capítulo um

Gil detestava o cheiro do mar e queria logo sair daquela cidade. Terminou de limpar o quarto do hotel e de conferir se não havia esquecido qualquer fio de cabelo na pia ou uma marca de dedo no vidro da janela, e pensava que a polícia poderia se esforçar um pouco mais, se quisesse. Na verdade ele se considerava importante o suficiente para merecer uma atenção maior. E até onde sabia eles nunca se davam ao trabalho de procurar fios de cabelo no encanamento, ainda mais quando sequer saberiam em que hotel procurar. Olhou as horas no relógio de pulso. Tinha talvez pouco mais de quarenta minutos. Ia ficar para ver os fogos?

A televisão estava ligada. Era o começo de alguma novela e uma mulher estava gritando nas cenas do capítulo anterior.

Sentia vontade de vomitar. O ar assim tão úmido e salgado e aquela brisa morna que entrava pela janela. Ele era um tipo alto, os cabelos castanhos mal-cortados e uma franja quase adolescente que fazia conflito com os traços do rosto adulto. Usava aquela franja para esconder uma cicatriz que começava acima da sobrancelha direita e riscava sua testa. Parava alguns centímetros depois da linha onde começavam os fios de cabelo, deixando uma falha no couro cabeludo, que a franja também ajudava a disfarçar. Gil não gostava daquela franja. Gostava menos ainda da possibilidade de ser reconhecido só porque tinha uma cicatriz enorme e estúpida.

Pegou a pistola sobre a cômoda e puxou o ferrolho, deixando que a bala da agulha caísse na cama. Havia uma mesa estreita logo sob a janela e Gil quis colocar a bala sobre essa mesa, deitada e com a ponta mirando em direção ao mar. Ela rolou para o lado ganhando velocidade e Gil a segurou antes que caísse no chão.

- Merda de cidade- murmurou.

Olhou outra vez no relógio e para a televisão. A mulher havia parado de gritar mas ainda era a novela e alguma praia no Rio de Janeiro. Santos parecia silenciosa ali daquela janela de sexto andar, o sol fazendo sombras compridas nas ruas com o fim do dia. Gil tirou o pente de sua Glock para devolver a bala à pistola. Ele nem poderia enxergar o porto de onde estava. E mesmo se a vista fosse ainda um pouco mais conveniente também não enxergaria nada com aqueles dois graus de miopia e a falta dos óculos. Antes havia subido no Monte Serrat como qualquer bom turista, e era toda a zona portuária um borrão cinzento. Nunca se lembrava de colocar os óculos quando acordava ou quando viajava. Às vezes Diogo dizia que "vá de óculos" para qualquer acontecimento, e aí, então. Estava já espiando as horas e nem cinco minutos. Precisava de qualquer coisa para passar o tempo e o quarto já estava muito bem organizado para que fosse embora. Era preciso esperar?

Afastou-se da janela e desligou a televisão. Pegou sua mochila ao pé da cama e saiu do quarto, descendo as escadas para o saguão do hotel.

O recepcionista tentou um sorriso.

- Setenta e quatro reais.

Da porta do hotel em sentido contrário ao da praia. Andou os quase cinco quilômetros até a rodoviária com os passos sempre apressados. E parou na avenida quando a linha reta deixava ver um pedaço da zona portuária, olhando pela última vez no relógio; o ponteiro das horas chegava ao topo. Sete horas. Era. E havia um sorriso em seu rosto, quase imperceptível. Quase uma careta de escárnio.

Mal ouviu coisa alguma. Na distância, uns gritos, uma gente correndo. Ele não seria capaz de enxergar nada. O vendedor no guichê da companhia de ônibus quis saber o que estava acontecendo e Gil deu de ombros. Comprou sua passagem e foi para a plataforma. Em menos de duas horas estaria em São Paulo. Na verdade ele queria rir. Sentou-se em um banco e tomou um comprimido anti-enjôo para o corpo encarar as curvas da serra. Quando o ônibus chegou, vinha um homem gordo correndo para falar com um funcionário da rodoviária.

- Explodiu um cargueiro saindo do porto.

Falou, e tinha os olhos muito arregalados e as bochechas vermelhas. O funcionário franziu a testa e fez qualquer pergunta retórica, mas o que, como, o que você disse. Ele tinha ouvido muito bem da primeira vez.

- Explodiu, inteiro?

O gordo não sabia dizer e Gil estava mostrando a passagem para o motorista e entrando no ônibus. Ouvia o burburinho da multidão, porque explodiu um cargueiro saindo do porto e ninguém sabia muito bem coisa nenhuma. Era mesmo um pouco engraçado.

- Mas tinha gente dentro?

Gil se sentou e fechou os olhos. Quando o ônibus saiu da plataforma, ouviu gente comentar e olhou na direção do porto. O céu estava cinzento e as pessoas na rua paravam o que estavam fazendo para olhar também. Era a fumaça da explosão. Devia ser a fumaça. Gil quis esconder um sorriso e encolheu-se em sua poltrona. O ônibus ia quase vazio; era uma quarta-feira em meio de outubro. Gil estava pensando em um modelo de tanque militar que estivera montando na última semana, e procurando uma solução para uma peça quebrada. O celular tocou silencioso. A bateria vibrou no bolso da jaqueta.

- Pronto.
- Gil?

Calou-se. O ônibus estava mais próximo da zona portuária, e ele pensou ver o navio que havia explodido. Era fogo?

Diogo era mesmo um tipo muito excêntrico.

- Gil, é Fabiano Ferraz. Onde você está?
- Isso não te interessa.
- Acabei de receber a notícia que o cargueiro que ia levar a minha soja para Portugal teve um... acidente.
- Eu não tenho tempo pra isso.

Devia desligar.

- Claro que não tem.
- Negócio seu com o Diogo não me diz respeito.

Afastou o telefone do rosto. Ia desligar. Mas ouviu Fabiano falar, e voltou a prestar atenção.

- Preciso de um serviço seu.

Silêncio. No ônibus, ainda, as pessoas comentavam a explosão, apontavam a fumaça. Gil estava ficando irritado porque nunca gostou daquele caipira. Fabiano Ferraz. Um tipo com um bigode, fazendeiro e advogado. Ele e Diogo tinham qualquer tipo de acordo. Diogo exportava droga com a soja de Fabiano. Era mesmo um acordo de cavalheiros. Fabiano sempre dizia que aquele acordo ia acabar com a sua reputação. E era com o dinheiro sujo que mandava sua filha mais velha para a faculdade de direito.

E o desgraçado pagava bem. E desde quando trabalho para você, pensou em dizer. Para quê? Negócio dele com Diogo não lhe dizia respeito. E Fabiano pagava.

- O Peterson vai te buscar amanhã.- Hesitou, como se de repente desistisse de falar qualquer coisa.- Eu ligo.

Fabiano desligou e Gil guardou o celular no bolso da jaqueta. Não reparou que a voz de Fabiano estava trêmula, e já os passageiros do ônibus não pareciam mais tão interessados com a fumaça de uma explosão distante. Ora, que o navio parecia ainda inteiro, não fosse aquele fogo e aquele barulho e toda a gente gritando. Gil deveria se preocupar? Fabiano ia pedir que matasse algum caboclo que escutou o que não devia, um que antes de levar o tiro ia enumerar e listar toda a família, ex-mulheres, filhos e afilhados e primos.

E ainda, se Gil soubesse que não, que na verdade não era nada daquilo? Se soubesse que um telefonema estúpido e a voz trêmula fossem o início - de quê? Fabiano de convicções tão frágeis, e Gil sentia-se sempre muito seguro quando olhava seus dedos das mãos e as impressões digitais apagadas e deformadas, porque queimava-as na chapa quente. O que só aumentava as certezas que a polícia tinha de seus crimes, e dificultava qualquer prova que um dos habilidosos advogados de Diogo não fosse capaz de passar por cima.

Mas não estava preocupado. Estava outra vez pensando na peça quebrada do modelo de tanque militar que estivera montando.

capítulo dois

Diogo Torres tinha certa paranóia com grampos telefônicos. Trocava o número do celular a cada dois meses. E era paranóia justificada. Metade da polícia federal teria o maior prazer em derrubá-lo, por razões muito diversas. Talvez porque súbito resolvia explodir um container de soja em um navio cargueiro, e ninguém nunca ficava sabendo seus motivos. Gil não sabia. Mas Diogo contava com a fidelidade e boa vontade de um sujeito chamado Carlos Siqueira, um empregado do fórum. Os registros dos grampos da polícia federal passavam por suas mãos e ele, muito bem pago, repassava a informação. De qualquer maneira, não era conveniente confiar na honestidade da polícia. Os grampos ilegais aconteciam, embora ninguém falasse muito sobre eles.

Quando Gil chegou em casa já havia recebido três ligações de Diogo. De telefones diferentes. As duas primeiras ligações foram cortadas pelo péssimo sinal da serra. Na última, Gil estava entrando no metrô.

Gil tirou a arma da cintura e a colocou sobre uma cadeira da sala. Ligou a televisão e havia a imagem aérea de um navio em chamas.

Riu porque se sentia uma celebridade quando falavam de seus feitos, e porque o apresentador sempre parecia perplexo e consternado. E mais porque o repórter salientou que a polícia não tinha suspeitos e na verdade quase desconsiderava a possibilidade de ter sido qualquer outra coisa além de um desagradável acidente. E Gil gostou da expressão. Um desagradável acidente. Tirou o som do aparelho e ainda alguns minutos continuou acompanhando as imagens.

Morava em uma casa térrea em rua estreita e íngreme próxima à avenida Pompéia e à avenida Heitor Penteado, na zona oeste de São Paulo. Era um canto onde as ruas faziam curvas inesperadas e quem não conhecesse o lugar certo se perdia. Era-lhe mais conveniente, por vizinhança insuspeita. O bairro todo residencial. E ninguém nunca quis descobrir seu nome. Mas era a quinta casa em dois anos, e a pior parte de mudar era o transporte de seus modelos de miniatura que já estavam montados e pintados, e despedaçavam-se com qualquer movimento mais brusco.

O celular ainda estava no bolso da jaqueta quando Diogo ligou pela quarta vez.

- E agora?
- Estou em casa.

Gil falava com uma voz monótona e estava tão desinteressado quanto poderia parecer. Não tinha paciência para Diogo ao telefone. Não tinha paciência para Diogo. Ou para qualquer outra pessoa.

- Ótimo. Preciso de você amanhã.

Diogo parecia agitado. Cuspiu a frase como se insultasse alguém, e a resposta veio com indiferença:

- Não posso.
- Não perguntei se pode. Vou te esperar amanhã.

Gil desligou a televisão. Andou até os fundos da casa, atravessando o quintal estreito e entrando em um quarto pequeno, nos fundos, onde montava seus modelos. Diogo estava calado esperando uma resposta que não teria.

- Escuta aqui- continuou, e quando começava as frases naquele tom de voz era porque tinha certeza que ninguém jamais duvidaria de sua importância e influência, e de sua capacidade de destruir a vida de qualquer um.

Mas calou-se em seguida. Sua respiração pesada e audível.

- Daqui uma semana vai ser a saída para aquele espanhol e amanhã o comandante vai mandar aquele baixinho para conversar. Você sabe como as coisas funcionam, eu preciso de você comigo.
- Não posso.
- Não me importa, porra, você sabe que não faço isso sem você.

Gil havia acendido a luz e sobre uma mesa de madeira estava a miniatura do tanque de guerra ainda faltando algumas peças. A peça quebrada estava cheia de cola e presa no ar por duas pinças que deveriam manter todas as partes juntas enquanto Gil estivesse em Santos. Nada: o vento ou o que fosse havia afastado as duas pinças mais que o devido, e a peça continuava quebrada. E cheia de cola.

- Merda- Gil murmurou.
- O que é?
- Essas porcarias de modelo que eu compro. Se quebram por qualquer coisa.
- Do que você está falando?
- E essa cola não presta.

Disso talvez uma alteração na voz; que falasse de uma paixão. Uma, que fosse. Não se deu conta. Estava com raiva da cola incompetente e considerando atirar aquele tanque no chão. Pegou a cola sobre a mesa. Debruçou-se na janela pequena e atirou a cola na direção da casa vizinha. Um cachorro latiu.

- Se eu não te ver aqui amanhã, a coisa vai ficar feia.
- Feia para quem? Você tem seus homens aí, que pode acontecer? Sempre fico sentado olhando pro relógio e nada acontece.
- Porra!
- Que horas?
- Cedo.
- Não vai me ver amanhã.

Diogo soltou um palavrão e algumas ameaças. Mas Gil não estava preocupado.

- Você não vem, vou te buscar.
- Vai perder a viagem.

Diogo desligou antes que Gil pudesse terminar a frase. Gil guardou o telefone no bolso e sentou-se de frente ao modelo. Segurou uma das pinças. A cola havia corroído as áreas onde as partes deveriam se unir, e tudo parecia um tanto sem solução. Levantou-se e saiu.

Mais próximo à avenida Pompéia havia um boteco em uma esquina. Àquela hora estava cheio. Homens que saíam do trabalho e não tinham o ânimo para voltar para casa, todos uns tipos sujos que falavam palavrões aos montes. Os tipos que Gil detestava matar, porque faziam pedidos absurdos e pareciam de repente de lembrar de todos os filhos que haviam deixado pelo mundo, e sempre eram muito mais filhos do que o salário deles poderia sustentar. E Gil imaginava que deviam viver fugindo da polícia por falta de pagamento de pensão alimentícia. Um tipo pouco inteligente que sequer valia a tortura psicológica, o que tornava tudo um aborrecimento. Não valia a pena sequer que tivessem vivido, quanto mais que morressem.

Mas por um momento teve aquela breve sensação dos paranóicos de que estava sendo seguido. A rua, naquele ponto, ainda era quase toda residencial e tudo que ouvia era o rumor da avenida e alguns homens gritando dentro do bar. Mas não era exatamente os sons que o incomodavam. Era o silêncio. Ou um ruído medido que não deveria existir. Parou na esquina e voltou as costas ao bar. Do outro lado da rua passou uma moça com mochila nas costas, outro rapaz carregando uma caixa. Gil ajeitou a arma na cintura e entrou.

Passou por alguns e encostou-se ao fundo do balcão do bar, junto a uma máquina velha de suco de laranja que o ocultava dos passantes na rua.

- Fala campeão- veio o atendente.

Era um menino que se tanto tinha dezoito anos. Cumprimentava a todos da mesma forma, e com o mesmo tom de voz entediado. Que ali fosse o último lugar onde gostaria de estar. Conhecia Gil, ainda que não pelo nome. E por isso bastasse o aceno de cabeça para que o rapaz lhe trouxesse uma dose de pinga e metade de um limão, que Gil espremia na bebida como se fosse o mais comum dos hábitos. Ele não bebia cerveja porque lhe parecia demorar demais para qualquer efeito no organismo. E estava cansado da viagem.

- Rapaz, isso não pode ser saudável- o atendente falou, tirando o limão espremido do balcão e atirando no lixo.
- Pinga não tem gosto de nada.

Então por que você bebe, o menino estava se perguntando. Olhou na direção da rua e fez uma careta, como quem não entende muito bem o que está vendo. Na verdade ele fazia essa mesma careta a todo momento que entrava alguém no bar, porque se lembrava que estava trabalhando e tinha que atender a pedidos de bêbados exigentes que tomavam pinga pura com limão. Gil virou-se na direção da entrada, mas a máquina de suco bloqueava sua visão. Sentiu um arrepio na base da nuca, como um aviso de que deveria estar atento. A Glock pesava na cintura. Tomou um gole da bebida e acompanhou o movimento do atendente do bar em direção à parte da frente do balcão, e o aceno de cabeça seguido pelo seu fala campeão.

- Vê um guaraná sem gelo, por favor.

A voz era grave mas tinha algo de suave, e Gil imaginou que o homem sorria quando falava. Ele conhecia aquela voz. Mas estava nervoso? Olhou o menino do bar e o menino encarou de volta, como se perguntando se Gil queria outra dose. Depois abaixou-se para pegar o guaraná, colocando-o sobre o balcão.

- É o menos gelado que tem.
- Serve.

Gil encarou seu copo. Percebeu quando o homem saiu da parte da frente do balcão e aproximou-se com o refrigerante na mão. Sentou-se no banco ao lado e ergueu a lata em um brinde. Gil ergueu seu copo, sem virar o rosto. Olhava em frente, e percebeu quando o atendente notou a aproximação, e pareceu se preocupar que uma briga estivesse prestes a começar. O que era bastante ilógico, Gil pensou. Sujeito entra no bar, pede um guaraná e vai arrumar briga? Então ele riu, e bebeu o resto da pinga. O homem ajeitou-se no banco e tomou um gole do refrigerante.

- Sabe que nunca achei muito difícil te encontrar, Gil.
- Não costumo me esconder da polícia.
- Claro que não. Estava com saudades?

capítulo três

Geraldo Lemes era agente federal, e por qualquer dessas inconveniências do destino havia crescido na mesma rua que Gil, e foi amigo de seus irmãos mais velhos. Laura, a mãe de Gil, havia sido sua professora em uma escola municipal da região. Mas não por feito do destino trabalhava com a equipe que tentava derrubar o esquema de Diogo. Um delegado ficou sabendo da relação que Geraldo tinha com aquele que alguns chamavam o "braço direito" de Diogo. Achou útil usá-la.

Até então, de nada havia adiantado. Gil escapava-lhe. Para todos os efeitos era segurança particular de Diogo Torres. Tinha carteira assinada e porte legal de arma. Em casa guardava o crachá da empresa. Gil Tradski - MT Transportes; uma foto em que ele estava muito sério, usava óculos e vestia terno. Achava engraçado.

Geraldo sentia-se talvez um tanto culpado - muito mais culpado que os irmãos de Gil - por aquele caminho tomado pelo caçula de Laura. Uma culpa inconsciente transformada em obsessão para derrubar Diogo.

E Gil gostava dele. Tratava-o pelo apelido de infância e até tentava ser educado. Por isso continuava calado, que não pudesse pensar em algo para dizer que não um comentário cínico. Acenou ao atendente. Depois virou o copo, apoiando o braço todo no balcão e virando-se para encarar o conhecido. O homem tinha um sorriso medido e atento no rosto; um sorrido preparado para se desfazer a qualquer momento.

Ele era mais baixo que Gil. Os cabelos eram grisalhos e repartidos no lado, e parecia um apresentador de televisão. Gil sempre achou que ele tinha a aparência e a voz de um apresentador de telejornal. E parecia deslocado naquele bar sujo tomando seu guaraná sem gelo.

- Sabe por que eu vim?

Gil deu de ombros. O atendente lhe trouxe outra dose de pinga e a metade de um limão.

- Veio me prender?
- Não. Cansei desse processo estúpido de te prender só para ver aquele advogado do Diogo te botar de volta na rua. Estou começando a ficar mal falado.
- Que pena.

Espremeu o limão no copo e tomou um gole.

- O navio que explodiu em Santos hoje- Geraldo continuou.
- Explodiu?
- Não tinha droga no container que explodiu.
- E deveria ter? Vocês da polícia são tão pessimistas, procurando, como é que dizem? Pêlo em ovo?
- Gil.
- Nem sabia que tinha explodido navio, quanto mais que deveria ter droga no container que explodiu. Mas me diz, explodiu o navio todo ou só um container?

Sorriu. Geraldo quis retrucar o sorriso mas sentiu a paciência lhe escapando. Respirou fundo e tomou um gole do refrigerante. Gil continuou sorrindo e encarando. Os dedos descansavam em volta do copo.

- Por que o Diogo fez isso, Gil?
- Que o Diogo tem a ver com explosão de navio, Dinho?
- A soja do container. Foi o Diogo que fez o transporte até Santos.
- E daí?
- Eu só quero saber por quê.

E em seu rosto o cansaço. Não queria o jogo.

Mas Gil não sabia o porquê.

Geraldo apoiou os cotovelos no balcão e esfregou os olhos.

- Você veio por isso, Dinho?

Geraldo afirmou.

- Você achava que eu teria qualquer resposta para essa pergunta?

Não veio a resposta. Geraldo acreditava? Era esperança tão estúpida. Ele ainda se lembrava de quando Gil era pequeno, e lembrava-se de Gil ao sete anos quando Laura morreu, e no ano seguinte quando o pai se matou. Ele se lembrava que sua família quis tomar o menino sob sua tutela. A guarda ficou com uns tios distantes, e os dois irmãos mais velhos foram morar juntos em um apartamento alugado. Geraldo ainda se lembrava, e era esse o menino que procurava. E Gil, ainda que aborrecido, estava sorrindo. Aquele sorriso que era estampa mal-colocada, como jamais devesse estar ali em rosto tão sombrio. A franja cobria-lhe parte dos olhos.

- Ainda monta aqueles aviões?
- Não monto mais aviões.
- Por quê?
- O trem de pouso se quebra muito fácil, depois de montado. É desagradável.

Gil olhou na direção na rua, por pressentir qualquer movimento estranho. Quando seu celular vibrou no bolso, teve um sobressalto. Geraldo o espiou, fingindo um desinteresse.

- Pronto.
- Gil, mudança de planos.

Era Fabiano. A insegurança na voz havia sido substituída por uma urgência de suas palavras.

- Olha, acho que amanhã vou estar ocupado.

Na verdade pouco lhe importava se obedeceria Diogo ou Fabiano. Mas era uma chance de conseguir um pagamento maior.

- O Peterson vai estar na sua porta em menos de dez minutos. Ele te explica o que você precisa saber, no caminho.
- E por que ele mesmo não faz o que você quer?
- Incompetência.

E desligou. Gil olhou o agente federal ao seu lado.

- Trabalho?
- O Diogo não vive sem mim.
- Ouvi dizer.

Gil tirou uma nota de vinte reais da carteira e colocou sobre o balcão. Geraldo levantou-se. Gil pensou que deveria falar qualquer coisa, mas algo o incomodava. A presença do agente ali, àquela hora. A ligação inesperada de Fabiano e a impaciência. Se não fosse serviço que Peterson pudesse fazer. Pensou em dizer que ia embora porque precisava acordar cedo no dia seguinte. Soaria como desculpa, e ele não achava que devia se explicar para a polícia. Saiu sem se despedir e sem olhar para trás, acelerando o passo e mantendo os ouvidos atentos.

Havia um carro estacionado em frente à sua casa, na ladeira. Era um carro pequeno e de cor escura, e sem os óculos Gil não saberia dizer a marca ou o modelo. Mas estava estacionado em frente à sua casa, e embora os faróis estivessem apagados, era possível distinguir alguém sentado no banco do motorista. Parou de andar e olhou na direção da entrada da rua.

Era tudo um silêncio, e o murmúrio da cidade. Tirou a Glock da cintura e avançou ladeira abaixo, aproximando-se do carro. Conseguia ler a primeira letra da placa do carro. Era um A. Placa de Curitiba; daqueles carros licenciados fora da cidade porque o imposto, e o que fosse. Gil não tinha carro e não se importava. Quando chegou mais perto, pensou ver Peterson no reflexo do espelho retrovisor. A porta do passageiro foi aberta.

- Entra.

Era Peterson. Se ainda as feições estivessem pouco nítidas, a voz era a dele. A vista ruim forçava Gil a reconhecer qualquer um pela voz. Era habilidade desenvolvida, de quando criança escondia os óculos dentro da geladeira. Abaixou a arma e aproximou-se do carro.

- Não é meio tarde para puxar o saco do chefe?
- Entra, Gil.

Conferiu as horas no relógio. Passavam das dez e meia. Entrou e fechou a porta. Pelo espelho retrovisor, ainda a rua vazia. Geraldo talvez tivesse ido embora. E que Geraldo ganharia se o seguisse?

- Alguém te seguiu?

Gil fez um gesto para que saíssem e Peterson obedeceu.

- Qual é a urgência?
- O Guto Monteiro.
- O advogado?

Peterson afirmou com a cabeça. Guto Monteiro. Era advogado de Diogo e colega de Fabiano. Trabalhava com os dois; arrumava a lavagem do dinheiro e cuidava das empresas fantasmas. Era o que Gil sabia. Um sujeito metido a esperto, que chegava aos quarenta pensando que voltava aos vinte.

O carro fazia curvas para sair do emaranhado de ruas que era aquela região do bairro. Saíram na parte alta do final da Heitor Penteado e Peterson seguiu rumo à avenida Cerro Corá. Ainda havia um resto de trânsito. Gil espiou o relógio outra vez.

Augusto Monteiro.

Gil lembrou-se de Geraldo. Aquela conversa despropositada.

- Que tem o advogado?
- Ameaçou acordo com a polícia. Parece que conseguiram qualquer coisa contra ele e capaz dele se livrar entregando o Fabiano e o Diogo. Capaz de entregar mais gente. Ele tem rabo preso por todos os lados. A polícia tem um bom negócio nas mãos.
- Diogo sabe disso?
- Ainda não. O Guto arranjou uma viagem para essa noite e você precisa agir antes que ele vá embora.
- Para onde ele vai?

Peterson deu de ombros.

- Onde ele está?
- Na casa dele. O avião sai em duas horas, logo ele chama um táxi.
- Se já não chamou.
- Tem um rapaz vigiando.
- Então por que eu?

Não era segredo que Peterson detestava Gil. Porque ele fazia os trabalhos mais bem pagos e porque Peterson ainda devia lhe servir de motorista. E não seria detestável? Peterson continuou com os olhos na pista, mas pareceu sorrir. Um brilho quase sinistro tomou seus olhos. Talvez fossem as luzes dos prédios que cercavam a Cerro Corá pelo lado esquerdo, ou um reflexo do bairro da Lapa que se via no lado direito, ali do topo da avenida. Ele grunhiu alguma palavra e acertou um tapa no volante.

- Isso não é problema meu- disse, por fim.

Gil ajeitou-se no banco. Deixava a arma sob a perna. Olhou aos seus pés uma bagunça de jornais velhos e latas de cerveja. No guarda-objetos da porta, mais lixo. Alguns recibos de cartão de crédito e embalagens vazias de chocolate.

O carro desceu a avenida e Peterson dirigia cortando os outros motoristas, vez ou outra erguendo um pouco o braço do volante para ler as horas no painel. Passaram por um posto de gasolina e entrou à esquerda fazendo uma conversão proibida. Seguiu por uma rua escura.

- A rua é pouco movimentada.
- Quem está lá?
- Como assim?
- Você disse que tem um rapaz vigiando. Quero saber quem é.

Peterson virou à esquerda, depois à direita. Desligou os faróis do carro e aproximou-se de uma esquina.

- A rua é essa. Casa 213, um sobrado com portão alto de madeira.
- Manda esse rapaz ir embora.

Agarrou a Glock e virou-se para encarar o motorista. Não havia mais qualquer rastro de um sorriso naquele rosto, e Peterson o fitava com o ódio habitual. Apontou uma pasta no banco de trás.

- O dinheiro está lá. Daqui uma hora te espero no posto de gasolina na esquina da avenida.
- Não.
- Não?
- Metrô Vila Madalena. Em duas horas.

Abriu a porta e desceu, enfiando a arma na cintura e batendo a porta com força. Alguns dos recibos de cartão de crédito caíram na sarjeta com o movimento brusco, mas Peterson não pareceu se importar. Acelerou, o carro de faróis apagados invisível na noite. Gil olhou em volta, deixando crescer o silêncio e os ruídos menores. Havia algo de muito errado em todo aquele serviço. Gil conhecia Guto Monteiro. Conheciam-se, embora nunca tivessem trocado palavra. Se Gil não gostava dele era porque dificilmente encontrava motivos para gostar de alguém. Mas não lhe parecia um que fosse fazer acordos com a polícia. Porque tinha seus contatos, e porque deveria ser mais esperto que isso.

Mas. Alguma coisa que Geraldo havia dito. E Gil não conseguia se lembrar.

Olhou os recibos no chão e abaixou-se para pegá-los, enfiando-os no bolso da jaqueta. Deixou que um sorriso pequeno se formasse, como uma risada contida. Colocou a arma na parte da frente da cintura. Ainda estava sorrindo quando virou a esquina e seguiu pelas sombras, procurando entre as casas o número 213.

capítulo quatro

- Ninguém vai fazer nada com você.
- Eu sei, pai.
- Essa gente me conhece. Ninguém é idiota para mexer comigo.
- Eu sei.
- Então o que é? Você está com essa gente porque escolheu. Sabe que por mim teria seguido outro caminho. Podia ser advogada.
- Isso não seria exatamente seguir outro caminho.
- Podia ter feito uma faculdade de filosofia, se quisesse. Ou dona de padaria. Você sempre fez aquilo que bem entendeu, e mesmo quando me apareceu com aquele...
- Pai.
- O que é?
- Só estou achando que tem alguma coisa errada no que está acontecendo. No que vai acontecer. Você podia mandar alguém, ficar de olho.
- Mas você não corre perigo?
- Sei me cuidar. Olha, preciso ir. Te ligo amanhã.



O número 213 tinha um portão todo de madeira e não era possível ver o que havia atrás dele. Era só um silêncio. Rumores. Gil não enxergava nas sombras do outro lado da rua embora sentisse que estivesse sendo vigiado. Na noite enxergava mal. Ouvia, apenas, e por ora o silêncio lhe parecia suficiente para agir quando fosse a hora. Tentou ouvir dentro do sobrado. Antes de atravessar a rua havia visto uma luz acesa no andar de cima. Nenhuma silhueta. E nenhum som. Era possível ouvir, de dentro da casa, o táxi se aproximando?

Gil tateou a jaqueta em uma esperança estúpida de encontrar o silenciador em algum bolso. Claro que não estava com ele. Não saía de casa com um silenciador no bolso, se antes não soubesse que precisaria dele. Mas Gil raramente tinha problemas ao disparar em um lugar silencioso e pouco movimentado. Poucos sabiam associar o barulho do tiro a um tiro de arma de fogo. Imaginavam um estouro de escapamento.

Encostou no muro da casa e esperou. Olhou pelas luzes das casas em volta e já o silêncio começava a lhe incomodar.

Ouviu na distância um carro se aproximando. Veio um táxi pintado branco com detalhes em azul, especial para o trajeto até o aeroporto de Guarulhos. Gil não se moveu, embora soubesse que o taxista o veria. O carro estacionou em frente à casa. O taxista desligou o motor e desceu com a chave na mão.

- Boa noite.

Ele não parecia nada surpreso com a presença do estranho parado na calçada. Cumprimentou-o com um sorriso crédulo, e que talvez aquele fosse o vigia da rua. Uma rua como aquela deveria ter um vigia, e Gil usava uma calça jeans, uma jaqueta preta e tênis, como qualquer vigia. Mas Gil não respondeu ao cumprimento, ainda que tivesse um sorriso amistoso no rosto. Aproximou-se como se para falar qualquer coisa, mas o que fez foi tirar a arma da cintura e acertar com o cabo da Glock um golpe no lado da cabeça do taxista, que caiu silencioso com a mão no local atingido. Gil o chutou na virilha e estava começando a achar aquele trabalho por demais mal-feito. Era mais fácil quando desmaiavam com o primeiro golpe.

O homem se contorcia. Tentava descobrir em que momento de sua vida havia feito um inimigo sem se dar conta. Gil abaixou-se e abriu o cinto do outro, arrancando-o com uma puxada. Prendeu-lhe os pulsos e encostou o cano da arma em sua têmpora.

- Levanta- murmurou.

O taxista o olhou como se faltasse a força para gritar ou obedecer. Era um sujeito pequeno e muito bem arrumado. Parecia um gerente de banco que sem dificuldade convencia os outros a abrir uma previdência privada. Gil puxou-o pelos braços amarrados e pegou a chave que havia caído no chão. Levantou-se.

Fez-se um silêncio. A luz do andar de cima do sobrado continuava acesa. As casas vizinhas e aquele taxista frágil e sem reação pendurado pelos pulsos atatos.

Abriu o porta-malas. Era um carro grande e havia espaço para uns três corpos empilhados ali dentro. O taxista tentava se manter em pé, mas tonteava. Gil atirou-o para dentro e acertou-lhe outro golpe na cabeça, ainda com mais força, e com toda a raiva por não ter conseguido fazer com que desmaiasse na primeira vez.

Fechou o porta-malas com cuidado e sem barulho. Olhou um pouco de sangue no cabo da arma. Tirou um dos recibos de cartão de crédito do bolso. Compras em algum supermercado. Peterson Silva Zanella. Usou o recibo para limpar a arma e depois deixou que ele caísse no chão.

Foi tocar a campainha.

- Inferno.

Esperou encostado no carro segurando a pistola atrás do corpo.

Então ouviu. Uns passos e o som das rodinhas de uma mala descendo uma escada. A luz do andar de cima continuava acesa.

Guto Monteiro saiu pelo portão lateral e parou ao reconhecer quem o aguardava.

- Gil?

Parecia tentar um sorriso. Mas se deu conta que havia o táxi e uma sombra passou por seus olhos. Estava vestido de moleton e tênis, como quem sai de casa para uma tarde no parque. Gil deixou que a Glock ficasse à mostra e cruzou os braços, apontando o carro com a cabeça. Guto hesitou. Olhou de volta para dentro de casa. Então para a arma na mão de Gil.

- Eu tentei falar com o Diogo.
- Entra no carro.
- Vou falar com o Diogo, assim que sair de São Paulo.
- Entra.

Abriu a porta do motorista e gesticulou com a mão que segurava a arma. Guto fechou o portão e soltou a mala. Entrou. Gil fechou a porta e pegou a mala da calçada, dando a volta para entrar pelo lado do passageiro. Jogou a mala no banco de trás e entrou.

- Dá o tênis- Gil disse.

Guto obedeceu. Parecia se forçar a uma tranqüilidade inexistente e suas mãos tremiam. Tirou os tênis e os entregou. Era um modelo novo e bastante branco. Um advogado como ele que viaja de tênis espera talvez inconveniências. Planejava fugir de alguém? Ou mais um daqueles ímpetos da meia-idade. Gil pegou um dos pares de tênis e com a mão livre começou a tirar o cadarço.

- Diga ao Diogo que falo com ele assim que eu sair de São Paulo.
- Você já disse isso.
- O Fabiano não vai conseguir nada. A polícia federal vai achar que é blefe.
- A polícia federal?
- Vou perder meu vôo, Gil.
- Mas você fez um acordo com a polícia federal.
- Não! Já disse, falo com o Diogo quando sair de São Paulo. O Fabiano não me consultou, parece que não teve a oportunidade. Ele estava contra a parede. Porque a polícia sabe que a droga é do Diogo mas pode muito bem derrubar o Fabiano se ele não colaborar. Eles querem um flagrante, sem o flagrante eles nunca vão conseguir coisa nenhuma.
- O Fabiano fez um acordo com a polícia federal?
- Fez. E eu sei que vai ser o carregamento para aquele espanhol, e é coisa grande, e o Fabiano sabe que...
- E pra onde você está indo?
- Buenos Aires. O Fabiano...
- Por quê?

Fabiano mentia?

- Por que a pressa, Guto?

A luz no andar de cima do sobrado continuava acesa. Gil havia terminado de tirar o cadarço do primeiro tênis e começou a fazer o mesmo com o outro.

- Gil, o Diogo precisa confiar em mim. Ele não tem motivos para...
- Ele não tem motivos para confiar em ninguém. Aliás, eu também não tenho.
- O que o Diogo está pensando?
- Quem disse que estou aqui por causa do Diogo?

O advogado pareceu então prender a respiração por alguns eternos segundos e seu rosto perdeu a cor. Espiou a maçaneta da porta.

- As mãos no volante- Gil ordenou.

Guto obedeceu.

- Você trabalha pro Diogo, Gil, pelo amor de Deus.

Gil soltou o segundo cadarço e jogou o par de tênis no chão do carro. Pediu que Guto unisse as mãos e amarrou seus pulsos com força usando um dos cadarços, prendendo-os ao volante.

- O Fabiano fez um acordo com a polícia porque a polícia encontrou droga em algum lugar?
- Em um container. Há uma semana. Uns dez dias.
- Que merda, hein.

O homem tentava ainda manter qualquer resto de dignidade e por isso tinha o queixo erguido. Falava como se soubesse que sua retórica o salvaria outra vez. De moleton e meias e amarrado no volante de um táxi com o cadarço do próprio tênis. Mas perdia a capacidade de articulação que lhe era tão característica quando estava convencendo um juiz da inocência de seus clientes.

E Gil considerava que o outro talvez pudesse estar falando a verdade.

- Como a polícia foi parar nesse container?
- Juro que não sei.
- Pena.

Ouvia a respiração irregular de Guto e começava a se aborrecer. Aqueles homens todos falavam tanto. E Fabiano sempre lhe arrumava os serviços mais chatos. Que fosse a incompetência de Peterson. Por que manter por perto sujeito tão incompetente?

- Você esqueceu a luz acesa.

Guto olhou na direção do sobrado. A luz no segundo andar. Segurou o ar como se para responder, mas conteve-se. Afirmou com a cabeça.

Gil passou o cadarço em volta do pescoço de Guto e apertou. Sorriu ao ver os olhos desesperados do advogado, e a vontade de gritar sufocada. Sorria porque não havia mais o que ser dito, e porque estava cansado de fazer perguntas sobre um assunto que pouco o interessava. Diogo e Fabiano e a droga e os containers. Não sabiam falar de outra coisa. Parecia-lhe naquele momento que eram muito mais interessantes aqueles peões desencontrados que só queriam mesmo rever algum filho esquecido ou uma ex-mulher que o trocou pelo dono do mercado.

Quando Guto parou de reagir continuou ainda aplicando força, contando em sua cabeça o tempo que costumava ser suficientemente fatal.

Preferia usar a Glock.

Mas o silenciador.

Guardou a arma e saiu do carro. Abriu o porta-malas para terminar o que havia deixado pela metade. O último golpe que havia acertado no taxista lhe abrira um buraco na cabeça. Seu rosto e sua camisa estavam cobertos de sangue, assim como o revestimento cinzento do porta-malas. O homem estava bem morto. Gil jogou o cadarço sobre o corpo e fechou a porta.

Olhou no sobrado a luz acesa. Entrou pelo portão destrancado em uma garagem larga com dois carros estacionados. Uma bicicleta e algumas caixas. A porta de entrada estava próxima ao portão lateral. Guto Monteiro era solteiro, e por que dois carros? Gil virou a maçaneta da porta e ela se abriu.

O andar de baixo estava escuro, embora houvesse uma luz muito fraca que vinha de um corredor. Gil apertou a vista para conseguir distinguir qualquer objeto naquela sala. Eram móveis e tudo parecia em ordem. Ele ainda pretendia voltar. Na televisão piscava uma luz vermelha de stand-by. Os eletrônicos estavam ligados na tomada.

E a casa era silenciosa. Os ruídos das ruas próximas não se faziam ouvidos. Talvez nem mesmo os ruídos de um táxi estacionando em frente, e possivelmente indo embora. Gil andou na direção da luz.

Havia uma escada e a luz vinha do andar de cima. Tirou a arma da cintura e subiu.

Outro corredor. A luz saía de um dos quartos. Mas Gil permaneceu parado um degrau abaixo do topo da escada, escutando o silêncio. Que Guto houvesse esquecido uma luz acesa. Por que não?

Sentia uma pulsação nas orelhas. Lembrava-se daquele inesperado sorriso de Peterson quando desciam a avenida. E um daqueles sorrisos melancólicos de Geraldo, agindo como se pudesse lhe servir de pai. E a presença de Geraldo lembrava-lhe tudo aquilo que jamais poderia ter dado certo em sua vida. Que mais precisava, além do que já tinha? E apertava o cabo da Glock com força, descansando o dedo no gatilho e deixando vir a certeza de que estava pronto para quebrar aquele silêncio irritante.

Subiu ao corredor e colado à parede andou em direção ao quarto. Ao chegar na porta avançou em um movimento ligeiro e apontou a arma.

Havia no centro uma cama feita, e na parede em frente uma televisão. Tudo na ordem que se esperaria do quarto de um solteiro que viaja para fora do país, não fosse a moça sentada em uma poltrona ao lado da janela. Ela tinha a cabeça baixa e a segurava com as mãos, enquanto apoiava os cotovelos nos joelhos. Gil conseguia ouvir sua respiração lenta e pesada. Abaixou a arma.

Ela ergueu o rosto, deixando os cabelos cacheados cobrirem parte dos olhos. Não parecia surpresa que houvesse alguém no quarto, e talvez estivesse o esperando. Mas mesmo a miopia não impediu que Gil a reconhecesse, e que notasse o espanto em seus olhos quando ela, também, o reconheceu. Esperava-o? Outro. Qualquer outro. Aqueles olhos esperavam qualquer outro que não ele. Gil passou a mão nos cabelos, penteando-os com os dedos e tirando a franja da testa. Um gesto débil e certo que impensado. A mulher não se moveu. Ele a encarava apertando a vista. E tentando descobrir se ela sorria.

- Vera.

capítulo cinco

Estava ouvindo a voz de Vera. Sabia que era sonho, porque via nítido seu sorriso e os olhos. Ele nunca soube dizer a cor daqueles olhos, mas arriscava que fossem verdes. Não eram. E eles estavam nítidos, cada traço mais escuro ou esverdeado, e embora Vera sorrisse estava sacudindo a cabeça em uma negação.

Quando se deu conta que estava deitado em sua cama, tateou no espaço vazio ao seu lado em uma esperança estúpida que ela pudesse estar ali. E porque sentia seu perfume?

Ergueu-se em um impulso e colocou-se de pé. Vestiu a calça do dia anterior e procurou uma camisa no armário. Havia sonhado com Vera e não se lembrava a última vez que havia sonhado com qualquer coisa. Saiu do quarto. A pasta que Peterson havia lhe entregado na noite anterior estava jogada sobre uma cadeira na cozinha e a geladeira estava vazia. Voltou para a sala e ligou a televisão e procurou algum canal que estivesse passando o noticiário. E que falariam sobre Guto Monteiro? Advogado suspeito de envolvimento com o tráfico ilegal de drogas. E então a imprensa começaria a trazer à tona uma possível ligação com algum político, talvez um senador da oposição ou um deputado muito conhecido, ou mesmo um empresário honesto e cumpridor da lei, como um Diogo Torres. E não tardaria para tudo ser muito bem abafado.

Não havia nenhum noticiário na televisão.

Foi ao seu quartinho de fundos espiar outra vez o modelo que estava montando. A peça quebrada. Precisava comprar cola.

Sua casa não tinha qualquer sinal de que Vera tivesse estado ali. Sentia o perfume, vago.

Olhou o modelo. Tinha uma caixa cheia de modelos quebrados em transportes e mudanças de casa. A maioria tinha a mesma escala de 1/72, e ele ainda tinha planos de montar um campo de batalhas. Compraria placas de isopor e materiais para fazer um gramado e a terra e outras dessas coisas de cenário. E então seria um espaço de tanques quebrados e aviões sem o trem de pouso, e alguns homenzinhos estariam como que consertando tudo aquilo, em um trabalho eterno.

Era um projeto que há muito tinha em mente, mas jamais se deu ao trabalho de ir até uma loja de modelismo e procurar o que faltava. E não sabia onde comprar as placas de isopor.

Na caixa havia um avião militar montado por Vera. As peças haviam sido um pouco mal coladas e a pintura parecia feita por uma criança. O dia que ela foi embora ele o atirou contra uma parede. Era um caso perdido, mas Gil ainda tinha planos de criar um local de queda, com o piloto meio enterrado na terra, sem um braço, ensangüentado. Ficaria bonito.

Depois saberia os detalhes que a imprensa gosta de acrescentar aos assassinatos de advogados importantes, porque viria qualquer um daqueles moleques de Diogo buscá-lo em uma moto antes do final da manhã. No escritório do empresário haveria uma televisão ligada na paranóia do chefe, e o apresentador do telejornal relatando o assassinato de Augusto Monteiro, suposto advogado do tráfico, porque já não parecia mais se tratar de ofensa ou difamação chamar o respeitoso homem do direito de criminoso.

A verdade é que Vera não lhe saía da cabeça. E enquanto Diogo resmungava sobre os problemas que essa morte traria, Gil tentava mesclar a nitidez de seu sonho com a imagem de Vera o encarando naquele quarto alheio, na noite anterior. Ele quis perguntar o que ela estava fazendo ali, mas não encontrou as palavras e temeu seu tom de voz. Vera e Guto?

Então apenas lhe disse que ela deveria sair dali, e quis saber se mais alguém sabia que ela estaria com Guto, e que era melhor apagar qualquer rastro de sua presença dentro daquela casa. Vera não o questionou. Afirmou com a cabeça e pegou uma jaqueta de couro sobre uma cadeira no quarto ao lado. Era um escritório. Gil livrou-se do restante dos recibos de cartão de crédito de Peterson jogando-os na lixeira, sob o olhar calado da moça.

- Guto Monteiro, morto. Morto! Assassinado! Isso é um inferno, Gil, o inferno chegou. E que diabos o homem estava fazendo dentro de um táxi com uma mala de viagem? Ele ia viajar, o filho de uma puta. Agora ele ia viajar. Ele sabia muito bem que é o pior momento para se viajar. Que já não me bastasse a droga do comandante desconfiado me mandando esse baixinho desgraçado para conversar e definir trajeto, toda vez!

O colombiano mandava sempre esse baixinho com alguns homens enormes e muito armados. E Diogo odiava essa estúpida demonstração de poder, porque sempre odiava o confronto com poderes mais altos.

- Como se eu não soubesse muito bem o que estou fazendo!

Que Vera estava fazendo com Guto?

E enquanto Diogo reclamava Gil queria se lembrar de tudo que o advogado lhe contara. Que Fabiano tinha feito qualquer acordo com a polícia. E também o carregamento para o espanhol. Mas o que Fabiano poderia saber sobre esse carregamento, se sempre vinha o tal do homenzinho combinar um trajeto diferente e um plano diferente?

E Vera. Vera e Guto. Vera estava com Guto e não parecia tão surpresa que Guto estivesse morto, como se estivesse ali todo aquele tempo apenas para assegurar que o assassinato fosse levado adiante. Não questionou o táxi estacionado em frente. Não quis saber o que havia dentro dele.

Mas Vera não esperava por Gil.

Ele ainda tinha o telefone dela?

O telefone no escritório tocou. Diogo atendeu com um grunhido, e foi a voz do outro lado da linha pronunciar palavra que Diogo começou a xingar.

- Pra puta que pariu que essa porra está prejudicada... Com a polícia federal? Quero que eles se explodam! Ele não sabia de merda nenhuma!

Gil conseguia ouvir a voz de Fabiano tentando se fazer ouvida.

Vera e ele haviam terminado o relacionamento quando ela descobriu sua profissão. Quando descobriu que ele não era exatamente segurança particular de Diogo. Mas que ela poderia dizer? Seu pai era um dos mais poderosos bicheiros do Rio de Janeiro. Aldo Chiarelli.

Que ela teria a dizer? Por que era preciso que se separassem?

- Alguém? Alguém? Um idiota de um alguém!

Gil estava sentado olhando as horas e imaginando quando o homem do colombiano chegaria, e se Diogo contaria a ele sobre a morte de Guto Monteiro. Ele não tinha certeza do problema que aquele assassinato poderia representar para Diogo, mas pouco se importava. Guto ou Fabiano havia feito um acordo com a polícia federal. E Vera, por qualquer motivo, havia se metido nisso.

- Não quero suas sugestões agora! Você é um filho da puta e se sabia de alguma coisa devia ter me contado antes!... Navio? Está louco? Agora dei de explodir navios? Pro inferno com a soja que você perdeu, não tive nada com isso!

Diogo desligou o telefone, antes atirando o aparelho algumas vezes contra o gancho e errando a mira.

E por que Vera se meteria nisso?

- Não se pode mais explodir navios sem que todos queiram saber que porra eu tive a ver com aquilo.
- Apareceu o agente federal atrás de mim, ontem. Queria saber da explosão.
- Pra puta que pariu o agente federal. Aquele merda pensa que é seu pai, como se você fosse um moleque de onze anos desajustado na escola.

Porque foi Gil que disse à Vera que deviam terminar, e que ela merecia alguém melhor. Que ela merecia alguém que pudesse se importar muito mais com ela do que com um impulso incontrolável de assistir ao sofrimento alheio. Que se importasse mais com ela do que com alguns modelos plásticos de montar. E ele falou isso tudo mas não acreditava em palavra alguma, e ela foi embora batendo a porta.

Agora Gil se lembrava de como na casa de Guto Vera não havia aberto a boca uma única vez. Esteve o tempo todo calada, e certa vez pareceu que suas mãos tremiam, mas mesmo assim foi muito habilidosa ao tirar seu carro da garagem, ainda que o táxi bloqueasse parte de sua passagem.

- Gil.
- Que é?
- Você sabe alguma coisa sobre esse "alguém" que resolveu apagar o Guto na pior das horas?
- Não.
- Merda.

Era preciso descobrir o que Vera estava fazendo na casa de Guto. Certo que lhe parecia estranho Fabiano pedir-lhe um serviço sobre o qual era melhor não contar a Diogo. E Fabiano não assumiu a autoria do crime. Contratou Gil e falou em "alguém". Quem o homem pensava que estava enganando?

Ora, alguém. Acreditava no que Guto havia dito?

Diogo xingava em voz baixa quando a campainha tocou. Gil levantou-se, tirando a arma da parte de trás da cintura e passando-a para a parte da frente.

- Parece que Fabiano é que fez acordos com a polícia federal- Gil disse, parando ao lado da porta e apoiando a mão sobre o cabo da Glock.

Diogo sorriu. Antes de abrir a porta, falou:

- Eu sei.

capítulo seis

Viu quando os colombianos entraram em um carro e se afastaram. Quando saiu do escritório Diogo estava irritado, criando xingamentos em portunhol. Não que houvesse qualquer acordo que o prejudicasse. Mas a arrogância do homenzinho e o sotaque despeitado.

O perigo era sempre a parada. Quando em algum ponto nos arredores da fazenda de Fabiano Ferraz a droga era camuflada com a soja, e seguia para Santos. Porque Diogo insistia em estar presente, vigiando na distância, enquanto mandava algum subordinado fazer o trabalho direto.

Gil não se metia no negócio da droga. Acreditava que o seu era um trabalho mais nobre. Ficava ao volante no carro com Diogo, pronto para agir caso fosse necessário.

A Diogo bastava que obedecesse o trajeto do comandante.

E havia um acordo com a polícia federal. Gil não estava preocupado com nada daquilo.

Passava do meio-dia. Tomou o metrô para o centro da cidade. Quando tocou o interfone no prédio da rua 7 de abril, não obteve resposta. Atravessou a rua e entrou em uma galeria. Esperou, rondando lojas e mantendo um olho na entrada do apartamento. Tempo não lhe faltava. Antes pudesse parar de pensar em Vera.

Era o tudo que jamais. Alguma vez pensou em mudar? Por ela? Sabia que Vera era pouquíssimo santa, e o universo do domínio do pai sempre lhe foi bastante familiar. Porque Gil a conheceu em viagem que Diogo fez ao Rio para conversar com alguns desses políticos da lavagem de dinheiro. Vera era carioca, mas vivia em São Paulo sob os olhos protetores de Aldo Chiarelli. Da mãe não sabia, nunca soube. Nunca quis saber.

Mas agora Gil reconhecia o jeito de andar de Peterson se aproximando pela calçada e remexendo os bolsos pela chave da porta de entrada do prédio. A visão era míope e tosca mas ele tinha a certeza que precisava. Chegou-se sorrateiro misturado entre a multidão e esperou que o outro tivesse já aberto a porta para empurrá-lo para dentro.

- Ei!
- Perdão.- Gil e um sorriso que era todo maldade e sarcasmo. Fechou a porta com o pé.- Tropecei.

Peterson uns olhos atônitos, como quem antevê uma desgraça. Gil tirou a arma da cintura e com ela gesticulou que andassem.

- Antes.

Outro gesto. Peterson compreendeu.

- Não estou armado, porra.

Andaram mais ao fim do corredor, protegidos então de olhos curiosos da rua, na penúmbra de uma lâmpada amarela e fraca. Gil o empurrou contra a parede e o revistou. Não encontrou arma e mandou que seguissem ao apartamento.

- Foi hoje, não foi?

E subiam pelas escadas até o sexto andar.

- Foi o quê?
- Aquele colombiano que vem, qual o nome dele?
- O Fabiano está em São Paulo?
- Rapaz, você veio aqui me perguntar se...
- Está?
- Não.
- Por quê?
- Negócios da fazenda.

Gil não questionou. Pararam em uma porta estreita na ponta de um corredor mal-iluminado. O chão de pastilhas sujas. Peterson abriu a porta e entraram. Um gato magro e feio pulou de uma estante e Gil virou a mira em sua direção. Peterson sentou-se no sofá e o gato abriu a boca em um rosnado surdo, encarando o visitante.

- Diogo te mandou aqui?
- Cala a boca.



- Onde você está?
- Na estrada.
- Quero que volte pro Rio hoje.
- Por quê?
- A coisa aí vai ficar bem feia.



O apartamento uma sala que era quarto e cozinha. Peterson tinha uma casa no interior, próxima à fazenda. Essa, sim, enorme e com piscina. Gil queria escolher as palavras. Queria ter certeza do que o trazia ali. Um acordo com a polícia federal? Que lhe importava? Que Diogo fosse preso. Ele tinha outros para quem trabalhar. Conhecidos de Diogo, homens que muito estimavam suas habilidades.

- Por que matar o advogado?
- Você matou o advogado, Gil.

Ergueu a arma, apontou.

- Pra puta que pariu, vai me matar também? Você é mais idiota do que parece.
- Pra que matar o advogado?
- Que eu sei de matar advogado? Eu e você, a gente só recebe ordens.
- Ninguém me mandou vir falar com você.
- E vai me matar, porra?

Gil deu de ombros, não desfez a mira.

- Não ia me fazer muita falta.

Abaixou a arma e Peterson soltou um suspiro aliviado, soprando com força. Gil enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou de lá o silenciador - porque como poderia se esquecer dele outra vez? - e sem tirar os olhos do outro encaixou a peça na ponta da Glock. Estava na verdade bastante perturbado, e Peterson não poderia saber. Que diferença fazia? Dava-lhe um ou dois tiros no pé ou no braço. Gil questionava-se sobre o que seria pior. Havia levado uma vez um tiro na mão, fugindo da polícia. Estourou-lhe o tendão e fez o dedo mínimo da mão esquerda um tanto inútil. Certo que não mais do que já deveria ser. Para que precisava daquele dedo?

- Gil!
- Pra que matar o advogado?
- Eu não sei, eu faço o que o chefe manda, porra. Vou saber dos motivos?
- Vai saber dos motivos, porque é um filho da puta de um puxa-saco.

O gato havia se afastado, e observava a cena sentado sobre a cama. Mantinha as orelhas abaixadas; elas se moviam a cada palavra pronunciada, como se o animal quisesse compreender o que falavam.

- Vamos conversar feito gente, cara. Tira essa merda da minha cara.
- O advogado sabia alguma coisa?
- O que ele não sabia? Isso não tem nada a ver com saber ou não saber porra nenhuma.
- Ele parecia saber um monte de coisa.
- Como assim?
- Antes de morrer. Falou um monte de coisa. E que o Fabiano anda fazendo acordo com quem não deve para lavar a cara suja.

Aborrecia-se. Pouco lhe importava a polícia e todo aquele jogo. Queria saber de Vera. Queria saber por que Vera estava com Guto. Queria saber o que Vera tinha com tudo aquilo. Porque ela pareceu tão serena ao ouvir que o advogado estava morto, e que não era certo fazer qualquer pergunta. Não fez pergunta alguma. Como sempre ela parecia aceitar o que via, silenciosa, os olhos diabólicos de quem sempre soube das engrenagens do mundo e a quem pouco importam as pequenas explicações. Como se desde muito já soubesse.

Fabiano conhecia Vera, e Gil sabia. Fabiano conhecia Vera, como todos conheciam Aldo Chiarelli e sabiam sua reputação.

E talvez Gil tivesse hesitado, porque Peterson sorriu.

- Desde quando você acredita em advogados?
- Não acredito.
- Claro que não. Você é um tipo que não confia na própria mãe.
- Na minha mãe eu confio.
- Ela deve te dar todos os motivos.
- Ela morreu.

Peterson conteve o riso e arrependeu-se quando viu o dedo de Gil abraçando o gatilho. Soltou um palavrão. O gato se assustou e enfiou-se debaixo da cama.



- Quem era?
- Meu pai.
- Que ele queria?
- O de sempre. Me proteger.
- De quê?
- Ele não sabe.
- Não sabe o quê?

Um sorriso que quis substituir a resposta. Mas ela veio um enigma:

- Ele não faz idéia.



- Estou perdendo a paciência.
- Se você já sabe tudo que o homem falou, que veio me perguntar? Que te importa essa merda? O Diogo é um imbecil, você sabe disso.

Que importava?

Mas outra vez sentiu o sorriso cínico de Peterson lhe queimar a vista.

- Quem era o rapaz que estava vigiando?
- Vigiando o quê?
- O Guto. Você me disse que tinha um rapaz vigiando, para ter certeza que ele estaria em casa.
- Um moleque. Que diferença faz?
- Quero falar com ele.

Peterson arregalou um pouco mais os olhos, que ainda isso fosse possível. Que passassem por sua cabeça todas as respostas e dissimulações possíveis, e não fosse capaz de encontrar o que dizer, em que se agarrar. Via era o cano da arma e sabia bem que Gil não o mataria, mas com prazer lhe estragaria um membro. E ainda porque sentia em sua hesitação o tempo limitando suas respostas e delas qualquer mentira soaria como um insulto. Afirmou com a cabeça, concordando com o que fosse, porque era preciso contornar o assunto.

- Agora- Gil continuou.
- Ele não está em São Paulo. Ele foi pra fazenda com o Fabiano.
- O moleque é importante.
- É só um peão. Filho de um caseiro, estava em São Paulo pra...
- Pra quê?

Outro palavrão. Pra quê? E ele sabia? Gil já não lhe dava qualquer crédito. Estava com vontade de puxar o gatilho e atingir-lhe no joelho, mas pensar a sujeira lhe dava uma preguiça enorme. E não podia sair de lá sem uma resposta. O tal moleque poderia saber. Que Vera estava fazendo ali, se chegou com Guto ou depois. Se já estava lá e desde quando. O que o rapaz poderia saber?

Mas Gil queria revê-la?

Mirou o ombro de Peterson.

- Espera.
- Que é?
- Eu te arranjo falar com ele, mas não pode ser hoje.
- E pode ser quando?
- Me dá dois dias.

um romance policial folhetinesco ou uma experiência quase literária, por Olivia Maia // saiba mais

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