incessante relampejar, a prejudicar a nítida visão do todo, a percepção global da narrativa.

Se Mario da Silva Brito invertesse tudo isto, estaria próximo de uma síntese perfeita da trama de O espelho partido. Muito mais que em Marco Zero, há ali "consistência, organicidade e coerência" (que faltam ao romance oswaldiano e se manifestam, sobretudo, em O Trapicheiro), ordenando os estilhaços do espelho quebrado. Os personagens e cenas se entrosam, apesar do aparente estilhaçamento espaço-temporal. Tudo, ou quase tudo, se comunica e se encontra na urbe romanesca. Alguns flagrantes, aparentemente descosidos, não perturbam a vista, antes se impõem dentro da grande estrutura.

Para o autor de História do modernismo brasileiro, as origens brasileiras do romance fragmentário O espelho partido estão no Memorial de Aires, de Machado de Assis, sem esquecer a dívida para com o Journal, de Jules Renard, com quem se aparenta. (MÁRIO DA SILVA BRITO, , 1970, p. 86-90)

Coesão de conjunto, independência das partes -- é assim que Haroldo Maranhão, nas "orelhas" da 1ª edição de A guerra está em nós (1968), enxerga os três volumes já publicados do ciclo. Dividindo a obra rebeliana em duas fases, antes e após O espelho partido, e depois de concordar com Mário da Silva Brito, Gastão de Holanda e Josué Montello a respeito do miniaturista e muralista que coexistiam no escritor carioca ("...elaborando o pontilhismo e disciplinadamente inserindo-o em larguíssimo painel"), Maranhão argumenta a favor da independência dos três tomos do incompleto roman-fleuve:
Ainda que porventura não viesse a concluí-la o seu autor, teriam as letras nacionais, ainda assim, três romances significativos, definitivos, que, eles somente, respondem pela presença e permanência de Marques Rebelo na literatura de língua portuguesa. (HAROLDO MARANHÃO, 1968)

Alguns meses depois da morte de Marques Rebelo, em 1973, Wilson Martins voltaria a se ocupar do escritor carioca, destacando a figura que sempre permanecera "à margem dos movimentos coletivos, das modas estéticas e dos grupos de combate". Embora reconhecido como escritor de primeiro plano, não teve a presença que muitos outros, "incomparavelmente menos dotados, conquistaram de um golpe e, ao que parece, sem maiores dificuldades". Manteve-se sempre independente esse "grande escritor de língua portuguesa" cujo esquecimento será fenômeno transitório: quando se apagar a figura do escritor irreverente, "sua obra será verdadeiramente lida e situada entre a dos escritores significativos do nosso tempo". Sobre O espelho partido, lamenta que nem mesmo sua "grande e intrigante empresa" tenha conseguido "galvanizar-lhe o prestígio e restituí-lo ao palco iluminado dos debates, discussões e interpretações eruditas ('de acordo com os Formalistas Russos!...')". (WILSON MARTINS, 1974, p. 3)
Seis anos depois, Wilson Martins mudaria de opinião. Num capítulo do vol. VII de sua História de inteligência brasileira, intitulado justamente "O espelho de mil faces", depois de frisar a "estrutura complexa e ambiciosa" do romance cíclico rebeliano, com seus "vários planos interseccionados", observa que O espelho partido, "pela técnica e pela temática, fazia promessas excitantes que, na verdade, tampouco se cumpriram". Via-o como triunfo imediato já contendo "o germe do malogro a longo prazo", com a interrupção da carreira do escritor pela doença e depois pela morte. O último livro do autor de A estrela sobre, "que devia coroar uma carreira extraordinária de ficcionista, resolveu-se, afinal de contas, numa daquelas memoráveis catástrofes de que falava Virgínia Woolf". Contrariamente aos artigos anteriores, condena o não desaparecimento gradativo das obscuridades e alusões enigmáticas da obra -- aliás, nem tão freqüentes --, e que antes via como fator de certo fascínio da obra. O aborto dos quatro volumes dificultaria a plena compreensão da parte já publicada:

"...o romance se recusou a ser escrito concorrendo com os problemas de saúde para impedir o autor de concluí-lo"; enfim, "no jogo de perde-ganha da ficção com realidade, esta última acabou sacrificando a primeira (...) frustrando com isso o grande romance que idealmente poderia ter sido". Mistura de ficção com realidade que, nos primeiros artigos, foi vista como virtude... (WILSON MARTINS, 1979, p. 407-408)

Mesmo mudando de opinião a respeito de O espelho partido, Wilson Martins continua favorável ao escritor: não é pouco dizer de Rebelo que teve uma "carreira extraordinária de ficcionista".

Sobre esse aspecto de O espelho partido -- seu caráter de obra inconclusa -- o escritor Antonio Bulhões, primeiro na "orelha" de O Trapicheiro e depois em nota à 2ª edição de A guerra está em nós, tem posição distinta de Wilson Martins. Na introdução de O Trapicheiro, diz que, embora cada volume pertença a um ciclo romanesco maior, "tem vida própria, e se por qualquer motivo superveniente o resto não for escrito, O Trapicheiro, em si, não sofrerá". (ANTONIO BULHÕES, 1959) Em nota escrita para a 2ª edição de A guerra está em nós, afirma que "a unidade global de O espelho partido não impedia, como se verifica à leitura de O Trapicheiro, A mudança e A guerra está em nós, que cada um desses tomos fosse por sua vez peça íntegra e acabada, legível e assimilável de per si". (ANTONIO BULHÕES, 1984, p. 573-575)

O próprio Rebelo parecia adivinhar e conformar-se com a possível inconclusão da obra, como aparece neste trecho de A guerra está em nós, em que revela o papel secundário que atribuía à literatura na sociedade contemporânea:

O espelho:
-- Tenho o pressentimento de que nunca acabarás a tua obra prima...
-- Consola-me o pressentimento de que o mundo não precisa mais de obras primas. (MARQUES REBELO, 1984, p. 42)

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ATHAYDE, Tristão de. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 242-243.
BANDEIRA, Manuel. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 210-211.
BRASIL, Assis. A técnica de ficção brasileira. Rio: Nórdica, 1982, p. 61-63.
BRITO, Mario da Silva. Diário intemporal. Rio, Civilização Brasileira, 1970, p. 86-90.
BULHÕES, Antonio. "O espelho recomposto". Em O Trapicheiro, 1ª. ed. São Paulo, Martins, 1989.
IDEM. "Nota de esclarecimento". Em A guerra está em nós. 2ª. ed. Rio, Nova Fronteira, 1984, p. 573-575.
CARDOSO, Lúcio. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, No. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 212.
CARPEAUX, Otto Maria. Livros na mesa. Rio, São José, 1960, p. 262-266.
HOLANDA, Gastão de. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, No. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 184.
HOUAISS, Antonio. Crítica avulsa. Salvador, Livraria Progressos, 1960, p. 96-100.
JOBIM, Renato. Crítica. Rio, Livraria São José, 1960, p. 97-99.
MARANHÃO, Haroldo. "O espelho partido em pequeninos". Em A guerra está em nós. 1ª. ed. São Paulo: Martins, 1968.
MARTINS, Wilson. "O romance do romancista". Em "Suplemento Literário" de O Estado de São Paulo, 12/3/1960, p. 3.
IDEM. "Uma década do romance". Em "Suplemento Literário" de O Estado de São Paulo, 18/5/1963, p. 3.
IDEM. "Aberturas à direita e à esquerda". Em "Suplemento Literário" de O Estado de São Paulo, 8/3/1969, p. 3.
IDEM. "Os independentes". Em Suplemento Literário de O Estado de São Paulo. 12/05/1974, p. 3.
IDEM. História da inteligência brasileira. Vol. VII. São Paulo: Cultrix, 1979, p. 407-408.
MONTELLO, Josué. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 212.
QUEIRÓS, Raquel de. Na contracapa da 1ª. ed. de O espelho partido. A mudança. São Paulo: Martins, 1963.
REBELO, Marques. O espelho partido. A guerra está em nós. Rio: Nova Fronteira, 1984, p. 42.
RICARDO, Cassiano. Em Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, nº. 1, Outubro-Dezembro, 1975, p. 212.

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-- Nadie más insoportable que el que no sospecha, de cuando en cuando, que pueda no tener razón.

Nicolás Gómez Dávila

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Por intermédio do blog do notável poeta e tradutor Érico Nogueira (link ao lado) conheci a poesia e a tradução de Marco Catalão, que já foi alvo destes Arquivos implacáveis. E me reencontrei com o poeta, crítico e tradutor Carlos Felipe Moisés. O primeiro contato com Carlos Felipe se deu em 1995, em Recife, através da antologia Sincretismo, poesia da Geração 60, organizado por Pedro Lyra. Todos esses encontros aconteceram virtualmente, isto é, do modo mais antigo, e para nós modernos desde Gutenberg, de encurtar distâncias.
Os dois poemas postados mais abaixo foram retirados dos dois volumes: Lição de casa & poemas anteriores e Noite nula, os dois pela Nankin Editorial www.nankin.com.br
Há ótimas entrevistas e resenhas sobre a obra de Carlos Felipe Moisés nos seguintes links:

www.verdestrigos.org/sitenovo/site/cronica 03/11/2008
www.affonsoromano.com.br 22/11/2008
http://diariodonordeste.globo.com 12/12/2008
www.weblivros.com.br 09/12/2008
http://sambaquis.blospot.com 12/01/2009
www.cidasepulveda.com 22/03/209
www.germinaliteratura.com.br/palavrascruzadas 03/2009

ARQUIVOS IMPLACÁVEIS
À maneira de João Condé

Nome - Carlos Felipe Moisés
Onde nasceu e a data - São Paulo, SP : 20/05/1942.
É casado, têm filhos? - Sim. Uma filha e um filho (este faleceu aos 18 anos).
Altura - 1m78
Peso - 80kg
Número dos sapatos - 41
Prato preferido, bebida e jogo - Feijoada, uísque, pôquer.
Gosta de cinema, teatro, qual prefere? - Muito. Mais cinema que teatro.
Poeta e prosador preferido - Fernando Pessoa, Machado de Assis.
Tipo de música e músico preferido - Não tenho preferência: MPB, jazz, música barroca; Cartola, Villa Lobos, Thelonius Monk, Vivaldi...
Qual o pintor preferido? - Mais de um: Van Gogh, Picasso, Matisse, surrealistas como Magritte e Delvaux.
Qual a cor predileta? - Não tenho uma só, depende do momento. Hoje é azul, escuro.
Quando escreveu seu primeiro texto? - Lá pelos 11-12, instigado pela professora, mas não guardei cópia, nem lembrança.
Dos seus livros publicados qual o preferido e por quê? - O último, Lição de casa, é o que vai mais direto ao ponto. Mas acho que vou gostar mais do próximo.
Se pudesse recomeçar a vida o que desejaria ser? - Fotógrafo.
Seu principal defeito - Sempre buscar uma explicação.
Sua principal virtude - Sempre buscar uma explicação.
Coleciona alguma coisa? - Comecei várias coleções (selos, moedas, figurinhas etc.), logo desfeitas, até me convencer de que o que vale a pena não é colecionável.
Algum hobby? - Fotografia.
Uma ou duas grandes emoções em sua vida? - Ganhar o título de bicampeão paulista de basquete (infanto-juvenil), em 1957-1958, como titular e cestinha de um time que tinha Victor, Otto, Plínio, Peninha, enfrentando adversários como Rosa Branca, Sucar, Mosquito, Ubiratan.
É crente ou ateu? - Nem um nem outro, só desconfio.
Três livros que mudaram sua vida ou, se não mudaram, tocaram fundo - Paulicéia desvairada, Memórias póstumas de Brás Cubas, Poemas de Alberto Caeiro. Se puder acrescentar um quarto: Claro enigma.
Se pudesse escolher, como gostaria de morrer? - Em silêncio.

POEMAS DE CARLOS FELIPE MOISÉS

CARREGO AS ESTAÇÕES


Carrego as estações comigo
e tenho as mãos cansadas.
(No bolso esquerdo um riacho murmura.)
Ali, onde pequenas pedras se acumulam,
uma canção exala seu vapor,
depois se perde.

Jardins de primavera circulam no meu corpo,
um céu de ouro verte seu perfume
e um vento ignorado agita suas asas.
Pasto de segredos,
mescla de memória e desejo,
meu corpo caminha com a chuva
(carrego as estações comigo),
à procura do sonho de uma nuvem fria.

Tantas folhas trago nos braços
que um pássaro, solidário, se oferece
para carregar as estações comigo.
Do peito aberto os meus jardins se vão
e o pássaro me ajuda (memória
e desejo) a semear meu corpo.

Ali planto meus braços,
debaixo daquelas árvores meus olhos ficam,
os pés, roídos pela terra, penduro numa árvore
e o tronco multiplico em cem pedaços
- lá vai, junto com as pedras,
no bojo do riacho antigo.

E pois que carrego as estações comigo,
os lábios deixo além, no descampado,
e peço ao pássaro que pelos cabelos atiro
o que sobrou de mim
àquele mar onde me espera a memória
(e o desejo) do tempo em que não soube
carregar as estações comigo.

MONK & MULLIGAN


Toda lição é de casa. Uma ensina a aprender
outra aprende a ensinar. Não sei para quando
será a viagem. Não sei se parti, se já estou
de regresso nem se a lição é de fato minha,
dos pombos que giram no telhado ou do silêncio
entre o sussurro de Monk & o sopro de Mulligan
no meio da sala: 'Round midnight.
Lá fora (
sol alto) lição interrompida. O sal da lição?
Não saber. Sabida, lição já não é.

Naquele
tempo eu viajava para longe, toda semana.
Um dia estranharam minha alegria ao partir.
"É tão bom assim?" "Não, é que aprendi
a antegozar o prazer da volta." Nada se iguala
ao alívio antecipado do dever cumprido. A casa
acumula todas as lições : ontem, hoje - o mesmo
tempo a escoar entre o já-não-mais e o ainda-
não - centro de tudo o que sou ou tenho. Mas não
tenho : a casa o contém. E não há lição que o
detenha.

O que tenho é um retrato na parede
: um menino me fita apaziguado, seu olhar
se dissolve na brisa. Escancaro as janelas
e o calor da tarde me lembra : outono se foi,
inverno se foi, primavera aí vem (o rendilhado
de Monk prossegue & o sopro agudo de Mulligan).
Outra primavera : midday midnight. O menino
salta do retrato, se aninha no sofá e me lembra
a sorrir : é hora de volta à lição interrompida.

Sorrio que sim, à sombra do jasmineiro
em flor.

É tarde. Não sei a lição (há pouco
estava no jardim). Como enfrentar classe
tão avançada? A sombra se adensa, é noitinha.
O olhar do menino me fita, não sei se do retrato
ou do canto do sofá onde se aninha,
não sei
se do olho iluminado da noite, e sorri. Sorrio
que sim. É a hora. (Monk & Mulligan insistem
agora sim : 'Round midnight. Lição de casa.)

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DAS ELEGIAS: LÍQUIDA


A curva não é só carícia,
e sua graça muitas vezes
é aguda.
Se excessiva corrompe:
constante doçura na língua.

A forma é a intensa feminina,
começa no que delineado é coisa
e além do corpo é forma que não
se finda, pois
se colo que acolhe
também pode sufocar
se não calma e
ainda.

Alguns modos de perceber a feminina:
cúpula,
árvore,
vale,
anca,
água,
vento
na campina.

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O texto abaixo com os respectivos poemas foram retirados do site http://www.culturapara.art.br/opoema/

Sebastião Alba, nasceu em Braga, Portugal em 1940. Após viajar para Moçambique, passou a conviver com um importante grupo de escritores e intelectuais. Foi jornalista, teve uma vida bastante agitada e cheia de desilusões, com passagens por prisões e hospitais psiquiátricos. Alba passa com o tempo a viver como andarilho, acabando por morar na rua e morrendo atropelado por um motorista em Braga sua terra natal.


NINGUÉM MEU AMOR

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos.


A UM FILHO MORTO

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.

Sebastião Alba


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Depois de muita luta e sofrimento, consegui fazer a cirurgia de hérnia discal. Durante todo o processo, minha mulher Állex Leilla (linka ao lado) postou em seu blog uma carta que ela escreveu e enviou para pessoas amigas para poderem repassá-la, imprensa e afins. A amiga Kátia Borges, poeta e jornalista do A tarde, de Salvador, escreveu um comentário (reproduzido abaixo) relatando o que aconteceu com a família dela com o mesmo plano de saúde de que fomos vítima. O segundo comentário, também reproduzido abaixo, é de um médico, que se denomina Dr. Roberto Sampaio, que se achou no direito de censurar os e-mails enviados por Állex. A resposta de Állex é a terceira reprodução abaixo, com a qual concordo plenamente.

Kátia Borges disse...
Oi, Állex, passei um sufoco inacreditável com o UNIMED Salvador em 2002. Meu pai tinha esse plano e quando ele estava mal e precisava de internação urgente, na noite em que morreu, todos os hospitais (todos) recusaram o plano. Ficamos desamparados, rodando pela cidade com uma pessoa gravemente enferma no carro,a pior noite da minha vida. Ele acabou morrendo naquela madrugada. Enfim, lutem e façam valer os seus direitos. Não importam os nomes. UNIMED é uma empresa que não respeita os usuários.

1:12 AM

Unimed Salvador disse...
Prezada Srª Álex Leilla,

Em primeiro lugar, na condição de médicos e, portanto, de profissionais voltados para a promoção da saúde das pessoas, desejamos ao senhor João Batista Fernandes Filho um pronto restabelecimento de sua cirurgia de hérnia de disco e uma melhora efetiva em sua situação de saúde.

Sobre o processo de autorização do referido procedimento cirúrgico, faz-se necessário esclarecer que a Unimed Salvador cumpriu com corretude e interesse a sua função de buscar a autorização junto à operadora de planos de saúde do paciente, a Cooperativa Unimed Leste Fluminense. Da mesma forma, nossa área especializada fez gestões no sentido de se superar os trâmites técnicos para o uso de material cirúrgico de alta complexidade, o que resultou na realização da cirurgia no último dia 24 de setembro de 2009.

Diante disso, demonstramos nossa surpresa e descontentamento com a disseminação de seu e-mail, o qual não só difama de forma explícita e inverídica a nossa Cooperativa de Médicos, como também agride através de termos ofensivos todo o Sistema Unimed, a maior rede de Saúde Suplementar do Brasil, formado e respaldado no trabalho sério e reconhecido de 370 Cooperativas de Saúde e de quase 100 mil médicos, presentes em 93% do território nacional, honrados em cuidar da saúde, qualidade de vida e bem estar de cerca de 14 milhões de brasileiros conveniados conosco.

Ainda que tudo se contextualize em um momento de justificada apreensão de quem aguarda a solução de um problema de saúde, rechaçamos veementemente toda e qualquer atitude caluniosa e difamatória dessa natureza. Em nome dos milhares de profissionais de saúde que, diariamente, se dedicam dignamente à oferta de saúde suplementar em nossa cidade e país, manifestamos aqui nesse espaço o nosso repúdio às suas mensagens eletrônicas, sem prejuízo de que possa vir a ser tomada medida judicial cabível.

Atenciosamente,

Dr. Roberto Sampaio
Vice-presidente da Unimed Salvador

5:34 PM


Állex Leilla disse...
É muita cara de pau mesmo, invadir meu espaço, meu blog, para vir depois de tanto sofrimento e problemas que causou a mim e a meu marido querer me calar com esse mensagem ridícula e acima de tudo covarde, porque sem endereço para resposta. Quais foram os esforços que a UNIMED de Salvador fez? Nunca saber do que se tratava quando ligávamos? Dizer que o prazo era de 15 dias úteis para resposta à solicitação de cirurgia e após 15 dias não ter nenhuma posição? Mandar que nos dirigíssemos à nossa UNIMED de origem? Entrar com pedido na justiça de desvinculamento da liminar por "entender que a UNIMED de Salvador é independente da UNIMED LESTE FLUMINENSE"? Quais foram, sr dr. Roberto Sampaio, os esforços que o senhor alega ter feito? Meu marido foi de fato operado, mas não porque a Unimed Salvador fez qualquer esforço pra isso, mas porque depois da liminar não cumprida, não obedecida, fomos à imprensa e usamos de todas as formas para pressionar a porcaria de plano de saúde que você se acha no direito de vir, aqui, defender. E fez a cirurgia dia 26/09, não em 24/09, pois até nisso houve uma competência enorme: a cirurgia foi agendada para 24/09, ele foi internado dia 23/09, mas descobriu, depois de tomar remédio, ficar 12 horas em jejum, que houve um "erro" e a cirurgia só seria feita dia 26/09. Erro do Hospital? Erro da Unimed daqui? Erro da Unimed Leste Fluminense? Ninguém sabe. No refeitório do hospital UNIMED, única opção para os acompanhantes de pacientes fazer suas refeições, a salada tinha um "elemento vivo e branco", comumente conhecido como verme, passeando. Comunicado à sr. nutricionista responsável, ela apenas se limitou a dizer que "infelizmente, aquele passou no controle de qualidade". De junho, quando começamos a lutar pela cirurgia, até setembro, quando ela foi feita, o que mais nos chega é depoimentos, como o da jornalista Kátia Borges acima, relatando o descaso, a falta de decência e de respeito desse plano, qualquer um deles, para com seus associados (clientes, melhor dizendo). E me vem o sr., um médico, com essa lenga-lenga? Falo e escrevo o quanto eu quiser e mando emails para quem eu quiser contando o que aconteceu. E não ouse a me ameaçar "enviesadamente", dr. Roberto Sampaio, porque eu não tenho medo nem respeito pelo seu cargo de presidente de uma empresa absolutamente digna de desprezo e que merece ter uma intervenção, se possível da polícia.



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