março 2005 Archives

Alô?

Hoje é um dia estranho. Tô inspirado de transbordar. Mas transbordando para dentro. Blog nada.

Enquanto isso podemos fazer outras coisas. Dormir, trabalhar, ou aprender a usar um telefone, por exemplo.

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I had a dream

Eu estava numa bolha. E daí ela crescia. E crescia. E crescia. Eu pensava em tentar sair, mas via que lá era legal. O bolha tinha pessoas legais, um DJ de DB bacana e umas bebidas esquisitas. Daí um cara acendeu um cigarro e encostou na parede da bolha. Acordei.

* * *

É mentira. O sonho é mentira. Mas que diferença faz, né?

* * *

Esses dias eu e o Minduim conversávamos sobre o fim dos tempos. É, o apocalipse, o juízo final, as trombetas e tal. O fim do universo. A gente achou legal, legal acabar tudo. Pessoas não estão fazendo bem pro Universo. Então um dia tudo acaba! - eu disse.

- E o mundo é dominado por lagartos - disse o Minduim.
- É! Os lagartos tomam conta! Um mundo bem melhor! A Terra bem melhor!
- É!
- Daí um dia um lagarto inventa a Internet.
- Melhor a gente trabalhar.
- É, melhor.

* * *

Lá na Indonésia, anteontem, um terremoto de 8,5 graus destruiu e matou no norte da ilha de Nias. Cientistas americanos alertaram para o perigo de um novo tsunami, em no máximo duas horas após o abalo sísmico. Passou duas, três, dez horas, dois dias e nada. E eles não estão entendendo nada. Da outra vez a desculpa foi que não sabia para quem avisar. Nada faz sentido. Esses americanos são uns idiotas.

* * *

Hoje, 30 de março, há 152 anos na Holanda nascia o gênio, gênio pra caralho, Vincent Van Gogh. As pinturas dele me fascinam. A história dele me fascina. Tenho replicas de alguns quadros em casa, incluindo este, que fica em cima da minha cama, e que não raramente me tem à sua frente, contemplativo, até o dia em que eu descobrir o que aquele casal caminhando na rua está fazendo. Eles nunca estão do mesmo jeito. Não sei se se conhecem, se conversam, se flertam, se estão brigados, se vão para o mesmo lado, se andam em sentido contrário. Isso me deixa atordoado. Mas um dia eu descubro. Ah descubro!

Cafe Terrace on the Place du Forum, pintado em Arles, França, em setembro de 1888 O casal misterioso. Um dia eu pego eles. Ah pego!


* * *

Que chatice agora essa discussão se pode ou não gaúcho entrar em CTG usando brinco. Essa gente não tem mais nada para fazer, não?

* * *

Sexta - anote aí - nesta sexta tem de novo o show de RICHIARDI, TIAGO CEVI E FERNANDO CAINELLI, que tem aquele velho uruguaio que QUEBRA TUDO nos vocais, fazendo um rock´n´roll de primeira. É lá no Bongô (João Alfredo, 471), às 23h. Se estiver de banda, não perde.

* * *

Já contei daquele sonho onde fumava um charuto e jogava pôquer com um jacaré de papo amarelo? Ok.. ok... deixa pra lá.

I have a dream

A propósito de nada. Inspirado em qualquer nenhuma bobagem. Dando seqüência ao que não foi começado.

Tô com sono, injuriado, um pouco melhor da gripe, mas o dia tá bonito quente são dez da manhã e Festa no Apê deve estar, neste momento, tocando em centenas de rádios pelo país. Nesse momento. E o que importa? Mas lembrei da cena em que a adorável Amélie faz a contagem de quantos orgasmos Paris abriga em um minuto, naquele minuto. Acho que eram 5, se lembro direito. O que é uma maldade. Há muitos mais, com certeza. Ou, quer dizer, do jeito que o mundo anda, talvez muitos menos.

Pronto. Lembrei de um bom motivo. (Orgasmo, não. Ei, não viu que mudei o parágrafo?) Domingo foi aniversário de Porto Alegre. Então nada melhor que um bom carreteiro com o que sobrou do churrasco de ontem.

~ ~ = = ~ ~

Só Um Pedaço da Terra I

Tchê, dá aí uma bolacha e passa logo esse mate que isso não é microfone.
Tchê, diz para aquela guria que achei ela linda. E se sobrar uns pilas, pago uma ceva gelada e convido ela para ir no churras lá na baia.
Tchê, que cusco mais chato, mada ele ficar quieto, que não tô conseguindo ouvir o jogo do colorado.
Tchê, que lugar mais chinelo esse boteco...
Tchê, que noite bem palha, vamos abrir fora, que já tô encarangando com esse maldito minuano.
E hoje tu tá foda. Ficou aí quieto, sem dizer uma palavra.

Bá, é que tô viajando. Tu não tem noção. Não vejo a hora de a gente se largar logo pra Santa no verão.

~ o ~

Só Um Pedaço da Terra II

Mas olha que guria aquela ali na esquina, tchê!
Nem parece china da vida.
Olha que cintura, que peitão, que bunda.
Imagina na cama, que baita peleia!
Deve custar uma banana.

- Ei, tu aí, guria. Faz programa?
- E tu acha que tô aqui no centro, na rua, essa hora, vendo as estrelas?
- Tá, e quanto é?
- Pra dois?
- É. E fazendo de tudo.
- Pra dois é mais caro, mas a gente negocia.
- Então te aprochega. Vamos dar essa banda.

...

E daí, tchê, que tal a china?
Pra mim... bá, valeu cada pila.
Mas fiquei cabrero com uma coisa: Acho que eu a conhecia.
Tri parecida com uma guria lá da faculdade, que peguei uma vez numa festa à fantasia.
Ela também tinha uma tatuagem de peixinho na virilha.
Que palha cair assim na vida, né tchê?
Se bem que vagabunda já era, só deixou de ser burra.
Mais uma ceva?

~ o ~

Só Um Pedaço da Terra III

Ô guri, desce daí!
Daqui a pouco tu cai e te pisa!

Piá endemonhado... Que inferno!
Tá sempre fazendo arte.

Mas tu vai ver só uma coisa...
Vou lá chamar teu pai, ele vai pegar a cinta e cortar ligeirinho teus naipes.

~ o ~

Só Um Pedaço da Terra V

Barbaridade, tchê. Não acredito.
Ô idéia de jerico:
Vir a cavalo acampar no precipício.
"7 bonachas que falam chiadinho..."
Tu não sabe que a minisérie foi gravada em Pelotas?
Bagual burro!
Mostravam a serra só porque é um lugar bonito.

Mas agora já está tarde.
Pra não pegar sereno,
Voltamos de manhã cedo.
Sorte que eu vim preparado.
Pelo menos quebra o galho.
Mas te enfio um facão na güela,
Se tu ficar dando risada.
Essa Barraca do Rambo.
Foi presente da tia Rosália,
quando fiz 8 anos.
...
Apaga aí a lanterna.
...
Tchê, vira pro lado.
Tu tá roncando muito alto.
...
Tchê, tira essas botas e não te mete no meu espaço.
...
Tchê, mais um cheiro esquisito
E vou te botar para dormir com os cavalos.
...
Tchê, não te entroxa no pelego.
Fiquei destapado.
...
Tchê, que saco.
Ainda tô acordado.
Meu pé tá gelado.
Que frio que faz aqui nos Aparados!

Não vai ter jeito.
Ainda mais com esse fecho aí estragado.
Pra não encarangarmos na madrugada,
Já que estamos mesmo ferrados
E ninguém tá vendo,
Te aprochega mais um pouco pra dormirmos abraçados.

E não te fresqueia.

A...

... a... wA.. AATCHOO.O.O..U!!!

[func]

:/

Não sou cristão. E toda semana santa, pra mim, são dias como outros. Mas tendo um monte de "estranhos" que significam esses dias intensamente, por isso já é importante e resolvi falar alguma coisa, aproveitando que ontem passei ao acaso por um trecho muito apropriado do livro Amor Líquido, do Bauman. Ali o alvo é a invasão americana no Iraque, mas serve à ideologia do terror, como ao que aconteceu há dois mil anos.

"Provocar a fome ou causar a morte de uma única pessoa não é, não pode ser, um preço que vale ser pago. Não importa quão 'sensata' ou 'nobre' possa ser a causa pela qual se pague. Tampouca a humilhação ou a negação da dignidade humana pode ser esse preço. Mas não é porque a vida digna e o respeito à humanidade se combinam num valor supremo que não possa ser superado por nenhum outro, mas tão somente porque todos os outros valores só são valores na medida que sirvam à dignidade humana".

Cristo, independente do que era ou do que fizeram dele depois daquilo tudo, foi um indivíduo humilhado e morto nessa condição da "desumanidade humana". Ele era um "estranho" e isso precisou ser eliminado a um certo preço. Podemos dizer ser um exemplo que serve para lembrar de como éramos bárbaros e menos "evoluídos" civilizadamente naquela época. Ou, se trazermos aos nossos tempos, atos semelhantes, como as guerras americanas e o holocausto, foram o que foram por culpa do pensamento moderno levado às últimas conseqüências, como Bauman mesmo descreve. Mas a verdade, penso, é que de lá pra cá ainda, em hipótesa alguma, fomos capazes de alterarmos em nada a base de todo nossa maior estupidez como seres humanos: não ser 'humanos'. Somos, tão somente, animais pensantes, carnívoros e canibais. Exercitamos dia após dia o humilhar, matar e devorar estranhos outros humanos, simbolicamente ou não, para que nossos "semelhantes" não tenham tempo de ver nós mesmos como sua próxima refeição.

Se é então para fazer desses dias importantes, digo que lembre e pense não em Cristo, mas no que foi feito a ele e o que levou isso a ser feito. Que seja exemplo para nossas vidas não o que ele dizia (ou só o que ele dizia), mas a coragem de subverter a ordem pela dignidade humana. Pensar nas crucificações que fazemos de estranhos todos os dias, bem como assassinatos indiretos que cometemos no momento que aceitamos não só humilhar mas sermos humilhados, concordando que se paga um preço, qualquer que seja, para um dia ser quem alguém disse que *deveríamos* ser, ou chegar a um lugar prometido que alguém nos fez acreditar que iremos chegar.

Bauman de novo:

"Aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade."

Experimente, ao invés de sair à rua nesses dias para ir até a Igreja de sempre ver o "corpo" daquele que foi o Salvador, sair e ficar pelas ruas, tendo coragem de olhar para os lados e perceber para quantos Cristos (que podem ser salvos) somos romanos o tempo todo.

Ip! Ip! Urra!

Felicidades ao amigo-gêmeo, que faz aniversário hoje! Eu me orgulho desse cara pra caralho!

Uma vez até escrevi um poema para marcar o dia. Isso faz alguns anos.
Falava sobre o amigo, Polar, botecos, escrever e beretear.

E a gente nem sabia direito onde o "beretear" ia levar.

Amigo, te desejo... Ah.. desejo nada! Chega de frescura e vamos logo encher a cara!

:D

(Tiagón? Não... eu falo do dinossauro.)

Ontem estava lá na Zero Hora: "Cão sobrevive com faca na cabeça". E se não bastasse o horror da chamada, o que aconteceu foi isso mesmo. Um cão de sei lá que cidadezinha catarinense resolveu andar por aí com uma faca cravada no meio do crânio. Mas ainda, se não bastasse ler a chamada e a matéria (ocupou meia página), lá estava a *FOTO* do cão com a faca na cabeça. Enorme (a foto e a faca; o cão era algo perto de um fox). Um horror. Fiquei torcendo para que os pais tenham visto o jornal bem antes dos filhos.

O quê?! Absurdo?!

Absurdo é abrir o jornal hoje e ver a REPUBLICAÇÃO da foto, na página 3, com uma nota sobre adoção do bichinho.

* * *

Pensou sobre isso? Então agora esquece e vai ver o post acima.
.
.
.
Ei! Eu disse esquece!

Hoje apresentaram ao meu eu de mercado, empregado, sistematicamente adaptado, assimilado, uma nova proposta de vínculo empregatício. Que de proposta só tem o eufemismo, porque é estar dentro, ou fora. E dentro significa como sempre um pouqunho mais do "perder" a ganhar, ou mesmo empatar.

É f***.

E daí lembrei de um dos primeiros textos que publiquei neste blog, lá em meados de 2003.

~ ~~~ ~

Parafuso

O parafuso no buraco, certo, um dia decidiu girar ao avesso, errado, e mudou toda a vida da fábrica de sapatos, velha.
Entrou e disse que acabava ali, na hora, toda a ignorância, imunda, dos homens operários, simples, que há anos apertavam parafusos, quietos.
Descobriram, tarde, que o lado de uma vida inteira, chata, não estava sozinho, triste, mas tinha seu oposto, livre!
Desde então todos, sábios, passaram a ver o mundo, estranho, sob dois pontos de vista, claros.
Hoje da fábrica, rígida, restam apenas escombros, arrependidos, enquanto ganharam as ruas, sujas, mais mil novos desempregados, mendigos.

O que sustenta a existência de Deus é o inferno.

~ ~~~ ~

Ou pelo menos é no que querem que a gente acredite.

~ ~ ~

Andando pela cidade vejo o vento levantando folhas secas do asfalto. Bendito seja o outono. Leva logo esse verão do inferno embora!

Que beleza.

Segunda... já?

Resumo do fim de semana: "velho"?

~ ~ o ~ ~

Sábado, um senhor que devia estar beliscando os 70 simplesmente resolveu que ia deixar todo mundo boquiaberto lá no Bongô. Segundo os donos do bar, foi ele que pediu para tocar, para ser o "show da noite", no bom-pequeno bar da Cidade Baixa.

Na descrição dizia RICHIARDI, TIAGO CEVI E CAINELLI - Show com os clássicos do rock internacional.

Ninguém fazia idéia.

Quando de repente sentam os três figuras nos banquinhos. No meio, ele, o velho, que era uruguaio - pelo sotaque -, de barba branca, camisa escura, calça jeans, cinto com aquelas fivelas de peão, boina e óculos escuros.

A gente só pensava: "ai... o que que vem?!"

O velho QUEBROU TUDO. Os outros dois caras tocavam bem, mas não sobrou ouvido para prestar muita atenção. Com uma voz rouca o "senhor grisalho" destruiu. Era a galera toda de pé, cantando junto.

Idade, velhice, poucas vezes essas coisas fizeram tão pouco sentido.
Que bom. Por que não ressignificar isso também de uma vez por todas?

~ ~ o ~ ~

À deriva

Tem a ver com esse post.

Minduim, achando que merecia a última palavra, mandou este presente para o Blog do Gejfin.

A imagem é do alto do Centre George-Pompidou, centro da capital francesa. A vista é uma panorâmica, parte do sul, oeste e parte do norte da cidade.

Magnifique!

* * *

Ontem comemorou-se o St. Patrick´s Day na Irlanda. Aulay, Gerry e Wilbie, com certeza, participaram das comemorações. Devem ter discursado e tudo. Porque vocês sabem, na Hidden Ireland eles podem tudo.

* * *

Não é possível que já seja sexta-feira.

* * *

- Quem é!?
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção.
- E o que você quer?
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor.
- Cai fora.
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor. Mas tudo bem se você não puder ajudar. Obrigado.
- É. Não vou ajudar. Bom dia!
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor. Mas tudo bem se você não puder ajudar. Obrigado. Bom dia.
- Chega! Cala a boca!
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor. Mas tudo bem se você não puder ajudar. Obrigado. Bom dia. E desculpe.
- Ei! Você tem problemas!?
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor. Mas tudo bem se você não puder ajudar. Obrigado. Bom dia. E desculpe. Esse é o meu trabalho, sr...?
- (odeio que perguntem meu nome)... Findomar.
- Faço parte de uma ONG que ajuda a salvar animais em extinção. Estamos pedindo alguma contribuição para nossa entidade. Qualquer valor. Mas tudo bem se você não puder ajudar. Obrigado. Bom dia. E desculpe. Esse é o meu trabalho, sr. Findomar? ... uá.. uá... rá RÁ RÁÁÁ...

BAM! BAM! BAM!

Naquele sábado de momento LinT, além das performances memoráveis de Roupa Nova dos amigos, ficamos parte da madrugada, levados pelo som de Legião Urbana, discutindo *tudo sobre relacionamentos*. Sei lá se o papo era tudo isso mesmo - no fundo não passavam de clichês que vão de lembranças dos velhos tempos a filosofias de bêbado. Mas o quórum era tão qualificado, como era tanta a quantidade de cerveja, que foi fácil virar algo interessante às pampas.

Numa das filosofias, acerca de qualidades, defeitos, pessoas modernas, pessoas do nosso tempo, casamento e separações com champignons e molho madeira, passou voando uma idéia a respeito do que dizer da palavra "patrimônio" ali no meio. Não seria essa também uma palavra que em poderá ser ressignificada? Não totalmente. Mas em parte.

Patrimônio hoje são coisas que podemos pegar, ver, acumular, dar um preço. O HOUAISS definine como sendo o conjunto de bens familiares; ou, no que passa pela cultura, o conjunto de bens culturais que podem ser tombados, reunidos, para caracterizar historicamente determinado grupo de indivíduos. O Direito (sempre ele) vem e deixa a coisa mais "sólida” ainda, e sob seus tomos diz que é o conjunto de bens, direitos e obrigações *economicamente* apreciáveis. Quase que não sobra espaço para escapar, mas acho minha brecha na sempre libertária "rubrica figurada": patrimônio é simplesmente "grande abundância", "riqueza", "profusão". Aqui embarco para continuar essa prosa.

Já vi usarem a expressão "patrimônios imateriais", mas “imaterial” me incomoda, porque tem como referencial a “versão” material. Não. Tem que ser diferente. Fora esses tais aí são considerados bens culturais, não físicos, mas como a cultura pela ótica da produção (A Petrobras diz que investe em "bens imateriais" dando a entender que isto é patrocinar o carnaval, por exemplo). Patrocínio? Já bagunçam tudo... e êta coisa chata essa de insistir na massificação dos sentidos!

Bom, o decreto primeiro então é que bens não precisam ser só físicos. Temos bens subjetivos! Nossas significações. E, além disso, essa história de objeto, monumento, construção vem perdendo espaço como sinônimo de história, de permanente e de sagrado como tinha no tempo dos nossos avós. Dificilmente adquirir algo material hoje é ir além de TER para poder USAR, e depois TROCAR por outro que seja NOVO. Ou se não é assim ainda, tende a ser cada vez mais. O patrimônio formado disso, que tem valor pelo seu acúmulo e proporcional ao tempo, pende ao descartável, ao transitório. Seria então o fim dos patrimônios? Não, se incorporarmos a ele aquela outra parte “leve” da nossa constituição: a subjetividade. Teremos o patrimônio subjetivo.

Pois já que tudo começou com relacionamentos, voltamos a eles. Nos casamentos, quantos não foram os patrimônios – desses antigos - responsáveis por fazer perdurar até que a morte separassem, uniões que por entre os pilares da aprência já havia ruído há muito tempo? Se patrimônio é razão de alguma coisa, que se pense ele além de objetos, mas formado também de um baú cheio de significações; significados. Significações do casal e significações individuais. Por que isso também não passaraia a contar na divisão dos sujeitos? Livros, TV, som, CDs... apartamento. Tem muito mais coisas misturadas, além daquelas que saem e entram fácil num móvel, numa gaveta. Um "inventário" do patrimônio subjetivo pode, quem sabe, logo passar a fazer parte do conjunto, não?

Como saber realmente tudo que tem aí dentro?

E individuais, principalmente. Cada vez mais individualistas somos, ou para isso caminhamos - e não confundir individualidade com egoísmo ou ato na direção do não compartilhável. Não parece óbvio que também passaremos a nos dar conta das nossas *posses* subjetivas? Se o que se pega, anda não fazendo tanto sentido na constituição dos “eus”, vazios é que não ficamos, certo? Patrimônios subjetivos, cujas estantes encontram-se dentro de nós mesmos – levamos para onde queremos –, não parece um horizonte assim tão distante.

Ou não. Muitas perguntas. Não sei as respostas. Óbvio que o pensamento ficou incompleto. Incerto. Frágil. Se as roubesse seria um gênio, que não é meu caso. Mas ironia mesmo foi que chegou o dia seguinte e fui surpreendido por uma breve propriedade dos meus achados.

Algumas significações que pensava serem minhas, ou do sujeito consituído de dois outros, eram aproveitadas num novo engajamento, sem muito cuidado de guardar isso, ao menos, entre as quatro paredes do novo lugar feito. Tudo bem, acho que entendo. É culpa do dicionário, da confusão público-privado, e desse choque de modernidades. Pouco caso se faz ainda do patrimônio subjetivo dos sujeitos. Passa.

Tempo depois ainda me volta o pensamento. Fui ver Finding Neverland - não é isso uma crítica cinematográfica -; o filme canta pneu por estas estradas. Como Big Fish, por um outro viés. O ponto que trazem é a encantadora dúvida de até onde vai o limite entre o que somos e o que nos moldamos de nós mesmos; realidade e fantasia. O quanto o "real" contribui para sermos alguma coisa? E quanto a fantasia faz o mesmo? Aliás, real existe? Ou será que só o que existe é cada uma das individuais percepções do real. Percepções? Então podemos ser tudo aquilo que criarmos para nós mesmos? E, sendo assim, será o real uma mentira, um sonho? Talvez, com a diferença que quase sempre se pensa não estar sonhando. Mas se verdade não é verdade, o que é? Ora, a única verdade é a mentira! Qualquer coisa só o é porque nós a significamos. Temos liberdade para significar o que quisermos, ou seja, "realizar" o que quisermos (se é permitido fazer isso é outro papo). Viver só na realidade que é compartilhada por todos, é viver uma significação que é de outro (e quem muitas vezes nem conhecemos). Não é preciso exagerar e ser Peter Pan, vivendo noite e dia numa Terra do Nunca, ou usar a fantasia como forma de fugir do que não queremos ver de nós mesmos nos olhos dos outros, mas brincar de ressignificar a vida o tempo todo, de "re-realizar” o real e, assim, construir um maravilhoso patrimônio subjetivo é legítimo. Como reivindicar posse do seu ser sujeito sempre que você achar que isso deve ser feito. Fazer tesouro de suas significações e defendê-las de piratas é talvez simplesmente deixar claro que você é você mesmo, para si e para os outros. Daqui para frente, a história pode começar a ser contada desse jeito. Vai saber. Eu, tô dentro.

~ ~ ~ ~

Extra fora de contexto, totalmente. Porque ele diz que mora no Marrocos. E quer que a gente acredite. Renato K. e seu Pra lá de Marrakech fazem agora bigodes de caneta bic no óleo de girassol sobre papelão Verbeat Blogs. Leiam! Só cuidado com os camelos.

Célia

ou Porque Há Horas Não Escrevia Um Conto e Deu Vontade

Célia é puta. Mas daquelas putas bem putas mesmo, que fazem ponto no cair do dia ali na Garibaldi, fazendo conchinha com a mão para conseguir acender o cigarro, perna grossa, apoiada na parede do prédio da esquina, quase estourando o shortinho de Lycra laranja. Soutien branco. É verão e Célia odeia colocar muita roupa quando faz calor. Disfarça, passando pó na coxa, um hematoma. Não é que escorregou na cozinha, a coitada, lavando louça?

Célia tem família. Daquelas bem famílias mesmo. Marido – o Juarez – que está desempregado, fica o dia em casa assistindo TV. Três filhos, sendo duas meninas. A maior vai tentar o terceiro vestibular para medicina. O menor, na verdade é o quarto; está na barriga, mas Célia nem desconfia ainda.

Juarez não ajuda em nada; também não atrapalha. Faz pouco caso da atividade da esposa, porque quando era piá, lá em São Bento do Agreste, aprendeu que importante na vida é água, feijão, casa e saúde. O resto é bobagem de quem tem esses aí à vontade. Como a profissão permite, Célia tem o dia para arrumar a casa, levar os filhos na escola, ir na farmácia, no super, nas lojas e na feira, que ela adora. Escolher legumes, frutas, verduras. Tem gosto pelas coisas que vem da terra. E quando tudo isso vai para a panela pelas mãos dela, é uma festa. Só não suporta lavar louça; fica brava. Não é raro quebrar por descuido um copo, um prato, ou escorregar no piso molhado, como semana passada. Hora essa, única, que se ouve ela reclamar do marido: “Juarez, seu maldito vagabundo, qualquer dia te largo!” Larga nada. Já dura 15 anos essa promessa.

Aliás, é nessa noite que se comemora a importante data. Célia, que já tinha um ótimo relacionamento patrão-empregado, conseguiu dispensa do trabalho. Ganhou felicitações e ainda, um dia antes, uma gorjeta extra como agrado do Felipe, empresário, cliente querido e confidente, que tornou-se o mais fiel da carteira depois que ela passou a dar o rabo. Célia teve por anos essa restrição no cardápio. Dizia que ali para ela era sagrado. Medo; essa é a verdade. Acabou só em um feriado, quando a família toda foi acampar numa praia ali por perto. Depois de beber um pouquinho além da conta, Juarez e Célia foram para a barraca e ele mostrou com cuidado que, no fundo, aquele medo era bobagem. Célia adorava quando aprendia em casa coisa nova para usar no trabalho.

Mas voltemos ao aniversário de casamento! Depois de a irmã Cecília chegar para tomar conta da gurizada, Juarez e Célia foram jantar fora. Ela, bonita, vestia blusa e saia rosada “sem brilho porque isso é coisa de quem não tem luz própria”, falava rindo, abraçando o marido pela calçada. Sapato alto, cabelo arrumado, maquiagem leve. Ele, de terno escuro, um pouco desajeitado. Não fosse ela ter ido junto no shopping, ia ser uma catástrofe. De roupa de homem, Célia dava aula. Mesmo sendo uma puta barata, perto daquelas de faculdade, não era pouca sua clientela da alta roda da sociedade. Daí, quando era o caso, depois do serviço, tinha mania de subir ainda nua na cama – era baixinha – para fazer o nó da gravata do sujeito, antes de ir embora.

Os dois jantaram, espaghetti al quattro formagio, beberam uma garrafa de vinho tinto e não cansaram de trocar carinhos, beijinhos e palavras bonitas. Não do tipo de quem lê em romance de banca de revista, ao contrário, deixaria de queixo caído bons poetas. Como quando Juarez, segurando a mão dela e – esperto – vendo que Célia o olhava profundamente apaixonada, disse: “Amo-te simplesmente porque és só minha”. E ela era.

Saíram do restaurante e Juarez propôs um final de noite de gala, numa suíte que tivesse música, cama redonda, hidromassagem, champagne... Delírio interrompido, com o dedo indicador dela cruzando os lábios dele: “Shhh... Meu amor, hoje é dia que tudo que menos quero é sexo na rua. Quero o meu homem, e que meu homem me coma na nossa cama.”

Juarez nem discutiu. E não só não discutiu, como entendeu perfeitamente. E entenderias também tu, se conhecesses Célia, imaginando que era ela falando isso dessa maneira – Ah Célia! A noite foi longa e maravilhosa. Ela já pensara há dias em algumas surpresas. Bobo, Juarez sorria, principalmente quando ela fazia aquelas coisas que ele, bem sabia, ela só em casa fazia. O sol entrava pela janela quando enroscados adormeceram.

Melhor dormir mesmo. Puta, puta como ela é, não pode se dar ao luxo de enforcar o trabalho. Porque Célia não é qualquer puta, é daquelas bem putas mesmo, que acendem cigarro com a perna apoiada na parede do prédio da esquina, ali na Garibaldi, tapando com pó o hematona na coxa grossa, que quase rebenta o justinho shortinho de Lycra laranja.

* * *

Um fim de semana bem vagabundo pra todo mundo.

Foi um comentário meu lá no Schizo-Blogg, do amigo Uilson. Trouxe para cá. É sobre essa nossa constante angústia em relação a querer ser livre de coisas que nos são invisíveis.


A "liberdade" não foi a lugar algum. Ela finalmente chegou. E esse tem sido o problema. Ser livre é uma coisa que a gente não aprendeu. Como nunca soubemos "ser" (qualquer coisa) sem aprender a ser coisas determinadas.

De repente descobre-se sobre a mentira do aprender como promessa de realização, e dali morre também o sentido de "tornar-se" como projeto, e projeto único.

Pois é hora de trocar o "aprender" e "tornar-se" por "experimentar".

Só "experimentar" é libertário, porque é a forma de bem conviver com a única verdade sobre "aprender" e "tornar-se": eles sempre foram infinitos e irrealizáveis.

Elas

Parabéns às mulheres.

Especialmente
aquelas que admiro tanto
Cujo talento é
simplesmente
d.
..e..s
......m
..........o
............r
..............o..
................n
.................a.
..................r
minha
noção
de espaço-tempo
tudo.

E não precisa ser miss.
Não precisa ser genial.
Às vezes nem precisa me conhecer profundamente.
Ou que eu nem conheça,
Há tempo, há.gora, há.caso.

Mulheres assim
São assim e pronto.

Já nascem sendo.

M~u~l~h~e~r~e~s com til.

Daquelas que sempre que
vejo, penso, sonho, (invento)

do chão estão
a dois centímetros

~ ~ flutuando ~ ~.

Ou nem tanto.

Mas e não ver elas assim,
Como?!

* * *

Ontem, antes de dormir, fiquei pensando numa lista do tipo quem são as "Minhas Mulheres"? Não, não "minhas" do pronome possessivo, "minhas" porque são mulheres cuja idolatria vale só se construída do meu ponto-de-vista. Minhas Mulheres, por serem, das que eu conheço, mulheres superiores, admiravelmente superiores, e ponto.

Não foi difícil; descobri o óbvio: essas mulheres dificilmente saem da minha cabeça.

O Post de Segunda

Resumo do fim de semana: com tiros.

~ ~ ~

Eita! Não é que o Chorão, do Charlie Brown Jr. sofreu um acidente no fim de semana? E eu aqui falando que queria que ele desaparecesse. Pois bem, ao que tudo indica foi culpa dele. Total. Não respeitou sinal, bateu num outro carro e este avançou contra pedestres na calçada. Quatro feridos. Chora, Chorão, chora.

~ ~ ~

Pais e filhos: duas matérias hoje. A primeira do Financial Times, sinalizando ao mundo globalizado para que estejam alertas. A façanha da Argentina pode abrir precedentes para uma revisão de conceitos na ordem econômica mundial, no que compreende credores e devedores. A segunda foi uma nota sobre um relatório de uma empresa de segurança americana chamada Clearswift. É sobre como os blogs podem representar uma ameaça às grandes corporações, com "problemas" que vão desde a perda de produtividade de seus empregados à exposição pública de informações sigilosas, passando pelo "lavar roupa suja" em público, por pessoas insatisfeitas com o trabalho. Já estão preparando ferramentas e políticas para conter o "perigo".

Lembrou tanto filhos rebeldes reprimidos por pais conservadores, que querem que o futuro do mundo seja como é hoje seu presente. Pobres sólidos: rápido serão passado. Pois que seja bem-vinda a desordem desses nossos bons "adolescentes"!

Tem Como Não Desejá-la?

Conversa minha e do Minduim sobre nosso fascínio por Paris.

Daí ele diz: que bom que pelo menos eu tirei muitas fotos.
Ao que respondo: eu não tirei tantas como gostaria, mas, também, Paris não é o tipo de cidade que cabe em fotografias.

E ponto.

Dúvidas? Leve isso pra ler na cama.

E bom fim de semana.

Um Dia de Progaganda de Margarina (ou quase isso)

Tem sido raro acordar, ligar rádio, ver jornal, e receber boas notícias. Hoje foi um desses dias. Tirando, claro, que "acordar", e cedo, já é começar mal. Mas vamos lá...

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Começou com o anúncio de que o Charlie Brown Jr. vai acabar. Se tem uma banda que podia já há horas ter sofrido um desastre, do tipo todos comerem uma salada de tremoço estragada e ficarem de gaganeira até as trombetas do fim dos tempos tocarem, essa banda é o Charlie Brown Jr.. Mas se nem todos gostessem de tremoço, ficaria contente se só o Chorão comesse. Claro que ele é o pivô da separação. "Se atacou dos nelvo" e quer dar um tempo na relação. Mas como nada é perfeito, disse ele que vai agora lançar um trabalho solo. Assim, meu projeto da salada de tremoço não será engavetado. É... também pode ser só mais uma manobra promocional. Daqui a um ano eles voltam, vão no Faustão se abraçar e lançam um CD-gravado-ao-vivo-na-banheira que vende 2 milhões de cópias.

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A segunda notícia é que o jagunço promovido a coronel, Severino, e seu "baixo clero" viram afundar, por hora, o projeto de aumentar seus prórpios salários. Foi um movimento do "alto clero", que é um pouquiho mais espiado em relação à opinião pública. Óbvio que o naufrágio deve ser só imersão temporária e, quando a imprensa estiver preocupada, daqui a alguns meses, com outra coisa qualquer (como a CD solo do Chorão), eles vão lá, aprovam, e ninguém vê nada.

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Foto: Adriana Franciosi/ZHAcho que é uma série, chamada "Mulheres, a Nova Geração", da ZH - Segundo Caderno -, que tem a ver com o dia 8, o Dia Internacional delas, as Mulheres. Na largada de hoje, a entrevistada foi a Carol Bensimon, de textos ótimos, bandeirinha fincada na blogosfera e parceira deste sujeito que vos fala, mais Tiagón, Ana, Júlia e Karine no já extinto Poetikaos. Para quem leu ou for ler a matéria fica um adendo que, felizmente, a Carol é MUITO mais do que a Mariane Scholze despejou por lá, num texto e numa mini-entrevista que beiram a mediocridade. Em uma passagem que não está na Internet, a jornalista diz que blogs, hoje, são um estágio obrigatório para escritores. (Ei! Ei! Blog/Internet não é etapa de aprimoramento para se chegar a livro impresso!). Já na entrevista propriamente dita, depois de perguntar "Você já é quem queria ser quando crescesse?" e ter como apropriada resposta da Carol "Não. Nunca tive muito esses sonhos de "o que vou ser" quando pequena.", para fechar a pergunta foi "Onde você poderá ser vista daqui a 10 anos?" (Ahhh!) E a resposta, óbvio, não podia ser outra: "Ai, meu deus... Não imagino nada daqui a 10 anos. Não tem como saber nem daqui a uma semana, e isso é uma coisa que me angustia um pouco. Tenho um certo complexo de Peter Pan. Acho melhor não criar expectativas."

Não, Carol, não um "complexo", uma patologia. Fica tranqüila. É simplesmente ser líquido, como muitos e muitos de nós somos hoje, tirando tua entrevistadora, e o Severino. Não, ele definitivamente não é líquido.

O pior da Internet

Spams! Spams! Spams!
Desde ontem à noite fomos bombardeados com essas pragas! Alguma coisa acoteceu com nossos cães de guarda que selam entradas de comentários na defesa contra esses malditos robôs.

Agora, por enquanto, vencemos. Mas não sei quanto tempo isso dura.

Queria um dia poder cortar dedo por dedo dos fdp que programaram/programam essas coisas.

Tudo Junto Reunido

Óia! Hoje faz 1 ano que nos revoltamos contra as mega-corporações de sistemas de blogs para seguir nossas egotrips num lugar em que se pudesse pendurar em cada porta a placa: "aqui mando eu".

Verbeat Blogs de aniversário! Parabéns para nós!

(Ei! Ei!... O bolo é meu. Trouxe só para tirar a foto. Larga meu pé... Tira o dedo do meu olho... ahhh... %#$%%#... ...*)