Um Texto Só Para Perder
Um Texto Só Para Perder Tempo
Se tens alguma outra coisa mais importante para fazer agora, nos vemos depois, ou nunca. Isto é uma aviso. De amigo. Este texto o fará perder tempo.
Às vezes fico tentando por minutos e mais minutos encontrar aquela fórmula lógica que possa quebrar a regra, mudar o mundo. E sempre que penso nisso, fico com a impressão do quanto é frágil, perto do que nos parece, este sistema no qual estamos inseridos.
O Roberto Henrique, adolescente aí quaquer no mundo, poderia ser tu ontem, hoje ou sempre, tem 15 anos, e acorda todo dia com a mãe o sacudindo: -- Roberto Henrique, olha a hora, guri! Levanta e vai para a escola! Vagabundagem tem limite! Este é o único compromisso que tens! Continuando assim, vais ser o que quando crescer?
Vai ser alguém normal. Porque essa vagabundagem passa. Pena que passa. Coitado do guri, mal sabe o quanto ainda precisará ser responsável perante o mundo e o quanto escravo será assim que ingressar na faculdade, no mercado de trabalho, constituir família. Deveríamos ter o "Dia Mundial do Descompromisso", feriado em todo lugar. Quase como o carnaval brasileiro, este seria um dia de repúdio a qualquer comprometimento que possamos ter. Qualquer.
Imaginem se todos, todos mesmo, resolvêssemos por razão nenhuma, nos descomprometer com tudo e com todos de repente? Parar o que está fazendo, sentar e ficar bereteando? Nada de revolução, greve, manifestação, anarquia ou coisas do tipo. Não. Só parar. Juntos. Dar um tempo no comprometimento. Fazer alguma coisa que não era necessária, no lugar de uma que era. Mergulharíamos no caos? Acho que não. Só há caos quando existe alguém para dizer que aquilo é um caos, mas esse também não estará comprometido com isso naquela hora. Talvez alguns doentes terminais morreriam, mas também o seu Fredrico, 58 anos, deixaria de ser atropelado na avenida. É natural o equilíbrio. Nós que inventamos o desequilíbrio.
Somos, eu e tu e todo mundo, seres comprometidos 24 horas por dia. Que peso não é isso? Comprometidos com o sistema, suas boas coisas e também todas as ruins. Comprometidos em cadeia. Tão comprometidos que trabalhamos feito burros e dizemos no final do dia, sobre nossos salários, que "ganho" para isso. Como "ganhamos"? Por que essa noção de que a remuneração é um presente? Quantas vezes não ouvimos a expressão: "ele se mata de trabalhar, mas ganha bem para isso". Somos seres comprometidos. E comprometidos com tudo, menos com nós mesmos. Comprometidos com a manutenção dos nossos desejos que são na verdade coletivos, nossas necessidades inventadas, nossa felicidade fantasiada. Comprometidos com nosso tempo. Nosso tempo precioso.
Quando me perguntaram se eu queria me comprometer com o tempo? Se eu queria fazer aniversário? Se eu queria ter hora para acordar, para dormir, para me divertir, para pensar? Época para descansar, para estudar, para trabalhar? Somos prisioneiros do nosso comprometimento com a matemática do tempo, com nossas fases de vida, com nossa contagem de anos. "Roberto Henrique, daquia a pouco já vais ser adulto, que tal um pouco mais de responsabilidade?" Por quê? Quem disse que responsabilidade é algo que deve ser encaixado numa escala de tempo? O que é "daqui a pouco"?
Quantos telefones batidos na nossa cara são justificados com "agora não dá para falar"? Agora quando? O que é "agora"? Quantas coisas não perdemos por acharmos estarmos perdendo tempo? E julgamos isso toda hora. Nos angustiamos durante todo dia na distribuição e na avaliação de ações versus o tempo que temos para executá-las. Fomos condicionados a pensar que tempo é algo que não se perde. Mas quando achamos que estamos "perdendo tempo" consideramos quem e o quê? O que é perder tempo? O que é ganhar tempo? Que é que ganha quando ganhamos tempo?
Que tal perdermos um pouco de tempo! Negociá-lo no mercado negro. Vamos chegar atrasados no trabalho. Vamos extrapolar o horário de almoço. Desacelerar o carro. Aumentar espaços. O tempo é uma armadilha. E o "ágil", a tecnologia a serviço do ganho de tempo, é a maior mentira inventada. Tudo que fazemos hoje leva-se pelo menos um décimo do tempo que levava para ser feito 50 anos atrás. No entanto quem ficou com esse tempo? O quanto livre ficamos com essa otimização dos nossos "compromissos" de vida? O que gera a velocidade na resposta às coisas que precisamos, ou achamos que precisamos? Há 50 anos, estranhamente, as pessoas tinham mais tempo. para ganhar o tempo, pisamos cada vez mais fundo. E não olhamos para o lado. Todo o esforço de se ganhar o tempo tem sido gasto em função de que mesmo?
Perca seu tempo. Perca muito tempo.
Vou parar agora para ver o que acontece. Vou me dar de presente essa fração de tempo. Vamos ver onde eu chego.
Não é a eletricidade, os microcomputadores, o telefone, o avião, a escrita ou qualquer outra descoberta ou invenção que é mais representativa até hoje, do que o tempo. A invenção do tempo. Sim. Tempo é uma invenção. Como tudo. E como todas as invenções foi criado para nos fazer felizes, facilitar a vida. Mas então veio alguém e reinventou o tempo, criando a velocidade. E nós aceitamos. Se eu tivesse sido o inventor do tempo, como os grandes inventores da humanidade, talvez olhasse um relógio-ponto e os anúncios de Tele-entrega e teria me suicidado.
Não! Eu... logo eu, o Gejfin. Nunca teria sido o inventor do tempo. Não perderia tempo com essas bobagens.
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EXTRAS: Uma encantadora viagem pelo tema tempo. O livro Sonhos de Einstein de Alan Lightman. Uma série de contos sobre um sujeitinho chamado Albert Einstein, que vive na cidade de Berna, na Suíça, e teria tido durante algumas semanas sonhos perturbadores sobre o tempo. Além das belas e criativas histórias, destaco a poesia das palavras, principalmente pelo autor ser um professor de *física*, no MIT.
Q ótimo texto! Ainda bem q tive tempo pra ler e q vc teve tempo pra escrever...
é... o Rafael tem razão: "não é de tempo que estamos falando".
e se a gente tivesse realmente esse "tempo a mais" que a vida "muderna" deveria nos proporcionar? será que a gente ia saber o que fazer? e onde fica o afeto? e a afetação?
é.
e eu sei porque sou, e sei porque és, que chega a doer não poder fazer como deveríamos.
mas a gente faz o nosso bolo.
Não sei de nada disso...
Não entendi o que quisestes dizer com teu texto...
Preciso de mais tempo para entender...
Preciso de tempo para ler mais e ler novamente e assim, talvez compreender que não é de tempo que estamos falando...