Porto Alegre, tchau.

O texto abaixo foi escrito entre os dias dois e onze de maio de 2006. Mas nunca achei que ficou tão bom ou tão acabado e, por isso, nunca foi publicado.

~ * ~

Eu tenho uma mania boba, que é a de não conseguir dizer "tchau" no telefone. Mando beijo, mando abraço, ou sai um "falou" ou "valeu", mas "tchau" não sei. É que parece que o tchau fica querendo dizer que alguma coisa mesmo acabou, e que os sujeitos que estão intimamente conectados naquele instante, de repente se afastam sem que muito um saiba mais o rumo que o outro vá tomar daquele segundo em diante.

É verdade que acho que sempre soube que isso ia acontecer, mas quando acontece mesmo é diferente: Tô indo embora.

Faltam algumas horas. Pouco, e desembarco num lugar que não é o meu, para ficar.
E engasgo; não sei bem o que dizer.

Não é nada fácil deixar o meu lugar para trás. É minha terra. Minha primeira casa. Porto Alegre. Rio Grande do Sul! Sei que no fundo nada está sendo deixado, mas, sim, também está. E a falta vai ser enorme. Pais, amigos, o Clube no Guarujá, breve Baixo Petrópolis, Feira do Livro, Ossip, churrasca, aquelas determinadas ruas e esquinas e espaços, o frio, a neblina, "guris"e "gurias"; até do Zaffari, reticências. Exagero? Posso vir quando quiser... Posso, mas vou chegar, e não mais estar. Reticências mais.

Não há nada mais líquido do que sair e partir para pertencer a outro lugar. E aqui, ainda mais fantástico, porque não vou para lugar qualquer, mas passo a imergir, daqui algumas horas, em uma cidade, cultura e pessoas que são por natureza os mais líquidos de tudo que até hoje eu já tive a oportunidade de conhecer, com todas as belezas e feiúras que isso representa, exala, produz. Prepraro-me. Terei que aprender um bocado. Beretear.

Eu, apenas um Gejfin, no Rio de Janeiro.

E fico tentando agora acreditar mesmo que umas das formas de liqüefazer a vida é descobrir que distância não é motivo para se ficar longe. Mas, caralho, falta imensa vou sentir de todo mundo. Nem fui, mas já não vejo a hora de aparecerem lá pra visita. Ou de, asssim de repente, eu ligar avisando que podem comprar a carne, fazer o fogo, colocar a água para esquentar e a Polar pra gelar, que tô chegando.

Vou. Muda o ponto. Previsão de ressignificações intensas para o próximo período. Novas conexões com o mundo. E tenho a sorte, a tranquilidade e a felicidade de aportar num lugar onde já me sinto em casa, onde as pessoas de lá, maravilhosas, sempre fizeram com que eu estivesse em casa, e que no ano passado encontrei alguém que me pegou pela mão e assim soubemos fazer um espaço e um tempo que mal tomava conhecimento de qualquer convenção física. Convidamos-nos a morar foi um dentro do outro, e tudo que havia de distante não fazia mais sentido. Tenho a sorte de chegar num lugar onde já estou, se não de fato, presencialmente líquido e fragmentado na atenção, carinho e amizade - e torcida - de gente que talvez mal saiba o quanto já é importante demais na minha história.

Opa, já estou atrasado.

O blog ficará um tempo quieto, até que eu possa me reorganizar. E talvez quando eu voltar, vocês encontrem aqui alguém diferente. Que permanecer o mesmo, sem me deixar atravessar e misturar com tudo que vai se apresentar daqui pra frente, não teria o menor cabimento. Tudo está sempre só começando.

Por hora, deixo-os já na companhia da minha saudade; um Gejfin tomado pelo ser Geva, nesse flutuar a dois centímetros do meu próprio mosaico de sentimentos, mas feliz da vida. Quer pelo que estou chegando, quer pelo tanto que comigo agora está indo junto. Neste momento exato, escrevendo do meio, digo a todos "até logo".

"Deus, por favor me dê cobertura!" Rio, aqui vou eu!

Tchau.

~*~

Postei isso para vazar a saudade um pouquinho. Enquanto não passa o dia, nem chega a hora, nem o avião decola e pousa, em Porto Alegre. Primeira vez que volto valendo para visita ao pago que deixei para trás em maio.

Bom feriado.

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comentários deste post (10)

18out | Milton Ribeiro

Gejfin. Confira a questão 19 do meu quiz. Aquilo é teu, não é?

16out | Milton Ribeiro

Olha, fiquei autenticamente comovido. Quem já teve que se despedir sabe.

Abraço.

15out | Bruno Porto

Gostaria de dizer que isso passa. Felizmente, passa não. Keep walking.

12out | Flavio Prada

Um texto do passado falando com saudades, do futuro. Os teus líquidos são mesmo mágicos. Um grande abraço e ... feriado? é novo?

11out | Lisi

func... e eu quase chorei! ueeeeebaaaaaa! Clube no sábado-ooo! Dá pra pular o chimarrão e ir logo pra Polar? saudaaaaaaade!

11out | Anne

bah! show de bola! a água já tá na chaleira...

11out | vivsy

nossa. boa viagem... :)

11out | Leila

Entendo exatamente o que você sente. Mas também te invejo porque você está muito mais perto da sua terra do que eu da minha... :( Aproveita bem a tua viagem pra casa!

11out | Marize Gejfinbein

Lindo, lindo !!! Imagina só quanto eu chorei.

11out | tati

:D :D :D

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