Boliche para Colombine São raros
Boliche para Colombine
São raros por aqui meus comentários sobre filmes, mas volte e meia embarco nessa. Ninguém deve ler mesmo.
Ontem, atrasado como sempre, vi em casa o documentário de Michael Moore "Bowling For Columbine", ou grosseiramente traduzido para o português como "Tiros em Columbine". Grosseiramente porque mais uma vez o título original é bom, literalmente ficaria algo como "Boliche para Columbine" que, apesar de estranho na nossa língua pátria, possui uma metáfora ótima, tudo a ver com o contexto e os aspectos destacados no filme.
Columbine, para quem não lembra (e óbvio que todo mundo não deve lembrar, eu não lembrava) é o nome da "High School" norte-americana, na cidade de Littleton, estado do Colorado, que foi palco para um massacre no dia 20 de abril de 1999. Dois alunos da escola, Eric Harris e Dylan Klebold (17 e 18 anos), num dia qualquer, chegaram para a aula com mais do que cadernos. Armados até os dentes com pistolas, fuzis, carabinas, abriram fogo pelos corredores, refeitório e biblioteca, matando 12 estudantes, um professor, deixando quase 30 feridos e depois dispararando contra suas próprias cabeças.
Mas a tragédia é só pano de fundo para uma crítica feroz de Michael Moore (roteirista, produtor e diretor) aos americanos e sua suas taras por armas de fogo. 11.000 pessoas a cada ano são vítimas das balas dispardas por eles mesmos, vendidas em supermercados.
Com brilhantismo ele tece o documentário misturando de tudo para contar o que quer falar. Vai do humor e da animação às cenas dramáticas, passando por entrevistas no mínimo interessantes, como com Marilyn Manson e Charlton Heston, ex-presidente da NRA (National Rifle Association), um velho gagá e demente.
Moore analisa vários pontos desse quadro, dando seus palpites sobre as causas dessa paranóia generalizada. Compara países, resgata a história. Mesmo que a análise e a argumentação possam ser questionadas do ponto de vista científico (é opinião e não pesquisa científica), tudo se encaixa harmoniosamente. Temos ali inteligentemente provocadas reflexões sobre, por exemplo, o fato de a fábrica da Lockheed Martin (maior fabricante de armamento do mundo - pistolas? Não. Mísseis, ogivas, aviões, tecnologia de guerra etc) ficar justamente em Littleton, cidade de Columbine. Ou sobre a cultura do medo (base, segundo Moore, de tudo isso), sobre mídia, sobre racismo, sobre massacres globais, ditaduras e bandeiras.
Recomendo.
Mas para ver pensando, não só assistindo. Pensar um pouco sobre o lado negro de um povo e de uma cultura dominante que faz (e por que faz?) malabarismo para não deixar que outros conheçam seus defeitos e absurdos. E exercitar também, junto com Moore, como e quais são as causas disso, ou onde isso vai acabar levando todo mundo. Até para podermos comparar com nós mesmos e pensar a respeito do que são, de fato, exemplos ou caminhos a serem seguidos.
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EXTRAS: Para quem quiser imergir um pouco mais nessa relação doente dos ianques com armas, pode uma passada de olhos (bem críticos, eu espero) nas publicações oficiais da NRA, NRA Publications. No rodapé da página principal tem ainda umas seções especiais como a "Armed Citizen", que eles definem como "uma coleção de histórias reais dos jornais sobre cidadãos que pararam o crime através do uso das armas de fogo."
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releitura: acho que quando ele abora a cultura do medo que tu citou no post, ele acha o cerne da questão, e é aí que o filme ganha em conteúdo e arrebata o espectador...
eu sempre achei (mesmo depois do filme, que já vi duas vezes, é espetacular...) que a arma é apenas a ponta do iceberg do problema da supremacia norte-americana... a questão transcende tanto quanto o dito desarmamento da população aqui no brasil... longe de mim defender que todo cidadão deve andar armado, eu jamais andaria com uma arma (seria um perigo) mas questiono até que ponto pode ser recriminado alguém que tenha uma arma, seja para caça (grande parte dos associados daquela coisa maluca do heston são caçadores) ou defesa do patrimônio... enfim, o assunto rende muita discussão, mas acho que a posição, teoricamente pacifista, dos que defendem o desarmamento como se esse fosse a solução definitiva, demagógica demais...
Cara, baixei este filme tão logo o MM ganhou o Oscar. Não tinha a mínima idéia de quem era o cara, mas achei genial a coragem do mesmo em enfrentar aqueles idiotas lá no Oscar. A vaia que levou foi a maior glória possível. O filme é matador. A forma com que ele entrevista o Charlton Heston foi fantástica!
Virei fã!
Li "Cara Cadê Meu País em 5 dias" e, apesar de achar o livro uma baita propaganda do partido democrata, mais do que um livro, é um grande documento. Vale a pena!
Eu rrrecomendo!
Pois é,
tadinho dele. Depois de ter sido um dos maiores atores da história, acaba sendo relegado ao plano de demende e gagá. Injustiça. Todos vamos para lá, mais cedo ou mais tarde...
Não pontuei que o Heston também é "um dos maiores atores de todos os tempos" porque ali, naquela faceta, ele não passa de um velho gagá e demente. Mais demente, aliás, do que gagá. heheh
A NRA é famosa exatamente pela infâmia. Eles têm até um mascote, um ursinho armado com um rifle, pra ensinar as crianças um "posicionamento crítico" diante da questão armamentista. Heston, um dos maiores atores de todos os tempos, teve de se ver retratado por Larry Flint como "Asshole of the Month", seção da revista Hustler. Dessa distinção ele não precisava.
Quanto a Michael, vejamos enquanto podemos. A reação republicana já vem galopando e eu não ficaria surpreso se ele aceitasse um belo cala-te-boca pra ficar mais ameno... Que é o ritmo das coisas lá pras bandas de cima. Ave!