Ei! Táxiiii! Nessas últimas semanas
Ei! Táxiiii!
Nessas últimas semanas turbulentas de trabalho, foi uma constante experimentar algo que há muito não fazia: andar de táxi.
Definitivamente é uma beleza, ainda mais quando tudo é pago pela empresa. Todo conforto de andar de carro, sem o desconforto da preocupação com o mesmo. A glória!
Foram duas semanas e meia. Idas e vindas. Em Porto Alegre e São Paulo. Por alto, devo ter feito algo como umas 30 viagens, pelos mais variados itinerários, modelo de carros e motoristas. De corridas de poucos quarteirões para fugir da chuva ao trecho centro de S. Paulo - Aeroporto de Guarulhos. De Uno Mille que apaga na lomba a Meriva. De velhinho "sutilmente" cegueta a gordo mal-humorado e "sutilmente" alcoolizado; de lentos e viajantes a endiabrados fdps que saem cortando todo mundo.
E, aliás, é aí mesmo, nos motoristas, que está toda diversão e riqueza dessas experiências. Claro, tem sim aqueles caladões que nem perguntam do tempo. Mas é raro. Na grande maioria das vezes são metralhadoras verbais. E a conversa flui mesmo que você, passageiro, não esteja muito a fim.
Em São Paulo, no táxi que peguei para fugir uns quarteirões da chuva, logo que entrei e disse onde ia o motorista perguntou se o tal prédio esse que eu ia era muito novo, porque ele não lembrava de vê-lo muito tempo ali. Falei que não sabia, que não era da cidade. Ele ignorou, continou perguntando há quanto tempo eu trabalhava ali. Eu disse que não trabalhava ali. Ignorou, e continuou naquela dúvida inquietante, querendo saber de mim se lembrava o que tinha antes naquele terreno.
* A saber: o tal prédio é uma monstruosidade de 30 e poucos andares erguido no meio de um monte de áreas de galpões e tal. Ou seja, é uma ilha de vidro. Não tem como não percebê-lo. Se era novo, sei lá. Mas um prédio de 30 e poucos andares que já abriga pelo menos umas 5 grandes empresas não deve surgir do dia para a noite. A saber 2: "uns poucos quarteirões" no trânsito de São Paulo pode ser uma corrida de muitos minutos.
Ainda em São Paulo, tem daqueles motoristas que logo que tu entras no táxi sabem que tu és de outro lugar. Perguntam quando chegou, até quando ficas, se vieste a trabalho e qual aeroporto tu vais embarcar. No final dessa pesquisa de marketing eles te dão um cartão, prometem uma preço camarada na corrida até Guarulhos e ainda, assim que tu abres a porta para descer, perguntam sobre algum plano para diversão, indicam uns puteiros, bairros com barzinhos e reforçam: - Bom, se precisar de táxi, é só me ligar, faço um preço especial.
Pior mesmo é estar numa cidade que conhece pouco, entrar no táxi às 18h30min, num trânsito infernal, dizer o endereço e o motorista responder: -- Hum... Claro... Cê tem preferência por caminho? E tu dizes: Não. Ele responde: -- É que não estou lembrado onde fica. Entre o terror e a indignação, puxo aquela memória fotográfica. Dou umas referências. Ele nada. Prefere parar num sinal, abrir o porta-luvas e procurar a rua no guia de endereços. Só que o sinal abre e ele se vira, olha para ti, estica a mão e diz: -- Vai procurando aí a rua, o mapa e quando encontrar me mostra.
O que me levou atá o aeroporto era uma figura ímpar. Ignorei todos os cartões recebidos e achei melhor pedir o táxi pelo hotel mesmo. Mais seguro. Veio um velhinho baixinho. Daqueles que olham por cima da direção. Como no hotel eles têm aquelas tabelas de valores, pensei que ela seria obedecida, como no trajeto aeroporto - hotel. Mas foi entrar no carro e ele perguntou se eu tinha fechado um preço no hotel. Pensei: Putz... me ferrei! Mas não. Me fiz de vítima do sistema, de confuso e de coitado. Disse um "como assim?" num tom meio desesperado. Então ele me deu uma aula sobre como tudo funciona. Do acréscimo de tarifa por sair da cidade, das regras impressas em adesivos em inglês para não fazer sacanagem com turistas, e de como por ser eu um cara legal ele fechava um preço agora, ignorando aquele amontoado de "plus" tarifários. Tínhamos andado pouco. Sorte. Até que fechei um bom preço. No caminho ele começou a falar do tempo enquanto voava pelas avenidas a mais de 120km/h (isso eram 3h30 da madrugada). Mas só ele falava. Não sei o que tinha de errado, mas tudo que eu falava o cara não escutava ou escutava trocado. Ou, quando escutava, mal fazia idéia. Demorou uns 15 minutos para eu conseguir dizer que gostava do frio e morava em Porto Alegre. E quando ele "entendeu", concordou com um "é, lá é frio né", e perguntou alguma coisa como quem quis dar a entender que Porto Alegre ficava no outro hemisfério, enquanto no "Brasil" é quente, lá é frio etc. Encerrei a conversa.
Aqui em Porto Alegre, em geral, os taxistas são mais contidos (para um padrão taxista, claro). Entretanto foi onde, por um só episódio, me diverti mais.
Peguei um táxi do centro para o bairro Petrópolis. Eram umas 19h e o trânsito estava bem lento. Embarquei e o cara já começou a puxar papo. Acho que sobre o tempo também ou outra banalidade. Mas o sotaque não era de gaúcho. Perguntei. E ele era carioca. Paramos num sinal e bem ao lado do táxi parou um corsa branco novo com uma mulher tri bem produzida na direção. Notei que ele quando viu a mulher ficou meio inquieto. Ela ainda não o tinha visto. Ele então virou pra mim:
-- Sabe aquela ali? É prostituta. Conheço ela. Seguido pego ela (no sentido dela embarcar no táxi como qualquer um) ali na Farrapos. Olha como dá dinheiro a coisa. Carrinho bonitinho.
E eu, rindo: - Pois é, né.
-- Peraí. Quero que ela me veja. Vou tirar uma onda, falar "que carro bacana".
E ele esperou o outro sinal para fazer com que ela visse. E ela viu, olhou para ele, sorriu.
-- Viu só? Conheço ela. De noite trabalha na Farrapos. De dia numa galeria ali no centro, fazendo massagem. Seguido vou lá (agora no sentido da sacanagem mesmo). Ah... o cara não agüenta só a patroa. E comigo é assim. Ela até sabe. A gente tem uma relação bem aberta. Ela também deve dar os tiros dela. Então nem fica braba. Só me diz para cuidar - usar camisinha - para não trazer nenhuma porcaria para casa.
E eu, rindo e já dectectando ali uma história a ser contada: Arrã...
E para voltar ao assunto da pessoa, que continuava parando em todos os sinais ao nosso lado, comentei: Ó ela aí de novo.
-- Ela me viu. Mas vai fazer que não viu. Elas têm medo de ser reconhecidas assim fora do trabalho. Mas eu conheço um monte. Tá cheio aí pela rua. Cê não diz que é, mas é. Conheço várias. Pego elas (no sentido do táxi) na porta dos hotéis. Umas meninas bonitas. De dia estudam. De noite fazem programa. Dizem elas que é para pagar a faculdade, mas isso dá uma nota, rapaz!
Eu: É verdade. Tem um monte de gurias assim espalhadas pelas universidades. Estudo na PUCRS e com certeza lá deve ter um monte.
-- Acho que a que tem mais é a ULBRA. Uma vez um cliente meu disse que foi numa festinha, dessas despedida de solteiro, e encontrou uma menina que era da sala do lado da sua, na ULBRA. Ela pediu que peloamordedeus ele não falasse nada, fez um bom desconto e tal. O cara concordou, claro. Se deu bem.
Enquanto falávamos ele ficava provocando com olhares a moça conhecida do carro vizinho. Comentando repeditas vezes, quando fazia isso, que ela não o cumprimentara por minha causa, porque tinha cliente no carro. Se eu não estivesse ali ela falava com ele. Pois de repente foi ela que aproximou o carro, escancarou a janela e um baita sorriso, olhou para o motorista e comentou alto:
-- Oi! Tu comprou um celular lá na minha loja, né?!
Ele, pouco espantado, faz um sinal de ok. Ela mudou de pista. Foi embora. Ele me olhou e disse:
-- Viu?
Nós caímos na gargalhada.
O papo seguiu.
-- Na verdade acho que elas estão mais é certas. Esse país não dá nada. Pelo menos elas estão estudando. Porque, sabe, eu acho que tudo começa na educação. Não adianta o país crescer, exportar. São milhões que ficam sempre nas mãos das mesmas pessoas. Tem que investir em educação. Sabe, eu sou formado em jornalismo e trabalhei durante muito tempo com políticos. Cê sabe que existem bons políticos, mas o sistema é muito grande para ser mudado. Esses bons políticos vão demorar anos para chegar ao poder. E ninguém faz nada. Brasileiro é muito acomodado. Na Argentina, quando fazem alguma sacanagem, todo mundo vai para a rua, colocam fogo, quebram tudo. Aqui nada. Deixaram o Fernando Henrique 8 anos. 8 anos! Puta... o cara entregou o Brasil. Faliu o Brasil....
E isso foi longe. Ele começou a falar da dívida externa e me explicou toda aquela coisa louca de regras de FMI, balança comercial, deu opinião sobre orçamento, renegociação de dívida dos estados e sei lá mais o quê. Na chegada, ainda, para fechar com chave de ouro, quando pedi o recibo, ele perguntou qual valor. Eu, tri honesto, disse que podia ser o valor correto, que tinha ali marcado no aparelho. Ele virou para mim e disse, sorrindo:
-- Tá maluco. Cê merece um cafezinho. Tanta gente ganha, por que a gente não pode ganhar também um pouquinho? Sua empresa não vai te negar um cafezinho. Deu 12,00 o taxímetro. Vou colocar aqui 16,00. Acho que tá bom.
E como eu ia negar?!
-- Até logo então. Uma boa tarde e um bom trabalho pra você.
Bah Leandro, com esta do taxi tu vai até me pagar um capucchino da Kopenhagem... Ok, ok... pode ser o pequeno. :-D
baita crônica :D
(detesto taxistas que vieram da Comunicação Social. esses tempos (na verdade bastante tempo) peguei um (no sentido de embarcar no carro) que era paulista e publicitário, tinha trabalhado em agência grande e tudo. eu fico ouvindo eles falando e me vejo dirigindo um taxi e contando "olha, moço, putaquepariu de país, hein?"
hm, melhor tirar a minha carteira de uma vez...
pois é. taxistas são umas figuras mesmo. mas preciso de uma bela mesa de bar pra contar o que já escutei num banco de carona de táxi... ;D