Continuando... :: Crônicas minhas sobre

Continuando...
:: Crônicas minhas sobre eu mesmo me observando sozinho ::

Acordando

O relógio-despertador liga. Que na verdade é o rádio. Sintonizado há anos na mesma emissora. No fundo, no fundo, é a única hora que escuto rádio. Ele desperta. Desperto eu. Mas isso nem sempre acontece. Tem dias que acordo antes. Fico com raiva. Muita raiva. Mordo o travesseiro. "Seu Gejfin idiota, podendo dormir mais um pouquinho!" - penso, fecho os olhos de novo. "Mas e que horas deve ser agora?" - pergunto, com medo. Não resisto e levanto a cabeça para enxergar os dígitos. E é sempre, SEMPRE do assim: falta só um minuto. Deito e me cubro de novo rápido. Tenho que aproveitar esse tempo. "O que eu estava sonhando mesmo? Tô ficando com sono... muito sono..." A droga desperta. Dou um soco na cama. Mas relaxo em seguida, acho ridículo socar a cama, afinal a vida é assim. Fico bem desperto para ouvir qual besteira o locutor despeja. Tocava uma música ruim. Ele fala. São dez para às sete. Sou tomado de alegria, pois é cedo ainda. Levantando agora chegarei em ponto no trabalho, sem precisar correr. Sem precisar me estressar com estacionamento. Sem precisar ficar até mais tarde para compensar tempo. Vai ser um dia feliz. Muito feliz. Vou fazer tudo que quero sem precisar me preocupar muito. Por exemplo, posso escrever aquele conto, aquela idéia abandonada. "O que era mesmo? Sim, da velhinha que recebe cartas. Se terminasse com a filha dela chegando e dando um abraço..." Ouço o locutor: Este é o College, a gente ouviu [qualquer coisa] e são oito e cinco. Ele lê algumas manchetes. Fico atento. Muito atento. Escuto todas. Todas da Zero Hora. Acho um absurdo uma delas. Pensando bem, acho um absurdo eu prestar tanta atenção, pois vou ler todas dali alguns minutos. "Como é bom ler a Zero Hora de manhã. A informação é uma coisa importante na minha vida." E lembro que é bem aquilo que a professora falou na especialização, sobre os filtros, sobre o acúmulo. Lembro de uma questão que esqueci de perguntar na aula. "E se todos estiverem errados?" Locutor: sete e vinte. "Droga!" - penso. Esse é o limite. Meu dia já não vai mais ser tão tranqüilo, mas se levantar agora pelo menos o atraso é só de 15 minutos. Posso, no almoço, pedir um sanduíche e já compenso. Enquanto isso tenho mais tempo para pensar melhor sobre como resolver aquele embaraço no projeto. Tenho então uma idéia genial. Basta inverter os ambientes. E toda a apresentação pode começar por ali. Tenho a certeza de que vou deixar o cliente surpreso. Vai ser um sucesso. Penso em como é bom ter a oportunidade de trabalhar neste tipo de projeto, para grandes empresas. Afinal, elas têm uma responsabilidade social enorme. Lembro que preciso ver como andam as ações... Volto a mim. "Bá, certo que vou me ferrar com o estacionamento." Melhor ir." Locutor: sete e vinte cinco. Melhor ir! Sento na cama. Sinto frio. Preguiça. "Mundo capitalista de merda! Por que não posso ficar dormindo?! Para que serve tudo isso? Está tudo errado!" Deito de novo para me revoltar contra o mundo. Afinal, é um dever. Não posso consentir com tudo. Mas também, sei lá, o que ganho fazendo isso? "Já que estou atrasado mesmo, podia usar esse tempo para dormir mais um pouquinho." E durmo mesmo. Acordo com o locutor falando da previsão do tempo: pancadas de chuva. "Como pancadas?! Mas é ou não chuva? Esses caras não sabem de nada!" Locutor: vinte para às sete. "Ih, fodeu!" Levanto correndo, acendo a luz, desligo o rádio, abro a janela, procuro o chinelo. "Não acredito que vou chegar de novo atrasado. Oh vida de merda!" Abro a porta, vou até o banheiro. Páro e penso: "será que vale o tempo? Estou atrasado e mijar demora. A Zero Hora. Tenho que pegar a Zero Hora. E nem estou com tanta vontade assim. Aliás, pronto, decidi, é essa a punição. Isso, Gejfin, tu não vai mijar agora, seu vagabundo!" Desço as escadas, abro a porta da rua, pego a Zero Hora. Vou até a cozinha. As janelas escancaradas. "Que saco! Ninguém aqui entende que de manhã sinto frio!? E cadê a porra do leite?! Por que ninguém lembra de repor o açúcar no açucareiro?!" Faço o café correndo e bebo em pé. Gelado mesmo. Eu mereço ficar doente. Sento. Abro o jornal. A charge é boa. Olho o relógio na parede. Já devia estar no banho. "Já sei, vou só passar os olhos, correndo." Viro a página. "Putz, mas logo hoje é dia da crônica do Veríssimo..." Leio. Olho para o relógio. Já são cinco para às oito. "O que é mais importante? Chegar cedo no trabalho ou estar bem informado? Posso recuperar no final do dia. Fico até umas sete e meia da noite." Volto para a Zero Hora. Leio tudo, devagar, de cabo a rabo. A Contracapa está engraçada. Os quadrinhos geniais. E enquanto isso enfio uma ou duas fatias de bolo na boca. São oito e quinze e estou atrasado como nunca. Fecho o jornal. Subo. Entro no banheiro. Penso:"pelo menos agora tomo um banho relâmpago". Mas debaixo do chuveiro lembro daquela hora, ontem, quando vi aquele menino puxando carrinho na rua. Que bela foto não dava. Ou que bela história. Esqueço se já passei ou não shampoo na cabeça. Na dúvida, faço de novo. "Quero viver de literatura. De cultura." Está frio para sair debaixo da água quentinha. "Mas literatura não dá dinheiro. Quero dinheiro. Quero dinheirinho! Tô indo, tô indo!" Saio. Me visto. Faço um checklist do que devo lembrar para o dia. Esqueço completamente do banco, óbvio. E minha estratégia da carteira, relógio e chave do carro funciona e me salva a pele. Entretanto, por precaução, coloco o bilhete dentro do bolso. Vai que até o meio-dia acontece alguma coisa. Pego casaco. Pego pasta. Minha mãe, nesta altura, já está acordada e sempre pergunta: "Leandro, tu não tá atrasado?" E qualquer vestígio de bom-humor vai para o espaço. Dou um "tchau" monstruoso. Entro no carro. O relógio marca quinze para às nove. Da casa ao trabalho não faço em menos de meia-hora. Ou seja, vou precisar compensar mais de uma hora de trabalho. Mas isso se o trânsito não estiver um inferno. E sempre está. Escolho um CD para distrair. "Ah este mundo maldito. Este cárcere corporativo, trabalho, sociedade industrializada." Fecho o portão e sigo meu caminho. Em menos de 10 minutos já esqueci de quase tudo que pensei antes. Aumento o volume. Canto as músicas e percebo que aquela árvore ali, bem no meio no caminho, eu nunca tinha visto. E dela sai um conto, tem uma forma diferente. Me pego bereteando. "Ufa!" - penso - "Apesar de tudo, continuo o mesmo."

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comentários deste post (7)

7jun | bel

é impossível não ler até o final...
e poruq e´e que todo mundo já não acorda, assim, produzindo...e se preocupando...e reclamando? hehehe
muito bacana !!!

4jun | Rafael Reinehr

Hahaha! Hilário! Genial!
Ficar imaginando isso acontecendo realmente é que é a melhor parte!

28mai | Diego

uau

28mai | tiagón

e porque é que a gente fica pensando em tanta história pra escrever quando elas estãoi na gente? é por isso que cada vez mais um curto minha antropologia pessoal...

acho que vou fazer um post sobre "acordar" também.

28mai | ander

gejfin, eu fiquei nervoso só de ler... é muita amarração pra se mexer, PQP!!!!

28mai | ander

gejfin, eu fiquei nervoso só de ler... é muita amrração, PQP!!!!

27mai | MM

e é por isso que aburs. :)

diga aí


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