julho 2004 Archives
Identidade
Fico cá com meus botões refletindo sobre a identidade no mundo das relações virtuais. Sem querer comparar. Só pensar. E já pensei várias vezes sobre os blogues, em especial sobre o meu mesmo. Há quem escolha, nesta nossa blogosfera - ambiente habitado pela representação virtual, escrita ou fotografada, de indivíduos - destacar ao lado de seus registros uma área "Perfil", onde revela ao mundo dados que considera importantes na formação no outro (que lê) do que é aquele que escreve, antes de se fazer escrito.
Nome completo é raro, mas colocam idade, onde moram, gostos pessoais, humor e mais um monte de coisas. Então olho para minha própria obra (quero chamar sim de obra) e vejo que não uso disso para ambientar quem por aqui vem beretear. Não há no Blog do Gejfin - e o título paradoxal reforça essa identidade às escuras - qualquer referência convencional de identidade. Nem "Gejfin" é possível de um leitor que não me conhece de verdade, entender do que se trata. E se não fosse o "do" no título, nem gênero, nem número as pessoas construiriam.
No entanto, nunca ninguém - claro que falo daqueles que lêem e não me conhecem "presencialmente" - reclamou essa falta.
Assim não creio ser eu um vácuo de identidade por não referenciar tais dados. Pelo contrário. Sou o que escrevo. Sou o que penso e falo. E, dessa forma, reproduzindo o fênomeno para todo o universo de relações ou formas de comunicação semelhantes, não daria para dizer que estamos diante da forma mais democrática e verdadeira de conhecermos realmente a identidade das pessoas?
* * *
E, para terminar...
Fim
Fim do expediente. Fim do dia. Fim da semana. E, lendo um texto sobre a velhice, passo por uma frase definitiva. Nada como a ridícula verdade para nos fazer pensar, mesmo que deixe no ar a poeira de algum desamparo sobre a óbvia finitude que nos resume.
"Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer, conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida, inverte-se a parábola e nasce a morte."
* * *
Até segunda!
;)
Um Texto Só Para Perder Tempo
Se tens alguma outra coisa mais importante para fazer agora, nos vemos depois, ou nunca. Isto é uma aviso. De amigo. Este texto o fará perder tempo.
Às vezes fico tentando por minutos e mais minutos encontrar aquela fórmula lógica que possa quebrar a regra, mudar o mundo. E sempre que penso nisso, fico com a impressão do quanto é frágil, perto do que nos parece, este sistema no qual estamos inseridos.
O Roberto Henrique, adolescente aí quaquer no mundo, poderia ser tu ontem, hoje ou sempre, tem 15 anos, e acorda todo dia com a mãe o sacudindo: -- Roberto Henrique, olha a hora, guri! Levanta e vai para a escola! Vagabundagem tem limite! Este é o único compromisso que tens! Continuando assim, vais ser o que quando crescer?
Vai ser alguém normal. Porque essa vagabundagem passa. Pena que passa. Coitado do guri, mal sabe o quanto ainda precisará ser responsável perante o mundo e o quanto escravo será assim que ingressar na faculdade, no mercado de trabalho, constituir família. Deveríamos ter o "Dia Mundial do Descompromisso", feriado em todo lugar. Quase como o carnaval brasileiro, este seria um dia de repúdio a qualquer comprometimento que possamos ter. Qualquer.
Imaginem se todos, todos mesmo, resolvêssemos por razão nenhuma, nos descomprometer com tudo e com todos de repente? Parar o que está fazendo, sentar e ficar bereteando? Nada de revolução, greve, manifestação, anarquia ou coisas do tipo. Não. Só parar. Juntos. Dar um tempo no comprometimento. Fazer alguma coisa que não era necessária, no lugar de uma que era. Mergulharíamos no caos? Acho que não. Só há caos quando existe alguém para dizer que aquilo é um caos, mas esse também não estará comprometido com isso naquela hora. Talvez alguns doentes terminais morreriam, mas também o seu Fredrico, 58 anos, deixaria de ser atropelado na avenida. É natural o equilíbrio. Nós que inventamos o desequilíbrio.
Somos, eu e tu e todo mundo, seres comprometidos 24 horas por dia. Que peso não é isso? Comprometidos com o sistema, suas boas coisas e também todas as ruins. Comprometidos em cadeia. Tão comprometidos que trabalhamos feito burros e dizemos no final do dia, sobre nossos salários, que "ganho" para isso. Como "ganhamos"? Por que essa noção de que a remuneração é um presente? Quantas vezes não ouvimos a expressão: "ele se mata de trabalhar, mas ganha bem para isso". Somos seres comprometidos. E comprometidos com tudo, menos com nós mesmos. Comprometidos com a manutenção dos nossos desejos que são na verdade coletivos, nossas necessidades inventadas, nossa felicidade fantasiada. Comprometidos com nosso tempo. Nosso tempo precioso.
Quando me perguntaram se eu queria me comprometer com o tempo? Se eu queria fazer aniversário? Se eu queria ter hora para acordar, para dormir, para me divertir, para pensar? Época para descansar, para estudar, para trabalhar? Somos prisioneiros do nosso comprometimento com a matemática do tempo, com nossas fases de vida, com nossa contagem de anos. "Roberto Henrique, daquia a pouco já vais ser adulto, que tal um pouco mais de responsabilidade?" Por quê? Quem disse que responsabilidade é algo que deve ser encaixado numa escala de tempo? O que é "daqui a pouco"?
Quantos telefones batidos na nossa cara são justificados com "agora não dá para falar"? Agora quando? O que é "agora"? Quantas coisas não perdemos por acharmos estarmos perdendo tempo? E julgamos isso toda hora. Nos angustiamos durante todo dia na distribuição e na avaliação de ações versus o tempo que temos para executá-las. Fomos condicionados a pensar que tempo é algo que não se perde. Mas quando achamos que estamos "perdendo tempo" consideramos quem e o quê? O que é perder tempo? O que é ganhar tempo? Que é que ganha quando ganhamos tempo?
Que tal perdermos um pouco de tempo! Negociá-lo no mercado negro. Vamos chegar atrasados no trabalho. Vamos extrapolar o horário de almoço. Desacelerar o carro. Aumentar espaços. O tempo é uma armadilha. E o "ágil", a tecnologia a serviço do ganho de tempo, é a maior mentira inventada. Tudo que fazemos hoje leva-se pelo menos um décimo do tempo que levava para ser feito 50 anos atrás. No entanto quem ficou com esse tempo? O quanto livre ficamos com essa otimização dos nossos "compromissos" de vida? O que gera a velocidade na resposta às coisas que precisamos, ou achamos que precisamos? Há 50 anos, estranhamente, as pessoas tinham mais tempo. para ganhar o tempo, pisamos cada vez mais fundo. E não olhamos para o lado. Todo o esforço de se ganhar o tempo tem sido gasto em função de que mesmo?
Perca seu tempo. Perca muito tempo.
Vou parar agora para ver o que acontece. Vou me dar de presente essa fração de tempo. Vamos ver onde eu chego.
Não é a eletricidade, os microcomputadores, o telefone, o avião, a escrita ou qualquer outra descoberta ou invenção que é mais representativa até hoje, do que o tempo. A invenção do tempo. Sim. Tempo é uma invenção. Como tudo. E como todas as invenções foi criado para nos fazer felizes, facilitar a vida. Mas então veio alguém e reinventou o tempo, criando a velocidade. E nós aceitamos. Se eu tivesse sido o inventor do tempo, como os grandes inventores da humanidade, talvez olhasse um relógio-ponto e os anúncios de Tele-entrega e teria me suicidado.
Não! Eu... logo eu, o Gejfin. Nunca teria sido o inventor do tempo. Não perderia tempo com essas bobagens.
* * * * *
EXTRAS: Uma encantadora viagem pelo tema tempo. O livro Sonhos de Einstein de Alan Lightman. Uma série de contos sobre um sujeitinho chamado Albert Einstein, que vive na cidade de Berna, na Suíça, e teria tido durante algumas semanas sonhos perturbadores sobre o tempo. Além das belas e criativas histórias, destaco a poesia das palavras, principalmente pelo autor ser um professor de *física*, no MIT.
Desnecessidades
** Não entendo como pode, em pesquisa recente sobre a perceção das pessoas sobre as adminsitrações das três esferas do governo (BR, RS, POA), o estado possuir a melhor, disparada, avaliação. Como? Podem ser meus olhos, mas ainda não soube a que veio o nosso governador. Não saberia citar uma só realização.
** Estou há horas meio de saco cheio de futebol. Acho, do fundo do meu coração, uma boa coisa ao esporte nacional a nossa seleção ter ficado de fora das Olimpíadas, visto que, assim, a mídia dará valor e espaço mais democrático aos outros esportes, mesmo que acabem elegendo um ícone para gastar suas reportagens especiais (já está meio escolhido, na verdade, ou escolhidA: Daiane dos Santos), mas não há como não achar a melhor coisa do mundo o Brasil ter mandado a Argentina chorar no cantinho. Que vão à m**** los hermanos.
** Acho que deveriam inventar uma máquina realizadora de idéias magníficas que usasse, como o Deloren do De Volta Para o Futuro, qualquer coisa orgânica como combustível. Então a gente colocava ali alguns restos de mingau e ZZZZBLIM!
** Por que o Paulo Santana não se aposenta? Ele está no topo da minha lista-sem-qualquer-aplicação-útil de nomes da mídia gaúcha que poderiam se desintegrar de repente, sem ninguém sentir a falta.
** Eu não acredito que as pessoas, de verdade, acreditam quando algum candidato, seja para que cargo for, promete "mais emprego". Será que ninguém consegue sair um pouco da frente da TV e se dar conta do porquê do desemprego e do quão irreversível é isso a partir dos modelos sociais e econômicos que fazemos a manutenção no nosso dia-a-dia?
** Eu não acredito em greves. Acredito em mobilização inteligente e estratégica sem paralização de processo algum. Greve é birra, é fácil, é cômoda.
** Pipocas de tremoço serão a nova delícia do século. Delícia e desejo, pois sua aplicação varia de comida a travesseiro. Só precisamos acertar o ponto, mas já está a caminho. Preparem-se amigos! Ficaremos ricos!
** Será que já está na hora?
Grand Guignol
Este que vos escreve também não é santo todas as horas. Sob as vistas, durante a noite, pulo a cerca e dou as caras para lá das bandas paralelas, nesta Internet de meu Deus.
O que quero dizer é que vê se enfia o dedo nesse botão e clica AQUI para ler o texto que escrevi, baseado em relatos verídicos.
Faz parte da edição de julho do ótimo Paralelos, que traz o especial Grand Guignol. Leia o editorial para entender do que se trata.
Mas sou só uma tripa naquela sangüera. É leitura para um dia inteiro.
Só cuide para não fazê-la muito próximo das refeições.
Saúde e paz!
Boliche para Colombine
São raros por aqui meus comentários sobre filmes, mas volte e meia embarco nessa. Ninguém deve ler mesmo.
Ontem, atrasado como sempre, vi em casa o documentário de Michael Moore "Bowling For Columbine", ou grosseiramente traduzido para o português como "Tiros em Columbine". Grosseiramente porque mais uma vez o título original é bom, literalmente ficaria algo como "Boliche para Columbine" que, apesar de estranho na nossa língua pátria, possui uma metáfora ótima, tudo a ver com o contexto e os aspectos destacados no filme.
Columbine, para quem não lembra (e óbvio que todo mundo não deve lembrar, eu não lembrava) é o nome da "High School" norte-americana, na cidade de Littleton, estado do Colorado, que foi palco para um massacre no dia 20 de abril de 1999. Dois alunos da escola, Eric Harris e Dylan Klebold (17 e 18 anos), num dia qualquer, chegaram para a aula com mais do que cadernos. Armados até os dentes com pistolas, fuzis, carabinas, abriram fogo pelos corredores, refeitório e biblioteca, matando 12 estudantes, um professor, deixando quase 30 feridos e depois dispararando contra suas próprias cabeças.
Mas a tragédia é só pano de fundo para uma crítica feroz de Michael Moore (roteirista, produtor e diretor) aos americanos e sua suas taras por armas de fogo. 11.000 pessoas a cada ano são vítimas das balas dispardas por eles mesmos, vendidas em supermercados.
Com brilhantismo ele tece o documentário misturando de tudo para contar o que quer falar. Vai do humor e da animação às cenas dramáticas, passando por entrevistas no mínimo interessantes, como com Marilyn Manson e Charlton Heston, ex-presidente da NRA (National Rifle Association), um velho gagá e demente.
Moore analisa vários pontos desse quadro, dando seus palpites sobre as causas dessa paranóia generalizada. Compara países, resgata a história. Mesmo que a análise e a argumentação possam ser questionadas do ponto de vista científico (é opinião e não pesquisa científica), tudo se encaixa harmoniosamente. Temos ali inteligentemente provocadas reflexões sobre, por exemplo, o fato de a fábrica da Lockheed Martin (maior fabricante de armamento do mundo - pistolas? Não. Mísseis, ogivas, aviões, tecnologia de guerra etc) ficar justamente em Littleton, cidade de Columbine. Ou sobre a cultura do medo (base, segundo Moore, de tudo isso), sobre mídia, sobre racismo, sobre massacres globais, ditaduras e bandeiras.
Recomendo.
Mas para ver pensando, não só assistindo. Pensar um pouco sobre o lado negro de um povo e de uma cultura dominante que faz (e por que faz?) malabarismo para não deixar que outros conheçam seus defeitos e absurdos. E exercitar também, junto com Moore, como e quais são as causas disso, ou onde isso vai acabar levando todo mundo. Até para podermos comparar com nós mesmos e pensar a respeito do que são, de fato, exemplos ou caminhos a serem seguidos.
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EXTRAS: Para quem quiser imergir um pouco mais nessa relação doente dos ianques com armas, pode uma passada de olhos (bem críticos, eu espero) nas publicações oficiais da NRA, NRA Publications. No rodapé da página principal tem ainda umas seções especiais como a "Armed Citizen", que eles definem como "uma coleção de histórias reais dos jornais sobre cidadãos que pararam o crime através do uso das armas de fogo."
Às vezes fico impressionado com a minha instabilidade.
Festejei com tanto gosto o aniversário deste humilde espaço. Arrebatei novos leitores. Resgatei antigos. Me fiz bem gostando de ter escrito. E caí num novo abismo.
Sim. Escrevi "amanhã" e tudo se foi pelo ralo. Fiz uma promessa. Sempre disse que odeio fazer promessas. Não porque não as cumpra. Mas porque elas (as promessas) ficam se achando que podem tudo. Superiores. Apontando com um dedo indicador rígido enorme o objeto prometido. E daí eu não agüento. Fico achando que é um desrespeito. Eu ficar preso, cerceado, estagnado, dentro de algo previsível, planejado, de uma obrigação. Raios! Quem prometeu não fui eu, foi outro eu. Esse que acha que pode ficar fazendo comigo esse joguinho barato de chantagem emocional. "Prometeu, agora cumpre." Não. Eu vou fazer o que eu quero. Precisava ter prometido?! Estragou tudo a obrigação. E eu que peça desculpas, ora! Mas não. Nunca. Eu é orgulhoso demais. Então fico eu tendo que vir a público pagar o mico de dar explicações.
Mas mal eu espera sentado... me pego na saída qualquer dia desses!
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Pqp! Como esse amanhã demora.
Me deixa aqui sentado, que nem um idiota, esperando.
Mas ele vai ver só uma coisa!
Vou dizer barbaridades!
Amanhã de merda...
1 ANO
Celebrações 2/3 :: O blog e a história
Julho 03
O Blog do "Geva" entra no ar. Eu era uma outra pessoa. Fica difícil explicar. Esquece. Reproduzo aqui, na totalidade, o post/texto de estréia: "Oi". Foi ainda neste mês, de boa inspiração, que nasceram pérolas como "Parafuso", "Chico, de Francisco" e a famosíssima série "Só um Pedaço da Terra".
Enquanto isso Bush bombardeia o Iraque.
Agosto 03
O Blog do Geva enche-se de subjetividades. Coisas lá do fundo, mesmo. Daquelas que ninguém entende. Mas também de boas sacadas sarcásticas, como o mini-conto "Crendices". Foi também mês de exercício de crônicas furiosas de política e economia. Caminhando junto, surge o Feijoada Club e agendamos o primeiro Sarau Pop Show. Os feijões espalham-se pelos blogs vizinhos.
Bush bombardeia o Iraque e rechaça a ONU. Ele e Sharon se abraçam.
Morre José de Albuquerque Barros. Injustamente, foi um desconhecido durante boa parte da sua vida. Na verdade, toda vida, diria. Eu, inclusive nunca tinha ouvido falar dele. Descanse em paz, José.
Setembro 03
Um mês eclético. Teve de tudo. Poesias (como a boa "Até"), crônicas, textos sem sentido. Mês das primeiras experimentações textuais mais complexas que faço sobre eu mesmo. O Sarau entra em cena e é um sucesso. Pelo menos a parte que eu lembro...
Na Finlândia, Klaus VonKritcöb apresenta ao mundo seu cão falante. Ninguém dá a mínima, visto que o bichano não sabe usar o celular. Klaus é processado pela Nokia por estupidez. No julgamento ele acaba condenado a ficar 1 ano sem SMS.
Outubro 03
Crise de criatividade no Blog do Geva. Tensões criador e criatura (personagem). Reclamo da vida. Começo a ter consciência da responsabilidade de escrever, de dar satisfação para quem lê. O contador se transforma num tormento. O final do mês é desespero puro. Mas no meio também tem coisa boa como o poema "Entrevista Com um Pintor" e o conto "Doutor".
Bush bombardeia o Iraque duas vezes. Uma pelo mês passado, que tinha esquecido.
Novembro 03
Mais experimentações sobre eu mesmo. Umas "sacadinhas" interessantes. Conto dos meus preferidos: "Blitzkrig dos Anjos". Crônicas furiosas. Algumas republicações e expertimentos em séries que nunca passaram do primeiro capítulo.
Bush bombardeia o Iraque.
Pesquisadores ingleses tranquilizam a humanidade ao descobrirem que manga com leite não faz mal à saúde.
Dezembro 03
Produção baixíssima. Blog tratado como coluna. Opinião e mais opinião sem muita formatação. Inauguração da Igreja da Ordem da Luz Laranja do Sexto Dia, no amigo secreto das pessoas, com publicação de uma FAQ no blog.
Pesquisadores ingleses são presos. Outros pesquisadores, chineses, provam que a gripe asiática, além de ser transmitida pelas rãs vermelhas do deserto da Tanzânia, sofrem sua mutação mais perigosa quando em contato com manga e leite. Milhares morrem. Chineses eliminam todas as rãs. Querem eliminar os ingleses. Ecoa o que poderia ser a terceira grande guerra. Bush sai à ruas de Washington e lidera uma manifestação que pede a paz mundial.
Janeiro 04
Clima de férias. Produção quase zero. Aliás, por que eu escrevi?! Ficou tudo tão ruim que nem precisava. Quer dizer, tudo não. Como uma ilha, no meio do mês, estão lá alguns "Triemas" e "Uniemas".
A gripe asiática é eradicada. Pesquisadores ingleses na prisão descobrem que a tal bactéria sofria mutação, na verdade, no caroço da azeitona que os chineses colocavam no seu crème de mangà au latte. São libertados e enviados à Prisão de Guantánamo para se divertir espancando iraquianos.
Fevereiro 04
Entro em crise. O blog está quase abandonado. Quando escrevo, é merda, ou no máximo algumas dicas e referências. Até publicar crônica do jornal eu fiz para ocupar o espaço. Valha-me Deus!
Bush bombardeia o Iraque.
Os pesquisadores ingleses, a partir de experimentos genéticos, criam a mangleite. Uma manga oca que produz leite desnatado. Eles se mudam para um sítio no Japão e ficam milionários exportanto sua fruta para os chineses e americanos.
Março 04
Um marco. Nova fase. Renovação. Depois de encher o copinho sobre as ameaças do Blogger de minar os clientes free do serviço, eu e o Tiagón compramos um terreninho e erguemos o Verbeat. Mudo de casa. E não só de casa. Decido sair da toca e deixar o Geva seguir a vida sozinho. O blog passa a ser não mais do personagem e é rebatizado para Blog do Gejfin. Esse fervor todo trouxe inspiração e produzo bastante. Poesias medianas, textos introspectivos bons, opiniões de grande repercussão como a do post "Propaganda? Diga que não estou.". Mas a menina dos olhos é a série "Lendas Públicas da Grande Cidade Gaucha".
Bush bombardeia, por engano, o castelo de Hogwarts. Destrói a torre e acaba salvando o prisioneiro injustiçado. O presidente então é convidado para receber uma condecoração. Ao pé do ouvido, pede a Draco que faça aparecer armas químicas no Iraque. Eles fecham negócio. A CIA, que colocou um grampo no dedo do Dumbledore, grava uma conversa paralela entre e descobre que a mulher gorda do quadro anda aliciando menores. As fotos acabam na Internet e todos são presos por pedofilia. Bush mais uma vez salva o mundo. Enquanto isso Hagrid Lula da Silva se divertia desviando dos fantasmas.
Abril 04
Muitas crônicas políticas. Mais um conto dos meus preferidos, onde Bukovski é o Repórter Por um Dia do Fantástico. Só uma poesia, mas muito querida, na linha Quintana: "Escalada".
Bush tropeça em um cogumelo na Casa Branca e quebra o nariz. Sua popularidade cai drasticamente. Jonh Kerry promete emprego à Michael Moore se eleito. O PFL e o PSDB pedem mais emprego, mais segurança, mais educação, aumento do salário mínimo e outras coisas que leram na cartilha do PT. Acusam o Lula de ser um FH, ou seja, de ser eles mesmos. Então pedem votos nas eleições municipais para a mudança. Brasileiros entram em pânico ao tomarem consciência de que talvez isso não faça sentido. Consultórios de psicólogos lotam. E, diante desta demanada crescente, Gejfin fica mais feliz ainda de estar cursando uma especialização em Psicologia. Lojshinha vai mal.
Maio 04
Bereteios loucos. Algumas bobagens. Mergulho no cronista e cuspo o "Ensaio Sobre o Mau-Humor de Segunda-Feira" e duas da série "Crônicas Minhas Sobre Eu Mesmo me Observando Sozinho".
Bush já está um saco. Que se f***. Legal é o Orkut. Vira moda e fenômeno num país de excluídos da América do Sul, cuja a capital é Buenos Aires, o tal Brazil. E uma guria cujo apelido é Guadalupe vai para o Guiness como a pessoa mais faixa, mais parceira, mais "brother" do universo, cultivando 3 mil melhores amigos do peito.
Junho 04
Sigo no embalo das crônicas. O Blog do Gejfin já é mais meu amigo, não faz muitas cobranças. Consegui digeri a coisa. Baixo a produção mais não o abandono. Um canal de vazão desta mente inquieta.
Nada acontece. Ou eu que ando dormindo até mais tarde.
* * *
Amanhã... amanhã...
1 ANO
Celebrações 1/3 :: A festa
[Interna - noite - Espaço FAMA]
Gejfin, em traje de gala, acompanhado da deslumbrante Menina Má, recebe os convidados na porta. Tiagón é o primeiro a chegar. Atrás, pedindo autógrafo, Nelson Motta. "Que mala!", ainda comenta Tiagón.
-- Vamos gente, entrem. Entrem. Obrigado por terem vindo. Fiquem à vontade. Champagne?
Mais gente famosa vai chegando. Duas limousines acabam sendo abalroadas pelo Hammer alugado do Geva, que estaciona no canteiro. Uma pequena confusão. Muitos casais chegam juntos e discutem a ordem de passar na porta. Ronaldinho e Cicarelli. Marília Gabriela e Gianechini, Britney Spears e Madonna, Zeca Pagodinho e a Tartaruga da Brahma, Luma de Oliveira, Eike e o bombeiro.
Barram o João Gordo, que está sem convite. Tenho que ir lá resolver o problema. Ele quer briga. Dolabella já tira a jaqueta. Chorão vira o boné para trás. Sorte que bem na hora chega a Marlene Mattos e avisa que vai cagar a pau todo mundo. Fernanda Lima passa no meio de todos, olha com desdém e diz: bá, tchê, que viagem. Todos se abraçam. Chorão chora.
Começa a chegar o pessoal de outras artes. Luís Fernando Veríssimo entra pelos fundos. João Ubaldo chega abraçado em duas mulatas. Anderson Oliveira chuta um vaso na entrada. Parece que entre o carro e a porta roubaram-lhe o copo. Spielberg ri baixinho. Alguns novos escritores: Cuenca chega acompanhado de Carmen, Clarah com seu laptop. Dolfo pede silêncio. Vai declamar um poema.
Ouve-se um estrondo. Cantam os freios de uma kombi ou assemelhado. Vê-se o rastro de três pontos verdes brilhantes entrando pela janela na cozinha. Aviso rápido a todos que é preciso começar a servir o grispt. Leprechauns são perigosos, às vezes.
Os segurança alertam: atenção, eles estão chegando. Formam-se barreiras. Os jornalistas acotovelando-se por um bom lugar para a lente. Em comboio, enfileiram-se os blogueiros. Inagaki Pop-Star veste uma roupa de cowboy de couro branco com brilhantes, chapéu e um lenço de seda vermelho. Atrás dá para ver Jojo vestindo um modelo renascentista, Diego vem de peruca, Ane Walker olha assustada para Cardoso que balança os braços, gesticulando muito, enquanto conversa com Olívia. Milton ficou no carro, terminando o resto de Jonnie Walker.
Passada a euforia, chega Eduardo Cunha atrasado. Disse ele que ligou antes para a FAMA e eles informaram o horário da festa errado.
O pessoal do EAD preferiu assistir à festa pela Internet, em casa.
As luzes baixam. Todos voltam-se ao palco. Por trás do gelo seco vem caminhando devagar alguém misterioso. Será o mestre de cerimônias? Canhão de luz e... revelação: Darlene. Com peitos de fora, cinta-liga e um tope vermelho sobre as nádegas. Os homens deliram. Ela chama nosso anfitrião (eu) para discursar, cumprimenta-o esfregando o nariz no seu e se retira. Ouve-se um grito. Ela e o Sérgio copulam no backstage. Aplausos para o Gejfin. Ele faz um reverência. Todos ficam em silêncio. Começa o falatório.
- Aã. E aí, pessoas! Bom, tô tri feliz de estar aqui, neste momento único. Um ano de blog. Tipo: é a fudê. Esse negócio de ter um espaço para escrever para si, mas que no entanto é público, não tem como não ser interessante. os contadores e comentários são provações duras. Cativar pessoas, mesmo que poucas, é uma responsabilidade que, por mais que se negue, existe, incomoda e fascina. Esse negócio de diarinho virtual é para frouxo. Achar que é também. Há uma projeção íntima com esse espaço. Uma ferramenta de comunicação, de expressão, que agrega, e muito. A blogsfera veio para ficar. Já tem seus astros, seguidores, novos descobridores. E peças, como este que vos fala. Que ocupam um pequeno espaço e gostam muito disso. Obrigado a todos. Mais saúde e emprego. Educação e segurança. Agradecimentos especiais aos vizinhos especialísimos Tiagón, Ander e Menina Má. Obrigado! E não posso deixar de falar dos patrocinadores. A Cia dos..... CRESH! ... POW! CRAS!.... ok...ok. Valeu! Amo vocês! Som na caixa!
A galera vai ao delírio. Adolescentes de fotoblogs da primeira fila derramam litros de lágrimas. Gritam: eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo... Felipe Dylon, que estava na poltrona do lado. Sandy e Júnior não conseguiram autorização dos pais para vir à festa.
Na descida do palco, Rafael Mônaco, com uma credencial especial, faz uma entrevista exclusiva com Gejfin. Mas são interrompidos por Renato Rosa que expõe entusiasmado sua idéia sobre a pós-subjetividade da ergonomia pictórica de representação cubista do século a vir. Rafael se distrai.
Discreto, da tribuna de honra, Lula acena para mim e faz gestos como quem diz: vamos conversar mais tarde. Isabel serve um copo d´água para o presidente e abana também. Gejfin some na multidão.
Começa enfim a festa. E de largada um pequeno contratempo: Olivier deixa cair uma torta de aspargos no colo de Paul. Ele leva no bom-humor e o convida para um chá. Tom Cruise e Nicole conversam. Penelope Cruz ajuda na cozinha a fazer o bobó de camarão. Alessandra Negrini está nitidamente bêbada e tenta convencer Carolina Dickman a ir no banheiro com ela. Pior é que Fausto Fawcet escuta e corre para esperá-las atrás da porta.
Bom, o resto é só alegria. A noite está linda e parecemos uma grande família.
Inclino para um beijo cinematografico na Menina Má, mas somos interrompidos pela Darlene que, de volta ao palco, agora só com a maquiagem, e borrada, anuncia o show que vai embalar a madrugada, um encontro inesquecível, a altura do evento:
João Gilberto e Carlinhos Brown cantam Racionais.
...
[Uó! Uó! Uó!]
A polícia chega. Tumulto. Lineu Vasconcelos foi assassinado. Quem foi?! O Gejfin. Pego em flagrante. O mouse, coberto de sangue, estava espetado na cara do velho.
-- Fui eu! Eu mês! Qualé? Não agüentava mais esse velho idiota pedindo para que eu aumentasse o logo! Fdp! E agora vou pegar o sobrinho dele, que fez o website! Me larga! Me deixa!
[Uó! Uó! Uó!]
Fim.
* * *
Quarta a celebração continua.
1 ANO
4 de julho: uma data especial.
Uhu! Fom! Fom! Idependência americana? Nunca. É o aniversário de 1 ano deste blog. Dizem por aí que blogs contam sua existência usando a mesma fórmula dos cães. Ou seja, cheguei à maioridade. E assim sinto que cada parte deste template recebe o peso da responsabilidade. Quer dizer... que papo idoso. Deixa isso pra lá. Mas mesmo assim acho que este cafofo merece novos ares. Mudanças. Pena que dá um trabalho... preguiça... sono... uah....
Bom, essa é uma data muito importante e, para comemorar, não há como estar sozinho. Então preparei uma agenda de celebrações, de *hoje* até *quinta*. Um presente para eu mesmo, claro, visto que isso aqui nada mais é do que um trenzinho do ego. Mas também para os meus leitores queridos. Tu aí, pessoa. Toma. Tua pulseira VIP.
A história deste blog é longa, muito longa. Seria bom se nos encontrássemos numa mesa de bar para batermos um papo sobre. Entretanto, como isso não é possível com todos, faço aqui um resumo: Primeiro surgiu o 3LP. Depois deu vontade de seguir carreira solo. Veio o Blog do Geva. Cansei de maltratar o pobre personagem. Nasceu o Blog do Gejfin. Aqui estou. Fim da história.
E agora já basta dessa enrolação, vamos ao que interessa: dando início à festa, fui agraciado por alguns amigos, que preparam uma recepção calorosa. Coisa básica, íntima. Logo à noite. Estão todos convidados.
PARABÉNS PARA MIM!
Que eu seja muito feliz, muito rico e que este blog seja muito famoso.
-- Gejfin, isto é para você.
-- Ah! Obrigado Gejfin, mas não precisava.
-- Opa, tudo bem então, devolve aqui. Lojshinha vai mal mesmo e é bom economizar.
-- É. Eu entendo.
Sobe e Desce na Megalópole
São Paulo, 4 de junho de 2004
Uma história baseada e fatos reais.
Chegávamos devagar, como quem anda perdido num lugar estranho à procura de quem não se conhece. E era assim mesmo. O prédio, no coração cansado daquela grande cidade -- a uma quadra da praça da República, a algumas outras do Anhangabaú --, era dos antigos. Quinze andares, um hall comprido, amplo, frio. Dividia-se em dois blocos que, no meu entender, seriam assim populares: a frente; os fundos. Para cada bloco, três elevadores velhos. No bloco da frente um pouco maiores, cabiam até oito viventes. Nos fundos, um desaforo, mal cinco, espremidos, ajeitavam-se lá dentro. Nossa jornada começava no sétimo, com apresentação à recepção e retirada dos crachás de visitantes. Depois disso um upgrade. Nos estabeleceríamos um patamar acima.
Eis que começa o interessante, pois apesar de extenso, o bloco acima é só um aconchego. A partir de agora é que precisas, leitor, tomar com atenção os aconteceimentos.
Dos andares, a ocupação era um tanto homogênea, sob quase total domínio de uma só empresa. A tal que estava nos recebendo. "Nos" porque, ainda não falei, mas junto comigo estava o Renato, colega e amigo. Estávamos ferrados neste trabalho juntos. O que vendia nosso cliente? Ora, gente. Acertei a vírgula. Vendem gente mesmo. Mas calma, explico: é um prestador de serviços de call center. Quase o prédio todo é deles. E o improtante mesmo é que se numa empresa qualquer num andar trabalham dez, ali trabalhavam cinqüenta. Nosso prédio, portanto, pelo menos do quinto ao décimo quarto era por demais assim populoso.
Lá passamos o dia inteiro. As tarefas renderam. O pessoal hospitaleiro. Dia terminando. Não improta aqui este meio-termo. Chegava enfim nossa hora. -- Vamos, tchê, vamos embora! E tomamos rumo. Fomos acompanhados gentilmente até o hall do bloco segundo, dos fundos. Mas papo vai, papo vem. Piada vai, piada vem. Elevador vai, elevador vem. Perdemos, pela conversa, não menos do que umas cinco viagens. E a coisa foi ficando engraçada, porque a porta fechava sempre antes de terminar os cumprimentos. E lá começavamos tudo de novo. Até esgotar o papo. E nessa hora é que, amigo, por definição começa a boa história. Não desistas, mesmo sabendo do quão irrelevante pode ter sido ler o que estava aí acima. Entenda que não é possível, às vezes, ir direto ao ponto. Verás mais adiante do que estou falando. Afinal, irrelevante por irrelevante, ainda te poupei de ler neste texto qualquer coisa sobre o tempo. Estava frio como aqui no Sul. Definitivamente São Paulo é São Paulo, não é o Rio. Lá também tem inverno.
Voltando para a história, estávamos ali parados, cuidando a luz de alerta, aquelas que indicam que o elevador sobe ou desce, emitindo um som esquisito. E piscou desce. Fomos? Não. Lotado. Por sorte chegava o do lado. "Desce". Igual lotado. Claro, era hora de troca de turno. E, tu aí que estás lendo, já podes ir imaginando como não é estar no oitavo e ter uma população inteira descendo. Isto mesmo, também não acreditamos no que estava acontecendo. Escada, pensas tu? Só lá no outro bloco. Entretanto, como os dois pássaros estavam mesmo voando, o cliente que nos acompanhava fez exatamente este convite: -- Quem sabe vamos para o outro bloco? São maiores os elevadores. Fomos. Não é assim tão perto como parece, atravessa-se duas roletas, salas, corredores. Chegamos. "Desce" piscou o do meio. E foi traumatizante. A porta abriu como se fosse de um ônibus em dia de jogo. E assim repetiram-se outras tantas vezes. Nós ali, impressionados. Com lugar só aqueles que estavam subindo. Mesmo assim o número também ia aumentando e já fazíamos uma idéia do porquê desse fenômeno.
Era inevitável: começamos a tirar sarro e conversar sobre aquilo que agora estava na nossa frente, virando história. Uma guria que estava na fila não se conteve. Interrompeu a redação de uma mensagem de texto, virou-se, sorriu e disse: -- Isso não é nada. Ontem esperei por 30 minutos um que me levasse lá para baixo. Pronto. Tinha como não virar piada? Então, pensando de novo naquela hipótese para o fenômeno do "sobe", decidimos entrar no baile. Dança que consistia em ocupar seu lugar no espaço, não importando se o sentido era inverso. Assim, bastaria chegar lá em cima e esperar a volta. Assim fizemos. Como era já esperado, o elevador estava quase lotado. Ninguém do térreo. Vinham do quarto, quinto, sexto, sétimo...
Na subida, lenta, parávamos em todos os andares. Ninguém atravessava a porta. E os de dentro olhavam com olhos de vitória para os pobres de fora, que ficariam ali esperando ainda, sabe-se lá, horas. Ou até encararem dez, onze andares pela escada. Essa jornada toda aqui em conto, nem parece ter demorado. Engano. Imagine o tal "veiculo" estacionar em todos os andares na subida e depois na volta. Levamos minutos preciosos. Tanto que aqueles oito ali apertados não mais conseguiam manter-se invisíveis. Pelo contrário. Conversas fluiam. Alguns flertes. Eu e o Renato fazendo piada com a situação e todos participavam. Era quase uma família. Comecei a achar que ia sentir saudades. E recém chegávamos outra vez no oitavo. Aconteceu até o acaso de um sujeito descer, não lembro o piso. Ele saiu, entraram dois no lugar. Um perigo. Começou também o imaginário coletivo a tomar asas indomáveis, levando toda aquela família na viagem. Mais ou menos o seguinte:
A porta abre e lá espera, inquieto, um sujeitinho baixo, nordestino da gema, cabeça chata, cara morena. Traz uma cesta, veste um guarda-pó branco. No bolso um crachá pendurado: "Sindicato dos ambulantes de S. Paulo". Entra irritado, pois estava atrasado. Diz ele que devia ter chegado há 1 hora. Metade da clientela devia ter ido embora. Mas que a vida é assim dura e não pode reclamar, pois tem saúde. -- E, assim, finalizando o discurso, levanta uma das mãos com embalagens entre os dedos e anuncia: água, pastilha, bala de goma, puxa-puxa! Todos à vontade diante do mais novo ofício em São Paulo: o ambulante de elevador. Com certeza deve fazer dinheiro. Na maldade ainda lembramos que, devido ao aperto e necessidade de "ajeitamento" pela lotação do cubículo, o produto mais vendido do nosso amigo não é de comer, mas tubos de KY.
[Plim!] Térreo. Ufa! Saem todos rindo. No final das contas até que foi bem divertido. Passamos no balcão da segurança para entregar os crachás de visitante e a última notícia triste do dia. Teremos que entregá-los onde retiramos, na recepção da empresa, andar sétimo. Só assim poderemos deixar o prédio. Pois nessa hora o humor escafedeu-se. Só de pensar em passar por tudo de novo. Ninguém merece perder tanto. Entretanto, foi só o susto. Subimos e descemos sem qualquer contratempo.
Não sei se percebeste a gravidade do que foi contado? Onde chega o caos das grandes cidades? Que o movimento acelerado do maior acúmulo de gente da Amárica Latina vai acabar deixando todos travados. Antes eu já sabia que em São Paulo muitos saem mais tarde do trabalho, porque na matemática do trânsito infernal urbano, sair na hora ou depois, corresponde a chegar quase na mesma hora em casa. Pois bem, agora, além disso, os pobres paulistanos precisam incluir neste lapso e perda de tempo a meia-hora a mais que todos os dias vão levar para conseguir chegar, pelos elevadores da vida, no piso térreo. Haja paciência, coitados.