barcamp rio
então rolou no domingo dia 21 de outubro, na PUC, o primeiro barcamp rio, capítulo mais recente da série de barcamp que já rolaram pelo brasil (florianópolis, porto alegre, sampa). a proposta é realizar uma 'desconferência', um encontro para apresentações e discussões de temas variados dentro de uma temática mais ampla, seguindo um método aberto e democrático - o que não pode querer dizer anárquico - onde o que será exposto e discutido e a ordem desses painéis são fruto já da dinâmica do próprio encontro, sem que haja uma agenda prévia. confesso que quando ouvi falar de barcamp no brasil, na época do primeiro que aconteceu em floripa, fiquei com o pé atrás, achando que no fundo seria uma junção de tecnoviciados pra falar bobagem, sem qualquer resultado relevante e ainda com informações obscuras sobre como e quem estaria por trás do evento para ter conseguido projetores e salas etc vendendo uma proposta tão 'frágil'. pois, mordi bastante minha língua. e a primeira observação que deixo aqui sobre o evento no rio é sobre minha boa surpresa em relação à organização, seriedade da proposta, estrutura, nível das discussões e mistura de perfis, experiências e posições entre toda a galera presente que - e isso é outro gol - extrapolou o número inicialmente previsto.
depois da sessão de abertura, as marcações dos painéis foram feitas. na imagem abaixo, fotos da agenda (qualquer um podia chegar lá e marcar, se achasse que tinha alguma coisa a dizer ou debate a provocar). ficou definido que seriam dois os espaços a serem usados, com o bom senso ditando o que valia estar no auditório e o que podia ficar restrito a um espaço menor.
pemaneci a maior parte do tempo no auditório, então é do que vi, ouvi e entendi do que aconteceu ali, sem qualquer isenção, que vou falar.o debate de largada foi proposto pelo Caribé, do Buzz Makers, com o título de "crise existencial do conteúdo 2.0", lançando como isca de discussão o fato de a 'web2.0' ter permitido o lançamento na rede de uma quantidade absurda de conteúdo e ferramentas e informação e opinião e interações pessoa a pessoa, que não se tem dúvida de quanto isso já é parte do ser humano, mas que ao mesmo tempo foge a quaisquer formas mais eficientes de classificação, busca, relacionamento, etc. e esse cenário, para o marketing (que é a área de atuação do Caribé) vira um problema, quando ao querer medir e manipular esse contexto, de modo que possa ser aproveitado comercialmente, o mais comum é ficarmos bem perdidos. apesar do foco em mercado, o papo foi longe e se falou em temas como web semântica, mercado marginal X mercado formal X tudo como uma coisa só - caso tropa de elite -, entre outras coisas que também apareceram aqui e ali ao longo do dia. minha participação nesse começo foi pequena, mas levantei da cadeira quando um amigo lá de trás, ao sugerir que ao invés de reprimir, o mercado deveria aprender e se aproveitar da dinâmica que existe no mercado informal, referiu-se a esse último como o jeito "errado" e o outro de "certo". há de se ter muito cuidado no uso dessas duas palavras para falar de qualquer coisa, especialmente numa 'desconferência'.
logo depois, uma guria apresentou um trabalho sobre orkut - uma pesquisa feita para a monografia de especialização em marketing - onde tentou mapear de que forma a rede social mais popular no brasil poderia servir de ferramenta de e-CRM para as empresas. fiquei na expectativa desse gancho direcionar a conversa para redes sociais de forma mais ampla, mas a exposição foi longa, a discussao demorou a engrenar e resolvi ver o que andava acontecendo no mundo lá fora. não encontrei nada, nada além de uma mesa com um monte de coisa boa pra comer e beber, o que se mostrou um tema também muitíssimo relevante, e por ali fiquei um tempo. de volta ao auditório, me reacomodei e não lembro como foi a conclusão do assunto do orkut.
seguindo a agenda, um cara se apresentou - trabalhava na microsoft -, e sem longa introdução, o que ele queria era levantar a bola de mídia tradicional X nova mídia, querendo ouvir opiniões e experiências. pelo que entendi, o ponto dele era garimpar caminhos de como e quando a nova mídia vai poder ser vista como boa oportunidade para anunciantes e do que dependeria isso. como falei, de um jeito ou outro os temas começavam a se cruzar e fácil a conversa tomava um outro rumo: exploração comercial de produção de conteúdo na era do fim do copyright, da informação livre e grátis, do P2P, etc; o exemplo dos quadrinhos; o comportamento das novas gerações; formas possíveis de 'empacotar' o intangível; e que exemplos do esforço de experimentar essas novidades poderíamos identificar mundo afora. foi aqui, também, que ganhei meu rótulo de leandro da globo.com, sobrescrevendo o gejfin - verbeat que eu tinha escrito no crachá. isso porque a primeira intervenção foi para dizer que essa busca por pistas que levem a um ou vários novos modelos de nos entendermos com a nova mídia também é preocupação das grandes empresas de mídia, e que talvez não exista mídia tradicional e nova, e sim a mídia e sua evolução, agregando novos valores, possibilidades, atores, dimensões. isso somado ao comentário de que muito provavelmente jamais tenhamos daqui pra frente um único caminho, um único modelo de interpretaçao e decodificação de tudo isso, mas vários, quem sabe infinitos e cada vez menos replicáveis e reaproveitáveis. concordaram em boa parte comigo a Daniela, da Editora Abril, e o Beto Largman, figuras bacanas que conheci por lá.
hora do almoço, numa triste caminhada até o Delírio Tropical da Gávea. triste porque era o céu mais azul e o sol mais quente e era domingo e no Rio de Janeiro. maspassamos ilesos pela provação. foram meus companheiros de mesa os digníssimos Ian, Inagaki, Edney, entre outros. vale o registro, entretanto, que a parte mais legal do almoço foi que de repente senta na mesa do lado o Moraes Moreira.
na retomada dos trabalhos, a programação precisou ser ajustada e começamos com Edney, Inagaki e o Interney Blogs. os dois blogueiros-empreendedores contaram uma breve história do projeto e trajetória pessoal de cada um pela blogosfera brasileira. sem qualquer dúvida eles foram e são importantes, tal como é o Interney Blogs. Mérito por estar se configurando como um caso de sucesso importante, representando um sentimento de "agora vai" de uma nação de blogueiros tupiniquins que, passado o momento de blogar motivado por egotrips, passam a se achar merecedores de remuneração para fazê-lo. mais profundamente, também, como se a verdadeira conquista do espaço de mídia pela nova ferramenta só fosse possível de afirmação quando enfim 'evoluir' à institucionalização da prática, assumindo aí modelagem gentilmente cedida pelo 'mercado'. nada contra, mas como eu discordo com a idéia de ser esse caminho a evolução ou o único caminho para qualquer coisa, ao fim do que os dois amigos disseram, fiz intervenções quantas foram possíveis para questioná-los e questionar também nós mesmos sobre tudo isso. a primeira coisa que quis saber do Edney foi se ele tinha alguma idéia de como esse modelo de monetização no qual o Interney Blogs está inserido evoluiria. isso porque penso que da forma como foi concebido, encontrando ou não em algum momento o objetivo para o qual foi criado - remunerar os autores -, se mostra um atentando à evolução do que os blogs conquistaram até aqui.
agrega-se um bom número de produtores de conteúdo, selecionados dentre aqueles que já detém já alguma notoriedade e audiência, cobrindo um conjunto de assuntos e interesses identificados como tendo certo apelo em relação ao público a que se destina a mídia; como valor, prega-se a garantia de um conteúdo de qualidade, alta relevância e autores detentores de incontestável reputação, especialmente em relação aos seus irmãos de 'profissão; organizado isso, através de contrato, esses autores aceitam veicular em seus espaços anúncios publicitários, mas que fique combinado com os consumidores que de forma alguma isso haverá de macular uma isenção opinativa daqueles autores; esses anúncios tem venda centralizada, o que facilita a relação com possíveis clientes e padronização de formatos e precificação; para promoção, contam com boa relação com o mercado, e distribuição de material - media kits - a agências e profissionais de marketing, além de parcerias com demais veículos de mídia.
responda agora rápido, qual é mesmo o "produto"? o texto acima serviria tranqüilamente para descrever, há uma boa centena de anos, a proposta de um jornal. isso, aquele mesmo, de papel. é uma visão que na prática não faz outra coisa senão moldar os blogs e tudo que está diretamente relacionado a eles a um formato antigo e que pressupõe a manutenção de uma série de valores que a ferramenta, ao surgir, veio confrontar. além de enxergar total insustentabilidade disso, fico incomodado porque percebo uma miopia generalizada, espantado de ver que isso tem figurado como certo e bonito entre os próprios agentes que deveriam se preocupar em seguir construindo justamente o contrário. como resultado, fica esvaziada uma discussão mais útil e inovadora, em prol de pensar e evoluir a mídia considerando os valores que são natos da ferramenta - também nossos, como protagonistas dessa história. todos perdemos, e ainda deixamos nossa guarda aberta à assimilação, tal como nos mostrou o episódio Estadão.
democratização da comunicação: se não lembras o que significa e por que é tão importante, a Verbeat desde os primordios de sua existência mantém esse manifesto no ar, que aborda o assunto. e mantemos porque achamos que está aí a principal conquista dos blogs. exatamente a diferença entre o que tínhamos antes e o que temos agora. que sentido teria então, de repente, passar a pregar o contrário disso?
qualidade e relevância de conteúdo: a democracia na comunicação, querendo nós ou não, pressupõe que qualquer que seja a pessoa ou entidade que se posicione como produtor de conteúdo não possa mais garantir qualidade ou relevância, pelo simples fato de que essa percepção passa a ser reconhecidamente individual, subjetiva e relativa, sofrendo interferência das mais loucas e legítimas variáveis, não existindo mais um conjunto muito claro de códigos comuns a serem respeitados. todo texto e abordagem sempre serão bons e relevantes exclusivamente para um alguém e por um momento. e, sendo assim, não digo que esses valores se perdem, mas não são fixos, imutáveis e seria uma enganação escrevê-los no texto do media-kit. tudo é monstruosamente rápido, mutável e imprevisível.
massa de audiência e temas de interesse do leitor: audiência, massa e mapeamento de interesses são incoerentes com um espaço que tem por característica a descentralização e interação e consumo em rede. toda compartimentação é suícidio e engatinham sistemas de medição qualitativa do real envolvimento das pessoas com o que é produzido nesses novos espaços. acesso não quer dizer interesse, interesse não quer dizer atenção, nem atenção quer dizer envolvimento. dizer possuir o último e precificar isso é, no mínimo, irresponsável. muito há ainda o que se decifrar dessas relações.
parece que existe uma comoção e deslumbre geral com o projeto Interney, que poucos vêem que o que está sendo defendido como inovação - ou saída desesperada para a monetização de blogs - é um modelo já consolidado e velho. engraçado que ironicamente do outro lado, dos grupos que dominam o mercado nesse modelo tradicional, pensa-se diferente e se investe em pesquisa e experimentação para descoberta dos novos caminhos. por essas e outras que ando me convencendo de que a blogosfera, como movimento e espaço de representação, acabou. mas talvez simplesmente era assim que tinha que ser mesmo e é hora de ficar atento para o que e quem estará nas próximas ondas do fluxo.
idéias?
enquanto te deixo pensando, termino o post na tangente e reservando espaço nobre para manifestar minha total admiração pelo último painel do barcamp daquele domingo. foi uma rápida exposição do trabalho de Liana Brazil e Russ Rive, diretores da SUPER UBER, uma empresa que trabalha na convergência entre arte, tecnologia e design. fiquei surpreso e feliz da vida de encontrar esse tipo de trabalho aqui no Brasil, Rio - tão pertinho - e fico torcendo para que de alguma forma em 2008 eu possa cada vez mais esbarrar - e a Verbeat junto - na galera que está navegando por esses outros mares. não deixe de visitar o site deles e dar uma olhada no portfolio e videos.
e, tendo a oportunidade, jamais deixe de ir a um barcamp.

Muito bom, Gejfin. Vejo que concordamos em muitos pontos.
Eu só queria deixar claro que não tenho nada contra vender anúncios em blogs. Meu problema é quando a sanha por dinheiro começa a prejudicar o conteúdo, como acontece naqueles blogs em que os caras até colocam GoogleAds entre o título do post e o texto. Coisa mais ridícula.
Na verdade o meu objetivo era mais filosofico mesmo. A crise existencial do conteudo 2.0 foi uma tentativa de chamar à reflexão os gestores de sites web 2.0 sobre a responsabilidade sobre este conteudo, uma vez que ele era da "humanidade" e nem mais dos seus criadores ou do gestor. O registro hitorico de nossa era ficara "gravado" em bits, estara todo no ciberespaço, então a pergunta: deve-se considerar o conteudo 2.0 um patrimônio da humanidade ?
E aí Gejfin!
Excelente a tua reflexão a respeito da 'monetização' dos blogs. Pensei em ir no Forum de Internet Corporativa que teve o Edney como convidado (o que soa, pra mim, como um paradoxo, mas isso é outro papo), pra ouvir e entender essa proposta dele.
Tua comparação com o jornal é bem adequada, concordo que não estamos evoluindo como deveríamos, pesquisando, investigando e tentando mais.
Essa idéia de 'seletor' de conteúdo, pra mim, não encontra suporte num momento em que projetamos justamente o contrário: o usuário como produtor de conteúdo, avaliador e publicador.
baita post gefin! tinha a mesma impressão sua quanto aos barcamp's. Vou ver se acontece um por aqui e me atiro.
Abraço.