capítulo um
Gil detestava o cheiro do mar e queria logo sair daquela cidade. Terminou de limpar o quarto do hotel e de conferir se não havia esquecido qualquer fio de cabelo na pia ou uma marca de dedo no vidro da janela, e pensava que a polícia poderia se esforçar um pouco mais, se quisesse. Na verdade ele se considerava importante o suficiente para merecer uma atenção maior. E até onde sabia eles nunca se davam ao trabalho de procurar fios de cabelo no encanamento, ainda mais quando sequer saberiam em que hotel procurar. Olhou as horas no relógio de pulso. Tinha talvez pouco mais de quarenta minutos. Ia ficar para ver os fogos?
A televisão estava ligada. Era o começo de alguma novela e uma mulher estava gritando nas cenas do capítulo anterior.
Sentia vontade de vomitar. O ar assim tão úmido e salgado e aquela brisa morna que entrava pela janela. Ele era um tipo alto, os cabelos castanhos mal-cortados e uma franja quase adolescente que fazia conflito com os traços do rosto adulto. Usava aquela franja para esconder uma cicatriz que começava acima da sobrancelha direita e riscava sua testa. Parava alguns centímetros depois da linha onde começavam os fios de cabelo, deixando uma falha no couro cabeludo, que a franja também ajudava a disfarçar. Gil não gostava daquela franja. Gostava menos ainda da possibilidade de ser reconhecido só porque tinha uma cicatriz enorme e estúpida.
Pegou a pistola sobre a cômoda e puxou o ferrolho, deixando que a bala da agulha caísse na cama. Havia uma mesa estreita logo sob a janela e Gil quis colocar a bala sobre essa mesa, deitada e com a ponta mirando em direção ao mar. Ela rolou para o lado ganhando velocidade e Gil a segurou antes que caísse no chão.
- Merda de cidade- murmurou.
Olhou outra vez no relógio e para a televisão. A mulher havia parado de gritar mas ainda era a novela e alguma praia no Rio de Janeiro. Santos parecia silenciosa ali daquela janela de sexto andar, o sol fazendo sombras compridas nas ruas com o fim do dia. Gil tirou o pente de sua Glock para devolver a bala à pistola. Ele nem poderia enxergar o porto de onde estava. E mesmo se a vista fosse ainda um pouco mais conveniente também não enxergaria nada com aqueles dois graus de miopia e a falta dos óculos. Antes havia subido no Monte Serrat como qualquer bom turista, e era toda a zona portuária um borrão cinzento. Nunca se lembrava de colocar os óculos quando acordava ou quando viajava. Às vezes Diogo dizia que "vá de óculos" para qualquer acontecimento, e aí, então. Estava já espiando as horas e nem cinco minutos. Precisava de qualquer coisa para passar o tempo e o quarto já estava muito bem organizado para que fosse embora. Era preciso esperar?
Afastou-se da janela e desligou a televisão. Pegou sua mochila ao pé da cama e saiu do quarto, descendo as escadas para o saguão do hotel.
O recepcionista tentou um sorriso.
- Setenta e quatro reais.
Da porta do hotel em sentido contrário ao da praia. Andou os quase cinco quilômetros até a rodoviária com os passos sempre apressados. E parou na avenida quando a linha reta deixava ver um pedaço da zona portuária, olhando pela última vez no relógio; o ponteiro das horas chegava ao topo. Sete horas. Era. E havia um sorriso em seu rosto, quase imperceptível. Quase uma careta de escárnio.
Mal ouviu coisa alguma. Na distância, uns gritos, uma gente correndo. Ele não seria capaz de enxergar nada. O vendedor no guichê da companhia de ônibus quis saber o que estava acontecendo e Gil deu de ombros. Comprou sua passagem e foi para a plataforma. Em menos de duas horas estaria em São Paulo. Na verdade ele queria rir. Sentou-se em um banco e tomou um comprimido anti-enjôo para o corpo encarar as curvas da serra. Quando o ônibus chegou, vinha um homem gordo correndo para falar com um funcionário da rodoviária.
- Explodiu um cargueiro saindo do porto.
Falou, e tinha os olhos muito arregalados e as bochechas vermelhas. O funcionário franziu a testa e fez qualquer pergunta retórica, mas o que, como, o que você disse. Ele tinha ouvido muito bem da primeira vez.
- Explodiu, inteiro?
O gordo não sabia dizer e Gil estava mostrando a passagem para o motorista e entrando no ônibus. Ouvia o burburinho da multidão, porque explodiu um cargueiro saindo do porto e ninguém sabia muito bem coisa nenhuma. Era mesmo um pouco engraçado.
- Mas tinha gente dentro?
Gil se sentou e fechou os olhos. Quando o ônibus saiu da plataforma, ouviu gente comentar e olhou na direção do porto. O céu estava cinzento e as pessoas na rua paravam o que estavam fazendo para olhar também. Era a fumaça da explosão. Devia ser a fumaça. Gil quis esconder um sorriso e encolheu-se em sua poltrona. O ônibus ia quase vazio; era uma quarta-feira em meio de outubro. Gil estava pensando em um modelo de tanque militar que estivera montando na última semana, e procurando uma solução para uma peça quebrada. O celular tocou silencioso. A bateria vibrou no bolso da jaqueta.
- Pronto.
- Gil?
Calou-se. O ônibus estava mais próximo da zona portuária, e ele pensou ver o navio que havia explodido. Era fogo?
Diogo era mesmo um tipo muito excêntrico.
- Gil, é Fabiano Ferraz. Onde você está?
- Isso não te interessa.
- Acabei de receber a notícia que o cargueiro que ia levar a minha soja para Portugal teve um... acidente.
- Eu não tenho tempo pra isso.
Devia desligar.
- Claro que não tem.
- Negócio seu com o Diogo não me diz respeito.
Afastou o telefone do rosto. Ia desligar. Mas ouviu Fabiano falar, e voltou a prestar atenção.
- Preciso de um serviço seu.
Silêncio. No ônibus, ainda, as pessoas comentavam a explosão, apontavam a fumaça. Gil estava ficando irritado porque nunca gostou daquele caipira. Fabiano Ferraz. Um tipo com um bigode, fazendeiro e advogado. Ele e Diogo tinham qualquer tipo de acordo. Diogo exportava droga com a soja de Fabiano. Era mesmo um acordo de cavalheiros. Fabiano sempre dizia que aquele acordo ia acabar com a sua reputação. E era com o dinheiro sujo que mandava sua filha mais velha para a faculdade de direito.
E o desgraçado pagava bem. E desde quando trabalho para você, pensou em dizer. Para quê? Negócio dele com Diogo não lhe dizia respeito. E Fabiano pagava.
- O Peterson vai te buscar amanhã.- Hesitou, como se de repente desistisse de falar qualquer coisa.- Eu ligo.
Fabiano desligou e Gil guardou o celular no bolso da jaqueta. Não reparou que a voz de Fabiano estava trêmula, e já os passageiros do ônibus não pareciam mais tão interessados com a fumaça de uma explosão distante. Ora, que o navio parecia ainda inteiro, não fosse aquele fogo e aquele barulho e toda a gente gritando. Gil deveria se preocupar? Fabiano ia pedir que matasse algum caboclo que escutou o que não devia, um que antes de levar o tiro ia enumerar e listar toda a família, ex-mulheres, filhos e afilhados e primos.
E ainda, se Gil soubesse que não, que na verdade não era nada daquilo? Se soubesse que um telefonema estúpido e a voz trêmula fossem o início - de quê? Fabiano de convicções tão frágeis, e Gil sentia-se sempre muito seguro quando olhava seus dedos das mãos e as impressões digitais apagadas e deformadas, porque queimava-as na chapa quente. O que só aumentava as certezas que a polícia tinha de seus crimes, e dificultava qualquer prova que um dos habilidosos advogados de Diogo não fosse capaz de passar por cima.
Mas não estava preocupado. Estava outra vez pensando na peça quebrada do modelo de tanque militar que estivera montando.
