junho 2004 Archives
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Essa aconteceu no dia que roubaram meu carro, mas tinha esquecido de contar.
Como de praxe, logo após dar falta do veículo e "entender" não ser uma brincadeirinha, ligo para a polícia.
-- Por favor aguarde, nossas posições estão todas ocupadas.
-- Grrrrr... Se fosse uma emergência eu já tinha ido pro brejo. -- Eu, pensando.
Cinco minutos mais tarde.
-- Boa noite, senhor, em que posso ajudá-lo?
-- É o seguinte: roubaram, furtaram meu carro.
-- Qual é a placa?
-- Ixx xxxx
-- E o modelo, ano.
-- Um Palio, 99.
-- Cor?
-- Preto.
-- O senhor está no local do furto?
-- Sim.
-- Queres que uma viatura vá até aí?
-- Sim, por favor.
-- Qual o telefone de referência?
-- Estou no celular. Pode ser?
-- Sim.
-- É 99xxx.xxx.
-- Ok. Estou enviando então uma viatura. Deseja mais alguma coisa?
-- Olha... se o telefone que dei foi celular, não esqueceste de me perguntar onde estou?
-- Por favor, onde o senhor está, qual o enderço?
-- Rua São Mxxxx, número xxx. Quase esquina com a Xxxxxxx.
-- Algum ponto de referência?
-- Mas eu já não disse o enderço completo, com número e tudo? E a esquina com a Xxxxx não serve como referência?
-- Estou mandando uma viatura. Por favor aguarde no local informado.
-- ... Claro. Obrigado.
-- Boa noite.
ECADê o bom senso?
Meu pai é professor de uma escola estadual que fica na zona leste de Porto Alegre. Escola pequena, situada numa bairro de classe média baixa. Como toda escola pública brasileira, não tem recursos, abriga um bando de heróis, conhecido como corpo docente ou "tios e tias" que atravassam pântanos e vales de problemas para dar aula à jovens que, naquele caso, vêm em sua maior parte de bairros próximos carentes. Lida, também como todas as escolas públicas no Brasil, diariamente com horrores sociais, repetências, desistências e a tão já familiar violência (assaltos, estupros, tráfico de drogas).
Posta a idéia do cenário, vamos aos fatos.
É junho. Mês de uma tradição caipira: as festas juninas. E são nas escolas, mais que qualquer outro lugar, onde esta tradição se preserva pelo país. Assim a nossa querida escola, apresentada acima, segue essa quadrilha e se movimenta para organizar a função. Antes de qualquer coisa, são estas as melhores oportunidades de trazerem para perto dos jovens a família distante, deixar a educação se misturar com prazer e diversão, reunir uma comunidade no pátio deste templo (e deveria ser respeitado como) da educação. Qualquer psicólogo ou educador ou sociólogo ou antropólogo, penso, concordaria comigo.
Mas fazer a festa não é fácil. O básico: escola pública mal tem dinheiro para o ensino, não tem como ter dinheiro para extras classes. Diante disso, brasileiros fazem-se bem brasileiros e correm para dar um jeitinho. Investem tempo e dinheiro de próprio bolso. Até porque pelas barraquinhas está uma chance de arrecadar - de uma forma absolutamente legítima - trocados que poderão virar livros, cadeiras, mesas, merenda.
Então chega um senhor de gravata e bate à porta:
-- Sou do ECAD. Sei da festa que vocês estão organizando. Não sei se vocês conhecem o ECAD...
O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição é responsável por arrecadar direitos autorais de toda execução musical no país, protegido por uma lei federal.
-- ... Vocês tem idéia de quantas pessoas vem à festa? Pois bem, vou fazer aqui um cálculo. Será uma projeção. Vocês podem optar por termos um fiscal registrando no dia que músicas vocês vão executar. Mas te adianto, normalmente nossas projeções saem mais barato.
E assim ele multiplica o número de pessoas por alguns centavos e emite um boleto. No caso foi de R$450,00. A serem pagos inevitalvelmente, ou chega por lá uma pena federal.
Escola pública. Imagina precisar agora fazer um pedido ao estado de verba para tal gasto?
O resultado é que diretores e professores estão prestes a murchar, desolados. Primeiro porque não há o dinheiro em caixa. E depois será triste ver tudo que for arrecadado nas barraquinhas de pipoca, pinhão e afins, ao invés de virar livros, perder-se pelos caminhos do ECAD, associações e autores. Caminho esse que pouco se conhece e pouco se vê.
A festa provavelmente será cancelada.
E ficam ainda algumas dúvidas minhas:
-> Se eu executar três vezes para 1000 pessoas durante uma tarde festiva de São João a música Cai-Cai Balão, onde vai parar esse dinheiro?
-> Será que os artistas (que - teoria! - recebem fielmente seus direitos) não se sensibilizariam com este tipo de coisa, abrindo mão desses trocados e se preocupando só com os fins lucrativos de sua obra?
Achei um absurdo.
O que seria de um músico sem outros, além dos seus próprios, ouvidos!?
Que o ECAD e os músicos associados que não se preocupam em tirá-lo dessa pré-história fonográfica, explodam todos juntos!
A nós, resta apenas que façamos um adendo à indumentária típica que, pena, ficará em casa. Entre calça remendadas e chapéus de palha, chamo todos incrementar no dia-a-dia, além do já de costume nariz de palhaço, um belo tapa-olho de pirata. Ao mar, piratas! Cada um luta com as armas que tem.
Topo
Só para registrar, aconteceu: O Brasil ultrapassou os USA em usuários (ou acessos, não sei direito) do Orkut.
:-)
Funerais políticos: só poucas coisas sobre o fim do Brizola
1) Ele estava gagá.
2) Ele era uma articulador de primeira. Político de velhos tempos. Mas esqueceu de se atualizar.
3) Tornou-se ídolo para uma geração. Mais ídolo do que competente.
4) Não vai fazer falta agora, porque a falta dele essa geração já sentia há pelo menos 10 anos.
5) Nunca foi um líder. Líder, entre suas artes, delega e valoriza responsabilidades. Estimula ascenções. Ele não.
6) É aclamado, antes e depois de morto, por suas convicções. Por suas ideologias. Agora, cá entre nós, quais eram? Poucas vezes vi ele dando ou executando idéias. Nas vezes que vi ou ouvi seus discursos ele analisava o presente e tecia críticas. Nunca vi um "Plano Brizola" para o Brasil.
7) Acho o fim do mundo o povo fazer fila para passar na frente de caixão de ídolo morto. Seja político, seja de qualquer outra profissão. Um culto, uma cerimônia pública, um cortejo, tudo bem, é uma forma de afirmar aspectos culturais. Mas um gari ficar 2 horas numa fila para passar 2 segundos na frente do caixão de alguém "estranho" e chorar o resto do dia é o fim de tudo.
8) Tenho que tomar cuidado para não magoar ninguém. Tenho em casa dois brizolistas fanáticos. Pelo menos foram fanáticos.
9) Mas que o cara fez história, fez. E, como sempre digo, tirando as idéias, merecem respeito e admiração (minha pelo menos) todos aqueles que tem o dom de movimentar pessoas. E isso ele tinha de sobra.
10) E, no fim das contas, penso: com tanto velho político velho no Brasil da geração Brizola, de ultrapassados a bandidos, em todos os estados, precisava morrer logo um gaúcho? :-)
Plus) Pobres cartunistas e humoristas. Estes sim chorarão com motivo. Foi-se, e neste quesito não há dúvidas da grandiosidade do invíduo, o mais caricato dos políticos.
Orcute
Orcute, Orcute. Estou começando a ficar assustado com a dimensão que este bicho está tomando. E, tenho certeza, não sou só eu.
Para quem não conhece, falo do www.orkut.com, a "maior comunidade virtual" do mundo. Nascida nos USA, através da despretenciosa idéia de um webtudinho do Google, a onda foi e está indo mais longe do que muitos imaginavam.
E o centro das atenções, se antes era o prórpio Orkut, agora é o Brasil no Orkut. Desde meu desembarque na brincadeira tenho, além de aproveitado tudo o que o ambiente proporciona, ficado de olho também na movimentação de alguns índices. E, a cada "logon" que faço, mais atônito fico.
Porto Alegre é a maior comunidade, na categoria cidades e bairros, de todo Orkut. E não é com diferença de um só gol não. Tem o dobro de participantes do que a segunda colocada, São Francisco. Mas impressiona mesmo a continuidade do crescimento. Já é considerada um fenômeno pelo tamanho, mas continua crescendo em um ritmo alucinante. Em dois dias foram cerca de 300 pessoas. Nenhuma outra cidade chega perto disso. Tanto não chega que alguns bairros ou zonas (eu disse BAIRROS ou ZONAS) da capital já figuram na lista de maiores comunidades, como é o caso da "Porto Alegre Zona Sul". Ocupa hoje o 10°, na frente de cidades (eu disse CIDADES) como Londres, Paris, Tóquio, Chicago, Los Angeles, Curitiba, Amsterdã e por aí vai.
Nas outras estatísticas, as de percentual de acesso por países, há dois meses, quando entrei, o Brasil figurava no terceiro lugar, com 5%, atrás do Japão, com 6%. Os EUA, primeiros colocados, mantiam um confortável primeiro lugar com algo em torno de 50%. Hoje, quem entrar lá poderá ver um quadro bem diferente. Com 32,04% (isso há alguns minutos, já pode ter mudado) os americanos estão balançando, vendo o trenzinho brasileiro chegar a quase 28%. De novo, mais assustador do que os números, é o crescimento. Estou certo de que quando resolveres verificar o que digo, os americanos já terão amargado o encolhimento para o patamar 31%. Assim, acho que antes do meio do mês que vem, passamos.
Não sei quanto a ti, mas eu acho isso fantástico.
Principalmente porque o fenômeno Brasil está começando a mexer, a incomodar, a afetar. Pipocam as comunidades (em especial abertas por americanos e ingleses) que repudiam tal fato. Chamam brasileiros de peste, de câncer do Orkut "deles" e fazem camapanha para nos banir de tão honrado sistema.
Mais ainda que isso, o espetacular é que, dentre as várias birras e picadas sentidas, é campeã de citações a língua. Isso mesmo! Nossa querida língua portuguesa. Como li na apresentação de uma dessas comunidades, "Pela expulsão dos brasileiros porque é um absurdo tantas comunidades e mensagens em português! Esses brasileiros não respeitam a língua da Internet! Não agüentamos mais incontáveis mensagens em português em todas as comunidades." Ou "O que querem esses brasileiros com o Orkut!?"
E, na carona, já existem até comunidades tipo "Help! I don´t know portuguese!". Ou aquelas que escrevem: "Rules: 1) post in English so that we can all understend."
Fantástico! Fantástico!
Será que sou um entusiasmado maluco, ou é mesmo fantástico tentar ler as entrelinhas deste deste maremoto? De como essa projeção pode estar revirando conceitos e pré-conceitos de outros em relação a nós. Vê-se em fóruns questionamentos do tipo: "Como pode um país como o Brasil fazer isso? Pensei que lá Internet fosse coisa rara." E não só de lá pra cá, pois também achei interessantíssimo ver que a terceira maior nação em acessos passou, desde o início desta semana, a ser o Irã, que passou o Japão, que já havia sido ultrapassado há algum tempo (embora tenha recuperado posições) pela Estônia.
Bom, daria para ficar horas analisando, viajando, pensando sobre isso. Vejo um alcance enorme. Eu, pelo menos, vejo mesmo. Um poder de transformação subjetiva de potência atômica.
E depois ainda há quem diga que a Internet não serve para muita coisa.
Ei! Táxiiii!
Nessas últimas semanas turbulentas de trabalho, foi uma constante experimentar algo que há muito não fazia: andar de táxi.
Definitivamente é uma beleza, ainda mais quando tudo é pago pela empresa. Todo conforto de andar de carro, sem o desconforto da preocupação com o mesmo. A glória!
Foram duas semanas e meia. Idas e vindas. Em Porto Alegre e São Paulo. Por alto, devo ter feito algo como umas 30 viagens, pelos mais variados itinerários, modelo de carros e motoristas. De corridas de poucos quarteirões para fugir da chuva ao trecho centro de S. Paulo - Aeroporto de Guarulhos. De Uno Mille que apaga na lomba a Meriva. De velhinho "sutilmente" cegueta a gordo mal-humorado e "sutilmente" alcoolizado; de lentos e viajantes a endiabrados fdps que saem cortando todo mundo.
E, aliás, é aí mesmo, nos motoristas, que está toda diversão e riqueza dessas experiências. Claro, tem sim aqueles caladões que nem perguntam do tempo. Mas é raro. Na grande maioria das vezes são metralhadoras verbais. E a conversa flui mesmo que você, passageiro, não esteja muito a fim.
Em São Paulo, no táxi que peguei para fugir uns quarteirões da chuva, logo que entrei e disse onde ia o motorista perguntou se o tal prédio esse que eu ia era muito novo, porque ele não lembrava de vê-lo muito tempo ali. Falei que não sabia, que não era da cidade. Ele ignorou, continou perguntando há quanto tempo eu trabalhava ali. Eu disse que não trabalhava ali. Ignorou, e continuou naquela dúvida inquietante, querendo saber de mim se lembrava o que tinha antes naquele terreno.
* A saber: o tal prédio é uma monstruosidade de 30 e poucos andares erguido no meio de um monte de áreas de galpões e tal. Ou seja, é uma ilha de vidro. Não tem como não percebê-lo. Se era novo, sei lá. Mas um prédio de 30 e poucos andares que já abriga pelo menos umas 5 grandes empresas não deve surgir do dia para a noite. A saber 2: "uns poucos quarteirões" no trânsito de São Paulo pode ser uma corrida de muitos minutos.
Ainda em São Paulo, tem daqueles motoristas que logo que tu entras no táxi sabem que tu és de outro lugar. Perguntam quando chegou, até quando ficas, se vieste a trabalho e qual aeroporto tu vais embarcar. No final dessa pesquisa de marketing eles te dão um cartão, prometem uma preço camarada na corrida até Guarulhos e ainda, assim que tu abres a porta para descer, perguntam sobre algum plano para diversão, indicam uns puteiros, bairros com barzinhos e reforçam: - Bom, se precisar de táxi, é só me ligar, faço um preço especial.
Pior mesmo é estar numa cidade que conhece pouco, entrar no táxi às 18h30min, num trânsito infernal, dizer o endereço e o motorista responder: -- Hum... Claro... Cê tem preferência por caminho? E tu dizes: Não. Ele responde: -- É que não estou lembrado onde fica. Entre o terror e a indignação, puxo aquela memória fotográfica. Dou umas referências. Ele nada. Prefere parar num sinal, abrir o porta-luvas e procurar a rua no guia de endereços. Só que o sinal abre e ele se vira, olha para ti, estica a mão e diz: -- Vai procurando aí a rua, o mapa e quando encontrar me mostra.
O que me levou atá o aeroporto era uma figura ímpar. Ignorei todos os cartões recebidos e achei melhor pedir o táxi pelo hotel mesmo. Mais seguro. Veio um velhinho baixinho. Daqueles que olham por cima da direção. Como no hotel eles têm aquelas tabelas de valores, pensei que ela seria obedecida, como no trajeto aeroporto - hotel. Mas foi entrar no carro e ele perguntou se eu tinha fechado um preço no hotel. Pensei: Putz... me ferrei! Mas não. Me fiz de vítima do sistema, de confuso e de coitado. Disse um "como assim?" num tom meio desesperado. Então ele me deu uma aula sobre como tudo funciona. Do acréscimo de tarifa por sair da cidade, das regras impressas em adesivos em inglês para não fazer sacanagem com turistas, e de como por ser eu um cara legal ele fechava um preço agora, ignorando aquele amontoado de "plus" tarifários. Tínhamos andado pouco. Sorte. Até que fechei um bom preço. No caminho ele começou a falar do tempo enquanto voava pelas avenidas a mais de 120km/h (isso eram 3h30 da madrugada). Mas só ele falava. Não sei o que tinha de errado, mas tudo que eu falava o cara não escutava ou escutava trocado. Ou, quando escutava, mal fazia idéia. Demorou uns 15 minutos para eu conseguir dizer que gostava do frio e morava em Porto Alegre. E quando ele "entendeu", concordou com um "é, lá é frio né", e perguntou alguma coisa como quem quis dar a entender que Porto Alegre ficava no outro hemisfério, enquanto no "Brasil" é quente, lá é frio etc. Encerrei a conversa.
Aqui em Porto Alegre, em geral, os taxistas são mais contidos (para um padrão taxista, claro). Entretanto foi onde, por um só episódio, me diverti mais.
Peguei um táxi do centro para o bairro Petrópolis. Eram umas 19h e o trânsito estava bem lento. Embarquei e o cara já começou a puxar papo. Acho que sobre o tempo também ou outra banalidade. Mas o sotaque não era de gaúcho. Perguntei. E ele era carioca. Paramos num sinal e bem ao lado do táxi parou um corsa branco novo com uma mulher tri bem produzida na direção. Notei que ele quando viu a mulher ficou meio inquieto. Ela ainda não o tinha visto. Ele então virou pra mim:
-- Sabe aquela ali? É prostituta. Conheço ela. Seguido pego ela (no sentido dela embarcar no táxi como qualquer um) ali na Farrapos. Olha como dá dinheiro a coisa. Carrinho bonitinho.
E eu, rindo: - Pois é, né.
-- Peraí. Quero que ela me veja. Vou tirar uma onda, falar "que carro bacana".
E ele esperou o outro sinal para fazer com que ela visse. E ela viu, olhou para ele, sorriu.
-- Viu só? Conheço ela. De noite trabalha na Farrapos. De dia numa galeria ali no centro, fazendo massagem. Seguido vou lá (agora no sentido da sacanagem mesmo). Ah... o cara não agüenta só a patroa. E comigo é assim. Ela até sabe. A gente tem uma relação bem aberta. Ela também deve dar os tiros dela. Então nem fica braba. Só me diz para cuidar - usar camisinha - para não trazer nenhuma porcaria para casa.
E eu, rindo e já dectectando ali uma história a ser contada: Arrã...
E para voltar ao assunto da pessoa, que continuava parando em todos os sinais ao nosso lado, comentei: Ó ela aí de novo.
-- Ela me viu. Mas vai fazer que não viu. Elas têm medo de ser reconhecidas assim fora do trabalho. Mas eu conheço um monte. Tá cheio aí pela rua. Cê não diz que é, mas é. Conheço várias. Pego elas (no sentido do táxi) na porta dos hotéis. Umas meninas bonitas. De dia estudam. De noite fazem programa. Dizem elas que é para pagar a faculdade, mas isso dá uma nota, rapaz!
Eu: É verdade. Tem um monte de gurias assim espalhadas pelas universidades. Estudo na PUCRS e com certeza lá deve ter um monte.
-- Acho que a que tem mais é a ULBRA. Uma vez um cliente meu disse que foi numa festinha, dessas despedida de solteiro, e encontrou uma menina que era da sala do lado da sua, na ULBRA. Ela pediu que peloamordedeus ele não falasse nada, fez um bom desconto e tal. O cara concordou, claro. Se deu bem.
Enquanto falávamos ele ficava provocando com olhares a moça conhecida do carro vizinho. Comentando repeditas vezes, quando fazia isso, que ela não o cumprimentara por minha causa, porque tinha cliente no carro. Se eu não estivesse ali ela falava com ele. Pois de repente foi ela que aproximou o carro, escancarou a janela e um baita sorriso, olhou para o motorista e comentou alto:
-- Oi! Tu comprou um celular lá na minha loja, né?!
Ele, pouco espantado, faz um sinal de ok. Ela mudou de pista. Foi embora. Ele me olhou e disse:
-- Viu?
Nós caímos na gargalhada.
O papo seguiu.
-- Na verdade acho que elas estão mais é certas. Esse país não dá nada. Pelo menos elas estão estudando. Porque, sabe, eu acho que tudo começa na educação. Não adianta o país crescer, exportar. São milhões que ficam sempre nas mãos das mesmas pessoas. Tem que investir em educação. Sabe, eu sou formado em jornalismo e trabalhei durante muito tempo com políticos. Cê sabe que existem bons políticos, mas o sistema é muito grande para ser mudado. Esses bons políticos vão demorar anos para chegar ao poder. E ninguém faz nada. Brasileiro é muito acomodado. Na Argentina, quando fazem alguma sacanagem, todo mundo vai para a rua, colocam fogo, quebram tudo. Aqui nada. Deixaram o Fernando Henrique 8 anos. 8 anos! Puta... o cara entregou o Brasil. Faliu o Brasil....
E isso foi longe. Ele começou a falar da dívida externa e me explicou toda aquela coisa louca de regras de FMI, balança comercial, deu opinião sobre orçamento, renegociação de dívida dos estados e sei lá mais o quê. Na chegada, ainda, para fechar com chave de ouro, quando pedi o recibo, ele perguntou qual valor. Eu, tri honesto, disse que podia ser o valor correto, que tinha ali marcado no aparelho. Ele virou para mim e disse, sorrindo:
-- Tá maluco. Cê merece um cafezinho. Tanta gente ganha, por que a gente não pode ganhar também um pouquinho? Sua empresa não vai te negar um cafezinho. Deu 12,00 o taxímetro. Vou colocar aqui 16,00. Acho que tá bom.
E como eu ia negar?!
-- Até logo então. Uma boa tarde e um bom trabalho pra você.
Hum... ah. Casa. Casa. Minha casa.
Cansado, chego cansado. Mas tô em casa.
* * * * *
Durante esses dias fiz tanta coisa. É tanta história para contar. Pena que esqueci de quase todas.
* * * * *
E para não ficar remexendo o passado, nem passado recente, meu assunto de hoje de manhã, imposto - quase - e não escolhido é a p**** da gasolina. É tanta confusão na minha cabeça. Começou ontem na chamada da Folha On-line que falava em 10 a 15% nas refinarias e 7% de aumento nos postos, lá pelas 17h30 e às 20h30 remendava para "de 4 a 5% para o consumidor." Não sei exatamente quando significa em "pilas" isso, pois ninguém sabe direito como é formado o preço da gasolina (que tem muito mais impostos que gasolina). E hoje quando acordo está no jornal Zero Hora: "aumento médio de 4% para o consumidor" com uma foto de um posto cujo preço novo era de "R$2,29". Então eu penso e calculo:
Ontem o preço médio do litro de gasolina era de R$1,95. Se aplicarmos os tais "5% de aumento para o consumidor" (creio que EU seja um consumidor, portanto é o preço que eu pago, da bomba, a que eles se referem) o aumento teria que ser de 0,09 a 0,10 Reais. Ou seja, passaria para R$2,05 em média. Foi para **2,29**! Ou seja, algo como 23% de aumento. Mas isso se eu fosse um economista (Deus me livre!) malandrinho. Porque se o preço do litro é formado por N coisas além de gasolina e só a gasolina aumentou, todo e qualquer percentual de aumento deveria incidir sobre a gasolina, ou pelo menos excluindo o álcool da mistura e impostos como a CIDE que é um valor absoluto (R$0,40) e não um percentual. Assim teríamos os tais 5% sendo aplicado somente a algo como R$1,40 (tirando CIDE e álcool) e o aumento seria de 0,07, com o preço indo a R$2,02. Foi para **2,29**! Vendo por aí, o aumento para esses otários consumidores foi de algo em torno de **65%**.
Ou as empresas (refinarias) se equivocaram na previsão de aumento para os consumidores.
Ou esqueceram de dizer com base no que eles calculam os percentuais.
Ou foram os postos que se enganaram na aplicação do aumento.
Ou estes mesmos postos são vítimas do sistema de informações sobre aumento de preços da gasolina e seus cálculos estão corretos.
Ou a imprensa não faz a mínima idéia do que está dizendo.
Ou, só para variar, todos eles sabem muito bem o que fazem e o que dizem e a idéia é confundir mesmo nós, os patos consumidores, para pararmos nossas saboneteiras motorizadas num posto e pedir para completar sem questionar coisa alguma, respirando através de um imenso nariz redondo e vermelho.
Ufa! Agora me sinto parte da sociedade moderna brasileira.
Desvirginado, enfim. Finalmente sou número nas estatísticas.
Para resolver um problema, troquei de carro com meu pai. E, na saída do trabalho parei na casa da minha Menina Má. 45min. Voltei e o carro não estava mais lá.
x x x x x x x x
Mas não é isso que queria contar. Não vale a pena.
O tempo me corrói nos últimos dias.
Daqui a pouco volto.