Da vida que não existe

Quis evitar, mas não consegui. Então ontem, quando cheguei em casa, zap zap zap e lá estava eu, a TV e a Globo News (ou a TV Câmara). Fiquei assistindo ao depoimento do Roberto Jefferson. Coloquei várias almofadas na minha volta caso, de repente, eu começasse a querer quebrar tudo. Mas não foi preciso. O que fica não é raiva, não é surpresa, não é curiosidade, ou nada que seja mais sério ou profundo do que perplexidade; essa é a palavra. Não vou lembrar agora mas na blogosfera ou na Blog-Left alguém comentou (Pedro Dória? Sim... acho que sim!) sobre o absurdo que é a agenda de discussão da política brasileira, a pauta histórica que é formada pelo jogo político e muito menos pelos problemas públicos a serem solucionados, e do quanto a imprensa é cúmplice ou, muito pior, uma geradora Itaipu de energia para esse grande e impressionantemente ridículo circo. Sim, está certa a Ministra (deste condomínio!) Olivia que reafirma o que muita gente pensa, corretamente: não dá pra levar política a sério. Sim, é. Horrível, mas é. Horrível porque é na mão deles que a gente está. "É" porque é absolutamente sem explicação o círculo de baboseira, o afogamento retórico e o estúpido vazio que (olha o trocadilho infame) preenche estes espaços. Mas antes de qualquer coisa, queria das os parabéns ao Roberto Jefferson. Se ele ainda exerecesse a advocacia criminal eu ia matar alguém só para contratar ele para me defender. CEOs do mundo, vocês têm também MUITO a aprender com esta pessoa. Digo isso porque também não há lugar mais propício ao discurso pelo discurso como no mundo corporativo hoje. Não sei quanto durou tudo, mas do pouco que vi (e já tinha se desenrolado muito) nada lá fazia sentido. Tanto ele não respondeu o que pudesse ser relevante, como também ninguém perguntou nada que importasse. Como entender isso? Fácil: é que tudo não passa de uma palavra atrás da outra. Palavras contra ou a favor de palavras. Essa é a impressão. A realidade é deixada de lado para que vivamos dentro - e cada vez mais fundo - do discurso. Posso estar maluco ou tinha alguma coisa muito louca no suco que bebi ontem à noite enquanto assistia ao "esquete" na Comissão de Ética, mas fiquei estarrecido por simplesmente não conseguir extrarir uma só coisa que fosse concreta, que dissesse alguma coisa que pudesse ser conectada com a realidade. Sabe... coisas que a gente toca, coisas que a gente vê... coisas assim, que existem. A denúncia tem sido um jogo de palavras, a defesa é a reorganização das mesmas palavras. A acusação é outra ainda recombinação do que foi disse. E a discussão pública é um terceiro tratamento da bagunça que já está isso tudo. Olha que sou um "ativista" do viver de forma líquida, mas a propriedade etérea da política brasileira não raro diz que ainda tenho muuuuito que aprender sobre desconstruir tudo, derreter tudo, e refazer tudo usando como argamassa pura representação, pura simbologia, pura projeção. Gente morrendo de fome - de verdade - enquanto o deputado Aleluia, do PFL, pede a palavra para citar Michael Jackson e dizer que a "opinião pública" - que pra ele se resume ao que diz a Folha de S. Paulo e a Veja - já condenou esse governo, caiu a máscara da ética e que, assim, nem faz diferença continuar apurando so fatos; já tá de bom tamanho. Tem adolescente sendo morto com canivete por causa de tênis enquanto o Roberto Jefferson interpreta a cena em que, diz ele, o Lula chorou na sua frente ao saber do mensalão. Como assim chorou? Como assim alguém chama o presidente da república de um país de 180 milhões de pessoas num cantinho para dizer sobre compra de deputados e ele chora. Só um pouquiiinho! O FH era o "presidente do Brasil". O Lula é "um carinha ali bacana que tá sentado na cadeira e curtindo a parada". Cadê o respeito? Cadê o Lula que não está se dando ao respeito também? Como um deputado - de novo o baiano Aleluia - diz que, embora o Jefferson tenha "inocentado" o presidente, ele está convencido de que Lula é culpado, porque é quem manda? Acha que Lula tem culpa e pronto. Como "acha"? Isso não é um conversa de boteco. Enquanto corria o depoimento, uns deputados davam risada no fundo, outros falavam no celular. O Roberto Jefferson fazia gracinha com o relator, o presidente da Comissão de Ética era interrogado junto. Alguém tem idéia de quanto dinheiro, quantos Reais por minuto NOSSOS, foram gastos naquilo ali ontem? Porque é a gente que paga para eles falarem, para eles pensarem, para eles, querendo ou não, dirigirem boa parte das nossas vidas. Datas não batem, nomes não batem. Quando ele olhava para a câmera e dizia: "Palocci, eu falei pra ti, não falei? Dirceu, eu falei pra ti, não falei?" Eu não sabia se desligava a TV, se ria, ou se aplaudia de pé, sozinho, o cara, porque como profissional da comunicação não tem como não fazer dele um ídolo. Ele é MUITO bom! Tenho certeza que não vai dar em nada isso... porque, mesmo sendo verdade, o bolo é pura cobertura e a cada vez que vejo o assunto ser exposto, me dou conta do quanto é fácil ficar brincando de Lego com a realidade moldada única e exclusivamente pela linguagem; desfazer de repente tudo que foi feito e que, na verdade, nunca existiu. Ou existiu e tanto faz porque o que existe de fato já ficou anos-luz de distância da verdade forjada pelos discursos, pela imprensa, pelas representações, o que dificulta muito uma investigação séria. Mas, quer saber, vou até dar meu tirinho analítico (furado, muito provavelmente), que eu sou apenas um Gejfin.

Há meses Tarso Genro deixou parte dos gaúchos de cabelo em pé aqui no Rio Grande quando deixou escapar que estava tramando com o Zambiasi (PTB) uma aliança para o governo do estado em 2006. E até ficaram de pé os pentelhos quando os rumores eram de que o radialista (olha os bons comunicadores de novo aí) seria o candidato a governador, enquanto o Tarso (PT), seria o vice. Ontem o Jefferson falou de toda a confusão que foi o apoio do PTB ao PT na Bahia, minado por um escândalo envolvendo os partidos - noticiado por Veja (oooh que surpresa!) - à época e em como o apoio à Marta em São Paulo foi o principal motivo para ele (Jefferson) não ter falado sobre mensalões antes. E que ele só resolveu falar tudo para a imprensa porque a "cúpula do governo" decidiu que queria implodir o PTB - "estava incomodando porque não queria participar do jogo sujo" - com a história dos Correios. Quem era o PTB nos governos Fernando Henrique? A cena política nacional era povoada só pelas beiradas por esse partido. Aqui no Rio Grande o PTB só é alguma coisa porque o Zambiasi é um fenômeno popular. É histórico na Assembléia Legislativa a entrada de deputados "a lá Enéias" só porque os votos do Homem-que-Consegue-Cadeiras-de-Rodas puxavam mais 15. PL e PTB acho que foram os dois partidos que mais ganharam na ocupação de espaços desde Lulalá 2002. Agora é hora de aproveitar, não? Por que continuar à sombra dessa benfeitoria do PT se já se está fortinho pra tentar ser mais dono da bola ou do campinho? E o PSDB? Desapareceu... O partido que mais sonha em ver o governo afundar de repente se desinteressou por tudo isso. E o que é o Jefferson bancando o herói salvador, dizendo que matou no peito tudo isso e vai encarar tudo de frente porque tem esse dever na defesa do partido?! Então é isso: tô jogando minhas fichas numa virada do PTB para o lado do PSDB até o início do ano que vem. A oposição mais ácida vai ficar a cargo do PFL sozinho. Enquanto isso, o PSDB vai passar a dar entrevistas dizendo que os poderes tem que investigar esses absurdos que o PT está fazendo, a sociedade e a imprensa tem que ficar de olhos bem abertos, mas que é preocupação deles também não esquecer de tocar o Brasil pra frente. O Jefferson é "o homem que teve a coragem de dar um basta na pilantragem". Um novo caçador de marajás? O PTB um partido renovado, revigorado... "venham todos!". PP e PL vão voltar para suas tocas escuras. Quem sabe até vir a se juntar com o PFL. o PT fica isolado. Lula então de um lado, na luta. Um candidato do PFL, com apoio do PP, pelo menos, na rebarba. E Geraldo Alckmin com um vice do PTB no outro lado do ringue. Lembrete de última hora: o PMDB. Ah... que diferença faz? O PMDB sempre vai estar no governo, não importa com quem e nem como começam as eleições, até o fim dos dias.

Engraçado também ontem era como o Jefferson dizia ser tudo um absurdo, mas sempre quando se dirigia a alguém fazia questão de reforçar que estimativa muito tal pessoa, respeitava, admirava etc. Incrível como ele é amigo de todo mundo. Quer dizer... nem tão incrível, já que o elemento beira os 25 anos de carreira por entre aqueles corredores.

E olha o tamanho que ficou essa porra de texto! Sim... fui contaminado. Acabei de reescrever mais uma vez palavras que não servem pra nada, sobre nada. É melhor começar tudo de novo. O texto? Não. O mundo. E agora, ó: 1, 2 e...

~ o ~

Extra: pra lembrar que neste post tem mais do mesmo, só que com muito mais verdade.

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comentários deste post (8)

16jun | Inagaki

Roberto Jefferson possui, indubitavelmente, talento cênico. Pena que o roteiro é uma merda, e tragicamente baseado em fatos reais.

16jun | Milton Ribeiro

Rapaz, assisti quase tudo. Mais de quatro horas. Minha opinião deixei lá no Idelber e copio aqui:

Sinto-me meio idiota em alguns meios nos quais circulo. Sou dos poucos que acreditam naquilo que o Jeff está falando, isto é, que o mensalão existiu. Não tornei-me seu admirador, é claro, mas vi seu depoimento por horas e, pensando em suas circunstâncias, acho que ele não mente na essência, talvez apenas em alguns detalhes que excluem a si e pessoas de suas relações e de seu PTB.

Também acho que foi um dia de franqueza x hipocrisia. Quem não sabe como chegam os recursos de muitas campanhas? Quem não sabe que estes recursos não vão inteiramente para as campanhas ou que retornam aos deputados e assessores na forma de benesses quaisquer? Foi um dia em que até o país pode tomar contato com fatos que não eram explícitos. Raramente ouvimos alguém falar com desprezo em R$ 3.000,00 de óbolo... Enfim!

Enquanto isso, Lula nos dá impostos menores... Que loucura.

Grande abraço.

16jun | Marco Aurelio Brasil

Se eu olho meio que desfocado, sabe, igual aquelas figuras que a gente tem que olhar dum jeito assim pra ver outra coisa, bom se eu faço isso o que vejo é o triste e patético quadro do homem tentando fazer o bem com suas ferramentas. Política não deveria ser isso? Mas suas ferramentas são pífias e o espetáculo é assim. Triste. E patético.

16jun | Uilson

O Pior é que tudo isso acaba se passando por Política. Definitivamente, não dá pra confundir Política com politicagem. A Primeira é o que fazemos socialmente todos os dias e a segunda, é o que legitimamos toda vez que reproduzimos esse lixo de sistema.
Falência, essa é a melhor palavra para descrever o nosso sistema eleitoral.
Votar em quem? Qual a diferença quando as regras do jogo são essas???

15jun | monica

Depois dizem que artista só na novela da Globo.Fui ...

15jun | Afonso

Ainda bem que nem perco mais meu tempo olhando essas coisas. E que pena, praticamente também não li o teu post quando vi do que se tratatva :-) abs

15jun | Renato K.

O que eu achei mais incrível foi ele ter reclamado que tudo o que ele combinava secretamente com o José Dirceu, no dia seguinte estava publicado. Peraí - o que será que eles poderiam potencialmente "combinar" que deveria permanecer secreto ? Transparência não devia ser inerente ao cargo ? Acho que também não entendi nada. Só o seu texto, que como de costume, é ainda melhor que os seus templates. ;-)
Abração !

15jun | Viva

Eu teria colocado baldes, ao invés de almofadas.
Palavras são a arma mais poderosa, mas não preciso dizer isso a alguém que escreve como você.

diga aí


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