Sobe e Desce na Megalópole
Sobe e Desce na Megalópole
São Paulo, 4 de junho de 2004
Uma história baseada e fatos reais.
Chegávamos devagar, como quem anda perdido num lugar estranho à procura de quem não se conhece. E era assim mesmo. O prédio, no coração cansado daquela grande cidade -- a uma quadra da praça da República, a algumas outras do Anhangabaú --, era dos antigos. Quinze andares, um hall comprido, amplo, frio. Dividia-se em dois blocos que, no meu entender, seriam assim populares: a frente; os fundos. Para cada bloco, três elevadores velhos. No bloco da frente um pouco maiores, cabiam até oito viventes. Nos fundos, um desaforo, mal cinco, espremidos, ajeitavam-se lá dentro. Nossa jornada começava no sétimo, com apresentação à recepção e retirada dos crachás de visitantes. Depois disso um upgrade. Nos estabeleceríamos um patamar acima.
Eis que começa o interessante, pois apesar de extenso, o bloco acima é só um aconchego. A partir de agora é que precisas, leitor, tomar com atenção os aconteceimentos.
Dos andares, a ocupação era um tanto homogênea, sob quase total domínio de uma só empresa. A tal que estava nos recebendo. "Nos" porque, ainda não falei, mas junto comigo estava o Renato, colega e amigo. Estávamos ferrados neste trabalho juntos. O que vendia nosso cliente? Ora, gente. Acertei a vírgula. Vendem gente mesmo. Mas calma, explico: é um prestador de serviços de call center. Quase o prédio todo é deles. E o improtante mesmo é que se numa empresa qualquer num andar trabalham dez, ali trabalhavam cinqüenta. Nosso prédio, portanto, pelo menos do quinto ao décimo quarto era por demais assim populoso.
Lá passamos o dia inteiro. As tarefas renderam. O pessoal hospitaleiro. Dia terminando. Não improta aqui este meio-termo. Chegava enfim nossa hora. -- Vamos, tchê, vamos embora! E tomamos rumo. Fomos acompanhados gentilmente até o hall do bloco segundo, dos fundos. Mas papo vai, papo vem. Piada vai, piada vem. Elevador vai, elevador vem. Perdemos, pela conversa, não menos do que umas cinco viagens. E a coisa foi ficando engraçada, porque a porta fechava sempre antes de terminar os cumprimentos. E lá começavamos tudo de novo. Até esgotar o papo. E nessa hora é que, amigo, por definição começa a boa história. Não desistas, mesmo sabendo do quão irrelevante pode ter sido ler o que estava aí acima. Entenda que não é possível, às vezes, ir direto ao ponto. Verás mais adiante do que estou falando. Afinal, irrelevante por irrelevante, ainda te poupei de ler neste texto qualquer coisa sobre o tempo. Estava frio como aqui no Sul. Definitivamente São Paulo é São Paulo, não é o Rio. Lá também tem inverno.
Voltando para a história, estávamos ali parados, cuidando a luz de alerta, aquelas que indicam que o elevador sobe ou desce, emitindo um som esquisito. E piscou desce. Fomos? Não. Lotado. Por sorte chegava o do lado. "Desce". Igual lotado. Claro, era hora de troca de turno. E, tu aí que estás lendo, já podes ir imaginando como não é estar no oitavo e ter uma população inteira descendo. Isto mesmo, também não acreditamos no que estava acontecendo. Escada, pensas tu? Só lá no outro bloco. Entretanto, como os dois pássaros estavam mesmo voando, o cliente que nos acompanhava fez exatamente este convite: -- Quem sabe vamos para o outro bloco? São maiores os elevadores. Fomos. Não é assim tão perto como parece, atravessa-se duas roletas, salas, corredores. Chegamos. "Desce" piscou o do meio. E foi traumatizante. A porta abriu como se fosse de um ônibus em dia de jogo. E assim repetiram-se outras tantas vezes. Nós ali, impressionados. Com lugar só aqueles que estavam subindo. Mesmo assim o número também ia aumentando e já fazíamos uma idéia do porquê desse fenômeno.
Era inevitável: começamos a tirar sarro e conversar sobre aquilo que agora estava na nossa frente, virando história. Uma guria que estava na fila não se conteve. Interrompeu a redação de uma mensagem de texto, virou-se, sorriu e disse: -- Isso não é nada. Ontem esperei por 30 minutos um que me levasse lá para baixo. Pronto. Tinha como não virar piada? Então, pensando de novo naquela hipótese para o fenômeno do "sobe", decidimos entrar no baile. Dança que consistia em ocupar seu lugar no espaço, não importando se o sentido era inverso. Assim, bastaria chegar lá em cima e esperar a volta. Assim fizemos. Como era já esperado, o elevador estava quase lotado. Ninguém do térreo. Vinham do quarto, quinto, sexto, sétimo...
Na subida, lenta, parávamos em todos os andares. Ninguém atravessava a porta. E os de dentro olhavam com olhos de vitória para os pobres de fora, que ficariam ali esperando ainda, sabe-se lá, horas. Ou até encararem dez, onze andares pela escada. Essa jornada toda aqui em conto, nem parece ter demorado. Engano. Imagine o tal "veiculo" estacionar em todos os andares na subida e depois na volta. Levamos minutos preciosos. Tanto que aqueles oito ali apertados não mais conseguiam manter-se invisíveis. Pelo contrário. Conversas fluiam. Alguns flertes. Eu e o Renato fazendo piada com a situação e todos participavam. Era quase uma família. Comecei a achar que ia sentir saudades. E recém chegávamos outra vez no oitavo. Aconteceu até o acaso de um sujeito descer, não lembro o piso. Ele saiu, entraram dois no lugar. Um perigo. Começou também o imaginário coletivo a tomar asas indomáveis, levando toda aquela família na viagem. Mais ou menos o seguinte:
A porta abre e lá espera, inquieto, um sujeitinho baixo, nordestino da gema, cabeça chata, cara morena. Traz uma cesta, veste um guarda-pó branco. No bolso um crachá pendurado: "Sindicato dos ambulantes de S. Paulo". Entra irritado, pois estava atrasado. Diz ele que devia ter chegado há 1 hora. Metade da clientela devia ter ido embora. Mas que a vida é assim dura e não pode reclamar, pois tem saúde. -- E, assim, finalizando o discurso, levanta uma das mãos com embalagens entre os dedos e anuncia: água, pastilha, bala de goma, puxa-puxa! Todos à vontade diante do mais novo ofício em São Paulo: o ambulante de elevador. Com certeza deve fazer dinheiro. Na maldade ainda lembramos que, devido ao aperto e necessidade de "ajeitamento" pela lotação do cubículo, o produto mais vendido do nosso amigo não é de comer, mas tubos de KY.
[Plim!] Térreo. Ufa! Saem todos rindo. No final das contas até que foi bem divertido. Passamos no balcão da segurança para entregar os crachás de visitante e a última notícia triste do dia. Teremos que entregá-los onde retiramos, na recepção da empresa, andar sétimo. Só assim poderemos deixar o prédio. Pois nessa hora o humor escafedeu-se. Só de pensar em passar por tudo de novo. Ninguém merece perder tanto. Entretanto, foi só o susto. Subimos e descemos sem qualquer contratempo.
Não sei se percebeste a gravidade do que foi contado? Onde chega o caos das grandes cidades? Que o movimento acelerado do maior acúmulo de gente da Amárica Latina vai acabar deixando todos travados. Antes eu já sabia que em São Paulo muitos saem mais tarde do trabalho, porque na matemática do trânsito infernal urbano, sair na hora ou depois, corresponde a chegar quase na mesma hora em casa. Pois bem, agora, além disso, os pobres paulistanos precisam incluir neste lapso e perda de tempo a meia-hora a mais que todos os dias vão levar para conseguir chegar, pelos elevadores da vida, no piso térreo. Haja paciência, coitados.
Pois é,
Eu trabalho no décimo andar de um prédio de 21, em pleno centro de POA. Devem trabalhar ali umas quinhentas pessoas. É tão ruim esperar aqueles malditos elevadores, que já me acostumei a descer de escadas quase todos os dias...não são só os "pobres paulistanos"...
Espero q tenha gostado de minhas mares... bjos e otimo final de semana!
que nem com o Tiagón:
sincera: eu não li.
porque: já sei da história.
rancor: tu não le e nem comenta no meu mesmo... :P
[Plim!] Sobe?... hmmm... putz... então tá. (...) Bom, como eu ia falando....