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capítulo seis

Viu quando os colombianos entraram em um carro e se afastaram. Quando saiu do escritório Diogo estava irritado, criando xingamentos em portunhol. Não que houvesse qualquer acordo que o prejudicasse. Mas a arrogância do homenzinho e o sotaque despeitado.

O perigo era sempre a parada. Quando em algum ponto nos arredores da fazenda de Fabiano Ferraz a droga era camuflada com a soja, e seguia para Santos. Porque Diogo insistia em estar presente, vigiando na distância, enquanto mandava algum subordinado fazer o trabalho direto.

Gil não se metia no negócio da droga. Acreditava que o seu era um trabalho mais nobre. Ficava ao volante no carro com Diogo, pronto para agir caso fosse necessário.

A Diogo bastava que obedecesse o trajeto do comandante.

E havia um acordo com a polícia federal. Gil não estava preocupado com nada daquilo.

Passava do meio-dia. Tomou o metrô para o centro da cidade. Quando tocou o interfone no prédio da rua 7 de abril, não obteve resposta. Atravessou a rua e entrou em uma galeria. Esperou, rondando lojas e mantendo um olho na entrada do apartamento. Tempo não lhe faltava. Antes pudesse parar de pensar em Vera.

Era o tudo que jamais. Alguma vez pensou em mudar? Por ela? Sabia que Vera era pouquíssimo santa, e o universo do domínio do pai sempre lhe foi bastante familiar. Porque Gil a conheceu em viagem que Diogo fez ao Rio para conversar com alguns desses políticos da lavagem de dinheiro. Vera era carioca, mas vivia em São Paulo sob os olhos protetores de Aldo Chiarelli. Da mãe não sabia, nunca soube. Nunca quis saber.

Mas agora Gil reconhecia o jeito de andar de Peterson se aproximando pela calçada e remexendo os bolsos pela chave da porta de entrada do prédio. A visão era míope e tosca mas ele tinha a certeza que precisava. Chegou-se sorrateiro misturado entre a multidão e esperou que o outro tivesse já aberto a porta para empurrá-lo para dentro.

- Ei!
- Perdão.- Gil e um sorriso que era todo maldade e sarcasmo. Fechou a porta com o pé.- Tropecei.

Peterson uns olhos atônitos, como quem antevê uma desgraça. Gil tirou a arma da cintura e com ela gesticulou que andassem.

- Antes.

Outro gesto. Peterson compreendeu.

- Não estou armado, porra.

Andaram mais ao fim do corredor, protegidos então de olhos curiosos da rua, na penúmbra de uma lâmpada amarela e fraca. Gil o empurrou contra a parede e o revistou. Não encontrou arma e mandou que seguissem ao apartamento.

- Foi hoje, não foi?

E subiam pelas escadas até o sexto andar.

- Foi o quê?
- Aquele colombiano que vem, qual o nome dele?
- O Fabiano está em São Paulo?
- Rapaz, você veio aqui me perguntar se...
- Está?
- Não.
- Por quê?
- Negócios da fazenda.

Gil não questionou. Pararam em uma porta estreita na ponta de um corredor mal-iluminado. O chão de pastilhas sujas. Peterson abriu a porta e entraram. Um gato magro e feio pulou de uma estante e Gil virou a mira em sua direção. Peterson sentou-se no sofá e o gato abriu a boca em um rosnado surdo, encarando o visitante.

- Diogo te mandou aqui?
- Cala a boca.



- Onde você está?
- Na estrada.
- Quero que volte pro Rio hoje.
- Por quê?
- A coisa aí vai ficar bem feia.



O apartamento uma sala que era quarto e cozinha. Peterson tinha uma casa no interior, próxima à fazenda. Essa, sim, enorme e com piscina. Gil queria escolher as palavras. Queria ter certeza do que o trazia ali. Um acordo com a polícia federal? Que lhe importava? Que Diogo fosse preso. Ele tinha outros para quem trabalhar. Conhecidos de Diogo, homens que muito estimavam suas habilidades.

- Por que matar o advogado?
- Você matou o advogado, Gil.

Ergueu a arma, apontou.

- Pra puta que pariu, vai me matar também? Você é mais idiota do que parece.
- Pra que matar o advogado?
- Que eu sei de matar advogado? Eu e você, a gente só recebe ordens.
- Ninguém me mandou vir falar com você.
- E vai me matar, porra?

Gil deu de ombros, não desfez a mira.

- Não ia me fazer muita falta.

Abaixou a arma e Peterson soltou um suspiro aliviado, soprando com força. Gil enfiou a mão no bolso da jaqueta e tirou de lá o silenciador - porque como poderia se esquecer dele outra vez? - e sem tirar os olhos do outro encaixou a peça na ponta da Glock. Estava na verdade bastante perturbado, e Peterson não poderia saber. Que diferença fazia? Dava-lhe um ou dois tiros no pé ou no braço. Gil questionava-se sobre o que seria pior. Havia levado uma vez um tiro na mão, fugindo da polícia. Estourou-lhe o tendão e fez o dedo mínimo da mão esquerda um tanto inútil. Certo que não mais do que já deveria ser. Para que precisava daquele dedo?

- Gil!
- Pra que matar o advogado?
- Eu não sei, eu faço o que o chefe manda, porra. Vou saber dos motivos?
- Vai saber dos motivos, porque é um filho da puta de um puxa-saco.

O gato havia se afastado, e observava a cena sentado sobre a cama. Mantinha as orelhas abaixadas; elas se moviam a cada palavra pronunciada, como se o animal quisesse compreender o que falavam.

- Vamos conversar feito gente, cara. Tira essa merda da minha cara.
- O advogado sabia alguma coisa?
- O que ele não sabia? Isso não tem nada a ver com saber ou não saber porra nenhuma.
- Ele parecia saber um monte de coisa.
- Como assim?
- Antes de morrer. Falou um monte de coisa. E que o Fabiano anda fazendo acordo com quem não deve para lavar a cara suja.

Aborrecia-se. Pouco lhe importava a polícia e todo aquele jogo. Queria saber de Vera. Queria saber por que Vera estava com Guto. Queria saber o que Vera tinha com tudo aquilo. Porque ela pareceu tão serena ao ouvir que o advogado estava morto, e que não era certo fazer qualquer pergunta. Não fez pergunta alguma. Como sempre ela parecia aceitar o que via, silenciosa, os olhos diabólicos de quem sempre soube das engrenagens do mundo e a quem pouco importam as pequenas explicações. Como se desde muito já soubesse.

Fabiano conhecia Vera, e Gil sabia. Fabiano conhecia Vera, como todos conheciam Aldo Chiarelli e sabiam sua reputação.

E talvez Gil tivesse hesitado, porque Peterson sorriu.

- Desde quando você acredita em advogados?
- Não acredito.
- Claro que não. Você é um tipo que não confia na própria mãe.
- Na minha mãe eu confio.
- Ela deve te dar todos os motivos.
- Ela morreu.

Peterson conteve o riso e arrependeu-se quando viu o dedo de Gil abraçando o gatilho. Soltou um palavrão. O gato se assustou e enfiou-se debaixo da cama.



- Quem era?
- Meu pai.
- Que ele queria?
- O de sempre. Me proteger.
- De quê?
- Ele não sabe.
- Não sabe o quê?

Um sorriso que quis substituir a resposta. Mas ela veio um enigma:

- Ele não faz idéia.



- Estou perdendo a paciência.
- Se você já sabe tudo que o homem falou, que veio me perguntar? Que te importa essa merda? O Diogo é um imbecil, você sabe disso.

Que importava?

Mas outra vez sentiu o sorriso cínico de Peterson lhe queimar a vista.

- Quem era o rapaz que estava vigiando?
- Vigiando o quê?
- O Guto. Você me disse que tinha um rapaz vigiando, para ter certeza que ele estaria em casa.
- Um moleque. Que diferença faz?
- Quero falar com ele.

Peterson arregalou um pouco mais os olhos, que ainda isso fosse possível. Que passassem por sua cabeça todas as respostas e dissimulações possíveis, e não fosse capaz de encontrar o que dizer, em que se agarrar. Via era o cano da arma e sabia bem que Gil não o mataria, mas com prazer lhe estragaria um membro. E ainda porque sentia em sua hesitação o tempo limitando suas respostas e delas qualquer mentira soaria como um insulto. Afirmou com a cabeça, concordando com o que fosse, porque era preciso contornar o assunto.

- Agora- Gil continuou.
- Ele não está em São Paulo. Ele foi pra fazenda com o Fabiano.
- O moleque é importante.
- É só um peão. Filho de um caseiro, estava em São Paulo pra...
- Pra quê?

Outro palavrão. Pra quê? E ele sabia? Gil já não lhe dava qualquer crédito. Estava com vontade de puxar o gatilho e atingir-lhe no joelho, mas pensar a sujeira lhe dava uma preguiça enorme. E não podia sair de lá sem uma resposta. O tal moleque poderia saber. Que Vera estava fazendo ali, se chegou com Guto ou depois. Se já estava lá e desde quando. O que o rapaz poderia saber?

Mas Gil queria revê-la?

Mirou o ombro de Peterson.

- Espera.
- Que é?
- Eu te arranjo falar com ele, mas não pode ser hoje.
- E pode ser quando?
- Me dá dois dias.


comentários (1)


Hum... acho que vou ter que reler todos os episódios... me perdi um pouco...



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um romance policial folhetinesco ou uma experiência quase literária, por Olivia Maia // saiba mais

hein?

Você está na página individual de um post publicado em 20 de setembro de 2007.

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